CAPÍTULO III. ANÁLISE DOS DADOS ESTATÍSTICOS DA VIOLÊNCIA
3.2 Verificação dos Registros Policiais e das Ações Judiciais
O caminho comum da persecução penal é que, após a denúncia, realizada pela vítima ou por terceiros, seja ajuizada uma ação penal, com a finalidade de punir o autor do delito7. No
tópico anterior, foram expostos dados relativos aos momentos anteriores à denúncia – atendimentos médico e especializado – e estatísticas referentes aos registros policiais.
Após os registros de ocorrência, descoberto o autor do fato típico, ressalvadas as exceções previstas pela legislação penal, o legitimado para propositura da ação penal irá ajuizá- la para possibilitar que o Estado aplique a pena pertinente ao suposto criminoso.
Existem alguns fatores responsáveis pelo não ajuizamento de ação penal, ainda que tenha sido lavrado o devido registro de ocorrência. Após o registro do delito, ele deve ser investigado, a fim de possibilitar a descoberta do autor do crime e a obtenção de provas, pois, se a investigação não ocorrer ou se for frustrada, fica inviável o ajuizamento da ação penal. Ainda que haja a investigação policial, o inquérito pode ser objeto de promoção de arquivamento pelo ministério público, por não haver elementos suficientes a demonstrar a autoria e a materialidade do delito, ou por estar extinta a pretensão punitiva estatal (THOMPSON, 2007).
O mero registro de ocorrência não é suficiente para caracterizar o acompanhamento e a resolução do delito registrado. Para verificar a possível existência da Cifra Negra entre o momento do registro de ocorrência policial e o ajuizamento da ação penal, serão analisadas as estatísticas disponibilizadas pelo departamento de polícia e pelo tribunal de justiça, ambos do estado do Rio de Janeiro.
Antes de analisar os dados estatísticos, necessário observar que as ações penais não necessariamente são ajuizadas no mesmo ano do respectivo registro de ocorrência, pois as investigações policiais podem perdurar por grande lapso temporal.
Como especificado, a Lei Maria da Penha estabelece que o crime de violência doméstica e familiar contra a mulher deve ser apurado por meio de inquérito policial. Embora o inquérito integre a fase pré-processual, ele é distribuído à Vara competente, constituindo relevante indicador de demanda ao sistema de Justiça. Assim, apresenta- se dados relativos às quantidades de inquéritos policiais novos (ingressados), pendentes e arquivados em 2016. (CNJ, 2017)
7 Dispondo sobre a relação entre a denúncia às autoridades policiais e o ajuizamento da ação penal são,
Em 2016, 50.171 novos inquéritos de violência doméstica e familiar foram instaurados no âmbito de competência do TJRJ, 25.267 permaneceram pendentes, ou seja, ainda tramitavam nas delegacias de polícia, e 49.892 inquéritos foram arquivados (CNJ, 2017). Os índices fazem referência à violência doméstica e familiar, não especificando a classificação dos delitos. Todavia, é possível verificar que o número de inquéritos arquivados se assemelha ao número de inquéritos instaurados, no mesmo ano, o pode representar que grande parte dos delitos de violência doméstica não resultam no ajuizamento de ação penal.
Os dados de registros policiais divergem dos dados divulgados pelo CNJ. O Instituto de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro registrou, no ano de 2016, 132.607 novos registros de ocorrência por violência contra a mulher (ISPRJ, 2016). Duas hipóteses podem ser apresentadas para a divergência, sendo a incompletude dos dados divulgados pelo CNJ ou a quantidade enorme de casos que, mesmo denunciados, sequer resultam na instauração de inquéritos policiais.
No ano de 2016, foram ajuizadas 45.301 ações, no estado, referentes à lesão corporal cometida contra a mulher, sendo o delito, na violência contra a mulher, que mais resultou em ações penais. O segundo delito na lista de ações penais por violência contra a mulher mais distribuídas foi o crime de ameaça, com 33.522 ações, o que demonstra a prevalência de ações ajuizadas devido à ocorrência de lesão corporal na esfera doméstica (TJRJ, 2019).
Ainda em 2016, 175.073 ações de violência contra a mulher tramitavam no TJRJ (CNJ, 2017). Segundo o CNJ, 48.361 novas ações relativas à violência contra a mulher foram protocolizadas em 2016, no estado do Rio de Janeiro, número que destoa do divulgado pelo TJRJ, que apresentou o total de 91.913 novas ações, incluindo diversas formas de violência – física, psicológica, moral, patrimonial e sexual (TJRJ, 2019).
Essa divergência demonstra que os dados divulgados pelo CNJ não são completos ou regulares, o que compromete todas as análises realizadas pelo CNJ tendo como base as estatísticas de novas ações ajuizadas no TJRJ.
No ano de 2017, o CNJ não divulgou os dados pertinentes à quantidade de inquéritos iniciados e pendentes, no território do TJRJ. Segundo o CNJ, foram ajuizadas 46.340 novas ações referentes à violência doméstica e familiar no estado, mas, os dados divulgados pelo TJRJ foram diversos (CNJ, 2017). Em 2017, apenas considerando a prática de lesão corporal cometida contra vítima do sexo feminino, foram ajuizadas 44.607 novas ações, e, somando as demais práticas violentas vivenciadas na esfera doméstica e familiar, o total foi de 83.404 novas ações (TJRJ, 2019).
Em 2017, o número de novas ações por lesão corporal continuou muito superior às ações que visavam a condenação pelos demais delitos. Como demonstrado, mais de metade das novas ações penais por violência doméstica e familiar contra a mulher foram por causa da ocorrência do delito de lesão corporal (TJRJ, 2019).
Os dados de 2017 da justiça são inferiores ao número de registros de ocorrência, considerando todos os crimes relacionados à violência contra a mulher, realizados no mesmo ano – 111.877 casos (ISPRJ, 2017). Aqui, embora os registros ocorram na fase policial, e as ações sejam ajuizadas no poder judiciário, percebe-se uma discrepância de, ao menos, 28.473 casos – ressaltando que não nos foge ao conhecimento que os inquéritos, pela demora das investigações, não resultam no ajuizamento de ação penal no mesmo ano em que instaurados. O que se pretende evidenciar é a divergência entre o número de registros de ocorrências e o número de ações penais, a demonstrar a possível existência da Cifra Negra entre as fases de denúncia e de judicialização dos casos de violência doméstica e familiar contra a mulher.
Não foram divulgados os dados completos, pelo CNJ, no ano de 2018. As estatísticas divulgadas pelo TJRJ apontam o ajuizamento de 90.360 novas ações penais de violência doméstica e familiar contra a mulher. A quantidade de ações de lesão corporal permaneceu, em muito, superior às demais. Foram 50.052 novas ações de lesão corporal, sendo a segunda ação mais proposta relativa ao delito de ameaça – 27.739 ações (TJRJ, 2018).
A quantidade de novas ações penais permaneceu bem inferior ao número de registros de ocorrência, sendo que o último contabilizou 121.077 novos casos de violência contra a mulher (ISPRJ, 2018). As considerações feitas para os anos de 2016 e de 2017 continuaram válidas para o ano de 2018, evidenciando que muitos casos de violência doméstica e familiar contra a mulher continuam a se perder entre o registro de ocorrência, a instauração dos inquéritos policiais e o ajuizamento da ação penal.