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2.1 A F ORMULAÇÃO DE B LOOR

2.1.7 Verdade para o Programa Forte

Vimos que o Programa Forte dispensa os sociólogos de se preocuparem com a verdade ou falsidade das teorias que preten- dem estudar, e recomenda que desenvolvam explicações sem ape- lar para essas avaliações. Na justificativa de Bloor para essa postu- ra, o autor defende que a verdade é uma noção importante, mas apenas em contextos locais.

No contexto da ciência, o autor salienta que a verdade é um indicador usado para assinalar teorias que funcionam, ou seja, que permitem estabelecer e manter uma ―visão teórica operacional com o mundo‖ (Bloor, 1991: 38). Pode-se falar em uma corres- pondência, admite Bloor, mas, segundo ele, trata-se de uma cor- respondência da teoria com ela mesma e que ―o processo de julgar uma teoria é um processo interno‖ (ibid.: 39). Mas o autor ressalta que:

Não é interno no sentido de ser destacado da realidade, pois obviamente a teoria está conectada a ela pela maneira que desig- namos os objetos, e classificamos e iden- tificamos substancias e eventos. Mas uma vez que as conexões foram estabelecidas o sistema todo tem que manter um grau de coerência, uma parte deve confirmar ou- tra. (Bloor, 1991: 39).

Quando ocorre a percepção de que a coerência foi quebra- da, por exemplo, com a descoberta de fato inicialmente inexplicá- vel dentro da teoria, isso não necessariamente significa que a teoria é falsa, reconhece Bloor. Se pode tentar remover a anomalia com a reformulação da teoria. O autor ressalta que esse é um processo governado internamente; e não simplesmente pela realidade. ―a relação de correspondência entre uma teoria e a realidade é impre- cisa‖ (ibid.: 40).

A afirmação da correspondência de uma teoria à realidade depende, segundo Bloor, do quanto ela atende a alguns propósitos. Referindo-se à história da descoberta do oxigênio, Bloor salienta que a preocupação em descrever todos os detalhes do que podia ser detectado numa reação química foi o que levou Priestley a se dar conta da presença de gotículas de água no recipiente e o que, mais tarde, levou-o a modificar sua teoria. ―O motor da mudança é interno a essas exigências e às nossas teorias e à experiência‖, afirma.

Bloor reconhece que a noção de verdade poderia ser aban- donada ou substituída por um vocabulário explicitamente pragmá- tico. Mas ressalta que a talk of truth é uma maneira de falar, ―pos- sivelmente universal‖ (Bloor, 1991: 37), que ―vem naturalmente‖ e que ―é tida por seus usuários como peculiarmente apropria- da‖(ibid.: 40). Aponta então para as três seguintes funções desse vocabulário.

A primeira é a função discriminatória, que compreende a necessidade de ordenar ou discriminar nossas crenças, através dos ―rótulos‖ de verdadeiro e falso.

A segunda é a função retórica, ou seja, o papel que esses rótulos desempenham nas tarefas de persuadir e de criticar. Bloor sublinha que a verdade é invocada como uma ideia de algo poten-

105 cialmente diferente de alguma opinião recebida. É pensada como algo que transcende a mera crença. ―Ela tem essa forma, diz Bloor, porque é a nossa maneira de de colocar um ponto de interrogação contra o que quisermos duvidar , mudar ou consolidar‖ (Bloor, 1991: 40).

Em sua função retórica, as noções de verdadeiro e falso tem um papel semelhante ao exercido na função discriminativa, aponta Bloor, com a diferença de que na função retórica ―esses rótulos podem ser vistos em sobretons de transcendência e autori- dade‖ (id., ibid: 41). Nosso autor não deixa de salientar que a natu- reza dessa autoridade pode ser imediatamente identificada: ―A autoridade é uma categoria social e somente nós podemos exercê- la‖ (Bloor, ibid: 41). Esta concepção de que o caráter obrigatório da verdade é resultado da autoridade, enquanto propriedade social, é uma concepção recorrente no pensamento de Bloor, segundo ele, inspirada nas críticas de Durkheim aos filósofos pragmatistas.

A teoria de Bloor sobre a natureza das demonstrações ló- gicas e matemáticas, que é um de suas principais contribuições à SSC, é um desenvolvimento dessa ideia. Ela é defendida e de- monstrada por Bloor em KSI, especialmente no capítulo sexto, (Pode haver uma Matemática alternativa?) e no capítulo sétimo (Negociação em Lógica e Pensamento Matemático), como tam- bém, em (Barnes, et al., 1996), no capítulo final, Proof and Self- Evidence.

Além da Sociedade, Bloor reconhece uma segunda fonte de transcendência (mas não autoridade) para as crenças, que é a natureza. Em vista disso, aponta para a terceira função ou uso do conceito de verdade, i. e., designar a existência de uma ordem natural exterior como ―a fonte de nossa experiência e a referência comum de nosso discurso‖ (Bloor, 1991: 41). Função materialista é o nome escolhido pelo autor para a terceira função do conceito de verdade, mas, apesar do nome, o autor salienta que o mundo desig- nado pode ser habitado com espíritos invisíveis em uma cultura e com partículas atômicas em outra. ―O rótulo de materialismo é apropriado na medida em que enfatiza o núcleo comum de pessoas, objetos e processos naturais que desempenha um papel tão impor- tante em nossa vida‖ (ibid.: 42). Notemos que Bloor procura não se comprometer com uma ontologia específica, em seu relato, certa- mente por questão de coerência com os outros sentidos da noção de verdade expostos por ele.

Até aqui, observamos o Programa Forte conforme apre- sentado originalmente por Bloor. Na sequência examinaremos a versão de Barnes para o Programa. Vamos descobrir que não há uma preocupação com a formulação de princípios, como em Bloor, no entanto é possível encontrá-los, ainda que implicitamente, nos argumentos e afirmações de Barnes. Também veremos a contribui- ção importante de Barnes: a doutrina do Finitismo apresentada em seu livro sobre Thomas Kuhn. Concomitantemente, analisaremos um importante trabalho em que os dois autores explicitam suas diferenças em relação a seus opositores no campo da Filosofia; trabalho em que defendem abertamente o relativismo como uma posição viável e necessária para o estudo do conhecimento cientí- fico.

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CAPÍTULO 3

O PROGRAMA FORTE - PARTE II