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5 QUEM SÃO OS ESTUDANTES DO CENTRO UNIVERSITÁRIO AGES

5.2 VIDA ACADÊMICA

Este tópico, Vida acadêmica, corresponde ao segundo bloco do questionário, que teve por objetivo obter dados relativos ao cotidiano universitário, programas pelos quais estudam e como eles exercem o ofício de estudantes, a saber: os tipos de leitura realizada no último ano, os hábitos de leitura e escrita. As atividades de leitura, interpretação e escrita de textos de acordo com a normatividade acadêmica, exigem habilidades intelectuais como concentração, interpretação, coerência, clareza. Concomitantemente, exigem a objetividade na fala, capacidade de análise da fala do outro, demonstração de perspicácia, de atenção, o que se pode chamar de código de “etiqueta universitária” (BICALHO, 2004). Compreender seus hábitos, frequência e tipos de leitura, bem como sua atividade de escrita nos ajuda a entender melhor quem são os estudantes pesquisados e suas práticas culturais acadêmicas.

Segundo Coulon (2008, p.114), “ser estudante é se autorizar a sê-lo”. Autorizar-se é ser autor de si, autorizar-se a uma atividade da vida intelectual, acadêmica. Nesse sentido, é se permitir a ler, escrever, a pensar, sem cogitar a possibilidade de pensar que isso é uma perda de tempo.

Assim, aos estudantes, foi perguntado quais os tipos de leitura que realizavam com mais frequência em sua vida acadêmica e que tivessem sido feitas no último ano, eles poderiam marcar até quatro alternativas. Das quinhentas e quatorze (514) respostas, 44% dos estudantes da amostra declaram ler mais livros e periódicos científicos, a essa categoria incluem-se material específico do curso, artigos científicos, periódicos, teses, dissertações, jornais, revistas. Para 29% são materiais de entretenimento aquilo que mais leem, aqui estão revistas em quadrinhos e sites. Já 26% tem lido literatura, a essa categoria estão o romance, a crônica, ficção e livros de poesia. Segue o quadro41 evidenciando esses resultados:

Quadro 20 - Tipos de leitura realizada no último ano

Porcentagem LITERATURA (Romance, crônica e ficção, livros de poesia) 26%

LIVROS E PERIÓDICOS CIENTÍFICOS (Material específico de seu

curso, como artigos acadêmicos, periódicos, teses ou dissertações, Jornais,

Revista de Informação Geral) 44%

ENTRETENIMENTO (Revista em quadrinhos, sites de internet) 29%

TOTAL 100%

Fonte: criação da autora (Junho de 2016)

Os dados evidenciam que a leitura de periódicos científicos e livros é uma atividade com um percentual importante, no entanto inferior à soma das outras duas categorias, respectivamente: Literatura 26% e Entretenimento 29%. Tem-se, portanto, um total de 55%.

A categoria literatura não deixa de ser material acadêmico, mas os resultados não foram tão expressivos, isso talvez porque são tipos de leituras que são realizadas marcadamente pelo curso de Letras, e do total de estudantes que responderam ao questionário, somente quatorze (14) eram do curso citado, porém, isso não impede que estudantes vinculados a outros cursos tenham esse hábito de leitura.

Neves (2012) abordou, igualmente em sua pesquisa com estudantes universitários da UFF-Campos, a categoria da leitura. A pesquisa revela que os estudantes leem para conhecerem a lei e/ou como entretenimento (livros de ficção, romance, a Bíblia), livros em sua grande maioria indicados por amigos, por alguém da família, por último, por professores. Os sites da internet vêm em primeiro lugar, quando se trata dos tipos de leituras realizadas no último ano e cerca da metade dos estudantes dizem que leu jornais. Em relação aos artigos acadêmicos, periódicos, teses ou dissertações, a frequência variava entre os cursos, em escala decrescente: 54% dos estudantes de Serviço Social declaravam ler esse tipo de texto sempre ou quase sempre; 44% dos estudantes de Ciências Sociais; 38% dentre os futuros geógrafos; e apenas 26% dentre os estudantes de Ciências Econômicas.

Ao analisar os resultados, causa-nos certa perplexidade se tomamos como função primordial da universidade a produção científica do saber, e o compartilhamento de saberes validados pela comunidade científica, saberes estes veiculados prioritariamente via site de internet. A essa categoria científica poucos são os estudantes que usam significativo tempo para a leitura. Ainda nos resultados de Neves (2012), do total de estudantes pesquisados apenas 40,5% diziam ler artigos acadêmicos, periódicos, teses ou dissertações, resultado concomitante aos dos estudantes pesquisados no UniAGES, quando apenas 44% o fazem.

Quadro 21 - Hábitos de leitura42

Porcentagem

Leituras de livros (Íntegra ou Parcial) e material da disciplina 40% Materiais diversos e não relacionados às disciplinas que cursam. 23%

Uso de dicionário e re-leitura do texto 35%

Não costuma ler 2%

TOTAL 100%

Fonte: criação da autora (Junho de 2016)

A prática de leitura é um dos instrumentos privilegiados, senão o mais importante, do ofício de estudantes (COULON, 2008). Sobre os hábitos de leitura, os alunos podiam assinalar até seis (6) alternativas. As respostas encontradas foram organizadas em quatro (4) categorias como exposto no quadro acima. Na a primeira categoria, Leituras de livros (Íntegra

ou Parcial) e material da disciplina, estão: leio um livro a cada seis meses; leio mais de um

livro a cada seis meses; leio mais de um livro ao mesmo tempo; leio fragmentos de livros; leio todo material que os professores indicam. Na categoria Materiais diversos e não relacionados

à disciplina: leio com frequência jornais, realizo leituras não relacionadas ao meu curso como

artigos, resenhas, resumos, textos jornalísticos, literários...; visito a biblioteca a fim de realizar leituras de livros, revistas, jornais. Na categoria uso de dicionário e re-leitura na atividade de

leitura estão inclusas: quando não sei o significado de alguma palavra uso o dicionário;

quando não compreendo um texto faço uma re-leitura. E por fim, a última categoria não

costuma ler.

Das seiscentas e setenta e duas (672) respostas, apenas 2% dizem não ter o costume de ler, 40% dizem ler livros sejam completos ou parciais, além de realizarem a leitura de todos os materiais que são solicitados pelo professor e 35% declaram fazer uso do dicionário quando encontram um termo desconhecido, declaram também sempre fazer uma re-leitura do texto para melhor compreendê-lo, conforme está evidenciado no quadro 21.

Na pesquisa de Neves (2012) fica evidenciado que 30% dos estudantes afirmavam que só liam o necessário (número que sobe para 43% dentre os estudantes de Ciências Econômicas). Torna-se importante, nesse conjunto de dados trazer as considerações da citada autora, quando em sua pesquisa diz:

[...] se esses estudantes dizem ler apenas o necessário e se durante o tempo gasto não incluem as leituras básicas a serem efetuadas por um estudante universitário, podemos inferir que eles ainda não são capazes de identificar as tarefas a serem realizadas e que sua afiliação intelectual ainda está por acontecer [...] (NEVES, 2012, p. 23).

A universidade exige e, quase sempre, ajuda a construir um tipo de relação que denominamos relação acadêmica com o saber, demandando novas habilidades linguísticas, mentais e relacionais (BICALHO, 2004), onde estão a cultura da leitura e da escrita. Desenvolver o hábito da leitura é, portanto, salutar para o sucesso do estudante e sua afiliação às práticas da universidade, ela contribui para a construção do conhecimento, amplia o vocabulário, melhora o poder de interpretação, bem como a cultura da escrita. Ler é poder ser autônomo.

Uma característica das práticas universitárias que a diferencia daquelas do ensino médio é a atividade de pesquisa e de desenvolvimento da competência de escrever textos acadêmicos. Assim, concomitante à leitura, a escrita é também um instrumento importante no ofício do estudante universitário. Escrever é ser capaz de compreender como as coisas são, e como elas não são. É poder assinar seu nome, e igualmente escrever o nome da amada. Ler e escrever dois aspectos de poder para o sucesso do estudante. Talvez, quem não sabe ler nem escrever seja capaz de entender seu significado. É chegar uma carta e saber para quem foi endereçada, é poder viajar, pegar um ônibus, é poder fazer uma compra pela internet, enfim, é ganhar liberdade de ir e vir, de pensar e se expressar. Segundo Coulon (2008), escrever é adquirir facilidade para organizar, expor e utilizar adequadamente os saberes. Isto significa não somente compreender o que o professor explica, mas também, e sobretudo, analisar e desenvolver uma argumentação.

Sobre a atividade de ler e produzir textos os estudantes podiam assinalar até quatro (4) alternativas. As opções foram organizadas em quatro categorias: Analisa o que escreve: Revejo um texto uma (1) ou duas (2) vezes antes de considerá-lo pronto; Peço a outras pessoas para analisarem se o que escrevo está claro ou correto. Consulta a gramática ou

dicionário: para esclarecer dúvida quando escreve. Facilidade de escrever e adequar o vocabulário: nessa categoria estão o uso de um vocabulário especializado e acadêmico

quando escreve sobre o curso que estuda, a coerência do que escreve para quem lê, a facilidade de colocar no papel as ideias, escrever textos acadêmicos com facilidade e por fim, concentrar-se durante a escrita de um texto. Por fim a última categoria, não tem o hábito de

escrever.

De forma bem expressiva, das quatrocentas e setenta e duas (472) respostas dos estudantes pesquisados, 41% dos estudantes dizem sempre fazer uma análise do texto que escreve, 40% declararam ter facilidade de escrever e adequar ao vocabulário, 17% dizem fazer uso da gramática e do dicionário e Apenas 3% dizem não costumar escrever. Segue abaixo o quadro evidenciando esses dados:

Quadro 22 – Sobre a atividade de ler e produzir textos43

Porcentagem

Analisa o que escreve 41%

Consulta a gramática ou dicionário 17%

Facilidade de escrever e adequar o vocabulário 40%

Não tem o hábito de escrever 3%

TOTAL 100%

Fonte: criação da autora (Junho de 2016)

Pelos dados, 81% dos estudantes declaram ter facilidade de escrever e analisar o que escreve. Essa é uma declaração que apresenta certa incongruência quando se percebe que mais de 90% dos estudantes são provenientes de escola pública e esta ainda não disponibiliza uma formação que garanta a todo estudante o ingresso na universidade sem grandes limitações e barreiras. Resultado diferente é encontrado na pesquisa de Bicalho (2004), onde aponta insegurança, dificuldade de escrita, “estudantes dizem não saber escrever”. É salutar, agora, entender o que os estudantes da amostra pesquisada no UniAGES entende por escrever, por facilidade de escrita e adequação do vocabulário, qual a relação desses estudantes com o saber acadêmico. Por isso, o próximo tópico se deterá a análise dos Balanços de Saber, sobre detidamente essa relação com o saber acadêmico, concomitante a análise do texto sobre adequação do vocabulário, e à gramática normativa.

6 O QUE DIZEM OS BALANÇOS DE SABER

A heterogeneidade do público universitário no contexto dos programas Fies, ProUNi e ProVIDA trouxe ao UniAGES estudantes que possuem relações novas e diversas com o saber, ainda que uma função tradicional da universidade permaneça, quer seja, possibilitar aos estudantes o distanciamento dessas relações e a entrada em “um certo tipo de atividade intelectual”, situando suas experiências de vida e trabalho em “sistemas de saberes” (CHARLOT, 2006).

Esses estudantes, que ingressam no UniAGES, segundo os dados do questionário, são jovens, predominantemente do sexo feminino, oriundos de famílias com baixa renda e que, sendo os primeiros de suas famílias a ingressarem na Universidade, ultrapassaram a escolaridade dos pais. Assim, a fim de melhor compreendermos as relações que esses estudantes estabelecem com o saber acadêmico e com a universidade, bem como o significado e o sentido que atribuem aos saberes acadêmicos, esta seção analisará os dados produzidos a partir do Balanço de Saber por eles elaborados. Vale lembrar que o Balanço do Saber é um instrumento de produção de dados concebido por Charlot (2000) que consiste na formulação de um registro escrito pelos sujeitos da pesquisa a partir de questões apresentadas pelo pesquisador. Como recurso metodológico, espera-se identificar e analisar a partir do Balanço de Saber, as experiências de aprendizagens que os estudantes registram quando solicitados a refletir sobre as questões enunciadas (CHARLOT, 2009). Assim, é um instrumento que permite perceber não o que o estudante aprendeu objetivamente, mas o que para ele tem importância, valor, sentido. Por isso, foi um instrumento aplicado sob a perspectiva de, a partir dos dados, permitir a compreensão e análise da relação que os universitários têm com o saber acadêmico e se essa relação mantém vínculo com os projetos que elaboram para o futuro.

Diante disso, em decorrência dos objetivos da pesquisa serem: verificar qual a relação estabelecida entre os universitários e o saber acadêmico; identificar quais sentidos os estudantes que ingressam no UniAGES pelos programas ProUni, Fies e ProVIDA atribuem ao saber acadêmico e quais os projetos elaboram para o futuro, as questões arroladas para o Balanço de Saber foram as seguintes:

Desde que nasci, aprendi muitas coisas... e agora estou na Universidade. O que tenho aprendido na Universidade? E aprendeu com livros, com professores, com colegas...? O que lhe parece mais importante nesta aprendizagem? O que é importante para mim nisso tudo?

E agora, o que eu espero, quais os meus projetos e expectativas para o futuro depois que me formar?

É importante destacar que o Balanço de Saber foi um instrumento aplicado junto ao questionário a estudantes do primeiro e segundo período do Centro de Ciências Biológicas (curso de Ciências Biológicas), do Centro de Ciências da Saúde (curso de Educação Física), Ciências Exatas e da Terra (Curso de Física, Química e Matemática), Ciências Humanas (curso de Pedagogia) e por fim, do Centro de Linguística, Letras e Artes (curso de Letras). Diante disso, 176 estudantes responderam o Balanço de Saber, no entanto, considerou-se os registros escritos de 170 estudantes, visto que foram definidos critérios: serem bolsistas do ProUni, Fies ou ProVIDA. Assim, 6 estudantes não eram bolsistas de nenhum dos programas, desse modo, seus escritos não compuseram a análise. Na análise do Balanço de Saber foi considerado o conjunto dos escritos independente do curso, sexo, programa de financiamento quer seja ProUni, Fies ou ProVIDA. Todos os Balanços de Saber foram lidos, sistematizados em torno de questões, as respostas dos estudantes para cada pergunta foram compiladas em categorias, propiciando a análise, bem como a quantificação.

As questões supramencionadas compõem as subseções deste capítulo, intituladas: o

que os estudantes dizem ter aprendido na Universidade; onde aprenderam e com quem; o que, na experiência universitária, é importante para os estudantes, por fim, quais as expetativas dos estudantes para o futuro. A primeira subseção tratará das aprendizagens que

são mais preeminentes na atmosfera dos saberes acadêmicos. A segunda versará sobre os agentes de aprendizagem, professores, colegas, livros, internet, etc., e os espaços em que essas aprendizagens ocorreram – em casa, na família, ou na escola –, enfim focará em torno de quem os ensinaram as aprendizagens que por eles foram evocadas e onde aprenderam. A terceira tomará como eixo de análise a importância atribuída a certo tipo de aprendizagem. Das aprendizagens elencadas, as quais são atribuídas maior relevância e sentido pelos estudantes. Por fim, a última subseção contemplará as expectativas e os projetos que os estudantes almejam para o futuro, analisando as interseções entre esses projetos e a relação que estabelecem com o saber acadêmico.

Diante do exposto, apresentamos a seguir a análise do que os estudantes dizem ter aprendido na Universidade, com um foco nas aprendizagens que foram evocadas por eles no Balanço de Saber. Por compreender que essas são aprendizagens que se processam e se constroem com o auxílio de pessoas, materiais, lugares os agentes das aprendizagens (com quem eles dizem ter aprendido) serão igualmente discutidos. Além disso, serão, também nesta seção, tratados o sentido e a importância atribuída pelos estudantes às aprendizagens evocadas

e à situação de “estar’ na condição de estudante universitário e viver essa experiência, isso também a partir dos projetos e expectativas que os estudantes elaboram para o futuro. Essa análise foi empreendida tomando como ponto de partida a interpretação da autora. Além disso, fez-se uso, também, de categorias já elaboradas por Charlot, as quais nos inspiraram a criar também as nossas. Tal análise, portanto, será apresentada em subseções.