3. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
3.1.2 Verificação do trabalho com os eixos de ensino
Nesta seção, discutiremos como a professora A trabalha os eixos de ensino da
língua portuguesa e com que frequência ele realiza este trabalho. Para tanto, iniciaremos
com a pergunta feita na entrevista que foi a seguinte: Você trabalha os eixos de ensino em
sua sala de aula (leitura, produção de texto, análise linguística e oralidade)? Obtivemos a
seguinte resposta:
P (A) Trabalho. Costumo trabalhar leitura de texto, pesquisa, interpretação e faço muita
produção. E todo trabalho de pesquisa o aluno vem para frente ler e explicar, então, está
estimulando a oralidade. E análise linguística é praticamente a gramática, então, se o
aluno não interpreta, não vai saber como utilizar as regras gramaticais.
A professora em sua resposta salienta que trabalha todos os eixos de ensino da
língua portuguesa. No que diz respeito ao eixo da leitura, o professor diz que “manda o
aluno ler” e/ou “o aluno vem para a frente ler”. Nessas falas fica claro que a leitura para
esse professor significa apenas oralizar o texto, ou seja, decodificá-lo em voz alta. Isso nos
remete à velha leitura em voz alta, como se tal prática fosse suficiente para formar leitores
que compreendem o que leem. Essa habilidade é importante, pois cada gênero é lido de
uma forma diferente (como por exemplo, o modo como se lê um poema é diferente do
modo de ler uma receita), mas não basta só fazer isso. Além disso, a
utilizar esse método de ensino pode torna-se a leitura “mecânica”, ou seja, “o que é lido” e
do “como é lido”, o que nos leva a concluir que este eixo figura apenas como “objeto de
ensino”, não sendo algo prazeroso para o estudante, nem tampouco que parte das práticas
sociais nas quais estão inseridas situações reais de uso da leitura.
Outro fala da professora que nos chamou atenção foi quando ele diz “costumo
trabalhar leitura de texto, pesquisa, interpretação”. O professor diz que realiza pesquisas,
o que seria uma prática muito interessante, pois estimula a autonomia para os alunos
selecionarem textos.
Esse tipo de prática não contribui para a formação de cidadãos críticos e pensantes.
A leitura deveria possibilitar a construção de sujeitos reflexivos; contudo, notamos, por
parte do professor A, uma metodologia que não estimula o desenvolvimento das
habilidades de leitura efetivamente.
Os PCN (1998, p.69) afirmam que:
a leitura é o processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de
compreensão e interpretação do texto, a partir de seus objetivos, de seu
conhecimento sobre o assunto, sobre o autor, de tudo o que sabe sobre a
linguagem etc. Não se trata de extrair informação, decodificando letra por
letra, palavra por palavra. Trata-se de uma atividade que implica
estratégias de seleção, antecipação, inferência e verificação, sem as quais
não é possível proficiência.
Confiamos que a leitura em sala de aula necessita fazer sentido para o aluno,
precisa partir de sua realidade, pois o leitor tem um trabalho ativo na construção dos
significados. Pois a leitura e um processo eu envolve habilidades de compreensão e
formulação de hipóteses, que, muitas vezes, não estão explícitas no texto lido.
Dessa forma, o leitor competente é capaz de ler nas entrelinhas, refletir sobre o que
não está implícito, além de estabelecer conexões entre o conhecimento de mundo que tem
e os textos, obedecendo a uma relação de troca. Além disso, um leitor competente tem a
capacidade de selecionar socialmente os textos que podem atender as suas necessidades,
além de estabelecer estratégias para abordar tais textos (PCN, 1998).
No que diz respeito a oralidade, vale salientar que não podemos concluir uma
completa ausência do trabalho com este eixo de ensino pelo professor A. Pois, através de
sua fala na entrevista é possível inferir que, para o professor, o trabalho com a oralidade se
restringe à “oralização” do texto escrito, assim como este eixo seria apenas um “suporte”
para o desenvolvimento de outros eixos de ensino (no caso, à leitura e produção de texto).
Sobre isso Leal, Brandão e Lima (2012) esclarecem:
Teríamos ao menos quatro dimensões que envolvem o desenvolvimento da
linguagem oral, em relação às quais precisaríamos definir objetivos didáticos
para sua abordagem: 1) valorização de textos da tradição oral; 2) oralização de
textos escritos; 3) variação linguística e relações entre fala e escrita; e 4)
Compreensão e produção de gêneros orais.
Assim, de fato, a oralização de textos escritos é uma das dimensões do trabalho
com a oralidade, a qual pode ser considerada uma interseção entre os eixos da oralidade e
da leitura, pois ao pensar objetivos didáticos para sua abordagem o professor estará
ajudando a desenvolver tanto habilidades de leitura (como a fluência), como habilidades
orais (ex: postura, ritmo da fala, etc).
Ainda com relação aos eixos de ensino, o professor fez muitos comentários em
relação ao eixo análise linguística ao responder à pergunta “Com que frequência você
trabalha os eixos de ensino em sala de aula?”. Por tal aspecto, utilizaremos a fala do
professor relativa a esta pergunta para analisarmos como se dá o trabalho com a análise
linguística em suas aulas. A resposta obtida foi:
P (A) Eu trabalho assim: eu gosto muito de revisar o que já estudaram, por exemplo, na
gramática. Quando eu leio o texto, peço para retirar substantivos, adjetivos, as classes
gramaticais, aí quando termino a parte gramatical, eu faço o quê? Costumo levar textos
para eles reescreverem e acentuarem, utilizando a norma culta e costumo explicar o
porquê estão errados ou certos algumas palavras dos textos.
O professor diz que pede para que os alunos retirem dos textos palavras que se
encaixem em classes gramaticais específicas. Além da retirada dessas palavras, pede,
ainda, que formulem frases e, por fim, uma produção textual.
Na fala da professora observamos que não há uma “reflexão” sobre a língua, pois
acaba privilegiando as nomenclaturas gramaticais, baseando-se na premissa de regras e
exercícios. Vale salientar, ainda, que o fato do professor trabalhar a gramática normativa
não é o principal problema de sua prática, mas sim como é feito esse trabalho. Por vezes a
gramática normativa acaba tornando-se o único objeto de ensino.
Em se tratando da frequência de trabalho dos eixos de ensino, utilizaremos a mesma
fala da professora A (trazida anteriormente), resposta à pergunta “Com que frequência
você trabalha os eixos de ensino em sala de aula?” para discutirmos. Nessa parte da
entrevista, a pergunta foi formulada no intuito de descobrirmos qual a frequência que o
professor trabalha com os eixos de ensino. Em sua resposta, percebemos que ele se refere
mais ao eixo de análise linguística (no caso em questão gramatica normativa) do que os
demais eixo.
Essa sua preocupação aparece de forma nítida logo na entrevista, quando ele afirma
“quando eu leio o texto, peço para retirar substantivos, adjetivos, as classes gramaticais”
e “ mando eles tirar uma frase e peço que façam uma produção, e peço para retirarem
outras, classes gramaticais”.
A utilização de regras e nomenclaturas fixas acabam comprometendo seu trabalho,
já que deixa de utilizar o texto para que a reflexão da língua seja realizada.
Sobre isso, os PCN (1998) também afirmam que o estudo da língua necessita estar
voltado para o “uso-relexão-uso”, ou seja, propõem que as atividades de análise linguística
estejam voltadas para a reflexão da língua e que essa reflexão tenha por base a utilização
de textos. A esse respeito Geraldi (2002) prega que a articulação das atividades
desenvolvidas em sala de aula diante dos eixos de ensino da língua portuguesa possibilitará
a apreensão do conhecimento com mais facilidade.
No documento
UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DE PERNAMBUCO UNIDADE ACADÊMICA DE SERRA TALHADA (UAST) CURSO DE LICENCIATURA EM LETRAS
(páginas 35-38)