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Fig. 56- VIDEONÍRESE: Performance e vídeo (7 min) Por Dzboábaru Babouza. Câmera, Juliana Barros. Brasília, 1996.

GADJI BERI BIMBA GLANDRIDI LAULI LONNI CADORI GADJAMA BIM BERI GLASSALA GLANDRIDI GLASSALA TUFFM I ZIMBRABIM BLASSA GALASSASA TUFFM I ZIMBRABIM

Hugo Ball Temos que inventar o negativo

O positivo já nos foi dado. T. Adorno

Videonírese é um registro em vídeo de performance (fig.56) pela qual busca-se exagerar o caráter a-significante (GUATTARI, 1996) do signo que surge da emissão oral balbuciante e desarticulada, por meio de ações improvisadas realizadas por Zboábaru Babouza num ambiente cuja acústica produzia intensas reverberações.

A ação aproxima-se dos ‘versos sem palavras’ e dos ‘poemas sonoros’ da poesia dadaísta e traz marcas ‘bruitistas’ (GOLDBERG, 2006, p. 50) em sua bruta sonorovisualidade assignificante. “As obras de arte são menos culpadas pelo seu poder perverso do que pela sua impotência de determinar seu próprio significado” (SHUSTERMAN, 1998, p. 63). Ao ser trazida a observação acima, não se pretende estabelecer alguma questão de valor envolvida com a problemática do significado - seja pela sua presença ou não - ou a partir daquilo que dele resulta. Ao contrário, o enunciado se torna elogioso quando nos leva a pensar sobre a singular capacidade artística de produzir a indeterminação, o que constitui

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um atributo daquilo que a arte produz de incontornavelmente incompreensível e incompreensivelmente incontornável instaurando assim, a obscuridade que revela o indizível e traz o estranhamento diante da norma que modeliza o sujeito interpretador- falante.

Em Videonírese, esta norma é suspensa em pelo menos duas circunstâncias. Inicialmente na ação performática, quando o próprio performante já experimenta internamente a suspensão e posteriormente, pelos efeitos do registro videográfico da ação sobre o público.

No vídeo que apresenta a performance, destacam-se as perspectivas formadas pela imagem do rosto em primeiro plano e das nuvens ao fundo. Imagens da performance surgem em meio às fortes reverberações dos sons da voz balbuciante e provocam efeitos sinestésicos de espacialização pelo som.

Sendo a reverberação um fenômeno acústico que anuncia virtualmente a presença de um corpo pelo som que dele é (re)fletido, a reverberação privilegia o caráter icônico do som emitido já que, reverberando, leva consigo o traço espacial do lugar onde acontece. Assim, o som reverberado sinaliza, além da sua própria presença, a presença de sua fonte e também de outros constituintes do espaço. Aqui, o termo presença diz respeito à experiência objetiva de perceber no ambiente, o contexto espacial no qual acontece a interação dos agentes humanos e inumanos.

Mesmo reproduzido por gravação, o som reverberado leva o ouvinte a imaginar um contexto físico pleno de espacialidade, ou mesmo inferir aproximativamente, a partir dos índices espaciais desse som, as configurações espaciais e dimensões do ambiente no qual ele é gerado.

Ao ser uma espécie de retenção temporária do som original que repercute nas superfícies que o refletem, o som reverberado, com os ciclos vibratórios que lhes são característicos, preenche o ambiente com a sua densidade e amplifica os efeitos significativos decorrentes. Aqui, os efeitos significativos incluem, para além na noção de significado, as impressões inominadas, as sensações epidérmicas, a dor, a decodificação de um conteúdo, entre outros que, conforme a noção do interpretante de Peirce (PEIRCE, 1972) resultam da ação do signo, e no presente caso, do signo sonoro.

Assim, pela amplificação dos seus efeitos significativos, o som reverberado intensifica as impressões e as cognições por ele veiculados, imprimindo um diferencial expressivo na

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experiência estética de sua recepção, ao mesmo tempo em que favorece a ocorrência do cruzamento de estímulos originários dos planos acústico e icônico do som.

Esta propriedade replicante do som reverberado produz ainda um ruído, no caso da veiculação de conteúdos decodificáveis, visto que a recursividade do código sobre si próprio provoca um contínuo de sobreposições que tendem a desestruturar suas articulações e sua mensagem.

No caso, esta propriedade corruptora da reverberação sobre o código é bem vinda no quadro das intenções de Z. Babouza embora este não utilize em sua performance, palavras ou congêneres codificados. No entanto, essa mesma propriedade replicativa intensifica o estranhamento provocado pelas qualidades das emissões orais, em consequência do paradoxal efeito de acumulação e desaparecimento que acontecem simultaneamente, no decurso de tempo em que dura o “eco” da reverberação. Ocorre que o signo reverberado pelo som conflui dois gradientes, quais sejam; um gradiente qualitativo relativo à intensidade sonora que tende a diminuir desde a deflagração do som até o seu desaparecimento, e outro quantitativo que, pela recursividade o som deflagrado tende a acrescentar suas réplicas indefinidamente. Esta dupla orientação de subtração e acrescentamento sincronizados produz a tensão que preenche a duração e o espaço trabalhados pela reverberação.

Como já dito, mesmo que em Videonírese, as emissões orais de Babouza não pretendam veicular frases decodificáveis ou que possam remeter a quaisquer referentes potencialmente identidicáveis, isso não quer dizer que durante a performance, as emissões não ocorram como reflexos parcialmente influenciados por memórias e outros eventos, inclusive somáticos a partir do referencial interno do performante.

Nesse campo múltiplo e informe, que informa de forma incidental e imediata a forma amorfa da fonia babobalbuciante, assim é rapidamente, em um dos seus lapsos, ressurgência ordinária de babas que logo desaparecem no fluxo transitório dos arqui- rastros de memória que (des) orientam a ação, como a animalidade e a vegetalidade, a mineralidade, a sobrenaturalidade entre outras impressões vagas do repertório interno (fig. 57).

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Fig.57-BABOSA E BABOSEIRA. Por F. Ararigboya. Caririaçu, 2016.

Já do ponto de vista do espectador, pelo verificado em depoimentos do público, são relatadas diversas impressões que versam por exemplo; ‘sobre a ambiência de civilizações perdidas’ ou ‘sentidos enigmáticos relacionados a manifestações do inconsciente’ e ainda ‘manifestações do sono e dos sonhos’ entre outros que podem, pelos olhares das diversas pessoas, revelar/atribuir diferentes ‘personas’ (COHEN,1989) ao Ser balbuciobabante de Videonírese, ao emitir sons em gestos incompreensíveis.

O não significativo nos padrões comportamental e gestual compreende comportamentos não socializados, comportamentos desconhecidos, comportamentos sem qualquer propósito inteligível, comportamentos aberrantes e insólitos. As ações mágicas e rituais-como o corpo dos

performers-vão incorporar, simultaneamente, diversos desses tipos de comportamento (GLUSBERG, 1986, p.113).

O Ser de Videonírese, ao instaurar o signo do estranhamento e da abertura interpretativa, funciona como espelho que incorpora as impressões dos diversos observadores. A gestualidade perceptível, permanece enquadrada no recorte que ‘fecha’ o quadro pictórico no rosto, por sua vez incorporado pela motricidade balbuciobabante que o corpo encarna naquela cena.

Na ocasião da performance, Babouza permanece deitado, concentrando a tensividade somaestética na porção superior do aparelho digestório que reage produzindo a babouzeira cáustica de uma rostidade peculiar (DELEUZE,1992) e deseja, com este ato, além de exercitar a performação escapista e lúdica aparentemente descompromissada, produzir um enfrentamento em relação aos espaços institucionais e linguísticos modelizantes e neutralizadores. Não é para menos que, a ação performática de Babouza acontece no interior de um monumento construído para exaltar e fazer-se operar o poder militar, qual seja; o ambiente conhecido como concha acústica, localizado no conjunto arquitetônico que compõe a sede do Quartel General do Exército, em Brasília.

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No local concebido para ser centro reverberador do discurso que admite por exemplo, o aparelhamento do arsenal nuclear para sustentar uma doutrina, Babouza naquele espaço- tempo a explode com seu barulho e com a sua babouzeira.