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VI – A sessão de 1858. Retirada do gabinete

No documento UM ESTADISTA DO IMPÉRIO (páginas 178-184)

a fazer; rejeito esse projeto, não pelo que ele contém, mas pelo que lhe falta, e me parece complementar. Desde que não pude conseguir a incompatibilidade absoluta da magistratura e outras medidas que me parecem essenciais para a administração da justiça, eu não considero como meu, mas do ministro de 1854, esse projeto; mas não me forro ao dever de sustentar as doutrinas que nele se acham, das quais tenho ainda profunda convicção.

O sucessor de Nabuco, Vasconcelos, quer levar por diante a ideia dos ca-samentos acatólicos. Nabuco pensara somente em regular os caca-samentos mis-tos; a Seção do Conselho de Estado alargara a reforma, propondo o casamento civil. Foi o projeto da Seção, ligeiramente emendado, que Vasconcelos conver-teu em proposta do governo, mas nem Eusébio de Queirós nem Uruguai tive-ram ânimo de defendê-lo contra o imenso clamor que o seu projeto levantou no episcopado. Nessa questão, Eusébio de Queirós era quem tinha ido mais longe, mas não podia como chefe conservador sustentar perante a opinião católica a posição que ocupara no Conselho de Estado, levando o governo de vencida.

Também no Brasil [exclamava um dos bispos, o de São Paulo, depois de se referir à França] em que tempo se quer introduzir o casamento civil?

Quando a sociedade já está quase toda pagã; quando o ensino público, quer primário, quer secundário, não tem mais o apoio da religião; quando os livros anárquicos, sem Deus e sem moral, infeccionam, com aplauso, quase todas as mãos; quando, enfim, a fé conjugal está quase extinta nas classes mais elevadas. Senhor, eu amo cordialmente o monarca e adoro o trono, por isso tremo pelo negro futuro que se nos antolha... Eu manifesto uma triste verdade, a verdade da experiência: o Brasil não tem mais fé, a religião está nele quase extinta, é só exterior; grandes festas que acabam ordina-riamente em dissoluções; na baixa sociedade é uma idolatria material de imagens; o espírito do Evangelho não entra nem nos códigos, nem nas cor-porações; a educação doméstica, que ainda nos salvaria, não existe mais, assim enchendo-se em nossos dias a medida de nossos pais, a vingança virá sobre nós.

No ministério, entretanto, reinava a mais completa desarmonia. O

Impe-rador era contrário às ideias financeiras de Souza Franco, e, se não inclinava

para os conservadores “puritanos”, preferia ver encerrada a fase das

emis-sões discricionárias e continuado o ascendente do espírito moderado ou

con-ciliador. No gabinete, era Saraiva quem mais espontaneamente lhe refletia as

simpatias e inclinações, e naturalmente Olinda quem procurava adivinhá--las. Foi, em todo caso, da mão deste que partiu o golpe contra a Aliança Libe-ral, representada no gabinete por Souza Franco. Esse golpe foi a nomeação de Manuel Felizardo de Souza e Melo, conservador puro, adversário do gabinete, para presidente de Pernambuco, a província do presidente do Conselho. Deu--se a nomeação em setembro, logo depois de encerradas as câmaras.

Vai o Manuel Felizardo para Pernambuco [escreve Nabuco a Camaragibe em 26 de setembro] e esta nomeação tem completamente desmoralizado o gabinete, que cada dia está mais vacilante: as circunstâncias do caso o agra-vam ainda mais. Em verdade, a nomeação de um delegado inimigo e a de um inimigo que protesta sê-lo ou impõe como condição o continuar a sê-lo não pode deixar de trazer uma descrença de tudo, um ceticismo geral... Consta que o Manuel Felizardo, e o atesta o Diário do Rio, que é fidedigno, vai fazer em Pernambuco política sua e admitir à comunhão os praieiros excomunga-dos: seja o que for, a nomeação, não pelo nomeado, que é bem digno e capaz, mas pela posição política em que se colocou, é um mau precedente. Seja qual for a política, a execução e a ação carecem de unidade, de conformidade.

“A deputação”, diz ele, “descontentou aos conservadores, tanto mais quanto o pendor dela mudava a situação.” Pouco tempo depois o gabinete retirava-se.

Suspeitava-se que o Imperador não estava bem com o ministério desde junho, quando Holanda Cavalcanti, visconde de Albuquerque, disse no Sena-do que se fosse ministro da Coroa iria depositar perante ela a sua pasta, à vis-ta da hostilidade declarada de um senador, a respeito do qual “ninguém igno-ra o acesso que tem junto à Coroa”. Referindo-se a essas palavigno-ras de Holanda Cavalcanti, o Imperador escreveu esta nota:

Ele também tinha e sempre teve o acesso junto a mim e todos sabem quanto o estimava... Os empregados da Corte sempre tiveram toda a liber-dade de opinião. Custa-lhes compreender isto, mas assim é.88

Era impossível em 1858 reviver com o mesmo capital de exploração a campanha de 1844 contra a camarilha: toda gente agora sabia que D. Pedro II não tinha validos. A verdade, entretanto, e ele a não encobria, é que o Impe-rador divergia da política financeira do gabinete.

88 Notas do Imperador, ibid.

A oposição do Senado foi a causa da mudança do ministério, por não querer Olinda separar-se de todo de alguns dos seus velhos amigos e alia-dos, nem adiantar-se ainda mais para os liberais, identificando-se com Souza Franco.

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Ele não poderia governar na sessão seguinte e não queria dissolver a Câmara.

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O Imperador chama a Eusébio de Queirós, mas este sentia-se impróprio para dirigir a Câmara dos círculos, pelo menos, sem transição, como substituto da política de Olinda e Souza Franco, que forçara a deixar o poder. Talvez mesmo não quisesse ser mais ministro.

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É então chamado Abaeté. O novo ministério ficou assim composto: visconde de Abaeté, pre-sidente do Conselho, ministro da Marinha; Sérgio Teixeira de Macedo, do Império; Nabuco de Araújo, da Justiça; Sales Torres Homem, da Fazenda;

Paranhos, dos Negócios Estrangeiros e interino da Guerra, repartição esta para que devia ser nomeado em 12 de fevereiro seguinte Manuel Felizardo de Souza e Melo. O gabinete tinha a data de 12 de dezembro de 1858. “Por hoje não temos tempo de encarar o novo ministério”, escrevia no dia seguinte o Correio Mercantil, “mas a posição natural do país e da imprensa, depois de tantas decepções, não é, não pode ser outra senão a da neutralidade armada.”

O presidente do Conselho tomava no gabinete “a modesta posição de ministro da Marinha”,

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indicando assim ser quase alheio à sua própria combinação;

Nabuco era outro estranho que figurava nela. Com efeito, o que o gabinete significava era a mais pura reação conservadora.

Octaviano não estava contente nem com os novos nem com os ministros demitidos. “Desde o dia que foi nomeado presidente de Pernambuco o Sr.

senador Souza e Melo”, escreve no Correio Mercantil, “morrera o ministé-rio do Sr. marquês de Olinda. Anteontem lavraram-se apenas os decretos dando substitutos aos membros demitidos daquele gabinete.” E, querendo

89 “A oposição do Senado, de que aliás se arrependeram depois alguns que a fizeram, foi causa da mudança do ministério, e essa oposição era sobretudo dirigida contra as ideias do Souza Franco.” Ibid.

90 “O Olinda não me propôs a dissolução da Câmara para consultar a nação e essa medida não deve ser tomada sem muita cautela.” Ibid.

91 “Todos sabem que pela sobredita razão [a de ter sido a mudança causada pela oposição do Senado] chamei primeiro o Eusébio e Uruguai, que não aceitaram a comissão, apesar de concordarem com as ideias que lhes expendi sobre as minhas relações com os minis-térios. Se não foram sinceros [isto é, alegando outros motivos para a recusa], eu o fui. Pro-vavelmente julgaram que não era chegada a época dos Conservadores puritanos.” Ibid.

92 Correio Mercantil, 19 de dezembro.

ajustar as contas da fração liberal que apoiara o gabinete com os ministros que ela responsabilizava pela traição, o mesmo Correio Mercantil aproveita a entrada do novo ministério para uma longa série de recriminações que vão a todo o gabinete.

E já que estamos em maré de dar conselhos [escreve ele em 16 de dezembro] permitam-nos os ministros novos que lhes digamos o seguinte:

Não prometam o que não puderem cumprir e cumpram o que prometerem.

Quando não quiserem satisfazer o pedido de qualquer pretendente não lhe digam que foi o Imperador que não quis. Quando fizerem alguma nomea-ção escandalosa não se defendam com meias palavras, dando a entender que o ato partiu de um poder elevado. Não adiem os negócios, que assim os complicam; não adiem as nomeações efetivas, porque as interinidades re-velam fraqueza do ministro ou falta de gente no país. Nem afrontem as câ-maras nem as adulem: conquistem maioria com dignidade, respeitando os homens, discutindo com eles, esclarecendo a opinião. Não se rodeiem de mistérios, não imponham de graves nas insignificâncias. Resolvida qual-quer nomeação ou negócio, não o comuniquem a todos os amigos, pedindo segredo e dando por pretexto que a Coroa recusa assinar o que for divulga-do pela imprensa. Não deem ajudas de custo secretas: declarem francamen-te às câmaras que há serviços mal retribuídos e peçam dinheiro a quem pode dá-lo licitamente. Quando pedirem loterias para divertimentos, decla-rem logo que é para protegedecla-rem as suas cantoras prediletas ou para alcan-çarem o apoio de tal ou tal influência, mas não façam jogo com a vontade ir-responsável. Deixem que a presidência do Rio seja livre, como as outras; não a abafem com imposições, não a tornem roda de enjeitados, não patrocinem esbanjamentos de dinheiros. Em suma, já que Deus lhes concedeu saúde e o uso perfeito dos olhos para serem ministros, façam o que outros não quise-ram fazer por doentes: governem.

Esse artigo dá lugar a esta nobre carta, datada de 16 de dezembro, em que Saraiva se retrata como efetivamente era:

No Correio Mercantil de hoje leio o seguinte, entre os conselhos dados aos atuais ministros da Coroa: “Quando não quiserem satisfazer o pedido de qualquer pretendente não lhe digam que foi o Imperador que o não quis.

Quando fizerem alguma nomeação escandalosa não se defendam com meias palavras, dando a entender que o ato partiu de um poder elevado.”

Estou persuadido de que não está em suas intenções ofender tão gra-vemente os ministros passados, e especialmente os que se retiraram em 11 do corrente. Pode, porém, alguém acreditar que suas palavras têm re-ferência ao gabinete de 4 de maio, e é contra essa rere-ferência que julguei dever protestar não somente como ex-ministro, porém ainda como homem de bem, que compreende os deveres da sua posição e as exigências do sis-tema representativo.

Formo do caráter dos meus ex-colegas a mais lisonjeira opinião, e estou convencido de que em circunstância alguma invocaram eles para diminuir a sua responsabilidade um nome que deve estar acima das lutas, dos ódios e dos interesses. Quanto a mim, direi apenas o seguinte: fui sempre um dos mais íntimos amigos do redator em chefe do Correio Mercantil, ele que diga ao país se nunca me ouviu invocar aquele nome para diminuir a minha responsabilidade. Como homem de honra, teria o maior pejo de confessar que alguém, por maior que seja no meu país, em relação a todos e especial-mente à minha insignificante posição, tem o poder de obrigar-me a tomar a responsabilidade, não direi de uma nomeação escandalosa, porém de atos que não encontrem apoio em minha consciência.

Felizmente para mim e para o meu país, não tenho receio de encontrar, em posição alguma em que me ache colocado, esse poder magnético capaz de entorpecer brios e dignidade.

Felizmente para o meu país, os ministros encontrarão sempre acima de si uma influência salutar, sempre inclinada ao bem, sempre desejosa de evitar o mal, porém bastante ilustrada para aceitar todas as observações justas, respeitar todas as convicções sinceras.

Felizmente para o meu país, se os ministros atuais nada fizerem, se não fizerem tanto quanto desejarem e se pode esperar, devem só queixar-se de si, das circunstâncias, de tudo, menos de não terem liberdade de ação, que resulta sempre, para os que governam, da pureza de consciência, da gran-deza e fortaleza de caráter.

CAPÍTULO II

Gabinete Abaeté-Sales Torres

Homem (1858-1859)

No documento UM ESTADISTA DO IMPÉRIO (páginas 178-184)