A vergonha está totalmente relacionada ao medo. Como disse na introdução, somos programados para nos conectar do ponto de vista biológico, emocional, social e cognitivo. Para muitos, também há uma profunda necessidade de conexão espiritual. A vergonha diz respeito ao medo da desconexão. No momento em que experimentamos a vergonha, somos tomados pelo medo de ser ridicularizados, diminuídos ou considerados inadequados. Sentimos medo de haver exposto ou revelado uma parte de nós que ameaça nossa conexão e o merecimento da aceitação.
Esse medo é alimentado pela sensação de estarmos, de algum modo, encurralados pela vergonha. O receio de se ver encurralado está ligado à forma pela qual a teia da vergonha é alimentada por uma proporção impossível de expectativas e opções. Em primeiro lugar, temos um número absurdo de expectativas despejado sobre nós, muitas nem mesmo viáveis ou realistas. Em segundo, dispomos de um número muito limitado de opções para atendermos a tais expectativas. Para esclarecer a metáfora da teia da vergonha, usemos um exemplo que quase todas nós consideramos relevante:
a imagem corporal. Mesmo conscientes da manipulação da mídia e dos distúrbios alimentares, o problema não parece melhorar. De fato, a imagem
corporal e o peso emergiram como uma questão de vergonha para aproximadamente 90% das mulheres entrevistadas.
Como se pode ver na ilustração da teia, parceiros, família, amigos e o eu foram desenhados no ponto mais próximo ao centro. A maioria de nós teme perder o vínculo com as pessoas mais próximas. Em outras palavras, a vergonha é mais poderosa quando expectativas são impostas por nós mesmos ou reforçadas por aqueles que nos são mais próximos (parceiros, família ou amigos). Irradiando a partir do centro, temos pro ssionais da saúde (médicos, terapeutas, etc.), membros da comunidade, associações, educadores, colegas e comunidades religiosas.
Se fomos criadas em famílias que davam grande valor a tipos de corpos inatingíveis, é possível que continuemos a nos impor essa expectativa pouco razoável, mesmo depois de encontrar um parceiro que nos aceita como somos e que quer desesperadamente que nos sintamos à vontade em nosso próprio corpo. Em outros casos, os parceiros podem endossar essas expectativas rígidas, enquanto os amigos oferecem apoio ou talvez nos julguem mal por parecermos excessivamente preocupadas com dietas. Mas, mesmo diante dessas expectativas opostas, ainda queremos ser aceitas e amadas por esses grupos e por isso lutamos para encontrar formas de agradar a todos. No nal sentimos vergonha quando acabamos fracassando em cumprir as demandas con itantes.
Quando se trata das camadas externas da teia, podemos ser expostas à vergonha por médicos, colegas ou companheiros de grupo. E, além desses grupos, há ainda questões sistêmicas mais amplas e insidiosas. Por exemplo, a pesquisa mostra que mulheres com sobrepeso ou obesas têm renda menor (menos 6.700 dólares por ano) e maiores índices de pobreza (10% mais altos) do que suas colegas não obesas.
E no entorno da vergonha, há a mídia. A cultura da vergonha é reforçada pelo que vemos na televisão, na publicidade, no marketing. É o que vemos no cinema, o que ouvimos na música e o que lemos nos jornais e
nas revistas. Quando se trata de imagem corporal, não se discute o valor da
“magreza”. Para piorar, enquanto tipos físicos que enfatizam a fragilidade ou um aspecto doentio foram reciclados nas revistas de moda do passado, o novo corpo ideal ainda é minúsculo, a não ser por traseiros arredondados e voluptuosos e seios imensos. Essa combinação não é algo que ocorra com grande frequência na natureza. A mistura do corpo esquelético com peitos e bumbum grandes em geral faz parte de um pacote esculpido em centros de estética.
Não importa quanto nos esforcemos para driblar a in uência da mídia, não conseguimos escapar dela em nossa sociedade. Jean Kilbourne, uma de minhas pesquisadoras e autoras favoritas, é especialista em nos ajudar a identi car e desconstruir mensagens dos meios de comunicação – mesmo as mais sutis. De acordo com seu livro Can’t Buy My Love: How Advertising Changes the Way We ink and Feel (Não se pode comprar meu amor: como a publicidade modi ca a forma como pensamos e sentimos), o americano médio é exposto a mais de 3 mil anúncios por dia e assiste ao equivalente a três anos de publicidade na TV durante a sua vida. Tentar escapar da in uência da mídia nos dias de hoje é como se proteger da poluição do ar prendendo a respiração.
Jean Kilbourne também decodi ca mensagens contraditórias nas capas das revistas femininas, nas quais normalmente proliferam manchetes atraentes como “Perca 7 quilos em 10 dias” ou “Como car mais saudável e mais magra para o verão”. No entanto, esses títulos são acompanhados por imagens que nunca condizem. A chamada “Perca peso agora” paira sobre um bolo de chocolate em vez de estar ao lado da gura de uma mulher de 80 quilos que sua a camiseta enquanto se exercita na esteira ergométrica.
Assim, enquanto emagrecemos para o verão, precisamos encontrar tempo para preparar e experimentar a “sobremesa do mês”.
É fácil ver a rapidez com que as expectativas ganham camadas e se tornam competitivas e con itantes. É assim que a teia da vergonha funciona.
Temos pouquíssimas opções realistas que nos ajudem a cumprir qualquer uma dessas expectativas. A maioria das alternativas à nossa disposição parece ser um “duplo vínculo”. A escritora Marilyn Frye descreve esse conceito como “uma situação em que as opções são muito limitadas e nos expõem a castigos, censuras ou privações”.
Com opções limitadas, toda escolha viola outra expectativa. E acabamos com a sensação de que somos obrigadas a escolher entre o ruim e o pior:
Seja magra, mas não transforme o peso em uma obsessão.
Seja perfeita, mas não faça estardalhaço em relação à sua aparência nem gaste o tempo que seria dedicado à família, ao parceiro ou ao trabalho para atingir sua meta de perfeição. Tudo deve acontecer tranquilamente nos bastidores de forma que você esteja com uma aparência ótima e nós não tenhamos que ouvir nada sobre o assunto.
Seja simplesmente você – nada é mais sexy do que a autocon ança (desde que você seja jovem, magra, bela...).
Se não conseguimos fazer tudo – perder peso, assar o bolo e comê-lo, parecer elegante, permanecer saudável e em boa forma, comprar todos os produtos e, ao mesmo tempo, nos amar por ser quem somos... ARRÁ! –, caímos na armadilha da teia da vergonha. É quando nossos medos começam a se transformar em recriminação e desconexão.