Eros E Logos No Processo Do Conhecimento Do Belo
3.1 A verdadeira definição de Eros
Antes do discurso de Sócrates, todos haviam feito seu encômio ao deus. O mestre de Platão, no entanto, propõe que seja feito um esclarecimento quanto a Eros, o qual, na sua opinião, não era nem humano nem um deus, mas sim uma espécie de daimon, ou seja, era um intermediário entre os deuses e os homens. A respeito disso afirma Pinheiro:
A caracterização alegórica de Eros não estaria completa se Diotima não lhe negasse a condição de deus e o anunciasse como um daimon, de natureza intermediária, nem imortal, nem mortal, morrendo e renascendo diariamente, nem plenamente divino, nem meramente humano. Ponte que os interliga, que preenche o intervalo que os separa, o daimon Eros é o nexo entre deuses e homens: o liame com o qual o todo liga-se a si mesmo, o vínculo através do qual a dimensão finita da realidade se reconcilia com a infinita em unidade (2011, p. 61).
Desse modo, é praticamente inviável pensar em conhecimento e em filosofia sem levar em consideração a figura de Eros. Por esse motivo, a própria filosofia – amor à sabedoria – traz em si a noção de amor, como seu próprio nome indica, pois no Banquete, Eros e filósofo se confundem. Com efeito, o filósofo possui as mesmas características do daimon, pois não é alguém completo, autossuficiente, mas sim um eterno carente, único capaz de ser um meio-termo entre o excesso e a falta.
Em seu discurso, Sócrates disse que o amor está entre dois extremos: ele não é nem bom nem mau e muito menos feio ou belo. Em tudo, Eros é um intermediário, ou seja, um daimon (Banquete, 202e-203a). Se ele não carecesse de beleza, não desejaria o belo. Da mesma forma, não buscaria o bem e o saber, se não fosse carente de bondade e de sabedoria. É por isso que em seu discurso Sócrates refuta a fala de Aristófanes, o qual havia dito que Eros possuía beleza, coragem e outros atributos. Nesse sentido, Sócrates busca demonstrar justamente o contrário ao dizer que Eros, por ser
filho de Recurso (também chamado de Expediente) e de Penía, só poderia resultar como um ser carente. Eros, no entanto, não é um ser nem extremamente pobre nem demasiadamente rico. A respeito dessa dupla face da divindade, a face de grandeza e a de miséria, afirma Zeferino Rocha:
Enquanto filho da pobreza, ele é, antes de tudo, um grito de indigência metafísica. Nada mais contrário à sua natureza do que a pretensão de poder bastar-se a si mesmo. O egoísmo que fecha o homem dentro de si, sob qualquer uma de suas formas, compromete o amor, porque o priva do enriquecimento que lhe vem de seu relacionamento com o outro. E é precisamente esta fecundidade que a sua outra face revela. Ele é também filho da riqueza e isto deve ser entendido em termos de ser e de doação de ser. Eros não é só desejo, ele é também doação, dom de si mesmo (2003, p. 97).
Por ser filho da Pobreza, Eros poderia acomodar-se com o nada saber, mas sua origem no Recurso o faz inquietar-se com este saber que não se sabe. Diante disso, pode-se constatar que é essa dupla característica advinda da natureza de seus pais que evita sua completude e acomodação. É por isso que Sócrates o coloca como intermediário entre os deuses e os homens e também entre o saber e aqueles que o procuram.
O saber resulta da procriação na beleza, objetivo de Eros, que é um processo de geração. Esse processo pode acontecer de duas formas: corporal e espiritual, ou seja, tanto entre homem e mulher quanto entre dois homens. Nesse sentido, o conceito de imortalidade (Banquete, 207a), na fala de Diotima, apresenta duas opções: a da procriação, de natureza heterossexual, e a do espírito, realizada entre dois homens. A primeira acontece quando o homem fecunda a mulher e, por meio da procriação e do nascimento, consegue imortalizar-se mediante aqueles a quem gera. A segunda relaciona-se com as artes e diz respeito aos que concebem pelo espírito, gerando a sabedoria que atravessa séculos e séculos; entre estes figuram os poetas, os inventores e os juristas.
A propósito das duas concepções, Macedo afirma que o primeiro modo de buscar a imortalidade é a geração no corpo, a qual “visa a perpetuação da espécie, sendo, por sua vez, sensível”
e o segundo modo é aquele que “engendra ideias, conhecimento, sendo uma gravidez iminentemente espiritual”. Do segundo tipo de geração o modelo de parteiro é Sócrates e o método utilizado no parto é a maiêutica (MACEDO, 1996, p. 84). Todavia, o autor prefere fazer uma distinção entre a atividade de natureza heterossexual e a realizada entre dois homens. A primeira ele chama de parto e a segunda, de geração. Aquela se dá no corpo e esta ocorre na alma.
Para entender essa distinção, é preciso mergulhar no contexto da época, no qual apenas o homem era tido como cidadão. Por isso, para Platão, o agir virtuoso no interior da cidade era vinculado estritamente ao sexo masculino. Nesse sentido, o discípulo de Sócrates indica claramente a distinção e com isso delimita os critérios tanto da busca da imortalidade no domínio da multiplicidade sensível, como aquela no domínio do inteligível, sendo esta privilégio do amor viril. A respeito disso afirma Jeanne Marie Gagnebin:
Sócrates mesmo só consegue definir a sua atividade como arte do parto, isto é, maiêutica, com a diferença que ele não parteja o corpo das mulheres, mas as almas dos homens (cf. Teeteto, 150b). Com efeito, já nos dizia Atenas, a filosofia não cuida do corpo das mulheres, mas de valores mais “nobres”. Isto não impede que a metáfora continue válida, comandando toda a teoria da produção intelectual do Banquete. Sócrates ajuda os jovens a parir os seus pensamentos, desta gravidez masculina nascerá o conhecimento do Bem (apud MACEDO, 1996, p. 86).
Platão não faz isso porque menospreza a figura da mulher, mas sim porque acredita que os homens não devem procurar apenas a fecundidade no corpo e voltar sua atenção somente para as mulheres, pois, para procriar na alma, eles precisam buscar em seus semelhantes a realização do amor viril, único capaz de gerar no belo. Além do mais, Platão é um homem de seu tempo e, consequentemente, vê o mundo sob a mesma perspectiva de seus conterrâneos. Em sua época, a mulher vivia limitada ao espaço da casa e tinha com o homem uma relação de subserviência. Já entre o homem e o rapaz havia um espaço privilegiado para o jogo da
sedução. Ambos podiam exercer sua sociabilidade sem nenhum constrangimento, como demonstra Macedo:
É justamente por conferir lugar às relações entre o homem e o rapaz que Platão pode transformar a figuração assimétrica entre os pares em uma relação na qual não pode haver lugar para um objeto. Vale dizer: ambos convertem-se, eles mesmos, em sujeitos do exercício amoroso. O desejo instaura entre os homens não uma luta desigual pela posse do objeto amado, mas, como Platão deixa transparecer, uma erótica fundada na habilidade de transfigurar-se ambos a si mesmos e vencerem os degraus do conhecimento, da contemplação e, porque não, da paixão amorosa (1996, p. 86).
Nesse sentido, o amor corporal não é relegado, por Platão, só na relação entre um homem e uma mulher, mas também na relação entre dois homens, como foi explicitado ao tratar do tema da ascensão dialética. Com efeito, para chegar ao conhecimento do Belo era preciso que o amado superasse a beleza do corpo para encontrar a beleza da alma e, de passo em passo, chegasse ao termo da ascensão, onde finalmente poderia contemplar as Ideias inteligíveis, impulsionado pela força de Eros.
Centro do Banquete, esse daimon recebeu várias definições tanto na própria obra quanto por parte dos comentadores desse diálogo.
Nesse sentido, antes de encerrar esta seção dedicada a Eros, vale a pena destacar o que escreveu Lima Vaz em uma das passagens em que analisa a divindade:
Eros é desejo do belo; bela entre todas as coisas belas é a ciência, e Eros se faz philosopho. Mas a beleza aspira à eternidade. E, por isso, ao criar na beleza Eros tende à eternidade verdadeira do ser realíssimo, da realidade inteligível da Ideia. O amor do belo é amor da ciência. A ciência é aqui o absoluto porque participa imediatamente do absoluto do seu objeto. O amor é intermediário, é a força da ascensão que faz da philosophia uma marcha sem descanso (en philosophia aphthono, 210d) para a plenitude da sophia (2011, p. 56-57).
Todavia, apesar de sua grande importância dentro da obra, só
Eros não é capaz de levar o amado ao conhecimento do Belo. Para contemplar as Ideias, ele precisará contar também com a ajuda do logos.