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2. UMA RESPOSTA NATURALIZADA: A ANÁLISE DISPOSICIONAL

2.4. Behaviorismo e Análise Disposicional Naturalizada

2.4.1. Versões da teoria ideacional do significado

Grosso modo, se uma teoria puramente referencialista do significado se baseia na concepção fundamental de que a linguagem é empregada para falar sobre as coisas, as teorias ideacional e behaviorista baseiam-se numa concepção igualmente fundamental, a saber, a de que as palavras têm o significado que têm apenas em decorrência do que fazem os seres humanos quando utilizam a linguagem (ALSTON, 1972, p. 37). Tais teorias centram-se nos aspectos do que se passa na comunicação, num esforço para descobrir os caracteres do uso linguístico que conferem aos termos os significados que têm.

A teoria ideacional mentalista do significado sustenta que o significado de uma expressão linguística reside na ideia ou conceito que o falante possui ao utilizá-la em seu discurso78. Nesses termos, tal concepção assere que o que faz com que uma sequência de marcas ou ruídos signifique algo é o fato dessa exprimir um estado mental ou de algum modo corresponder-lhe significativamente79. A semântica mentalista lida com uma noção

75 Sobretudo, formulada por Locke (1690).

76 Qual concebida por Frege (1892; 1918) e Moore (1953).

77 Tomo as expressões de Guerreiro (1985) e Burge (1992), equivalentes ao “Terceiro Reino” de Frege (1918).

Cf. GUERREIRO, 1985, p. 46; BURGE, 1992, 299; FREGE, 1999, p. 292.

78 Cf. Lycan (2008), Dutra (2014) e Locke (1690). A obra de Benett (1971) talvez conste como a bibliografia mais especializada sobre o tema, tendo Hacking (1999) como seu interlocutor.

79 Enuncia Locke em seu Ensaio: “As palavras, na sua imediata significação, são sinais sensíveis de suas ideias, para quem as usa. Palavras em seu significado primário e imediato, nada significam senão as ideias na mente de quem as usa, por mais imperfeita e descuidadamente que estas ideias sejam apreendidas das coisas que elas supostamente representam. Quando um homem fala com outro, o faz para que possa ser entendido; e o fim da fala implica que estes sons, como marcas, devem tornar conhecidas suas ideias ao ouvinte. Estas palavras, então,

42 primitivamente intencional de significação das expressões em geral na medida em que se relaciona com as intuições do falante que emprega as expressões de uma determinada língua.

Dentre os filósofos que mais fortemente a sustentaram consta John Locke (1690).

Ora, se diversos falantes empregam as mesmas expressões em conformidade com suas intenções semânticas e, portanto, com as ideias ou conceitos que eles próprios relacionam com tais intenções, como é possível haver efetiva comunicação? Se se comunicam, como é patente em boa parte das ocasiões de comunicação, então as expressões utilizadas não podem se referir apenas às suas ideias, mas têm de se referir também a coisas e estados de coisas no mundo, é dizer, tem de ser publicamente compartilháveis.

Caso tomemos uma ideia qualquer e ela for cognitivamente legítima, então ou ela deriva diretamente da sensação ou da reflexão consistindo, então, numa ideia simples – ou foi composta a partir de ideias simples e pode, em última instância, ser remetida a elas. Isso garante não apenas a significação de expressões isoladas, mas também aquela das sentenças que descrevem estados de coisas. Pois o falante pode falar significativamente de determinado estado de coisas se a proposição expressa em sua fala resultar de uma legítima relação de ideias a partir de ideias simples.

Uma ideia, por sua vez, para Locke, é tudo aquilo que está presente ao entendimento.

Assim, quando, em primeiro plano, alguém utiliza uma expressão, esse o faz para registrar suas ideias particulares. Ato contínuo, então, a mesma expressão pode ser utilizada na comunicação para informar aos outros no que estamos pensando. Há então, evidentemente, uma intuição pragmática a se notar na concepção ideacional lockeana, é dizer, o falante utiliza determinados sons com o propósito de comunicar algo a seus interlocutores. E se ele, além de criar ideias complexas a partir de ideias simples e também a elas associar determinados termos, combina também esses mesmos termos em orações e as expressa, o que faz é tentar dar conhecimento aos outros de seus pensamentos.

O teorizador mentalista explica a sinonímia em termos de expressão da mesma ideia tal como a ambiguidade se dá em decorrência da expressão de mais de uma ideia por um mesmo termo. No tocante à aparente discordância verbal entre falantes num dado contexto comunicativo pode-se atenuá-la alegando que ambos possuem o mesmo pensamento, todavia confusamente o exprimem pelo emprego de palavras incompatíveis entre si.

Em suma, o mentalista semântico não apenas apresenta uma concepção parcialmente pragmática do uso das expressões na comunicação como também explica como, num segundo momento, também associamos as expressões às coisas e situações no mundo, além de associá- las a nossos pensamentos. Se primitivamente as expressões estivessem associadas às coisas e/ou às relações entre elas (relações de fato), então não poderíamos emprega-las tendo em vista que, para o falante, não está pressuposto que por meio das expressões ele pode dar aos outros o conhecimento do que pensa.

Contudo, por outro lado, já que o falante deseja pelo discurso dar aos outros a conhecer o que pensa é necessário também associar as expressões às coisas e situações no mundo. Portanto, num primeiro plano, as expressões se correlacionam aos pensamentos dos falantes e, num segundo, são por ele associadas às coisas e fatos do mundo, no processo de comunicação (de ideias, repita-se). A palavra é o vínculo necessário entre as ideias dos diferentes falantes e viabiliza então também a normatividade da linguagem, assegurando-nos uma comunicação eficiente.

são as marcas das ideias de quem fala; ninguém pode aplica-las como marcas, imediatamente, a nenhuma outra coisa exceto às ideias que ele mesmo possui, já que isto as tornaria sinais de suas próprias concepções; e, ao contrário, aplica-las a outras ideias faria com que elas fossem e não fossem, ao mesmo tempo, sinais de suas ideias, e, deste modo, não teriam de nenhum modo qualquer significado.” (LOCKE, 1991, p. 90, grifos do autor).

43 Promissora que pareça, a teoria ideacional mentalista é passível de diversas objeções.

De início, cabe especificar o gênero de entidade mental a que denomina ‘ideia’. Certamente, não é de todo inaceitável que nem tudo aquilo que se passa na mente humana tem aí sua gênese e fundamento. Prima facie, as imagens mentais não se mostram candidatas adequadas haja visto serem mais pormenorizadas que os significados. Mencione-se, exemplificativamente, uma imagem de cão: ela não consiste numa ideia genérica, mas de um espécime de formato, dimensão e raça particulares. Ao se indagar a um grupo de indivíduos que descrevam um cão, deparar-se-á com descrições provavelmente distintas do mesmo objeto. Ora, se assim é, um candidato aparentemente melhor-sucedido seria um conceito mais abstrato.

Objeção complementar é que diversas expressões não têm imagens mentais a elas associadas. É possível conceber um sem número de conceitos para os quais não tenhamos representações mentais, contudo não podemos representar o que quer que seja sem estar pressupondo um conceito. Veja-se, por exemplo, o conceito geométrico de ‘quiliógono’, conceitos morais tais como ‘liberdade’, ‘dever’, ‘valor’ ou o conceito político de ‘democracia’

ou ainda conceitos lógicos como ‘função’ e ‘variável’. Assumindo-se uma teoria mentalista do significado, como representar tais signos desprovidos de quaisquer vínculos icônicos em relação aos seus referentes? Ante à absoluta ausência de tais vínculos, os ditos conceitos podem ser concebidos, porém não podem ser representados por esta ou aquela imagem mental. A restrição está situada no âmbito da impossibilidade lógica, pois seria uma contradição em termos aceitar a possibilidade de representar o não-representável.

A evidência de que a representação mental pressupõe um conceito se deve ao fato de que toda e qualquer imagem apenas chega a se constituir quando o sujeito que a produz na suposta privacidade80 de sua consciência possui uma noção daquilo que há de ser representado pela mesma. É dizer, a representação requer a posse da descrição. Se não a possuímos, não estamos aptos a representar o referente por elas introduzidos, ainda que não consista num objeto físico81.

Demais disso, mesmo as representações às quais correspondem conceitos não necessariamente são trazidas à mente por ocasião de seu emprego numa situação comunicativa qualquer. A bem dizer há frases significativas (ainda que não pronunciadas) que não exprimem qualquer ideia efetiva ou imagem mental, o que não as impede de serem dotadas de significatividade.

Por fim, um dos argumentos mais contundentes em relação ao mentalismo semântico sustenta que ele não trata propriamente das relações entre sentenças e situações no mundo, mas apenas entre enunciados e situações no mundo. Isto é, reflete sobre as circunstâncias em que uma sentença é utilizada por um falante, e não da própria sentença e, logo, de seu significado tomado de maneira abstrata. Tal forma de encarar o problema nos conduz à concepção conceptualista (ou proposicional) – cujos pioneiros defensores foram Frege82, Russell e Moore– e àquilo que, por sua vez, possui de plausível e defensável.

A tese central assumida pelo conceptualista semântico assere que os conceitos, elementos constituintes das proposições, não constam de representações mentais de uma consciência individual, antes são entidades objetivas situadas num “Terceiro Reino” – distinto dos âmbitos físico (de entidades espaço-temporais) e subjetivo mental83 – de maneira que somente

80 Wittgenstein objeta à tese da privacidade epistêmica nos parágrafos §§242-315 de suas IF, Hacker (1997) procede a uma síntese de sua interpretação do tema.

81 Refiro-me ao problema dos nomes ficcionais tais como ‘Pégasus’ que não possuem referente empírico.

82 Desconcertante e contencioso debate há entre os intérpretes de Frege a respeito de seu projeto filosófico bem como da relevância e papel da filosofia da linguagem nele, tema sobre o qual não me debruçarei aqui. Interessar- me-á tão somente a assunção da noção de proposição na explicação da significatividade da linguagem.

83 Em sua ontologia, Frege estaria admitindo três mundos (GUERREIRO, 1985, p. 46): (a) o mundo objetivo

44 é possível ter acesso aos significados quando estes estiverem relacionados a outros componentes semânticos (a saber, proposição e conceito) formando, assim, um pensamento completo.

Certamente o idealista conceptualista compromete-se com o realismo semântico de tipo factualista84 na medida em que sustenta que as proposições são itens gerais absolutamente independentes de qualquer linguagem natural particular. Em sua resposta ao problema do significado, apela a esses conteúdos abstratos que são conteúdos possíveis do pensamento, mas não são relativos ao pensamento efetivo de alguém. Um dos traços mais fundamentais das proposições e conceitos, no sentido próprio, é sua independência ontológica em relação a qualquer sujeito cognoscente. É precisamente a presumida objetividade dos conceitos e proposições que assegura o amplo acesso pelos falantes de uma determinada linguagem, os quais, por força da apreensão mental dos mesmos podem imprimir sentido às sentenças que empregam nos contextos de comunicação.

Ao passo que os teóricos do mentalismo semântico concebem as sentenças quase como se fossem impelidas de dentro dos falantes pela pressão de seus pensamentos, os conceptualistas argumentam pela relação de expressão das proposições por elas, fornecendo, assim, uma imagem gráfica da significação, a qual já escrevi outrora85. Os pioneiros conceptualistas semânticos intentaram introduzir distinções entre as proposições e demais entidades linguísticas de modo a elucidar sua natureza e estatuto ontológico. Dentre tais entidades linguísticas, concentremo-nos nas sentenças. Em que medida as proposições se diferenciam das sentenças?

Uma sentença é uma expressão linguística gramaticalmente correta e com um conteúdo informacional completo, podendo servir como unidade mínima de um ato comunicativo (IMAGUIRE; SCHIRN, 2008, p. 129) – exemplificativamente, ‘A neve é branca’ – classificando-se conforme sua função pragmática (interrogativa, exclamativa, imperativa e declarativa).

Uma proposição, por seu turno, é “o significado, intensão ou conteúdo informativo de uma sentença” (IMAGUIRE; SCHIRN, 2008, p. 130). Os defensores da teoria ideacional conceptualista (ou proposicional) sustentam que as proposições têm estrutura interna, i.e., a forma lógica; tal como as palavras compõem as sentenças, os conceitos compõem as proposições86. Os argumentos comumente avançados para legitimá-las no mais das vezes explicitam as funções que comumente lhes são atribuídas.

As proposições são os portadores dos valores de verdade, de modo que uma dada sentença S é verdadeira ou falsa se, e somente se, a proposição por ela expressa o for. Um argumento em favor da tese é o do efeito ambíguo das sentenças indexicais. Considere-se a sentença ‘Marcos agora lê as Investigações Filosóficas’. Decerto seu valor de verdade variará em função do contexto pragmático do proferimento, i.e., do tempo e da ocasião em que for proferida. Ora, a sentença mesma não poderia ser verdadeira ou falsa, pois a depender do momento poderia ser verdadeira ou falsa, o que soaria contraditório. Assim, o conceptualista defende que o a torna

sensível, que é o dos particulares constituídos por objetos e eventos físicos, (b) o mundo subjetivo, que é o das representações ou imagens mentais e (c) o mundo objetivo não-sensível, o qual difere de (a) por carecer de materialidade e extensão espacial e difere de (b) porquanto é constituído apenas de universais. É conveniente distinguir duas acepções do termo ‘objetivo’, pois se ele é usado para referir a ‘objetos físicos’, trata-se de uma objetividade sensível, porém se é usado para fazer referência à objetividade dos conceitos e propriedades, trata- se antes de uma objetividade não-sensível, dotada de uma realidade em si. A ela, Frege denomina “Terceiro Reino”.

84 Veja-se a seção 1 do primeiro capítulo da presente dissertação.

85 Vejam-se as páginas 3-4 deste texto.

86 “A proposição não é composta de palavras, nem de pensamentos, mas de conceitos. Conceitos são possíveis objetos do pensamento; mas isso não é sua definição. Isso só diz que eles podem entrar numa relação com um pensador; e para que eles possam fazer algo, eles já precisam, de alguma forma, ser. Para sua natureza é indiferente se alguém os pensa ou não” (MOORE, 1899 apud IMAGUIRE; SCHIRN, 2008, p. 128). É de notar, contudo, que, para Frege, são os sentidos (bedeutung) os componentes das proposições, não propriamente os conceitos.

45 dotada de valor de verdade é a proposição por ela expressa a qual se altera – quando Marcos estiver a ler as Investigações Filosóficas (verdadeiro) ou o oposto (falso).

Em sendo os portadores dos valores de verdade, as proposições asseguram a intuitiva significatividade de sentenças falsas. Cite-se a sentença ‘A neve é azul’. Caso adotássemos uma teoria meramente referencialista, como explicar a referência da presente oração? Se o significado corresponde ao objeto referido pela sentença, argumenta o conceptualista semântico, teríamos de supor então que ‘A neve é azul’ é despida de significado, na medida em que não há fato correspondente no mundo atual, o que é obviamente falso. O recurso à noção de proposição parece oferecer uma solução razoável ao problema. Quer sentenças verdadeiras ou falsas ambas enunciam algo pois expressam proposições cujos fatos enunciados podem subsistir ou não subsistir no mundo efetivo.

Por fim, as proposições são designadas como objetos de atitudes proposicionais, as quais exprimem a relação entre um falante/pensante e uma proposição, no mais das vezes expressas por verbos tais como dizer, crer, afirmar, pensar, dentre outros tantos. Num contexto de atitude proposicional, o indivíduo mantém relação com uma relação intencional com o significado de uma sentença, i.e., com uma proposição, e não com a sentença ela própria (IMAGUIRE;

SCHIRN, 2008). Tome-se a sentença ‘Frege disse que Cícero é Cícero’. Decerto, o filósofo alemão não disse a presente sentença, haja vista o fato de jamais ter falado língua portuguesa. De igual sorte, num certo sentido tal sentença é verdadeira posto que Frege de fato disse isso. Logo, argumenta o conceptualista, é necessário supor a existência de uma proposição a qual assegura o valor de verdade da sentença proferida e com a qual o falante/pensante mantém certa relação (no caso de dizê-la).

Importa destacar, para os efeitos da seção subsequente, a extensão por parte das teorias