Em Verdadeira história de um amor ardente, a autora apresenta um homem que nunca tivera a companhia de uma mulher. Então, ele cria uma companheira com o intuito de amenizar sua tristeza e sua solidão. Após aprender a técnica do manuseio de cera, o personagem de Colasanti molda uma mulher. Concebeu-a dentro de seu ideal feminino: além de bela, “(...) era uma dama de nobre silêncio. E só tinha olhos para ele.” E, em seus braços, moldava o corpo da amada em contornos que pudessem lhe dar prazer maior. Um dia, quando o tédio já era uma constante na vida do casal, ele resolveu refugiar-se na leitura e, justamente nesta noite, a luz faltou. Então, ele acendeu a trança da mulher e iluminou o aposento e,
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Decreto governamental assinado por Costa e Silva em 13 de dezembro de 1968 que suspendia as garantias constitucionais, proibia as manifestações públicas e permitia a prisão dos opositores do regime político. A medida traz graves restrições à liberdade de imprensa, fecha o Congresso Nacional e censura qualquer manifestação do pensamento. Dessa forma, o governo impusera um total controle sobre os meios de comunicação de massa, sujeitando a todos à censura prévia. Isto posto, cabe observar que, embora lançados na década de 80, alguns textos de Colasanti são “filhos” da ditadura.
106 depois de refestelar-se no sofá, “começou a ler à luz do seu passado amor, que queimava lentamente”.
Neste conto, o homem tem a autonomia de criar sua própria companheira. E o faz, imprimindo nela tanto os seus almejos físicos quanto a conduta psicológica que julgou correta. Sua companheira era silenciosa, ou seja, não impunha seus próprios desejos, nem reclamava nada para si: era inerte, pois a ela não foi dado sequer o direito de falar. A mulher era apenas um corpo e este estava sempre disponível a moldar-se conforme o desejo do homem, caracterizando uma sexualidade também passiva. Não tinha cérebro (vontade, opinião, desejo, movimento), logo, era uma doce marionete que, de tão doce, acabou por enfadar o cotidiano e trazer tédio para o relacionamento. Até que o homem, enfadado também, desfez-se dela, derretendo-a.
Muito parecido com o personagem da primeira história, o personagem masculino de A
mulher ramada, um jardineiro, também tem autonomia de criar sua companheira no dia em
que se sente muito sozinho. E, escolhendo as melhores mudas, plantou-as e esperou o tempo passar. Durante os meses que passavam, o homem conduziu os ramos conforme o protótipo de mulher presente em seu imaginário e fez surgir Rosamulher. A partir de então, sempre trabalhava vigiando a amada, sorrindo para ela. E, com o passar das estações e a chegada da primavera, todos os arbustos desabrocharam em flores, menos as flores de Rosamulher, que eram impedidas de nascer. Isto porque o jardineiro, com medo de que a floração estragasse a beleza natural de seu amor, cortava rente aos botões, logo que estes apareciam. Mas de tanto contrariar a primavera, adoeceu o jardineiro. E, quando, enfim, recuperou-se, encontrou Rosamulher florida e percebeu que nunca mais teria coragem de podá-la. Então, abraçou-se a ela, que o envolveu em flores e perfumes, despertando até a atenção de damas e cavaleiros que passavam pelo local.
Nessa história, o corpo feminino se apresenta moldado pelo desejo do homem, caracterizando uma sexualidade passiva. Assim como a personagem da história anterior, Rosamulher era silenciosa, não impunha seus próprios desejos e também não tinha o direito de falar. O homem conseguiu fazer valer seu próprio desejo até o dia em que ficou doente. Quando retornou, percebeu que, depois de um tempo longe de seus cuidados, a mulher estava mais linda do que nunca e resolveu não interferir mais em sua beleza natural. É certo que, pelo menos nessa história, o casal acaba junto e aparentemente “feliz”, a ponto de o abraço dos amantes despertar a atenção de “raras damas” e do “cavaleiro” que observavam a cena de longe.
107 Há que se constatar, neste conto, as relações de dominação estabelecidas entre o criador (jardineiro) e criação (mulher). Enquanto ao criador já estava previamente estabelecida a liberdade de ir e vir, de transitar, de trabalhar e de interferir no destino de sua “obra prima”, a criação estava conduzida de maneira antecipada à obediência e ao cumprimento de um destino prévio, traçado sem o seu próprio consentimento.
Os contos acima não revelam claramente os motivos da dependência total das personagens femininas nem os porquês que as levavam a não questionar a relação172. Deslocando esta constatação para fora do conto, percebemos que a inconformismo com o estado de subordinação física e psíquica está presente nas entrelinhas das cartas de leitoras do livro Intimidade Pública. Tome-se como exemplo, a jovem de dezenove anos que convive há cinco com um homem que “não me deixa usar roupa decotada, não me deixa escolher amigos, controla onde vou e até me agride fisicamente quando não me comporto exatamente como ele quer. Depois, faz com que eu me humilhe e peça desculpas.”173 O que parece transparecer, nesta e em outras cartas, é que um dos diversos motivos de tal subalternidade está alojado no medo que as mulheres sentem de serem rejeitadas pelos parceiros, seja porque fisicamente acreditam não corresponder ao padrão de beleza feminino idealizado por este parceiro e não disponham de recursos econômicos para se fabricarem em tal padrão, ou mesmo porque não se sintam realizadas ao se empenharem na fabricação de uma imagem exc lusivamente para agradar ao outro.
A repressão, a sujeição, a dominação e a dependência são apontadas, por Lucia Helena174, como bases da representação do feminino nas culturas brasileira e latino- americana. Importante que se discuta, no entanto, como essas bases de representação se relacionam com os acordos de leituras firmados entre autoras e leitoras. Em concordância com o pensamento de Susana Funck, acredito que, também no caso dos contos de Colasanti,
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As personagens femininas destes contos não são, a bem da verdade, humanas. Esse fato remete ao mito de Pigmalião e Galateia. Pigmalião era um escultor que resolveu não se casar por detestar os defeitos das mulheres. Então, fez uma estátua que representava uma mulher e passou a admirá-la de tal maneira que acabou apaixonando-se por ela. Em determinado momento, cansado de não poder interagir com objeto inanimado, suplicou à Vênus que lhe concedesse uma donzela igual à estátua. Vênus, para atender tal pedido, deu vida à criação de Pigmalião. O escultor batizou a donzela de Galateia e o filho de ambos foi chamado de Pafo, nome que foi dado posteriormente à cidade predileta de Vênus. Conferir: HAMILTON, Edith. A Mitologia . 3ed. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1983. p. 154-157.
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COLASANTI, op.cit. nota 130, p. 71.
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HELENA, Lucia. A personagem feminina na ficção brasileira dos anos 70 e 80: problemas teóricos e históricos. In: Organon. Revista do Instituto de Letras da UFRGS. vol.16. Porto Alegre, 1989. p. 100-112.
108 essas representações “podem servir de metáforas para a própria condição social e cultural da mulher, imbuídas como estão de docilidade, fragilidade e passividade. Mas estas representações [...] são aqui apresentadas exatamente para que possam ser desnaturalizadas.”175