CAPÍTULO 2 Vida escolar de adolescentes e suas configurações familiares: um
2.2 Principais eixos da pesquisa
2.2.3 Vida familiar
Conforme mencionado, os núcleos familiares dos sujeitos são muito diversos e apenas um caso (Igor) configura-se no padrão pai, mãe e prole. Importante lembrar que, com exceção da Beatriz, que viu a mudança em sua configuração familiar há menos tempo, os adolescentes viveram todo o período do Ensino Fundamental em uma configuração familiar diferente da dita tradicional. O quadro a seguir pode ilustrar esse contexto:
QUADRO 6
Adolescentes e suas configurações familiares.
Adolescente Configuração familiar
Arthur Adolescente, avô, avó e duas irmãs.
Beatriz Adolescente e pai.
Bruno Adolescente e mãe.
Eduardo Adolescente, duas irmãs, mãe, avó e o
irmão da avó.
Gabriela Adolescente, duas tias, avó, tio, pai e
irmão.
Geovane Adolescente, tia, marido da tia e duas
primas.
Igor Adolescente, pai, mãe e irmão.
Laura Adolescente, mãe, avó e prima.
Marcela Adolescente, mãe, irmã e padrasto.
Mariana Adolescente, padrasto e mãe.
Murilo Adolescente, dois irmãos, mãe e padrasto.
Pedro Adolescente e mãe.
Vinícius Adolescente, mãe, irmã, irmão e padrasto.
Vitor Adolescente, avô, avó e mãe.
Muitos dos adolescentes reconhecem que o tipo de configuração familiar ao qual eles pertencem não é aquele socialmente tido como o mais comum. Contudo, consideram que possuem a melhor família possível, por essa lhes oferecer os suportes econômico e afetivo necessários para a sua vida. Além disso, a união entre os membros familiares foi a característica mais citada pelos sujeitos.
A partir do quadro é possível perceber que a variável “mãe” aparece em boa parte
dos casos e, em muitas situações, ela é a pessoa que mais parece influenciar a vida dos adolescentes – como nos casos de Laura e Mariana. Além disso, percebe-se também que a presença de mulheres nos lares em questão muitas vezes é superior ao número de homens. Parece, portanto, que a maior parte das famílias envolvidas na pesquisa apresenta um universo tipicamente feminino. Tais questões influenciaram a escolha pelo aprofundamento teórico a respeito da relação entre mães e filhas, que será apresentado no terceiro capítulo.
O papel paterno foi por muitas vezes mencionado como ocupado por outra(s) pessoa(s) que não o pai dito biológico, como o irmão, o padrasto, o cunhado, o avô ou os tios, e, em alguns casos, mesmo que não mencionado pelos entrevistados, é possível supor que tal lugar seja também ocupado por mulheres. Nessas situações, os sentimentos depositados pelos adolescentes nos pais ditos biológicos parecem não ser muito intensos. Assim, a configuração
familiar distinta daquela formada por pai, mãe e filho(s) biológicos é considerada pelos adolescentes como benéfica para suas vidas, inclusive na escolar, pois esses “pais postiços” podem conseguir bancar os estudos dos adolescentes ou mesmo oferecer um clima de tranquilidade em casa, além de exemplos positivos a serem seguidos.
A partir das entrevistas, percebe-se uma relação bem próxima de grande parte dos sujeitos com suas genitoras. A mãe, em geral, é tida como sensata, amorosa e cheia de princípios socialmente valorizados, como a honestidade. Normalmente, ela é a principal figura no meio familiar com quem os adolescentes costumam passar mais tempo juntos, além de terem com ela maior liberdade para dialogar sobre vários assuntos, inclusive questões que envolvam a vida íntima dos jovens. Em alguns casos, não é a genitora quem ocupa esse lugar importante na vida dos sujeitos, mas a figura feminina que cuida deles desde a infância, como a avó ou a tia. Esse fato não acontece apenas nessas esferas, pois são comuns os relatos de pessoas que ocupam papéis mais importantes na vida dos sujeitos do que aqueles que normalmente são designados para o grau de parentesco, como primos ou tios que efetivam o papel de irmãos, por exemplo.
Conforme mencionado, muitos dos adolescentes afirmam que sentem grande amor e admiração por suas mães. Essa relação de proximidade e o consequente desejo declarado de alguns dos adolescentes12 de agradarem a mãe amada – ou quem ocupe tal lugar – parecem resultar na busca por um rendimento escolar satisfatório, bem como em um comportamento dentro das normas – mesmo que esses objetivos não sejam cumpridos. Além das mães, as avós são muito mencionadas como fonte de carinho e conforto para os adolescentes.
Em contrapartida, ao que parece, as características vinculadas ao universo masculino dos sujeitos desta pesquisa podem ser socialmente consideradas como negativas: boemia, omissão e/ou violência. Talvez por isso, em muitos casos, aquilo que parece se relacionar com os pais dos sujeitos é por eles desprezado, como algumas áreas profissionais, ou mesmo membros familiares paternos. Essa suposta diferenciação entre masculino e feminino, vivenciada no núcleo familiar dos sujeitos, parece gerar consequências em suas vidas escolares. Isso porque alguns adolescentes13 parecem ser influenciados por tais características, o que pode resultar em condutas pouco ou muito desviantes do esperado pelas comunidades escolares, conforme será aprofundado adiante.
Sobre a relação entre a família e as atividades acadêmicas dos sujeitos, observa-se que a mãe – ou quem ocupe esse lugar – é também a principal referência dos estudantes. São
12
Arthur, Laura e Mariana.
elas quem normalmente impõem metas de notas, conferem os cadernos dos filhos ou compram os materiais necessários para que os adolescentes possam estudar, mesmo que eles não cumpram o que é exigido pela escola. Os pais ou as figuras masculinas, por sua vez, foram pouco mencionados como incentivadores, ou aqueles que exigem algum tipo de resultado escolar. Contudo, eles são muito apontados como influência em outros campos na vida dos sujeitos, como no incentivo ao desenvolvimento de habilidades artísticas, além de capacidades em trabalhos manuais. Portanto, parece que as figuras femininas são as responsáveis pela participação na vida escolar dos adolescentes, enquanto os homens preocupam-se mais com a formação não escolar dos jovens.
Percebe-se que, mesmo depois das transformações já descritas nas configurações familiares, ao longo da História – o que se relaciona com o declínio da imago paterna –, algo permanece. Isso porque, mesmo trabalhando fora de casa – como fazem os homens –, são as mulheres quem costumam se responsabilizar mais pelos cuidados com os filhos, inclusive nos estudos; ao passo que os homens parecem ainda preocupar-se mais – quando o fazem – com a educação mais prática e não acadêmica dos adolescentes. A dita relação de proximidade entre o adolescente e a figura feminina aparentemente central do seu núcleo familiar (mãe, avó ou tia), e o distanciamento dele do pai dito biológico é uma constante na grande maioria dos casos desta pesquisa. As referências positivas relacionadas ao universo feminino frente à precariedade das características dos pais ditos biológicos dos adolescentes podem ter contribuído para a formação desses sujeitos e gerado consequências em sua vida escolar. Essas questões nortearam a análise dos dados que será apresentada. Além disso, outras questões que envolvem as vidas escolares dos adolescentes e suas configurações familiares serão aprofundadas a seguir. Antes disso, uma breve apresentação dos sujeitos escolhidos faz- se necessária.