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2 SIMONE WEIL E O FALAR DE DEUS

2.1 A vida de Simone Weil

2.1 A vida de Simone Weil

Weil nasceu em 3 de fevereiro de 1909 em Paris. Filha do médico judeu alsaciano Dr. Bernard Weil e de Selma Weil, de origem russa. Religiosamente, o lar dos Weil era marcado pelo agnosticismo do pai e o judaísmo liberal da família da mãe.1 A respeito de seu histórico religioso ela escreveu que em toda a sua vida, jamais, buscou a

1 PÉTREMENT, Vida de Simone Weil, p. 17-18.

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Deus. Não o afirmava nem o negava. Por outro lado, ela assume que foi influenciada por uma atitude cristã, e criada dentro da inspiração cristã: “minha concepção de vida era cristã. É por isso que jamais veio ao meu espírito que pudesse entrar para o cristianismo. Eu tinha a impressão de haver nascido em seu interior”2.

Weil tinha um irmão, André, que se tornou um grande matemático. Ela escolheu estudar filosofia. Entre 1925-1928 foi aluna de Alain3 e conheceu Simone Pétrement, que se tornou sua amiga, e anos mais tarde, sua biógrafa.

Nos anos de 1926 e 1927, obteve os diplomas de Moral, Sociologia, Psicologia, História da Filosofia, Filosofia geral e Lógica. Na École Normale Supérieure, Weil era a única mulher. Terminada a Agrégation (1931), ela pediu nomeação para uma cidade industrial e foi designada para lecionar no Liceu de Puy.. Como professora, passava noites adentro corrigindo os textos de suas alunas. Ensinava também a pescadores, operários e os filhos deles, sem esperar nada em troca. Vestia-se modestamente, gastava o mínimo consigo.4

Foi designada à cidade de Roanne no ano de 1933. O curso de filosofia ministrado por ela chegou a nosso conhecimento por meio das anotações da ex-aluna Anne Reynald.5 Aos 25 anos, em 1934, decidiu trabalhar em fábricas, ocultando sua identidade como professora universitária. Havia uma pergunta que a inquietava: “Como coordenar os trabalhos sem oprimir os trabalhadores?”6. Ela deixou um registro sobre suas observações e experiências desse período, o Diário de Fábrica, no qual registrou as “dificuldades e fadigas que dia a dia sofreu tentando alcançar as cotas de velocidade forçadas”7, apesar de nunca alcançá-las.

Trabalhou na fábrica da Asthom de 4 de dezembro de 1934 a 5 de abril de 1935.

Depois, trabalhou na fábrica Renault como frisadora. Lá, trabalhava de 10h às 22h. Foi nesse período que Weil teve o sentimento de escravidão e de privação de direitos.8

2 WEIL. Autobiografia Espiritual. In: ______. Espera de Deus. São Paulo: ECCE, 1987, p. 44.

3 Alain (Émile-Auguste Chartier, 1868-1951) foi um jornalista, ensaísta e filósofo francês. Ele foi professor de Weil e exerceu grande influência no pensamento da autora. Algumas ideias e proposições de Alain, pode-se ler em PÉTREMENT, Vida de Simone Weil, p. 59-64.

4 PÉTREMENT, Vida de Simone Weil, p.45, 150.

5 Cf. WEIL, Simone. Aulas de Filosofia. São Paulo: Papirus, 1991.

6 PÉTREMENT, Vida de Simone Weil, p. 314, 329, 353.

7“Dificultades y fatigas que, día tras día, tuvo que sufrir intentado alcanzar las cotas de velocidad obligadas”. PÉTREMENT, Vida de Simone Weil, p. 354.

8 PÉTREMENT, Vida de Simone Weil, p. 370-375.

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Após a experiência nas fábricas que ela chamou de escravizadora, esteve um tempo em Portugal, em 1936. Foi lá que escreveu a respeito de uma, das três experiências com o cristianismo. A experiência em Portugal teve como background a vivência na fábrica da Renault onde se dizia marcada para sempre pela escravidão.

Quando viu as mulheres dos pescadores em uma procissão, com um cântico de lamento, relatou ter a certeza de que “o cristianismo é por excelência a religião dos escravos e que os escravos não podiam deixar de aderir a ele, e eu, entre eles”9.

A segunda experiência aconteceu em Assis, no ano de 1937, quando diante da figura de São Francisco de Assis e da percepção da pureza, sentiu-se obrigada pela primeira vez em sua vida, a pôr-se de joelhos. A terceira experiência marcante com o cristianismo aconteceu em 1938, na França. Ao participar dos ofícios da Semana Santa no mosteiro Beneditino em Solesmes, relatou: “no curso daqueles ofícios, o pensamento da paixão de Cristo entrou em mim de uma vez para sempre.10

Em julho de 1939, pouco antes da entrada dos alemães em Vichy, Weil refugiou-se por lá, passando depois à Marrefugiou-seille. Em Vichy, interessou-refugiou-se pelos cátaros.11 Além do mais, nesse período, refletiu sobre a história das religiões, relendo a Ilíada, Ésquilo e Sófocles. Fez estudos no Livro dos Mortos e outros textos egípcios. Leu historiadores antigos como Heródoto, Tucídides, Plutarco, Tácito, entre outros.12 Em suas reflexões, estava também o diálogo entre a Grécia e o cristianismo. A autora amava tudo da Grécia, especialmente Platão, os pitagóricos, os poetas como Homero, Hesíodo e Ésquilo, e tudo ao que advinha da cultura grega.13

Durante a 2ª Guerra Mundial, Weil insistiu em um projeto denominado “Projet d’une formation d’infirmières de première ligne” (Projeto de formação de enfermeiras de primeira linha), o qual tinha por objetivo colocá-la, junto com outras enfermeiras, no front de guerra para cuidar dos soldados franceses.14 Mas o objetivo era uma espécie de

9 WEIL, Autobiografia Espiritual, p. 46.

10 WEIL, Autobiografia Espiritual, p. 46-47.

11 O interesse de Simone Weil era pela crítica que os cátaros fizeram ao A.T. Ela havia lido o A.T. e apresentado à Pétrement sua indignação em alguns pontos, como, por exemplo, a ordenação da morte dos Amalequitas e a piedade para as ovelhas, vacas, camelos a asnos (cf. 1Sm 15,1-35). Para a autora, o catarismo teria sido, na Europa, a última expressão viva da antiguidade pré-romana. Dessa maneira, o catarismo não constituia-se para a autora em uma “heresia”, mas uma espécie de pensamento com um acento pitagórico ou mesmo platónico-cristão. A esse respeito pode-se ter maiores informações em PÉTREMENT, Vida de Simone Weil, p. 503, 562-565.

12 WEIL, Autobiografia, p. 48-50.

13 PÉTREMENT, Vida de Simone Weil, p. 532-533.

14 WEIL, Simone. Projet d’une formation d’infirmières de première ligne. In: ______. Oeuvres Complètes IV, 1. Écrits de Marseille: Philosophie, Science, religion, questions politiques et sociales (1940-1942).

Paris: Gallimard, 2008, p. 401-412. Doravante, OC IV,1.

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espionagem, em que ela e outras voluntárias poderiam levar informações sobre a guerra.

Em maio de 1940, a Alemanha ocupou a França e a família Weil seguiu em direção à zona livre de Marseille, para dessa forma, alcançar o continente Norte-Americano.15 Em Marseille, Weil fez publicações nos Cahiers du Sud, a revista mais importante da zona livre. Ela assinava com o anagrama Émile Novis. Foi nesse tempo que conheceu o padre Dominicano Jean-Marie Perrin, com quem trocou longas cartas, e com o filósofo e escritor católico Gustave Thibon, com quem desenvolveu uma grande amizade.16

Weil queria conhecer a condição do trabalhador agrícola, e o fez na fazenda de Thibon, em 1941. Esse foi um período de grande produção escrita dela. Entre os textos estão os Écrits de Marseille17; numerosos ensaios nos Cahiers du Sud: os cinco artigos que compõem Espera de Deus; a maior parte das Intuitions pré-chrétiennes; artigos que compõem La source grecque (A fonte grega), e os quatro ensaios de Pensées sans ordre concernant l’amour de Dieu (Pensamentos desordenados acerca do amor de Deus). O Pe. Perrin organizou algumas reuniões em que Weil lia e comentava alguns textos, considerados por ela os mais belos e reveladores do pensamento grego. As reuniões eram feitas na cripta do convento dos dominicanos. Os textos foram reunidos em La Source grecque.

Em 1942, embarcou em um navio cheio de fugitivos com destino à Nova York, chegando em 6 de julho. Lá, participou do movimento gaullista da “França Livre”.

Insistiu no Projeto de Enfermeiras de primeira linha, e recebeu uma negativa, que a deixou muito desapontada. Em novembro do mesmo ano, embarcou para a Inglaterra.

Chegando a Londres, trabalhou em um escritório político da Resistência Francesa e deu vida à projetos de renascimento da Europa, conteúdo exposto em sua obra, L’Enracinement(O enraizamento).18

Com sua saúde muito frágil, foi internada em um hospital de Middlesex em abril de 1943, diagnosticada com tuberculose. Além de sua enfermidade, havia outro problema: ela recusava-se a comer. Com isso, seu estado só piorava. Seus pais não sabiam de seu verdadeiro estado de saúde. Ela conseguiu esconder isso, mesmo nas

15 PÉTREMENT, Vida de Simone Weil, p. 538-542.

16 PÉTREMENT, Vida de Simone Weil, p. 560.

17 WEIL, Simone. Oeuvres Complètes IV, 1. Écrits de Marseille: Philosophie, Science, religion, questions politiques et sociales (1940-1942). Paris: Gallimard, 2008 (Doravante, OC VI,1); ______. Oeuvres Complètes IV, 2. Écrits de Marseille: Grèce, Inde, Occitanie (1941-1942). Paris: Gallimard, 2009 (Doravante, OC IV,2).

18 WEIL, Simone. L’Enracinement: prélude à une déclaration de devoirs envers l’être humain. In:

______. Oeuvres Complètes V: Écrits de New York et de Londres (1943). Paris: Gallimard, 2006, p. 107-368.

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cartas que frequentemente enviava a eles. Pediu para ser levada a um sanatório, e foi conduzida para o de Ashdorf. A tuberculose, que a tinha atacado há algum tempo poderia ser curada, mas ela não se alimentava como deveria, porque não queria comer mais do que pensava ser a ração na França ocupada. Ela faleceu em 4 de agosto de 1943, sendo sepultada no cemitério de Ashdorf na presença de poucos amigos. 19