171 O anarquista estimulará quem quiser seguir a seu lado a se rebelar praticamente contra o determinismo do meio social, a se afirmar individualmente, a esculpir sua estátua interior, a se tornar, tanto quanto possível, independente do ambiente moral, intelectual, econômico.
Émile Armand
Ocorreram múltiplos embates entre libertários, cujos desdobramentos produziram redimensionamentos e readequações. Isso aconteceu no final da década de 1860, no interior da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT). Devido à correlação de forças em meio aos socialismos, perspectivas universais e totalizantes foram, gradativamente, adquirindo maior incidência em muitos libertários. A revolução universal, como havia defendido Mikhail Bakunin, tornou-se a meta de muitas organizações anarquistas. Ao mesmo tempo, a descontinuidade das análises proudhonianas foram alvo de ordenamentos rígidos por parte das pretensões científicas de certas perspectivas anarquistas, como o comunismo libertário defendido por Piotr Kropotkin, que teve como objetivo “organizar” as “ideias” ácratas. Foi uma tentativa de “ordenar” o “desordenado” por meio de uma teoria.
Kropotkin (1912) não só apresentou uma perspectiva a-histórica a respeito da anarquia, enfatizando que esta deriva das forças da liberdade diante dos que aspiram a governar desde tempos imemoriais, como também insistiu em aproximá-la de metodologias vinculadas às ciências naturais e biológicas, como o método indutivo-dedutivo. Era necessário, para ele, inseri-la no âmbito das ciências, uma vez que apenas dessa maneira os anarquistas seriam capazes de comprovar cientificamente suas pretensões e anseios societários. Ao defender um anarquismo científico, portanto, Kropotkin condiciona as experimentações ácratas às estruturas teóricas soberanas, que hierarquizam, selecionam, classificam e sujeitam.
Esses foram redimensionamentos de perspectivas no interior dos próprios anarquismos, cuja devoção à autoridade da organização ou à teoria chancelada cientificamente não havia sido demolida. Isso, evidentemente, não retira a potência das experimentações inventadas por diferentes agrupamentos anarquistas em distintos momentos ao longo do século XX. Saídas aos campos, práticas de nudismo, piqueniques, construção de sindicatos, oficinas de teatros e irrupções em algumas das revoluções marcaram a trajetória de muitas existências anarquistas, que não hesitaram em provocar escândalos e revoltas.
172 A radicalidade de suas práticas e perspectivas provocou reações. Foram classificados como “pré-políticos”, “imaturos”, “idealistas”, “terroristas” etc. Estiveram, sempre, cercados de inimigos, como os papas, os reis, os nacionalistas, os proprietários, os socialistas autoritários (FERRER, 2014). Houve, inclusive, intelectuais que disseram ter “simpatia” pelas premissas libertárias, considerando-as “úteis” para os movimentos que surgiam em meados da década de 1960. Foi mais uma tentativa de domesticar a anarquia, salientando a “pureza” das suas
“ideias”, mas “inviabilidade” de suas práticas.
George Woodcook foi uma dessas das figuras. No início da década de 1960, no livro intitulado História das ideias e movimentos anarquistas (1961), ele não hesitou em declarar a
“morte do anarquismo”. Para Woodcook (2014), o anarquismo havia sido sepultado em 1939, no fim da chamada Guerra Civil Espanhola, conhecida pelos ácratas como Revolução Espanhola. Para ele, os anarquistas foram eficazes em suas críticas contra a sociedade moderna, porém seu “idealismo” e intransigência em relação a quaisquer formas de organizações centralizadas os aproximavam, apenas, dos artesãos, camponeses e outros segmentos apartados da indústria moderna. Repetia-se, mais uma vez, a premissa segundo a qual as perspectivas e práticas anarquistas apenas seriam frutíferas em países nos quais há um atraso industrial.
Além disso, Woodcook (2014) apresenta, em muitos aspectos, uma leitura arbitrária acerca da trajetória dos anarquismos, restringindo-a a uma história marcada por ideias e participações em determinados acontecimentos revolucionários. De acordo com ele, o anarquismo emergiu no interior da AIT, sob a “liderança” de Bakunin. Antes disso, a anarquia estaria restrita a uma ideia elaborada por um conjunto de pensadores, como Willian Godwin, Max Stirner, Proudhon etc. Ignora-se, portanto, as experimentações sem mestres e soberanos levadas adiante pelas classes populares na França, cujas práticas incidiram nas conceituações de existências libertárias e vice-versa. Ao contrário dessas considerações, a anarquia não emergiu enquanto uma ideia, mas como práticas irruptivas e escandalosas que provocaram inquietações em pensadores como Proudhon. Ela não tem pai, irmãos ou soberanos.
Seis anos após a publicação do livro redigido por George Woodcook, eclodem as revoltas de 1968. Produziu-se andarilhos, existências inquietas se insurgiram contra o insuportável, as normas, as encenações vinculadas à sociedade de consumo e à vida democrática. Revoltaram-se contra as guerras, as ameaças nucleares, o dispositivo da sexualidade, a pretensão de comando dos partidos e dos sindicatos. Vidas corajosas, com perspectivas diversas em meio aos acontecimentos de 68, inventaram vidas outras, outros
173 modos de experimentar as relações, para além dos modelos, seja o socialismo autoritário ou o capitalismo. As dicotomias apresentadas pela chamada Guerra Fria foram demolidas, uma vez que não faziam parte dos percursos das associações livres e dos combates contra as hierarquizações naquele instante. Práticas descontínuas e dispersas se proliferaram como uma chama, atiçando revoltas em diferentes partes do planeta. Revoluções permanentes foram experimentadas em meio aos acontecimentos. (PASSETTI; SIMÕES, 2018).
As experimentações impulsionadas por esses andarilhos, voluntária ou involuntariamente, aproximavam-se da descontinuidade e da dispersão das invenções levadas adiante pelos proudhonianos no século anterior. Apartavam-se dos esquemas e das doutrinas, ainda presentes em muitos anarquismos. Desordenaram o ordenado. Demoliram o princípio organizador da política, das teorias, das disciplinas.
Não demorou para que houvesse uma reação conservadora por parte dos devotos da teoria, uma pretensão voltada à organização e, também, à oxigenação de ideias e organizações que já estavam fossilizadas. Frente às irruptivas subversões dos costumes nos países do chamado Ocidente e das insurgências em alguns países socialistas, como a ação dos jovens que saíram às ruas no que ficou conhecido como Primavera de Praga, em 1968, alguns marxistas, involuntariamente, seguiram as recomendações de George Woodcook. Esforçaram-se para se aproximar dos discursos anarquistas – porém não da anarquia – com a finalidade de se apropriar de algumas sugestões e organizar, arbitrariamente, uma nova síntese, cujo resultado foi o marxismo libertário.
Em meados da década de 1960, antes mesmo da eclosão dos acontecimentos de 68, Daniel Guérin já havia se esforçado para estabelecer proximidades entre o anarquismo e o marxismo, cuja finalidade era regenerar o socialismo por meio de algumas sugestões anarquistas. Para Guérin (1979) o socialismo havia sido liquidado pelos bolcheviques na Rússia após a eliminação da autonomia dos sovietes e a instauração de uma ditadura do proletariado.
Foi a partir desse momento, segundo ele, que a trajetória do anarquismo e do marxismo se distanciaram, apartaram-se.
O anarquismo seria apenas um “soro”, um medicamento com o objetivo de recuperar a credibilidade das teorias e organizações socialistas. Aponta-se, além disso, que o anarquismo e o marxismo são “irmãos inimigos”, filhos dos mesmos “pais” do socialismo, membros da mesma família. É necessário, mais uma vez, reafirmar: a anarquia não tem pais e soberanos.
174 Guérin ainda ressalta que ambas as perspectivas apresentam grandes similaridades, uma vez que teriam os mesmos objetivos finais, distanciando-se apenas em questões táticas, circunstanciais. Essa leitura concebe a anarquia enquanto um corpo doutrinário e homogêneo, não se atendo às diversidades de práticas e perspectivas que marcaram a trajetória dos anarquismos. Não é inverídico haver grupos anarquistas que se aproximam, em alguns aspectos, do marxismo. Bakunin (2007), inclusive, foi taxativo ao dizer que Marx, ao contrário de um suposto “idealismo” de Proudhon acerca do direito, havia decifrado as leis econômicas que regem a sociedade. Essas proximidades com as considerações de Marx o levaram a traduzir O Capital para o russo. Mas, ao mesmo tempo, os distanciamentos entre diversas experimentações e perspectivas libertárias são inconciliáveis com o dogma marxista, como as análises e práticas dispersas e descontínuas levadas adiante pelos proudhonianos – e por muitas outras existências libertárias – e, também, por vários andarilhos de 68. São elaborações ingovernáveis, não cabem em teorias.
O século XX esteve, entre outras coisas, marcado por sucessivas revoluções socialistas.
Em 1917, na Rússia, forças diversas emergiriam em meio ao acontecimento revolucionário.
Como enfatizou Proudhon, forças revolucionárias podem, mais tarde, tonar-se forças reativas.
Trotsky, na abertura da História da Revolução Russa, escreve que não há nada mais conservador que um revolucionário. Isso não ocorreu apenas com os bolcheviques na chamada revolução de outubro, mas também com as demais forças que assumiram o Estado após a eclosão de inúmeros processos revolucionários, como na China, na Coreia, no Vietnã, em Cuba etc. As ditaduras do proletariado, como os anarquistas haviam assinalado, tornaram-se rapidamente autocracias, perpetrando-se como ditaduras sobre o proletariado.
A revolução social defendida por muitos anarquistas ao longo do século XIX e em parte do século XX, cujas pretensões eram universais, tampouco deram frutos. Muitos libertários, por mais que tenham analisado, minuciosamente, o autoritarismo vinculado a muitas perspectivas socialistas, sobretudo o socialismo científico, mantiveram-se presos às utopias, às ideias-fixas.
Acreditaram ser possível emancipar a humanidade por meio da difusão de valores libertários, criando um caldo cultural que levaria, mais tarde, à libertação de todos em relação ao Estado, ao capital e ao clero. “A nossa pátria é o mundo inteiro”, diziam.
Proudhon, por sua vez, mostrou-se cético aos universais e, também, aos absolutos. Não hesitava em enfatizar que a revolução é permanente, em um percurso por meio do qual diversas invenções são possíveis. Interessou-se na criação de novos costumes em meio à demolição das
175 normas vigentes, não em revoluções políticas ou universais, defendidas por comunistas e anarquistas, respectivamente.
A maior parte dessas revoluções não resistiu às modulações no interior do capitalismo ao longo do século XX, que proporcionaram um redimensionamento da razão governamental moderna. No momento em que Proudhon redigiu sua obra, o liberalismo se caracterizava, como enfatiza Foucault (2008a), num princípio de moderação em relação à razão governamental, uma técnica voltada à reflexão acerca dos objetos sobre os quais o aparelho governamental intervinha. A democracia liberal era pensada sobretudo como uma forma de governo.
Em meados do século XX, no entanto, emerge uma nova racionalidade que deriva da crítica a programas como o New Deal e iniciativas aplicadas no período Pós-guerra, que estabeleciam promessas aos que foram convocados a dar a vida em nome da democracia, cuja expressão maior eram as forças aliadas. Reforçou-se políticas voltadas à manutenção da segurança do emprego, da aposentadoria, de saúde pública etc. (FOUCAULT, 2008a).
O liberalismo sofreu modulações que ultrapassaram as fronteiras do aparelho governamental, constituindo-se como maneiras de ser e de estar. De acordo com Foucault (2008a), essa conduta está atrelada a um modo de compreender o trabalho que se distancia das considerações da chamada economia política clássica, segundo a qual o objeto econômico são os processos, os mecanismos de produção, troca e criação de valor. Enfatiza-se que o trabalho não deve ser compreendido enquanto um ente abstrato inserido em grandes sistemas, mas uma renda gerada por meio de um capital, um trabalhador, um humano. A pessoa que trabalha, por conseguinte, é concebida como uma máquina que gerencia fluxos de capital, uma vez que tem como objetivo maximizar suas competências e alocar os recursos obtidos em determinados fins.
Trata-se de uma racionalidade que não está inserida apenas nas esferas classificadas como econômicas, mas em diferentes âmbitos da vida, que passam a ser interpretados com base em cálculos econômicos.
A racionalidade neoliberal, segundo Passetti (2021), está presente nas relações em distintos níveis, como na família, no local de trabalho. Fortalece-se por meio da ampliação de direitos, iniciativas filantrópicas, programas de autoajuda etc., cuja finalidade é proporcionar ganhos e produzir máquinas cada vez mais competitivas, inovadoras, produtivas. A democracia adquiriu novos contornos, tornando-se um paradigma das maneiras pelas quais as pessoas se orientam, comportam-se, relacionam-se. Propõe uma família monogâmica conservadora como
176 forma de destruir inventivas relações amorosas; endossa o ensino no interior da família para proteger a “cria” da contaminação anarquistas e socialista.
Proudhon é um pensador do século XIX, viveu num momento distante dos redimensionamentos sofridos pela razão governamental moderna. Suas análises sugerem leituras potentes e libertárias acerca das revoluções políticas que aconteceram ao longo do século XIX, cujo modelo era a Revolução Francesa. Sugere, também, considerações pertinentes acerca do liberalismo político e do arcabouço jurídico que o fundamenta, cujo princípio sagrado é a segurança do direito de propriedade. Mas não só. As análises dispersas e descontínuas de Proudhon não estão circunscritas aos regimes políticos, atendo-se sobretudo aos costumes, às maneiras pelas quais as pessoas trabalham, trocam, associam-se e se comportam. Impactam hoje o ideal do imperialismo estadunidense, a democracia, provocando, inclusive, a acomodação dos anarquismos em democracia nos Estados Unidos.
Se, de um lado, a racionalidade neoliberal concebe o trabalho um rendimento e o trabalhador um capital, Proudhon, de outro lado, compreende o trabalho enquanto uma afirmação de si, uma experimentação por meio da qual a pessoa prática a liberdade em associação com os iguais e diferentes. São perspectivas diametralmente opostas, uma vez que as análises de Proudhon recusam veementemente a noção de sujeito-empresa, cujo trabalho é compreendido como o produto da maneira pela qual cada um investe em si próprio enquanto capital humano. Para Proudhon, por sua vez, o trabalho é a fonte da criação da realidade, uma elaboração e invenção permanente das forças livremente associadas. “É infinito em suas aplicações, como a própria criação” (PROUDHON, 2019b, p. 136).
Com base na perspectiva genealógica, a noção do operário/artista não deve estar restrita ao século XIX e ao operariado fabril. Como assinalou Proudhon, as insurgências e a produção de liberdades não estão condicionadas a identidades, não são propriedades de uma classe
“destinada” a fazer a revolução. Encontram-se num movimento permanente, como todo o universo. Atravessam os anos, décadas e séculos. São potências que emergem em meio ao modo pelo qual as pessoas analisam as formas de trabalhar no local em que estão inseridas e inventam, conforme suas necessidades e anseios, associações, seja na oficina, na universidade, na indústria, no periódico.
Pode-se dizer, por fim, que a atualidade de Proudhon reside, principalmente, na sua dimensão ético-estética, na potência de sugestões voltadas a elaborações permanentes de si em meio à associação, às diferenças. Hoje, as práticas anarquistas derivam, entre outras coisas, da
177 afirmação do trabalho diante do emprego, que mortifica, resigna, modera. O trabalho, compreendido como uma experimentação prazerosa e que confere um sentido às existências livres, é uma prática que visa a demolição de um modo de estar assentado em maximizações de ganhos e perdas, num cálculo econômico. As revoluções permanentes e federalistas são formas de vida que irrompem contra a racionalidade neoliberal e as condutas democráticas. São invenções de vidas outras.
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