• Nenhum resultado encontrado

1 ENTRE LEIS E NARRATIVAS: A CONSTRUÇÃO DAS COMUNIDADES

2.2 VESTÍGIOS E SILÊNCIOS: A PRESENÇA INDÍGENA EM IVAÍ

A reivindicação de uma identidade negra e/ou quilombola pelos moradores de São Roque e de Rio do Meio está diretamente relacionada à presença de não negros na região. Ainda que de maneira mais destacada seu uso ocorra na oposição ao branco, os indígenas também figuram como aqueles com quem se busca marcar diferenças. Afinal, a chegada de negros na região onde hoje se situa o município de Ivaí não inaugurou a ocupação daquele espaço. A presença de povos indígenas nas margens do rio que dá nome ao município é estimada em aproximadamente dois mil anos antes do presente126. A estimativa se refere exclusivamente às populações que desenvolviam a agricultura, pois, se considerarmos coletores e caçadores, elevaríamos esses números em alguns milhares de anos.

Acerca da presença de grupos indígenas no percurso do rio Ivaí, devemos considerar que dois de seus afluentes, rio Lajeado e rio dos Índios, localizam-se na área em estudo e compõem a região do Alto Ivaí. Da mesma forma, podemos destacar que duas, das dezessete reservas indígenas existentes no estado na atualidade, estão localizadas em municípios próximos a Ivaí. A reserva de Faxinal, por exemplo, situa-se em Cândido Abreu, município limítrofe a noroeste. Um pouco mais ao norte, nos municípios de Manoel Ribas e Pitanga, localiza-se a terra indígena de Ivaí. Ambas constituídas exclusivamente por aldeias kaingangs.

Documentos produzidos pela Câmara Municipal de Ponta Grossa entre março e abril de 1880 corroboram a tese da ocupação do espaço em questão por povos kaingang127. Dirigidos ao presidente da província do Paraná, esses documentos encaminhavam reivindicações de dois caciques de tribos localizadas no Alto Ivaí. Na ocasião, os caciques Paulino e Felisbino procuraram

126 MOTA, Lúcio Tadeu (Org.). História do Paraná: pré-história, colônia e império. Maringá, PR: Editor da UEM, 2011.

127 Os documentos em questão encontram-se no Arquivo Público do Paraná e foram objeto de análise em um artigo produzido por Lúcio Tadeu Mota. Disponível em: <http://www.dhi.uem.br/ laee/uploads/downloads/os-indios-kaingang-e-as-autoridades-de-ponta-grossa_1443008801 .pdf>. Acesso em: 8 dez. 2016.

aquele legislativo para solicitar ferramentas e equipamentos agrícolas, além da concessão de terras para aldeamento, conforme segue:

Declarou que desejava dedicar-se com seus companheiros ao trabalho da lavoura, que achavão-se aldeados nas margens do Alto Ivahy, no lugar denominado Porteirinha, distante desta cidade quinze legoas mais ou menos e próximo a Barra Vermelha.

Pedio que solicitasse de V. Exa, quarenta e oito machados e outras tantas foices, alambique e tachos para o fabrico de aguardente e rapaduras, e que desejavão ter uma pessoa que os dirijisse. Pedirão mais que V. Exa garantisse ou concedesse os terrenos comprehendidos entre os arroios Porteirinha e Índio, a qual zona pode conter duas legoas de comprido sobre uma de largo, que concedido isto a elles farião todo o possível para aldearem nessas paragens seos patrícios que vagão pelo sertões.128

Lançamos mão dessa citação para pensar como a ocupação da região onde hoje se situam as comunidades quilombolas em estudo foi marcada pela pluralidade de grupos. Como poderemos ver no mapa abaixo, Barra Vermelha, local onde se achavam os indígenas mencionados no texto transcrito, localiza-se no hoje território de Ivaí. Tanto a sub-bacia do rio dos Índios, onde localiza-se encontram as comunidades de São Roque e Rio do Meio, como a do rio Lajeado, na qual se localiza Barra Vermelha, desaguam na cabeceira do rio Ivaí.

128 OFÍCIOS, 17/03/1880. Ofício da Câmara de Vereadores de Ponta Grossa, ao presidente da província, Manoel Pinto de Souza Dantas Filho. Vol. 5, p. 29, APEP, doc. manuscrito.

MAPA 05 – BACIA HIDROGRÁFICA DO MUNICÍPIO DE IVAÍ.

Fonte: IVAÍ. Plano Diretor do Município, 2005. Disponível em: <http:// www.controlemunicipal.com.br/inga/sistema/arquivos/1015/53264c586154.pdf>. Acesso em: 9 dez. 2016. Adaptado por: PAGLIARINI, S., 2018.

Trata-se de uma região de povoamento bastante antigo. O processo de ocupação decorrente da presença dos brancos ensejou relações entre estes e os povos que já habitavam aqueles espaços. A questão fundiária estava posta antes mesmo da chegada dos primeiros imigrantes poloneses e ucranianos, datada do início do século XX. Ao solicitarem terras para aldearem “seos patrícios que vagão pelos sertões”, os caciques apresentam uma disputa, que, guardadas as proporções e com a inclusão de novos sujeitos, se estende até os dias atuais. Entretanto, a reivindicação de terras naquele momento estava

relacionada a um movimento iniciado nas primeiras décadas do século XVIII, quando da ocupação do território dos chamados Campos Gerais.

Os descendentes desses indígenas, que, desde o último quarto do século XIX se utilizaram dos canais criados pelos brancos para reivindicar melhores condições de vida, continuam na região. A correlação de forças relegou a eles espaços bastante reduzidos, concentrando-os em algumas poucas reservas. A considerar pela etnia kaingang, parte deles ocupa, há aproximadamente cinco anos, uma obra abandonada no município de Irati, distante 80 quilômetros de Ivaí. Abrigados embaixo de uma construção projetada para ser um teatro, ali comercializam seus artesanatos. Passados quase dois séculos e meio desde o envio do documento à Câmara Municipal de Ponta Grossa, vagar pelo sertão é uma condição ainda presente.

Em Ivaí, o reconhecimento da ocupação indígena aparece de maneira pouco enfática. Um dos indícios dessa presença está na denominação das comunidades, forma como são conhecidas as localidades no interior do município. Quatro delas remetem à presença indígena: Índio Camargo, Balaios, Rio dos Índios Chapada e Rio dos Índios Cavocão. No livro intitulado Resgate Histórico do Município de Ivaí, obra produzida por uma equipe de professores da rede municipal de Educação e patrocinado pela Prefeitura, há uma proposta de apresentação da história de cada uma dessas comunidades. Sobre a comunidade Rio dos Índios Cavocão a obra menciona que:

O local era habitado por uma tribo de índios nas margens do rio no local denominado Poço Preto, daí surgiu o nome Rio dos Índios. Até hoje existem sinais da presença indígena na propriedade do Sr. Leonardo T. Correia: pode-se observar um cemitério com sete a nove sepulturas.129

Os autores foram ainda mais sucintos ao explicarem o porquê de uma das comunidades se chamar Balaios: “Antigamente existia um índio que morava em Balaios e vendia vários tipos de balaios; daí surgiu o nome da localidade”130.

Os trechos citados são alguns dos poucos momentos em que a obra faz referência à presença indígena. Eis um silêncio que se repete nas entrevistas

129 PREFEITURA MUNICIPAL DE IVAÍ. Resgate histórico do município de Ivaí. Ponta Grossa, PR: Planeta, 2001. p. 132.

com os moradores das comunidades em estudo. Sobre isso é possível levantar pelo menos duas hipóteses. A primeira delas está relacionada à temporalidade: uma vez que há décadas tribos indígenas deixaram de habitar o território do município, as lembranças sobre esses sujeitos foram esquecidas. A outra, e esta nos parece mais plausível, é que não há nenhum apelo à identidade indígena na região. Diferentemente da identidade negra, associada ao passado quilombola agora incentivado pelo próprio estado, lembrar desses possíveis antepassados não carrega qualquer carga positiva. Podemos perceber essa postura em dois momentos de uma entrevista produzida com um grupo de mulheres na comunidade de São Roque. A entrevista, inicialmente marcada com a sra. Lenir, acabou também ocorrendo na presença de Marieli − uma de suas noras, de Isabel − sua cunhada e de Bruna − moradora da comunidade. Duas dessas entrevistadas falaram sobre uma possível descendência indígena. Em diálogo com Lenir, Isabel foi a primeira, e o fez na tentativa de explicar as origens do sobrenome Lourenço, que passou a assinar após o casamento:

Isabel: É que eles falaram que esses quilombola são os Ferreira, os Marçal e os Lourenço, que tem sangue.

Ah, pegaram pelo sobrenome? Lenir: Aham, pelo sobrenome. Isabel: Pegaram pelo sobrenome. Lenir: Deu lá, lá na frente.

Isabel: Porque os Lourenço, bem dizer, não são Lourenço. Porque fizeram o sobrenome errado.

Lenir: Fizeram errado. Erraram, é Guarani, né. É o quê?

Lenir: Guarani que falava. Era Guarani?

Isabel: É até de índio um pouco, acho que descendente. Lenir: Aham.

Ah, daí erraram o nome e ficou Lourenço. Isabel: O sobrenome.

Lenir: Era o nome Lourenço, daí pegaram por sobrenome. Isabel: Era o nome Lourenço e aí puseram como sobrenome.131 Mesmo reconhecendo ser um sobrenome de história recente, decorrente de um erro cartorial, não há, no relato, qualquer dúvida em relação ao fato de se tratar de uma família quilombola − certeza que desaparece ao falarem de uma

131 LOURENÇO, Lenir de Lima; LOURENÇO, Isabel Malanczyn; MALITZ, Bruna. Entrevista

suposta ascendência indígena. Esse distanciamento em relação ao vínculo com os povos indígenas se repete na narrativa de Bruna. Assim como na explanação de Isabel, Bruna buscou situar seu sobrenome de casada a partir do exemplo de sua sogra:

E esses Pereira não entram nessa como descendente dos quilombolas?

Bruna: A minha sogra é.

Lenir: Ela é, ela é cadastrada nesse daí [Associação]. Só que ela é como sócia, né. É associada.

Mas entra naquelas famílias que foram consideradas como quilombolas, ou não?

Lenir: Como quilombola, eu não sei... Não sei te dizer. Ela é branca ou é negra?

Bruna: A minha sogra? É.

Bruna: Nem sei. (risos). Índia sei lá que fala. Lenir: Ela pertence, né.

Bruna: Índia, misturado. Descendência indígena?

Bruna: Índio misturado (risos)132.

Os risos durante a fala demonstravam um certo desconforto em ter que explicar uma situação para a qual não se tinha uma resposta simples. Nem mesmo a sra. Lenir, fundadora e ex-presidente da associação, sabia por certo como se dava a inserção da referida mulher no grupo. Nem branca, nem negra, estávamos a tratar de outro caso em que a miscigenação tornava limitada uma oposição simples de duas cores.

Os trechos citados trazem indícios das interações entre negros e indígenas. É provável que parte dos hoje remanescentes de quilombo estabeleçam alguma relação de consanguinidade com os povos kaingang que habitam a região. É, provavelmente, uma relação que, por si só, não carrega nenhum significado. Afinal, esses aspectos biológicos podem ou não ser utilizados como elos com sujeitos ou com grupos do passado. Nos dois casos, apesar de não negarem a existência da relação, tratou-se apenas de uma “mistura”, sendo uma constatação que não implicou qualquer apego aos elementos de uma identidade indígena, seja ela qual for.

132 Idem, ibidem.