• Nenhum resultado encontrado

Verbos com Estruturas Denominais e estruturas “de maneira”

6. ALTERNATIVAS DE ANÁLISE

6.2. V ERBOS D ENOMINAIS À LUZ DA M ORFOLOGIA D ISTRIBUÍDA

6.2.5. Análises em Morfologia Distribuída

6.2.5.3. Verbos com Estruturas Denominais e estruturas “de maneira”

martelar, traçar1), é inicialmente denominal em estruturas em que o evento foi executado com o instrumento denotado pelo nome martelo. Entretanto, as sentenças de sentido especial, conotativo, mantêm somente o modo de realização do evento e prescindem da presença do objeto. Assim, esses verbos são do grupo denominal e do grupo não-denominal ao mesmo tempo, dependendo do ambiente sintático e semântico em que ocorrem.

Para uma sentença como Eu martelei o prego em que a interpretação é a de que foi com o martelo, para todos os falantes, teríamos uma derivação tipicamente denominal.

73

154 (507) Eu martelei o prego. (508) I 3 I v1 -ei 3 DP v1 eu 3 v1 DP 3 o prego v n Ø 3 n √martel- -o

(509) Eu bati o prego com o martelo. (510) v1 3 DP v1 eu 3 v1 PP 3 4 v DP com o martelo bater o prego

Na estrutura em (464), a raiz que forma bater é impregnada, de alguma forma, por um modo, por influência das características de modo da raiz que forma o instrumento martelo, como foi primeiramente notado por Harley (2005).

Diferentemente, podemos ter uma sentença em que a presença do nome martelo não é necessária e, acima de tudo, não há evidências de sua presença.

155

(511) Eu martelei o prego com a sola do sapato. (512) I 3 I v1 -ei 3 DP v1 eu 3 v1 PP 3 4

v1 DP com a sola do sapato 3 o prego

v √martel- Ø

Mais uma vez, o adjunto funciona como uma pista de que nessa sentença o verbo não é formado a partir de um nome. Nessa estrutura, da mesma forma que ocorre com a anterior, a raiz de martelar é portadora de modo, mas o instrumento martelo não tem de ser necessariamente denotado pelo nome. Como afirma Arad (2003), tanto o verbo martelar quanto o nome martelo são formados pela mesma raiz, que contém exatamente as mesmas propriedades. Isso explica porque há o mesmo modo de ação na sentença em (509) e (511): a mesma raiz está presente.

A previsão é de que qualquer raiz portadora de traços de maneira, como a de martelo e martelar (bater de maneira específica), pode gerar uma estrutura verbal formada diretamente a partir dela.

6.2.5.4. “Mesmo” verbo com comportamentos opostos. Dois verbos? Os verbos apontar, traçar e processar foram estudados para seus dois significados correntes na língua. Sugeriremos uma explicação simples para esses casos: uma interpretação contém uma etapa nominal e a outra não. Vejamos as representações para os verbos apontar, parassintético, e traçar, sufixal. Da mesma forma que ocorre com os verbos que podem ter estrutura de maneira, esses verbos

156

são do grupo denominal e do grupo não-denominal ao mesmo tempo, dependendo do ambiente sintático e semântico em que ocorrem.

Apontar com etapa nominal (513) O aluno apontou o lápis. (514) ?O lápis apontou. (515) Lápis bom aponta fácil.

(516) O menino (re)fez a ponta do lápis.

(517) O menino apontou a ponta (quebrada) do lápis. (518) O menino apontou o lápis com a ponta fina.

(519) O menino apontou o lápis com um bico exagerada.

(520) I 3 -ou v1 3 DP v1 O aluno 3 v1 DP 3 o lápis v n a-...Ø 3 n √pont- -a

Com expressão perifrástica, temos: (521) v1 3 DP v1 O aluno 3 v1 PP 3 no lápis v n fez 3 n √pont- -a

157

A estrutura em (502) representa a interpretação em que o falante vê a relação entre o nome ponta e o verbo apontar, no sintagma apontar o lápis, por exemplo. A partícula a-, que é considerada historicamente como uma preposição que formou o verbo apontar, sincronicamente ocupa junto com o sufixo verbal –ar a posição de núcleo da categoria verbal. Assumimos que o nó terminal do morfema verbal é fissionado em dois morfemas, o prefixo e o sufixo. A não existência das palavras *pontar e *aponta serve como evidência para nossa hipótese.

Por outro lado, na interpretação em que a presença do nome formador não é mais necessária, sugerimos uma derivação diferente para o verbo.

Apontar sem etapa nominal (indicar)

(522) A comissão apontou falhas no projeto. (523) *As falhas apontaram.

(524) *Falhas grotescas apontam fácil.

(525) *A comissão apontou a ponta das falhas. (526) *A comissão fez uma ponta das falhas.

(527) *A comissão apontou as falhas com a ponta fina.

(528) *A comissão apontou as falhas com um bico exagerado.

(529) I 3 -ou v1 3 DP v1 A comissão 3 v1 DP 3 4

v √pont- falhas no processo a-...Ø

As mesmas representações servem para o verbo traçar com uma diferença morfológica: para esse, não há fissão do morfema verbal.

158 Traçar com etapa nominal

(530) O desenhista traçou o desenho no papel. (531) *O desenho traçou no papel.

(532) ?Desenho simples traça rápido.

(533) O desenhista fez os traços do desenho no papel. (534) O desenhista traçou traços fortes no papel.

(535) O desenhista traçou o desenho no papel com traços fortes. (536) O desenhista traçou o desenho no papel com riscos fortes.

(537) I 3 -ou v1 3 DP v1 O desenhista 3 v1 DP 3 o desenho v n Ø 3 n √traç- -o

Traçar sem etapa nominal (indicar) (538) O técnico traçou a estratégia. (539) *A estratégia traçou.

(540) ?Estratégia simples traça rápido. (541) ?O técnico fez os traços da estratégia. (542) ?O técnico traçou traços fortes da estratégia. (543) ?O técnico traçou a estratégia com traços precisos. (544) ?O técnico traçou a estratégia com riscos fortes.74

74

Apesar dos julgamentos terem se mostrado indeterminados para os testes 3 a 6, temos de observar esses resultados em comparação aos do verbo traçar com etapa nominal, que mostram todos gramaticalidade.

159 (545) I 3 -ou v1 3 DP v1 O técnico 3 v1 DP 3 4 v √traç- a estratégia Ø 6.2.6. Conclusão da subseção

Nesta seção, partimos dos pressupostos da teoria da MD para dar tratamento aos dados descritos na seção 4. Baseamo-nos nos trabalhos de Arad (2003), Marantz (2008) e Harley (2005) para conseguir diferenciar estruturas com uma etapa nominal (denominais) de estruturas derivadas diretamente da raiz. Conseguimos representar estruturalmente os diferentes tipos de (supostos) VDs no que se refere ao seu comportamento sintático e sua relação semântica com os (supostos) nomes formadores.

Em primeiro lugar, conseguimos dar conta de tratar dois grandes grupos: o primeiro contém os verbos que são formados a partir da categorização de uma raiz por um nome (n) e, em seguida, por um verbo (v) (estruturas denominais sincrônicas) e o segundo por verbos que são formados pela categorização de uma raiz (√) por um verbo (v) (estruturas não-denominais). No primeiro grupo, o dos denominais, observamos diferenças no comportamento sintático e sugerimos para eles diferentes tipos de estruturas: de alternância, de não-alternância e location/locatum. Por fim, discutimos dois tipos de fenômenos que culminam na formação tanto de verbos denominais quanto de verbos derivados diretamente da raiz para aqueles que parecem, em princípio, tratar-se de um só verbo (Verbos com estruturas denominais e estruturas de maneira e “Mesmo” verbo com comportamentos opostos).

160

Concluímos que o tratamento proposta pareceu explicar de uma forma adequada e elegante os dados estudados neste trabalho.

161