A: Nderu tu oĩ? ‘Seu pai está (em casa)?’
12 A locução predicadora
12.3 Indicadores de tempo, aspecto e modalidade
12.3.2 Verbos suplementares
Verbos suplementares, às vezes chamados de “gerúndios” (Rodrigues 1953, Cabral e Rodrigues 2005) ou “verbos seriais dependentes” (C. Jensen 1998a, seção 6.3), acrescentam um elemento semântico que
complementa a designação do conteúdo proposicional (Dooley 1991a).
Na sua morfologia, verbos suplementares são semelhantes aos verbos principais: a flexão de pessoa é seguida pelo radical, que pode incluir prefixos derivacionais. Mas há duas diferenças morfológicas marcantes. Os verbos suplementares terminam com o sufixo especial –vy. Ele tem quatro variantes (-py, -my, -ngy, -
ny) devidas à nasalização da raiz ou a uma consonante final que antigamente ocorria na raiz. Este sufixo, sendo tônico, é diferente da conjunção de indexação referencial (“switch reference”) vy ‘sujeito igual’, que não tem variantes (seção 21.1.3).
Os verbos suplementares apresentam flexão absolutiva defectiva: os v. t. diretos suplementares não têm flexão do sujeito alguma; no seu lugar ocorre um prefixo, igual ao prefixo de flexão xe- da 3ª pessoa: i- com radicais do tipo Ø e h- com radicais do tipo r- (Figura 5). Este prefixo é invariável, seja qual for a pessoa e número do sujeito ou objeto da oração. Já os verbos principais transitivos diretos têm
concordância com o objeto direto e (conforme a pessoa gramatical) com o sujeito (veja seção ).79 Os verbos suplementares apresentam sete áreas semânticas básicas, todas intransitivas. Para cada área semântica há quatro tipos derivacionais: o radical simples (a raiz da área semântica), o radical causativo (mbo- ~ mo- ‘causativo’ + raiz), o radical comitativo (ero- ‘comitativo’ + raiz), o radical recíproco- comitativo (jo- ~ nho- ‘recíproco’ + ero- ‘comitativo’ + raiz). Portanto, existem exatamente 28 verbos suplementares:
guarani mbyá ainda não tomou, mas que talvez já foi tomado em outros dialetos.
Área semântica básica
Tipo derivacional do radical (com seu sufixo de verbo suplementar) Radical simples (v. i.) Radical causativo (v. t.) Radical comitativo (v. t.) Radical recíproco- comitativo (v. i. no plural) ‘de pé’ -'amy: ijayvu ho'amy ‘falou em pé’ -mo'amy: amopu'ã imo'amy ‘ergui-o, fazendo-o ficar de pé’ -eno'amy: ajopy heno'amy ‘peguei-o fiquei de pé com ele’ -nhogueno'amy: opu'ã nhogueno'amy ‘levantaram-se, ajudando-se um a outro a ficar de pé’ ‘sentado’ ou ‘ação contínua’ -iny: nhandeayvu nhainy ‘falamos sentados’ -moiny: xemongaru imoiny ‘alimentou-me, fazendo-me sentar’ -enoiny: araa henoiny ‘levei-o embora sem interrupção’
-nhoguenoiny:
jogueraapa nhoguenoiny ‘levaram-se um o outro, indo sem interrupção’
‘andando’ ou ‘ação habitual’
-ikovy:
oma'ẽ oikovy ‘ficou olhando’ -moingovy: xemoingoaxy imongovy ‘fazia-me sofrer’ -erekovy*: ajopy herekovy ‘peguei-o e conduzi embora’ -joguerekovy*: opu'ã joguerekovy ‘levantaram-se e conduziram-se embora’ ‘todos juntos’ (argumento absolutivo no plural) -kuapy: rovy'apa rokuapy ‘estamos todos contentes’ -mbokuapy: omboguapypa imbokuapy ‘fez todos sentarem-se’ -erokuapy: araapa herokuapy ‘levei-os todos embora’ -joguerokuapy: opu'ãmba joguerokuapy ‘todos juntos se levantaram’ ‘indo’ -avy ~ -ovy:
nhapu'ã javy ‘levantamo-nos e fomos embora’ -mondovy: xemondyi imondovy ‘assustou-me, de tal maneira que fui embora’ -eravy: ajopy heravy ‘peguei-o e levei embora’ -jogueravy:
oje'oi jogueravy ‘foram-se embora na companhia uns dos outros’ ‘vindo’ -(j)uvy: ojapukai ouvy ‘veio gritando’ -mbouvy: omboaxa imbouvy ‘passou-o, fazendo com que viesse’
-eruvy:
ajopy heruvy ‘peguei –o e trouxe comigo’
-jogueruvy:
oẽ jogueruvy ‘saíram, acompanhando-se na vinda’ ‘deitado’ -(j)upy: imba'eaxy oupy ‘está doente, de cama’ -nongỹ*:
amonge inongỹ ‘fi-lo dormir, deitando-o’ -erupy: xereity herupy ‘derribou-me e caímos juntos’ -joguerupy:
joity joguerupy ‘derrubaram –se e caíram juntos’
Figura 28: Os verbos suplementares *Formas supletivas.
Destas sete áreas semânticas, seis têm a ver com a posição ou a moção (‘de pé’, ‘sentado’, ‘andando’, ‘indo’, ‘vindo’, ‘deitado’), que pode ser simultânea à ação do verbo principal ou subsequente. Pelo menos quatro destas seis áreas podem ser interpretadas num sentido aspectual (‘de pé’ → ‘sempre fixo’, ‘sentado’ → ‘continuamente’, ‘andando’ → ‘habitualmente’, ‘vindo’ → ‘sem parar’). A sétima área (‘todos juntos’) modifica o argumento absolutivo (seção 7.2.2). Seja qual for o verbo suplementar, a locuçao predicadora designa um só evento ou atividade, às vezes com duas fases: yryru ajopy heravy ‘peguei o balde e o levei embora’.
Os argumentos do verbo suplementar são correferenciais com os respectivos argumentos do predicador principal, ou seja, os sujeito do verbo suplementar é correferencial com o sujeito do predicador principal e o objeto do verbo suplementar, se houver, é correferencial com o objeto do predicador principal. Mas o verbo suplementar pode autorizar um adjunto que o predicador principal sozinho não autorizaria: yryru ajopy heravy xero katy ‘peguei o balde e o levei embora rumo à minha casa’.
É relativamente raro verbos suplementares ocorrerem nas modalidades manipulativas (a imperativa e a optativa; seção 11.1). Quando ocorrem, eles aceitam a mesma flexão de modalidade que o predicador principal apresenta, seja na imperativa (earõ eme eikovy ‘não fique esperando’; seção 11.1.1) ou na optativa (topena porã toikovy ndere ‘que fique cuidando bem de você’; seção 11.1.3). Na optativa, contudo, esta marcação é facultativa e mais rara; sua presença ou ausência aparentemente não implica em diferença semântica: tokaru okuapy ou tokaru tokuapy ‘que comam todos juntos’.
12.3.2.1 Verbos suplementares como advérbios
Quando um verbo suplementar contribuir para o conteúdo proposicional da predicação, ele pode ocorrer mais cedo na locução predicadora, dentro do componente principal. Por exemplo, no exemplo nopu'ã ho'amy kuaavei ‘não sabia mais se levantar e ficar de pé’, o verbo suplementar ho'amy ‘ficando de pé’ ocorre antes do radical verbal posposto -kuaa ‘saber’ e fica dento do alcance da negação, ou seja, antes do sufixo negativo –i ou o elemento negativo livre e'ỹ. Outros exemplos:
VERBO SUPLEMENTAR ANTES DE ADVÉRBIO DE TEMPO: okaru okuapy ranhe ‘primeiro, comeram todos juntos’. VERBO SUPLEMENTAR ANTES DE PARTÍCULA DE TEMPO/ASPECTO:
typave ovy 'rã ‘irá ficar cada vez mais vazio’,
oupi imoiny 'rã ‘vai estendê-lo de maneira que fique por cima’, omoatã heravy 'rã ‘vai puxá-lo, levando-o embora’.
VERBO SUPLEMENTAR DENTRO DO ALCANCE DA NEGAÇÃO: ndatuvixave ovyi ‘não ficava cada vez maior’,
ndojopy heravyi ‘não pegou e levou embora’,
nomono'õave imbokuapyi ‘não mais ajuntava-os para ficarem todos juntos’,
ndoke oinyi ‘não ficou (sentado) dormindo’ (em vez de ndokei oiny ‘ficou sentado sem dormir’).80 Os verbos suplementares que ocorrem dentro do componente principal tendem a ser
os que indicam posição ou moção, assim modificando o predicador (‘sentado’, ‘de pé’, ‘indo’, ‘vindo’), ou os que modificam o argumento absolutivo (‘todos juntos’).
Em ambos os casos, o verbo suplementar contribui ao conteúdo proposicional da predicação. Seria plausível, pois, que tais verbos suplementares desempenham uma função adverbial. Os que apenas designam informação aspectual ou ação posterior ocorrem após o conteúdo proposicional, entre os indicadores de tempo/aspecto (Figura 24).
12.3.2.2 Verbos suplementares e orações subordinadas adverbiais com sujeito correferencial com o sujeito da oração principal
Em outras línguas da família tupi-guarani, parece não haver uma diferença entre verbos suplementares e certas orações subordinadas adverbiais cujo sujeito é correferencial com o da oração principal (Cabral e Rodrigues 2005). Em guarani mbyá as diferenças são grandes, tanto na sintaxe quanto na morfologia: Enquanto um verbo suplementar ocorre na locução predicadora em posição mais ou menos fixa como um
dos indicadores de tempo, aspecto e modalidade (Figura 27) ou, excepcionalmente, como advérbio (seção 12.3.2.1), uma oração subordinada adverbial ocorre fora da locução predicadora, como um termo adverbial adjunto à oração matriz (seção 21.1).
A ordem relativa entre uma oração subordinada adverbial e o predicador principal é flexível, sendo regido por critérios semânticos (seção 21.3) e da estrutura informacional. Por exemplo, uma oração subordinada pode ocorrer destacada para a esquerda como um ponto de partida (seção 24.3.2.2). Um verbo suplementar tem pouca flexibilidade de posição; ela nunca ocorre fora da locução predicadora como um termo da oração, nem tem papel próprio na estrutura informacional.
O verbo suplementar não introduz argumentos novos, mas uma oração subordinada adverbial não é restrita nesse sentido. O sujeito do verbo suplementar é correferencial com o sujeito do predicador principal e, se for transitivo, seu objeto direto também precisa ser correferencial com o objeto direto do predicador principal. Nas orações subordinadas adverbiais, a estrutura dos argumentos é independente da oração matriz: uma oração subordinada adverbial transitiva pode ocorrer com uma oração matriz com verbo intransitivo: mba'emo pendu vy peje'oi voi ke ‘se ouvirem alguma coisa, saiam logo’.
O sufixo –vy do verbo suplementar ocorre logo após o radical verbal, enquanto a conjunção vy ‘sujeito igual’ de orações subordinadas adverbiais é um enclítico à oração, comumente ocorrendo após advérbios, negação e outros indicadores de tempo, aspecto e modalidade: avy'a riae aikovy ‘sempre ando contente’,
80 Às vezes ocorrem exemplos do modelo ndoke porãi noinyi ‘não ficou (sentado) dormindo’, mas depois de
ndokei ojupy ‘ficou deitado sem dormir’, nhanderete rekoaxy rei ae ma jaikovy ‘andamos sempre e inalteravelmente com nossos corpos aflitos’, opu'ã ta ra'u-ra'u ranhe oikovy ‘em sonho, primeiro estava se esforçando várias vezes para se levantar’, onhemboxi guive ovy ‘também ia lançando raios’.
Observa-se, pois, que de uma construção da proto-língua, cujo subordinador indicava sujeito igual, surgiu em guarani mbyá duas construções distintas: os verbos suplementares, altamente gramaticalizados, que fazem parte da locução verbal, e as orações subordinadas adverbiais com conjunção de indexação referencial (“switch reference”) que indica correferência, funcionando como adjunto oracional (seção 21.1.3). 12.3.2.3 Verbos suplementares e verbos seriais
Em certos aspectos, os verbos suplementares do guarani mbyá são semelhantes a verbos seriais que ocorrem em certas outras línguas, especialmente na África e na ilha de Nova Guiné. Os verbos seriais “prototípicos” (T. Payne 1997:404) têm características como as seguintes:
a construção é interpretada como designando um só evento ou atividade (op. cit., 402);
a entonação da construção é característica de uma oração simples, tendo um só contorno (op. cit., 403); é comum que verbos seriais indiquem aspecto (op. cit., 406);
se um verbo não-inicial tiver marcação de sujeito, ela não é independente do verbo inicial (op. cit., 403); se um verbo não-inicial tiver marcação do tempo, aspecto ou modalidade, ela não é independente do verbo
inicial (op. cit., 403);
se o sujeito de um verbo não-inicial não for correferencial com o sujeito do verbo anterior, ele é correferencial com o objeto do verbo anterior (exemplos em T. Payne 1997:405);
Os verbos suplementares do guarani mbyá são sujeitos a todas as restrições citadas acima, e a outras mais estreitas ainda (veja acima e em Dooley 1991a):
os argumentos do verbo suplementar são correferenciais com os respectivos argumentos do predicador principal;
não ocorre mais de um verbo suplementar em cada locução predicadora;. verbos suplementares pertencem a uma classe fechada.
Somente na negação o verbo suplementar apresenta mais independência do que um verbo serial típico. Como já observamos (seção 12.3.2.1), um verbo suplementar pode ficar fora da negação do predicador principal, o que não acontece com verbos seriais (T. Payne 1997:403, Van Valin e LaPolla 1997:455ss). Isso reflete uma característica importante da negação em guarani mbyá, especialmente a negação afixal: certos advérbios na locução predicadora podem ser excluídos do seu alcance, e certos verbos suplementares podem, neste sentido, funcionar como advérbios, sendo indicados como dentro ou fora da negação.
Os v. t. diretos suplementares têm flexão invariável 3ª pessoa do objeto direto. Quando isso ocorrer numa construção de verbos seriais, é atípico, sendo conhecido como “serialização ambiental” (Kroeger 2004:241s).
Enquanto, com verbos seriais típicos, “cada verbo tem status gramatical igual aos outros, nenhum é gramaticalmente dependente do outro de uma maneira clara” (T. Payne 1997:406), os verbos suplementares do guarani mbyá têm um sufixo –vy que claramente indica sua dependência. Tudo indica, pois, um grau de integração gramatical dentro da locução predicadora que é bem maior daquele apresentado por verbos seriais. Nos termos de Van Valin e LaPolla (1997:455ss), pois, o verbo suplementar do guarani mbyá apresenta subordinação nuclear, enquanto um verbo serial mais típico apresenta co-subordinação nuclear (o nucleo oracional de Van Valin e LaPolla é igual a locução predicadora no presente trabalho; seção 12).