Visando identificar a causa da não comprovação de H2 - A intensidade do uso da tecnologia na organização afeta positivamente a relação da gestão de portfólio de projetos de TI com o alinhamento estratégico de TI, uma possível divergência entre grupos de respondentes foi levantada, uma vez que se verificou um total de 125 respondentes na América Latina (LATAM) demonstrando grande concentração (79,11%) em detrimento a respondentes de outros países (Não LATAM) (20,89%). Quando nos deparamos com a necessidade de saber se há diferenças estatisticamente significativas entre os desvios-padrão de partes de uma amostra, ou seja, se elas são ou não homocedásticas, o teste ANOVA (Analisys of Variance) permite fazer a comparação, minimizando a probabilidade de erro amostral, uma vez que conforme aumenta o número de amostras, o total de comparações entre pares aumenta exponencialmente (Dancey & Reidy, 2006).
Dessa forma, aplicou-se um procedimento estatístico para análise dos grupos de respondentes. O teste foi realizado por meio do software R versão 3.5.2 (atualizado em dezembro/2018) e o resultado obtido foi p-valor = 0.847 demonstrando que não há diferença entre os grupos. A tabela 25 – ANOVA – Verificação dos grupos LATAM e Não LATAM demonstra o resultado obtido e a Figura 22 – BoxPlot – Grupos LATAM e Não LATAM apresenta o esquema gráfico do teste realizado.
129 Tabela 25 – ANOVA - Verificação dos grupos LATAM e Não LATAM
Teste: ANOVA - Analisys of Variance
Df Sum Sq Mean Sq. F Value Pr (>F)
LATAM 1 0.02 0.0199 0.037 0.847
Residuals 156 83.52 0.5354
Fonte: Autor – Realizado no software R versão 3.5.2
Figura 22 – BoxPlot – Grupos LATAM e Não LATAM
Fonte: Autor – Realizado no software R versão 3.5.2
6 DISCUSSÃO E CONCLUSÕES
Este capítulo do estudo objetiva discutir as descobertas da pesquisa realizada, retornando aos objetivos da pesquisa e as hipóteses propostas, pois é fundamental que se confronte as mesmas com os resultados obtidos. Também visa explanar sobre as contribuições que o estudo acarreta para a teoria e prática de gestão de projetos delineando o que as descobertas podem interferir em novas pesquisas e nas organizações, bem como relatar as limitações encontradas no desenvolvimento do trabalho que podem ser oportunidades a serem exploradas em novas pesquisas em futuro próximo.
130 6.1 OBJETIVOS, HIPOTESES E DESCOBERTAS
O objetivo geral desta dissertação é o de analisar a relação da gestão de portfólio de projetos e o alinhamento estratégico de TI. Tal análise deve demonstrar a influência e a força que os processos estabelecidos de gestão de portfólio de projetos têm no alinhamento estratégico de TI. Como objetivos específicos, esperava-se obter um mapeamento das organizações envolvidas no estudo - diversos países, portes e segmentos industriais, bem como a identificação de possível existência de condições que favoreçam a relação entre os processos de PPM e o alinhamento estratégico de TI.
Estes objetivos estão vinculados a hipótese 1 do estudo: H1 - A gestão de portfólio de projetos de TI tem uma relação positiva com o alinhamento estratégico de TI. De forma resumida, a hipótese 1 (H1) é fundamentada no fato de que o PPM é caracterizado como a ação coordenada de programas e projetos para se atingir as estratégias e objetivos organizacionais por meio do emprego de processos de seleção, priorização e alocação de recursos (PMI, 2017), de forma dinâmica e analisando-se critérios estabelecidos e revisados periodicamente (Cooper, Edgett & Kleinschmidt, 1999), gerenciando-se recursos financeiros, humanos e de tempo (Archer & Ghasemzadeh, 1999).
Nesse contexto, alinhamento estratégico é o grau com o qual os interesses e as ações de cada colaborador de uma empresa suportam as metas chave da organização (Robinson & Stern, 1997) por meio do emprego de um processo contínuo de adaptação e mudança (Henderson & Venkatraman, 1993). Para TI, alinhamento estratégico é um processo contínuo de busca de vantagens competitivas utilizado pelas organizações para a realização de ajustes e obtenção da interligação entre os objetivos e estratégias de negócios e de TI (Affeldt & Vanti, 2009).
Adicionalmente, o estudo também possui o objetivo de verificar a influência da moderação do uso da tecnologia – alto à baixo – nos resultados obtidos. O que deriva para a hipótese 2 do estudo: H2 - A intensidade do uso da tecnologia na organização afeta positivamente a relação da gestão de portfólio de projetos de TI com o alinhamento estratégico de TI. Esta moderação foi embasada pelo fato que organizações que têm uma tecnologia intensiva inovam mais, ganham novos mercados e utilizam os recursos disponíveis de forma mais produtiva (Hatzichronoglou, 1997).
Portanto, a tecnologia é um fator considerado pelas organizações como estratégico (Bone & Saxon, 2000) e muitas vezes com portfólios e baldes de projetos específicos (Cooper & Edgett, 2010). Leva-se em consideração fatores tais como a complexidade dos processos, a
131 novidade de um produto e a ininteligibilidade da função de um produto que diz que quanto
menos a função de um produto é entendida por uma pessoa normal, maior a tecnologia empregada (Capelot & Lambertz, 1993).
Para o desenvolvimento deste estudo, foram empregados métodos robustos de mensuração, tanto do ponto de vista conceitual quanto estatístico, com a utilização das escalas de Padovani e Carvalho (2016) e Luftman et al (2015) e a aplicação de PLS-SEM - técnica de análise estatística empregada para analisar relações estruturais. Os constructos derivaram de extensa verificação bibliográfica, o que resultou na aplicação destas escalas selecionadas para o modelo. Uma vasta revisão da literatura pertinente ao tema foi realizada levando-se em consideração diferentes abordagens, autores e modelos, que foram estudados e relatados no capítulo 2 – Fundamentação Teórica neste documento. Com base nas escalas selecionadas e compiladas, uma pesquisa de campo foi realizada por meio da aplicação de um questionário eletrônico (survey) obtendo-se 158 respostas válidas oriundas de vários países. Os procedimentos estatísticos que foram aplicados foram detalhados e documentados nos capítulos 4 – Métodos e Técnicas de Pesquisa e 5 – Análise dos Dados e Resultados de forma a sistematizar o procedimento para que o mesmo possa ser reproduzido. Este procedimento é objeto de pesquisas sobre técnicas estatísticas recomendadas pela literatura, consolidada em um amplo e detalhado protocolo, trazendo robustez ao estudo. O trabalho foi realizado em profundidade, verificando-se os diversos aspectos, processos e dimensões que compõe o PPM e o alinhamento estratégico de TI.
O resultado da aplicação da modelagem PLS-SEM demonstra que para a amostra estudada a H1 está confirmada. Obteve-se um Coeficiente de Caminho 0,708 (P < 0,001) com intervalo de confiança 2,5% – 97,5% respectivamente 0,627 e 0,792, comprovando-se que existe uma relação significativa e positiva entre os processos de gestão de portfólio de projetos de TI e o alinhamento estratégico de TI. Adicionalmente, verifica-se um R2 que explica 57,1%
da relação, o que significa a existência de um efeito moderado segundo o coeficiente de Pearson. Especificamente em ciências sociais, este valor é considerado como de efeito grande (Cohen, 1992).
O significado da comprovação da hipótese 1 (H1) é de fundamental importância para a prática, uma vez que corrobora com estudos recentes, tal como o trabalho acadêmico de Moraes e Garcez (2014), que efetuaram uma análise da relação da maturidade em gestão de portfólio de projetos e o alinhamento estratégico de TI nas organizações aplicando um modelo conceitual utilizando as escalas P3M3® (OGC, 2010) e Luftman (2003) comprovando a hipótese de que a
132 maturidade em gestão de portfólio de projetos tem relação positiva com o alinhamento
estratégico e TI. Outro bom exemplo, alinhado a comprovação da H1 é o estudo de Kendall e Rollings (2003) que aponta que a ausência de processos de PPM nas organizações acarreta um impacto negativo no desempenho uma vez que os projetos do portfólio não estão alinhados com os objetivos estratégicos, causando um desbalanceamento e um desequilíbrio organizacional. Do ponto de vista do mercado profissional, o estudo emitido pela consultoria Ernst & Young (EY) em 2015, informa que o principal desafio organizacional relacionado com a gestão de portfólio de projetos e o alinhamento estratégico é exatamente efetuar o alinhamento da carteira de projetos corporativa, estudo este que também se alinha a comprovação de H1.
A hipótese 2 - H2 não foi confirmada. Esta rejeição também é uma importante descoberta nesta pesquisa. O Coeficiente de Caminho é -0,003 (P < 0,951) com intervalo de confiança 2,5% - 97,5% respectivamente -0,104 e 0,102. Esses valores não comprovam estatisticamente a relação positiva moderadora da intensidade de uso da tecnologia na relação entre os processos de gestão de portfólio de projetos de TI e o alinhamento estratégico de TI apontada inicialmente para esta hipótese. Visando analisar a causa de a H2 não ter sido confirmada, verificou-se o grupo de respondentes relativo a América Latina (79,11% = 125 respostas) que apresentou grande concentração de respondentes em países em desenvolvimento em detrimento de outras localidades (20,89% = 33 respostas) que correspondem a países desenvolvidos. Aplicando-se o procedimento estatístico ANOVA não se identificou diferença entre o grupo da América Lativa e o grupo dos demais países, obtendo-se um p-valor de 0,847. A revista Exame de junho/2017 informou com base na pesquisa realizada pela consultoria Deloitte, que seis em cada dez executivos têm dedicado recursos para aplicação em tecnologia justamente como parte das medidas para ganhar produtividade. A revista também aponta que segundo dados da consultoria Gartner os investimentos em TI cresceram 19% em 2017, totalizando 133 bilhões de reais, que é o maior da década (Exame, 2017). Por este prisma, a teoria diz que organizações inovativas possuem características de orientação a prazos e a renovação do mercado, focando na criação de produtos únicos baseados em tecnologias consideradas “estado da arte” (alta intensidade de uso de tecnologia) (Kumpe & Bolwijn, 1994). Estas organizações utilizam novas abordagens, tais como, a multidisciplinaridade e os times projetizados e organizados fora da estrutura hierárquica padrão. Focam principalmente na gestão estratégica da tecnologia (alinhamento estratégico de TI), que ocupa função chave para obtenção de sinergias entre as diferentes unidades de negócios das organizações (Kumpe & Bolwijn, 1994). Nestas organizações também é crescente o interesse pela área de
133 gerenciamento de portfólio para projetos eminentemente tecnológicos relativos usualmente à
inovação, à pesquisa e ao desenvolvimento (Bone & Saxon, 2000). Estas informações enfatizam que a intensidade de uso da tecnologia, contrariamente a descoberta da pesquisa, geraria efeito moderador positivo para o alinhamento estratégico de TI. No entanto, verifica-se que H2 não é comprovada nesta pesquisa, gerando espaço para novos estudos com aprofundamentos específicos nesta área.
Assim sendo, em linha com o apresentado como resultados para as hipóteses H1 e H2, o estudo responde à questão de pesquisa apresentada “Qual a relação entre a Gestão de Portfolio de Projetos de TI e o Alinhamento Estratégico de TI, considerando o efeito moderador da intensidade do uso da tecnologia nesta relação?”. Dessa forma, esta pesquisa alcança a sua finalidade e comprova a importância dos processos de gestão de portfólio de projetos e do alinhamento estratégico de TI, desafiando a moderação da intensidade de uso da tecnologia e gerando uma sensibilização para o aprofundamento neste campo de estudo.