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Superadas as políticas sociais baseadas no Welfare State, comuns naquilo que sucedeu ao mundo Pós-guerra, os modelos de gestão da vida e, consequentemente, dos enlaces atinentes ao âmbito judicial, sofrem significativas mudanças de paradigma esgotando-se a racionalidade das sociedades disciplinárias e assumindo em seu lugar a lógica das sociedades de controle (CABANA; GARCÍA, 2006). A crise fiscal do Estado, mais notoriamente a partir da década de 70, assume incisiva implicação nas formas de legitimar as intervenções na esfera jurídico-penal, momento em que o sistema criminal de ordem reabilitadora – nominado welfarista -

perde espaço, passando a ser adotada uma postura lógica criminal do custo-benefício. Ora, tratar o indivíduo e buscar sua reinserção social destoa abertamente dos anseios e apelos econômicos da política conservadora neoliberal tornando fértil o terreno para implementação da racionalidade de mercado a qual abraça concepções fundadas em contenção das despesas (BEIRAS; MASÓ, 2005).

Enquanto nas sociedades disciplinárias o sistema welfarista construía-se em modelos de reabilitação e interação social, ancorado em pensamentos imbuídos na empatia e solidariedade, observa-se que nas sociedades de controle as palavras de ordem cambiam para a noção do risco e vigilância permanente. Nesse sentido, a lógica punitiva do crime deixa de se fazer aplicada ao indivíduo e nos saberes de suas particularidades, passando a se concentrar em categorias inteiras de sujeitos, iluminando o conceito de periculosidade e adotando técnicas de contenção de ameaças (GIORGI, 2006).

Para esse mesmo sentido aponta Bauman (2009, p. 11) ao explicar que, a partir dos anos 70, a história da humanidade percebe uma grande transformação. Segundo o autor, esse decênio separou os anos gloriosos vividos no período Pós- guerra do momento atual. Se, no período iminentemente posterior ao caos bélico de 30 e 40 houve um tempo cercado por otimismo e de uma perspectiva notoriamente desenvolvimentista, o que passa a se verificar na contemporaneidade ou “novíssimo mundo” como clama o filósofo polonês (2009, p. 12) são as disparidades gritantes entre um norte rico e seu festival consumista, e a exclusão e o sofrimento infligidos ao restante do planeta.

Há, portanto, “a contemplação de todo um espetáculo de riqueza em um extremo e de pobreza no outro” (BAUMAN, 2009, p 12). Essa situação é acompanhada pelas migrações econômicas rumo ao Ocidente imperial e o desejo de segregação e construção de barreiras pelas potências do novo século termina por ganhar amplitude. Nesse mesmo período verifica-se que, no interior das sociedades globais, há a passagem de um modelo de Estado social e de comunidades inclusivas para um Estado excludente e de sociedades segregacionistas. Esses fatos são importantes elementos que constituem a redefinição de um Estado que se retrai das esferas econômicas e social, passando a concentrar esforços em políticas de segurança e na intervenção penal.

Nessa ceara, o paradigma central das políticas de governo será a gestão de grupos que atentem à habitualidade social. Assim, os infratores deixam de ser

interpretados como cidadãos que necessitam de apoio ou reintegração social, para serem lidos como indivíduos indignos e certamente perigosos à parcela legítima da sociedade (BAUMAN, 2009). Daí que o surgimento de técnicas cada vez mais amplas de restrição de direitos e exclusão começam a ser empregadas, momento no qual a própria ciência denominada criminologia “deixará de se ocupar da infração em si para lançar seu olhar sobre o indivíduo criminoso, sobre o que eles são e sobre o que possam vir a ser” (NASCIMENTO, 2014, p. 39).

O julgamento penal inicia então a análise de um status de normalidade, punindo com vigor todo àquele que não se adequa ao padrão desejado – um ‘anormal’ - e que não se mostre capaz de conviver sem colocar em risco a sociedade. Surgem novas técnicas de controle e gestão, tomando classes de humanos por conjunto, manipulando contingentes completos da população. Nas sociedades da insegurança, as normas penais tratarão de atender ao clamor coletivo que, rotineiramente, atribui a desconhecidos – forasteiros concretos como refugiados e imigrantes – toda a ordem de males que cercam o mundo Pós-moderno de modo a descarregar sua angústia excedente (NASCIMENTO, 2014).

Desenha-se assim o discurso criminológico atuarial, forte em abordagens que se prestam a identificar e estigmatizar classes consideradas com uma propensão maior ao delito sendo prontamente reputadas perigosas para a ordem do poder constituído. O controle de corpos não mais se direciona a indivíduos concretos, mas se projeta ferozmente sobre o corpo social, na medida justa em que se adotam formas de cálculo e gestão do risco e se passa a dispor dos mais variados dispositivos para sua execução. As terapias biopolíticas de higiene social aglutinam-se perfeitamente ao propósito da justiça atuarial purificadora vigente, cujo traço fundamental apoia-se na atuação da força antes mesmo da materialização de um delito qualquer e na atribuição do crime à própria existência como fato delituoso em si (ESPOSITO, 2010; GIORGI, 2005).

Conforme Beiras e Masó (2005, p. 15), importa assinalar que o abandono do ideal reabilitador expõe cada vez mais o cárcere “como instrumento de incapacitação de grupos inteiros de pessoas (a denominada incapacitação seletiva)”, sempre na ótica soberana do processo imunitário de segregar vidas precárias – inúteis e dispensáveis ao consumo – das vidas portadoras de direitos – e crédito bancário.

Nesse sentido, multiplicam-se as medidas normativas de caráter excepcional, nutridas pela permanente sensação de insegurança da multifacetada

realidade Pós-moderna. Opera-se o absurdo ao punir o homem por sua biografia, restando em segundo plano a ocorrência de eventual fato-crime. Fenômenos segregacionistas, tais quais os mecanismos de expulsão administrativa de imigrantes irregulares, atuam como meio de prevenção delituosa em espaços geográficos proibidos aos grupos degenerados os quais devem ser mantidos afastados, social e espacialmente. Assim sendo, os cálculos de poder operam junto às normas de exceção, cujas quais não mais se destinam aos crimes, mas à condição de todo aquele marcado para sempre como parte integrante de uma ou outra underclass (CABANA; GARCÍA, 2006; TEIXEIRA, 2015).

No momento em que a “indecisão, a prevaricação e procrastinação são os nomes do jogo” (BAUMAN, 2016, p. 29), é chegado um tempo de pleno desequilíbrio entre o Direito público e o fato político. Como um cântico de ordem obscura, disseminam-se normas excepcionais, desenhando-se sistemas normativos tortos, zonas límbicas em que não pode enxergar um direito especial, mas a suspensão do próprio ordenamento jurídico em si, o qual, paradoxalmente, permite e ratifica a existência de medidas racistas, violentas e criminalizadoras (AGAMBEN, 2004, p. 12- 15). Como resultado, corpos são aprisionados dentro dos limites normativos permitindo que a própria vida do cidadão – bíos - esteja sumariamente disposta à vontade política abominavelmente pensada para legitimar a indiferenciação entre violência e o direito em si.

O estado de guerra global permite a definição de relações de poder ancoradas em traços de dominação completa da vida nas suas mais variadas formas e sentidos. Em busca de algum porto seguro, os cidadãos outorgam ao ente soberano a possibilidade da suspensão de direitos e garantias, ovacionando a criminalização de condutas na mais verdadeira forma de populismo punitivo. As leis antiterrorismo e sua ampla margem de possíveis interpretações ganham força dentro de uma proposta que funde argumentos políticos, jurídicos e militares. Mostra-se em voga, pois, uma possível cultura da excepcionalidade penal, em que a obsessão securitária autoriza formas desarrazoadas de repressão (AGAMBEN, 2004). Sobre esse aspecto, Alessandro De Giorgi (2005, p. 82) conclui:

Todas as políticas sobre imigração extracomunitária parecem inspirar-se em uma filosofia político-legislativa que considera a população imigrada como um grupo social potencialmente desviado, cujos comportamentos se devem prever e ser previstos, cujos fluxos se devem conter e limitar, e cuja condição

jurídica quase sempre vem determinada por um contexto marcado pela emergência (tradução própria).

Compondo a ordem biopolítica moderna, desnudam-se disposições normativas dos códigos penais de diversos estados ao redor do globo. Na Espanha, a criminalização de imigrantes ultrapassa a mera segregação, vai além, nomeia e violenta a condição de vida na ordem dos milhares. A equiparação entre o auxílio ao imigrante irregular e o tráfico de humanos prevista no já mencionado Art. 318 do Código Penal Espanhol, depreda o senso da proporcionalidade, oferecendo a mesma leitura para condutas absurdamente distintas. Na Itália, a negativa em prestar informações pessoais às autoridades é crime previsto no Código Penal italiano: ao imigrante que se nega a ceder tais informações aplica-se um castigo com cárcere de até 6 meses e multa de cerca de 400 euros; enquanto que, ao cidadão italiano, a pena prevista é de até um mês de reclusão e multa de 200 euros – atropela-se a razão com diferentes leituras para condutas absolutamente iguais (GIORGI, 2005, p. 97; LYRA, 2013, p. 52).

Afora as normas singulares aplicadas aos grupos de indivíduos e sua condição existencial – perfazendo da vida um crime em si – os centros de detenção provisória multiplicam-se e destinam-se a absorver toda a orla de um vasto mar de humanos indesejáveis, estranhos aos que residem no lado de dentro – do mercado, dos condomínios, da sociedade. Na Espanha, não sendo possível a expulsão imediata do imigrante pobre, tampouco que se realize sua devolução ao país de origem, é facultado ao chefe de polícia a internação pelo tempo que for necessário nos centros de permanência temporal. O tratamento conferido aos corpos detidos, também comum em outros países da União Europeia, conforma o processo de securitizar – sem jamais resolver - o problema imigratório, formando a imagem espectral do Outro; assombrosamente culpado antes do crime, discricionariamente punido por seu status e sumariamente rotulado como perigo (BAUMAN, 2017, p. 46; GIORGI, 2005, p. 99- 01).

A incapacitação seletiva de grupos coloca em cena algumas das mais diversas e pérfidas formas de controle social. Observa-se, preponderantemente, a aplicação sistêmica da força punitiva no intuito único de erradicar fisicamente do convívio aquele que se rotula como potencialmente perigoso. Woude e Berlo (2015, p. 61-3) trazem o termo crimigração como forma de nominar a fusão cada vez maior entre normas criminais e aspectos dos fluxos migratórios, algo que se pode facilmente

observar como norte jurídico de grande parte das democracias liberais ocidentais nas duas últimas décadas, ratificando o modelo mixofóbico de conduta social.

O monopólio da violência legítima que é atribuído, desde a Modernidade, ao titular da soberania designa, em tese, a diferenciação entre uma violência justificável e outra não justificável. Todavia, nos Estados democráticos de direito, compreendidos como estados de exceção, a qualificação do justo e do injusto por meio da instituição de normas parece ter por escopo tratar da própria vida; reputando- a digna ou indigna e tecendo os parâmetros que operam a máquina estatal fazendo- a atuar, cada vez mais, no intuito de legitimar a imposição da violência a um número sempre maior de seres (NASCIMENTO, 2012, p. 124).

Sob esse aspecto, pode-se afirmar que a própria instituição de um governo e o rompimento com o estado natural do homem já opera certo grau de violência e a organização racional da sociedade é, em si mesma, um estado de exceção à normalidade habitual da vida humana. A regulamentação que pressupôs as sociedades modernas evidencia como a instituição da lei e a força estiveram sempre imbricadas (NASICMENTO, 2012, p. 125). Nesse passo, Agamben (2007, p. 96), tomando por base os estudos de Walter Benjamin, dispõe a violência como “meio fundador do direito”, necessariamente a ele vinculado, de forma tão estreita que um se torna pressuposto fundamental do outro.

Pouco sobra ao homem quando a sua vida encontra razão somente em seu fim. Menos ainda resta ao homo sacer, cujo qual nem mesmo o morrer é verdadeiro, pois não há forma de atribuir sentido a sua existência. A vida nua, portanto, apenas perece a partir do momento em que não a deixem mais viver. As detenções por tempo indefinido e os processos a serem – excepcionalmente – conduzidos por autoridades militares, são claros exemplos do malfadado destino imposto a todos não-cidadãos americanos suspeitos de envolvimento com atividades terroristas. A norma, prevista desde 2001 pelo military order, assume contornos difíceis de precisar tendendo a explorar possibilidades cada vez mais amplas num cenário global exacerbado de racismo étnico e social (AGAMBEN, 2004, p. 14; DUARTE, 2010, p. 228-31).

Se há, de fato, que se contar sobre classes perigosas, talvez faça mais sentido rotular os governos do ocidente e seus campos de concentração Pós- modernos. A possibilidade sempre presente de que se faça a exceção e se amplifique a vida nua, sugere alerta e fundado temor. O vertiginoso aumento do número de

refugiados e imigrantes encarcerados não se traduz em correspondente aumento nos crimes cometidos por essas categorias de indivíduos, mas justifica-se, antes de tudo, na produção de leis direcionadas especificamente a criminalizar tais vidas (BEIRAS; MASÓ, 2005, p. 82-3). Naufraga, portanto, qualquer postura coletivista frente à insegurança e instabilidade permanentes no mundo atual, canalizando-se um mar aberto de angústias e frustações do homem contemporâneo sobre todo forasteiro que pretenda seu barco atracar (BAUMAN, 2016, p. 114).

Em grande medida, os extranumerários, indesejáveis e redundantes, são a lembrança incômoda de uma série de fracassos que a humanidade não parece disposta a confrontar. De olhos bem fechados, a cegueira moral que permite enxergar apenas um mundo limpo, saudável e harmonioso, refuta a realidade por detrás dos arames farpados e tranquiliza-se ao entender o problema como sendo global e, justamente por isso, não dizer respeito individualmente a ninguém. Todavia, as falácias opioides que afagam e alentam as dores mundanas, não podem encobrir plenamente o fato de que, sendo parte dos movimentos humanos transnacionais, os refugiados têm o amplo poder de exibir a irracionalidade e a fragilidade do sistema estatal, assim como denunciar a urgência de novos meios políticos que atendam satisfatoriamente aos apelos humanitários do planeta globalizado e ajam no sentido reduzir as diferenças então por ele (re) produzidas (BAUMAN, 2017; BENHABIB, 2012).

Não deve resistir, pois, o senso comum que pretende o direito como antagônico à violência. Sem exageros, inala-se derrotada a inocente visão de que por meio do transbordamento normativo há de reinar a paz e a justiça. Direito e violência, ao contrário, desnudam-se em secreta cumplicidade, coirmãos, faces da mesma moeda. A vida nua, entregue ao deleite soberano, tem no próprio ordenamento jurídico a justificativa única de sua chaga, o sem sentido de sua existência e a disponibilidade plena de sua vida - e morte. Se o direito decide matar para que se faça viver, bebe da violência mais do que dela se afasta. Assinala-se, sobremaneira, que os Tempos Modernos são marcados pela mais plena indiferença entre violência e norma, e que a vida abandonada pela lei no estado de exceção será por ela futuramente extirpada, jogada legitimamente num campo qualquer, punida pela sua forma e força em existir, punida pois a vida lhe é dada – e tomada – como inefável delito (AGAMBEN, 2015, p. 104; TEIXEIRA, 2015, p. 20).

3 ESTRANHOS PARA TODO SEMPRE: REFUGIADOS PERANTE À NOVA ORDEM GLOBAL

“O holocausto foi uma aberração ou apenas um reflexo do que somos?”

(Monumento ao holocausto – Berlim)

A vida num mundo em permanente estado de exceção é também a vida cercada pela mão fria da indiferença. As notas de um medo difuso, imploram pela amplificação das medidas de cunho securitário, na mesma medida em que o Outro se revela na imagem do inimigo a ser combatido. A violência imposta ao forasteiro se reputa legítima, pois merecedor do peso da espada ao ameaçar constantemente aquilo que a sociedade legítima às duras penas conquistou.

Desse modo, os sem papéis devem ser punidos. Suas vidas errantes são, por si mesmas, caluniosas em relação à comunidade política. Todos são culpados e não importa que se conte doutro modo suas histórias. Impassíveis de reintegração, esses rostos sem face precisam ser vigiados, segregados e, um pouco mais além, fisicamente eliminados. Seu processo de animalização é percebido numa condição de sobrevivência – ‘estar vivo, apesar de’. Uma vida meramente biológica que, imprópria à cidadania, não goza das prerrogativas àquelas inerentes ao cidadão.

Nesse tom, o presente capítulo caminha por uma abordagem de cunho eminentemente sociológico acerca da vida de refugiados na contemporaneidade. Não mais que andarilhos, cuja passagem imprescinde sempre de autorização, veem-se comumente afastados da possibilidade de formação de laços comunitários, marginalizados diante daqueles inscritos no outro lado da fronteira. Por entre um e outro check-point aduaneiro, sua existência é plenamente manipulável ao passo que submetidos a regimes normativos próprios, cuja finalidade é sempre a neutralização.

Mediante o amplo controle soberano sobre o pêndulo que oscila por entre a vida e a morte, prossegue-se, então, para uma visão crítica da forma como os Direitos Humanos são lidos e aplicados frente às vidas que pouco importam. Demasiadamente teóricos, arrogantemente universalistas; as declarações e tratados internacionais de proteção aos indivíduos, na prática, pouco parecem ofertar frente às contendas colhidas por grupos de refugiados e deslocados internos – condições essas que, por diversas vezes nas mesmas histórias de vida, dialogam entre si.

Por fim, a pergunta: o que vem após o diagnóstico? As palavras jogadas nas páginas precedentes, por vezes, denunciaram vidas indesejáveis – não mais que mera vida nua, matável sem qualquer punição. Afirmou-se o uso tático do direito,

mesclado à violência, apoiado no estado de exceção. Paradoxalmente constante, um sítio planetário desdobrado em seu alcance máximo na Pós-modernidade, o qual passa a tratar de uma órbita sempre maior de indivíduos. O controle da existência pela economia, fazendo da política um processo de segregação a respeito de quem deve ou não viver. Assim, pois, o fim da experiência e o fim do jurídico, delineados conjunta e brevemente com elogios à profanação.