A PROPÓSITO DO NADA
1.3 Verticalizando: Uma Obra e um Tema
Como afirmamos anteriormente, na década de 1990, os trabalhos versando sobre Vianinha passam a ter novas preocupações. A biografia do autor já havia sido feita, assim como seus textos já haviam sido analisados em conjunto. A nova década e as posteriores trazem consigo, além da crítica à crítica, a necessidade de aprofundamento nas interpretações dos textos deixados por Vianinha. Nessa vertente, duas dissertações foram defendidas no Programa de Pós Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e uma foi apresentada na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. A primeira, em 1996, sob a orientação do professor Dr. Antônio Pedro Tota, foi escrita pela professora Maria Aparecida Ruiz e teve por objetivo interpretar a trajetória do PCB por meio da peça Rasga Coração. O segundo trabalho, que foi escrito pela professora Eliane dos Santos Paschoal e teve a orientação da professora Drª Maria Izilda Santos Bastos, tem por objetivo a análise comparada das peças Eles não Usam Black Tie e Chapetuba Futebol Clube de autoria, respectivamente, de Gianfrancesco Guarnieri e Oduvaldo Vianna Filho.
Esses trabalhos são os primeiros a verticalizarem as análises em torno da obra de Vianinha, elegem uma obra e a analisam por meio de um tema, aprofundando as possibilidades de interpretação sobre a dramaturgia do autor.
Intitulada Rasga Coração – Herói Revolucionário (Representação da Militância
Comunista em um Texto de Oduvaldo Vianna Filho52), a obra da professora Maria Aparecida Ruiz está dividida em três capítulos, denominados, respectivamente: 1. Tradição; 2. Revolução e 3. Par-ti-do.
No primeiro capítulo, a autora descreve como a memória de Vianinha está presente no trabalho, ele, filho de comunistas; como em sua pesquisa para a escrita de
Rasga Coração aspectos importantes da história do Brasil vão sendo desvelados com o
52RUIZ, M. A. Rasga Coração – Herói Anônimo e Revolucionário (Representação da Militância
Comunista em um Texto de Oduvaldo Vianna Filho). Dissertação (Mestrado em História) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 1996.
49 desenrolar da peça; e como, dentro dessa história do país, a militância comunista está representada em seus vários momentos.
No capítulo denominado Revolução, a autora analisa o personagem Manguari Pistolão jovem, representando o passado dessa militância. Por fim, no último capítulo, Ruiz analisa por meio da mesma personagem os impasses impostos aos militantes no período do regime militar, o presente, a briga entre o novo e o revolucionário.
Em suma, lançando mão de informações sobre a história do Brasil e do PCB, a autora procura interpretar Rasga Coração como a representação dos embates enfrentados pela militância comunista do Brasil, em 40 anos de História (1930-1972).
Seu trabalho centra-se no texto da peça e não em sua encenação ou nas críticas a ela feitas. Mostra, de forma convincente, aspectos do contexto histórico presentes no texto. Mas há momentos em que tal análise se faz maniqueísta e diminui o valor universal da peça.
Se o trabalho da professora Maria Aparecida Ruiz tem por objeto a última peça de Vianinha, ao contrário, o texto da professora Eliane dos Santos Paschoal possui como um de seus objetos o segundo texto escrito por Vianinha ainda no período em que este integrava a equipe do Arena. Sob o título de Cenas da Arena de um Teatro:
Guarnieri e Vianinha (1958/1959)53, a autora se propõe a fazer uma análise comparativa entre os textos Chapetuba Futebol Clube e Eles não Usam Black Tie. Para tanto, Paschoal utiliza como fontes documentais, além dos referidos textos, artigos e manuscritos dos autores, artigos de jornais que versaram sobre as peças e seus programas de estréia.
No primeiro capítulo, intitulado Diálogos com o Teatro, a autora busca “trazer algumas teorias e reflexões sobre as múltiplas possibilidades de analisar e resgatar a historicidade do Teatro de Arena e dos teóricos inspiradores para os autores em questão”54. Para tanto, ela faz uma breve exposição sobre os espaços destinados às
53PASCHOAL, E. dos S. Cenas da Arena de um Teatro: Guarnieri e Vianinha (1958/1959).
Dissertação (Mestrado em História) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 1998.
50 encenações desde a antiguidade até os dias atuais e explica as características de um teatro de arena, acentuando o local onde ele surge e como, no Brasil, ele é incorporado pelos formandos da Escola de Arte Dramática (EAD) de São Paulo. A autora afirma que o Arena surge como resposta ao Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Faz um breve histórico da referida instituição para, posteriormente, ressaltar a diferença fundamental entre o Arena e o TBC, que é a de aquele, sob o ponto de vista dos integrantes do Arena, fazer uma arte vinculada à realidade com fins de modificação social, enquanto este se pautara na busca da estética e do entretenimento. A autora salienta que essa crítica, feita num primeiro instante, depois vai ser revista pelo Arena. Em seguida, ainda no mesmo capítulo, Paschoal passa a discutir o conceito de teatro para o Arena como sendo um espaço de intervenção na realidade e como as teorias de Brecht e Piscator são usadas pelo grupo.
Feitas essas considerações sobre o grupo, no segundo capítulo, a autora passa a analisar a peça Eles não Usam Black Tie, de Gianfrancesco Guarnieri. Primeiramente ela descreve o contexto no qual se desenrola a peça e como esse responde ao seu momento histórico. Em seguida, Paschoal passa a analisar os personagens que compõem a trama para finalizar com a análise da crítica feita ao espetáculo.
No último capítulo da dissertação, é analisada a peça de Vianinha. A autora faz uma breve análise sobre a origem do futebol no Brasil e como esse tema foi usado para discutir problemas da realidade brasileira. Em seguida ela passa à descrição do enredo e personagens da peça, afirmando que Maranhão (um dos personagens centrais da obra e sobre o qual recai o estigma de traidor) carrega em si um traço marcante da dramaturgia de Vianinha, que é a do ser dividido entre a boa e a má consciência. Feitas essas considerações, o trabalho é encerrado com a análise que a autora faz da linguagem utilizada no texto.
Sob o título de “O Tempo em Cena: Experimentação Dramatúrgica em Mão na
Luva, de Oduvaldo Vianna Filho”, em 2011 foi defendida a dissertação de autoria de Simone Mello Zaidan55. Nesse trabalho, a autora analisa a peça Mão na Luva (1966), de
55ZAIDAN, S. M. O Tempo em Cena: Experimentação Dramatúrgica em Mão na Luva, de
Oduvaldo Vianna Filho. Dissertação Mestrado (Artes) – Escola de Comunicações e Artes – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.
51 Vianinha, em suas rubricas que sugerem mudanças no tempo da ação e na trilha sonora sugerida pelo autor quer como fundo que se mistura às falas das personagens, quer aquelas que são por elas cantadas. Essa metodologia, segundo a autora, objetiva demonstrar que os recursos utilizados pelo autor na escritura da obra são indicações de que ela se caracterizaria como épica e lírica. Outro objetivo é demonstrar que a obra é reflexo de uma herança teatral herdada da convivência com seu pai (Oduvaldo Vianna) e de autores contemporâneos de Vianinha, como Jorge Andrade e Arthur Miller.
Para alcançar os objetivos expressos, Zaidan estrutura seu trabalho em três capítulos. No primeiro, ela descreve o contexto histórico do Brasil de 1966 (ano em que Vianinha escreveu a peça e no qual a ação transcorre), pontuando outras obras que o autor escreveu a partir de 1964. Após esse momento de descrição de parte da obra e contexto e afirmando que o momento de escrita do texto de Vianinha se faz quando o autor repensava a sua prática “cepecista”, a autora passa a descrever o enredo da peça e a compará-lo ao conteúdo das peças Moço em Estado de Sítio, Corpo a Corpo, Allegro
Desbundaccio (de autoria de Vianinha) e do filme O Desafio dirigido por Saraceni e protagonizado por Vianinha, ressaltando que nessas obras se encontram alguns aspectos presentes no texto Mão na Luva, como o uso de flashbacks, a relação amorosa de um casal e a crise moral de seus protagonistas.
Terminado o primeiro capítulo, no segundo, Zaidan faz apurada análise do possível significado dos flashbacks e playbacks indicados nas rubricas do autor. Para ela, mais que marcarem a transição do tempo entre presente e passado ou o tempo da consciência e o da lembrança, tais rubricas são indicativas de uma construção dramática que objetivava criar efeitos épicos e líricos no drama. A autora conceitua como épico todo recurso utilizado para interromper o fluxo dramático, e lírico como sendo um recurso que tanto pode estar ligado ao épico (retardando a ação) quanto pode ser característico de intensidade expressiva.
Descritas e analisadas as rubricas deixadas por Vianinha, a autora, no terceiro capítulo de seu trabalho, passa a comparar a referida obra do autor com outras obras que fizeram experiências sobre o tempo. As peças escolhidas são Amor, de autoria de Oduvaldo Vianna; A Morte de um Caixeiro Viajante e After The Fall, de Arthur Miller, e A Moratória, de Jorge Andrade. O trabalho é convincente no seu argumento e une de
52 forma consistente texto e contexto.