Então, perguntaria o maniqueu: como compreender a ordem hierárquica da vida a partir dos organismos ínfimos, e até repugnantes como a vida das moscas? Afinal, o senso comum concordaria que nos insetos não há beleza alguma. Não seria evidente que a vida da mosca vale menos que astros grandiosos como o Sol e a Lua? Ao passo que Agostinho responderia sem titubear: não, ao contrário, a evidência mostra que a vida da mosca é mais excelente do que o Sol! O exemplo limite do inseto, que na escala dos viventes é ínfimo e, ainda assim, é mais excelente do que o maior ser na escala dos inorgânicos, serve para evidenciar a radicalidade da escala essencial proposta por Agostinho. De fato, a vida da mosca manifesta a atividade da alma sobre o corpo. Os corpos celestes como sol e a lua, venerados pelos maniqueus como bens máximos, continentes das luzes liberadas dos corpos pelas almas dos maniqueus “eleitos”, são bens inferiores se comparados às almas de pequenos insetos como as moscas. A pequenez do inseto contrasta com a magnitude espacial dos corpos celestes, e, no entanto, a evidência da superioridade da vida inteligível comanda que a alma da mosca seja considerada muito mais sublime que o sol.
Não se trata mais, evidentemente, de uma alma pensante (animus) que pensa imediatamente a vida, enquanto primeiro conhecimento. Então, como se dá a percepção da vida em outros seres para permitir Agostinho afirmar algo aparentemente contrário ao senso comum (que o inseto seja preferível ao sol)? Dar-se-á graças à participação das criaturas à perfeição do Criador e à capacidade da alma humana perceber a beleza das coisas sensíveis. O homem pode perceber formas e belezas inerentes aos seres
orgânicos, pois é natureza da atividade da alma que a vida seja comunicada ao corpo dos seres viventes, pelos “seus movimentos espontâneos e vividos, pelas suas atividades, seu caráter vivo e imortal” (duab. an. III, 3,, de anima conqueror, de spontaneo et
vivido motu, de actu, de vita, de immortalitate). A compreensão da
vida orgânica procede em dois momentos309 lógicos, não
necessariamente cronológicos: primeiro, pelo conhecimento necessário e imediato da vida pura enquanto ser pensante, pelo qual compreende que participa da Vida; segundo, mediante310 a percepção
sensorial da vida orgânica a partir das atividades de seres viventes:
Pois, pergunta-se: o que faz esses membros tão exíguos crescerem? O que leva um corpo ínfimo para aqui e ali conforme seu apetite natural? O que move seus pés ritmicamente quando está correndo? O que regula e faz vibrar suas asas quando está voando?311
Assim, o homem pode inferir por analogia312 ao seu
conhecimento intuitivo de vida, pensamento e existência, que exista vida comunicada aos corpos de outros seres, pois percebe características de sua própria vida nos movimentos dos outros viventes. Em A Verdadeira Religião, Agostinho enfatiza a beleza da atividade da vida orgânica dos insetos, que manifesta em maior grau
309 S. Menn, seguindo Gilson (vide nota anterior), relaciona Agostinho e Descartes à
mesma esteira metafísica de Platão. Assim, os fenômenos sensíveis são o passivo da atividade conceitual do intelecto, isto é, passagem do conceito à coisa sensível. Cite-se: "soul's reflection on itself is the necessary point of departure for coming to a... purely intellectual understanding of the realities underlying sensible phenomena". MENN, S. Descartes and Augustine. Cambridge: Cambridge University Press, 1998, p.112.
310 Sobre o caráter mediado do conhecimento sensível, cuja imagem do objeto é
representação acataléptica, consulte Pepin: “Il resort de cet examen que, pour Plotin comme pour Augustin, la connaissance sensible est une connaissance mediate” Pepin, Une curieuse.,p. 383; bem como Bermon, Le cogito., cap. IV.
311 duab. an. IV,4 Quaeritur enim, quid illa membra tam exigua vegetet, quid huc
atque illuc pro naturali appetitu tantillum corpusculum ducat, quid currentis pedes in numerum moveat, quid volantis pennulas moderetur ac vibret.
312 cf. Trin. VIII, 6,9. ex nostro credimus quem non novimus. Sobre o ‘argumento
de analogia’ em Agostinho e sua fortuna, consulte-se Mathews, G. Augustine on Reasoning from One’s Own Case. In: Medieval Philosophy and Theology. 1988.
a unidade criadora quando comparada aos seres inorgânicos. De fato, o corpo simétrico e proporcional já aponta para unidade criadora; no entanto, as atividades biológicas, que animam os corpos desses pequeninos e são causas dos movimentos corporais motivados pelo apetite natural por conservação, serão ainda mais belas quando comparadas a um simples corpo. Então, a Vida inteligível é manifesta nos corpos vivificados por derivação; e os homens, compostos de alma e corpo, podem perceber com os seus órgãos sensíveis oculares, a beleza específica dos pequenos corpos animados dos organismos vivos. Os organismos ínfimos, como insetos, mantêm suas atividades em razão da participação da unidade criadora, que é a Vida:
É preciso reconhecer que é preferível encontrar um homem a chorar, a um insetozinho a se alegrar. E contudo, eu posso fazer longo elogio ao inseto se considero o brilho de suas cores, a figura roliça do seu corpo, as proporções dos membros dianteiros, médios e traseiros, que mantêm toda uma exigência de unidade permitida a esse humilde grau de ser. Nele, não há parte alguma que não tenha em face outra correspondente, na mesma dimensão. E o que dizer da vida que anima esse pequenino corpo? E o modo como se movimenta em cadência? Como procura o que lhe convém, ultrapassando ou evitando os obstáculos, quanto pode. Tudo subordina a seu único instinto de conservação. Recorda ele a suma unidade criadora de todas as obras de natureza, muito mais do que um ser inorgânico. E digo isso de um insetozinho que de certa forma possui vida só em pequena escala313
313 vera relig. XLI,77 Necesse est autem fateamur meliorem esse hominem
plorantem, quam laetantem vermiculum: et tamen vermiculi laudem sine ullo mendacio copiose possum dicere, considerans nitorem coloris, figuram teretem corporis, priora cum mediis, media cum posterioribus congruentia, et unitatis appetentiam pro suae naturae humilitate servantia; nihil ex una parte formatum, quod non ex altera parili dimensione respondeat. Quid iam de anima ipsa dicam vegetante modulum corporis sui, quomodo eum numerose moveat, quomodo appetat convenientia, quomodo vincat aut caveat obsistentia quantum potest, et ad unum sensum incolumitatis referens omnia, unitatem illam conditricem naturarum
Pode-se afirmar, novamente em concordância com os que “pensam com seriedade a questão”314, que as almas das moscas são
superiores aos grandes corpos luminosos como o sol e a lua, fato mesmo inconcebível aos maniqueus, que veneram tais astros por serem receptáculos de luz e bondade.
Destarte, a reabilitação dos corpos pela percepção da beleza inerente à proporção é útil para insistir na cadeia hierárquica dos seres, cujas vidas concretas são derivadas da Vida; e não o contrário, que é justamente o modo equivocado das doutrinas corporalistas. Assim, de maneira breve, mas seguramente decisiva, Agostinho opõe o modo de valoração corporalista das coisas sensíveis à noção de participação dos inteligíveis315. A rápida referência à participação dos corpos nas formas divinas316 serve para indicar, por comparação, o
caráter superior dos bens não sensíveis, mais especificamente, a superioridade da alma inteligível sobre os corpos celestes que os maniqueus reputam dignos de veneração.
Adiante, a valoração positiva das naturezas corporais será retomada para enfatizar que o pecado não é jurisdição de natureza, e sim da livre vontade. Por ora, a ênfase do tratado repousa, pois, declaradamente, apenas sobre um dos elementos do composto, a alma. Por conseguinte, as representações sensíveis corporais são evocadas para mostrar seu caráter inferior, face à necessidade, quanto à alma, de buscar pela sua essência de verdade evidente e clara.
omnium, multo evidentius quam corpore insinuet? Loquor de vermiculo animante qualicumque. Tradução. Ed. Paulus, 2002.
314 Referência aos doutos filósofos. 315 cf. mor. IV. Ver nota anterior.
316 cf. Bouton-Touboulic, Anne-Isabelle.L'ordre Caché: La Notion D'ordre Chez
II,3,5OS VÍCIOS DA ALMA SÃO SUPERIORES À LUZ SENSÍVEL