Marcas sinestésicas no discurso da publicidade
4. Conceito de hábito e condicionamento dos sentidos
4.5. A possibilidade de resgate da condição sinestésica original
4.5.3. Vestigiais da continuidade da protopercepção sensorial
A sinestesia constitutiva, ou seja, congênita - explanada no tópico 1.3.2., constante do primeiro capítulo desta dissertação - pode portar-se como um traço vestigial da continuidade intensiva das sensações, com embasamento na doutrina sinequista. Os sinestetas inatos se apresentam como um dos elementos comprobatórios da percepção sinestésica primordial. Mantendo eles o intercruzamento das modalidades sensoriais, sem ceder aos fatores condicionantes de seu ambiente cultural ou natural, mostram o reverso da habituação. A questão genética que circunda a sinestesia congênita deve também ser considerada; com ela, vê-se atestada a variabilidade do conjunto gênico de uma população e
a possibilidade dos genes determinantes da condição sinestésica serem transmitidos à descendência. A permutação, por exemplo, é um dos fatores evolutivos que propiciam as “trocas de interesse”, ou seja, articula novas e vantajosas combinações entre os genes, possibilitando a variabilidade e a transmissão de determinadas características, como, por exemplo, as referentes à condição sinestésica.
Outro indício da protopercepção sinestésica e, conseqüentemente, da possibilidade de seu resgate é o fato de serem os bebês sinestetas. Basbaum (2002, p. 32) explicita que os recém-nascidos formam esquemas primários de percepção, sem distinção de modalidades, mas com intercruzamentos modais, o que os torna sinestetas, pelo menos, até os três meses de idade. Outros estudiosos apostam que a sinestesia nos bebês perdura até os seis meses; outros, ainda, apontam-na, como recorrente, durante a fase pré- lingüística. Na infância, as sensações têm predominância sobre o campo do simbólico; a primeiridade peirceana se sobrepõe à terceiridade, que requer uma vivência mais estreita e longa junto ao cultural. Não obstante, cabe sugerir que, após a etapa pré-verbal, restam reminiscências da sinestesia, havendo a persistência das mesmas até a fase adulta. Kerckhove (1997, p.160) destaca que “o divertimento da criança [...] que bate com o brinquedo contra a grade do berço pode vir do reconhecimento de que o toque, a audição e a visão provêm todos do mesmo gesto”, o que exemplifica, claramente, as intersecções das modalidades sensoriais que experimentam os bebês.
Esse autor (1997, p.149) expõe, ainda, que bebês recém-nascidos tendem a perceber uma enorme diversidade de sons e que essa faculdade parece diminuir muito em breve, à medida que eles se instalam em seu ambiente lingüístico familiar, ou seja, começam a centrar sua atenção em sons lingüísticos que espelham a freqüência e o espectro de voz da mãe e daqueles com quem têm mais contato, podendo anestesiar ou atrofiar a capacidade de
percepção e acolhida de outros sons menos freqüentes, provavelmente, de forma inconsciente, concebidos como de menor relevância. Reforçando a idéia da especialização da atenção, o mesmo autor cita, ainda, a “Teoria da Estabilização Seletiva das Sinapses”, do neurobiólogo francês Jean-Pierre Changeaux (1990 apud KERCKHOVE, 1997, p.150), que propõe que há perda, ao invés de acréscimos, da flexibilidade sensorial, depois de que o ser humano é exposto a estímulos ambientais consistentes. A argumentação teórica gira em torno de que a fixação das conexões neurais entre o cérebro e o sistema nervoso central depende da utilização predominante de certos circuitos.
Mithen (2002, p.86-87), por sua vez, aponta que os bebês apresentam uma “mentalidade generalizada” até dois ou três anos, adquirindo, progressivamente, a “mentalidade domínio- específica”. De acordo com os estudos citados pelo pesquisador, percebe-se uma modulação da mente, à medida que a linguagem se desenvolve. O autor faz uso da metáfora do “canivete suíço” (de Cosmides e Tooby, psicólogos evolutivos) como ícone da divisão da mente em módulos destinados a funções pré-determinadas. Contudo, vale acrescentar que essa mente modular se forma e se amplia de acordo com as influências do cultural, pelas forças coercitivas de suas convenções e regras, mas há a expressão da arbitrariedade da mente, se consideradas, por exemplo, as múltiplas inteligências propostas por H. Gardner (1993), ou seja, mesmo que ocorra essa divisão, os domínios (módulos) e suas atribuições (funções) podem apresentar variabilidade. Acresce-se a isso, a propensão progressiva do desenvolvimento da mente fluida, que, como já apontado, prevê intercâmbios entre os vários domínios, em que se despontam a abstração e a criatividade humanas. Assim sendo, por que a faca contida no canivete suíço terá de servir apenas como “faca” ou o garfo como “garfo”? A faca, cuja finalidade é ser um objeto cortante, não pode também ser uma espátula empregada na manufatura de uma tela texturizada, ou o garfo ser
usado como pente ou arma ? Pintar e cortar, assim como pentear-se, defender-se e alimentar-se, são atividades relativas a diferentes domínios, mas o pensamento analógico e criativo do homem pode subverter tais secções, alinhavando esses módulos ao invés de fossilizá-los e apartá-los cada vez mais.
Fodor (1983 apud MITHEN, 2002, p.89), um dos estudiosos a empunhar a bandeira da modulação da mente, acentua o não-encapsulamento, o holismo e a paixão pelo analógico como os traços mentais mais intrigantes. Nesse particular, direcionando-se mais ao campo do sensorial, Cytowic (1997 apud BASBAUM, 2002, p.35) se põe em defesa de um “modelo de percepção holístico, no qual a análise das informações trazidas num tronco comum pelos sentidos, seria ‘administrada’ pela sensação geral”. Dessa maneira, a partir da idéia de totalidade, de somatória, de integração, contida na concepção holística do sentir, a hipótese de que todos somos sinestetas, exposta anteriormente, torna -se mais nítida. Para reforçar essa hipótese, cabe acrescer que, embora apenas algumas pessoas provem da sinestesia conscientemente, outras a sentem de forma menos intensa ou a recostam sob espessas camadas dos hábitos.
Tendo como exemplo os bebês, representando o homem em sua protossemiose - termo entendido, nessa investigação, como a origem do processo semiósico, a partir do qual se expande toda a prolixidade relacional de impressões, sensações, reações, idéias e pensamentos-, as considerações feitas sobre a percepção sinestésica or iginal e a pertinência de sua continuidade, pelos princípios sinequistas, atingem maior evidência. Nesse particular, pode-se, ainda, evocar a “Lei da Biogenética”, de Haeckel64, cuja idéia-chave é
64 Haeckel (1834-1919) cientista alemão que propôs a Teoria da Recapitulação ou Lei da Biogenética. A idéia
base de “recapitulação”, em biologia evolutiva, é a da repetição de uma seqüência de estágios do adulto ancestral nos estágios embrionários ou juvenis de seus descendentes. Consulte Lerner &Le rner (2002, vol. 2, p.521-522).
que a “ontogenia recapitula a filogenia”, ou melhor, que cada ser vivo revive o seu passado evolucionário durante o seu desenvolvimento . Em se tratando da espécie humana, tem essa lei aplicabilidade quando se assomam, por exemplo, alguns estágios da criança. Observe o trecho subseqüente:
Às vezes a ontogenia recapitula a filogenia (as tentativas do bebê de ficar ereto recapitulam a filogenia do quadrúpede para o bípede; a descida da laringe no primeiro ano do bebê recapitula parcialmente as mudanças do antropóide para o ser humano). Ainda assim, os desenvolvimentos podem acontecer de forma tão rápida que você pode deixar de ver a reencenação do processo evolutivo (CALVIN, 1998, p. 91).
Logo, com vistas à idéia de que a “ontogenia recapitula a filogenia”, pode-se apontar que, assim como o engatinhar remete ao quadrúpede e a primeira posição da laringe, ao antropóide, as intersecções das modalidades sensoriais nos recém-nascidos reprisam a condição perceptiva original. Conclui-se, portanto, que os recém-nascidos, retratando o homem em sua protopercepção sensorial e recapitulando quadros da evolução humana, contribuem para a constatação da percepção sinestésica como uma condição armazenada sob o corpo e a mente, possível de ser despertada e otimizada, posto que os processos mentais não são estáticos, mas dinâmicos e diversificáveis.