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6 ALGUNS CLOSES DE LA VIE EN CLOSE

6.2 LA VIE EN CLOSE

Editado primeiramente no ano de 1991 pela editora Brasiliense e organizado pela poeta e ex-esposa Alice Ruiz, La vie en close, é uma das mais importantes obras de Paulo Leminski. Embora tenha sido publicada após sua morte (1989), La vie en close, traz ao longo de suas mais de 180 páginas, as diversas faces e fases do poeta curitibano. Em La Vie en Clo- se, as evidências saltam aos olhos: Leminski demarcou, com extrema coragem e lucidez, a contagem regressiva de sua própria vida.

Vários dos poemas contidos na obra estão carregados de pistas, algumas diretas, outras nem tão diretas assim. É o caso de "Dor Elegante", transformado em música por Itamar Assumpção. Na última estrofe, o bom humor de grande parte de sua poesia veste-se com uma lapidar mudança de tom: "ópios, édens, analgésicos/ não me toquem nessa dor/ ela é tudo o que me sobra/ sofrer vai ser a minha última obra"101. Isto, sem citar o próprio título do livro, trocadilho auto-referente com a famosa canção La vie en rose102 eternizada na voz de Edith Piaf.103 De acordo com La vie en close, Leminski há anos vinha preparando um terreno con- ceitual para seu ―desaparecimento‖ precoce.

La vie en close foi editado pela primeira vez em 1991 conforme supracitado, tor- nando-se um grande sucesso editorial, uma vez que teve sua 5ª edição, já no ano de 1994, no entanto, a obra utilizada para esta pesquisa data de 2000, ano da 2ª impressão desta 5ª edição. Esta edição é revisada por Eduardo Keppler, com o design de capa assinado por Rodrigo An- drade.

Ao leitor casual de poesia, La vie en close trata-se apenas de um livro de poemas completo e consagrado por seu autor, muito embora seja uma obra póstuma. Se for lançado um olhar mais crítico sobre a obra, a percepção é de que ela se fragmenta em três partes dis- tintas, com características próprias e, obviamente, com uma certa lógica editorial.

101

LEMINSKI, 1994, p. 24.

102 Composta por Gilles Valiquette em 1973, ―La vie en rose‖ é uma das mais conhecidas músicas francesas dos últimos tempos. Imortalizada na voz de Edith Piaf, La vie en rose, é considerada uma espécie de hino não- oficial da França. Fonte: http://yahoo.imusica.com.br

103

Nascida em Paris em 1915, Edith Piaf cresceu no clima dos cabarés e boate franceses, sempre acompanhando a mãe, Line Marsa, que cantava nestes lugares. Iniciou sua carreira com apenas 15 anos, apresentando-se em cafés e nas ruas. Com maneira própria de interpretar e uma voz singular ficou conhecida com canções como ―Je ne Regrette Rien‖ e ―La Vie en Rose‖, tornando-se um dos maiores nomes da música francesa. Fonte: http://yahoo.imusica.com.br

Na primeira parte, poderemos observar uma certa predominância do quesito me- lopaico em seu corpus. Iniciando com o poema ―L’ être avante la lettre‖104

e findando com o poema ―Vezes versus reveses‖105

, a primeira parte do livro se constitui de uma verdadeira me- lodia aos ouvidos dos mais atentos leitores da poesia leminskiana. A peculiaridade das rimas, das aliterações, do ritmo, trabalha numa constante rítmica que termina por cadenciar toda a harmonia melódica do primeiro fragmento da obra em questão. Como se seguisse à risca, toda a importância que Ezra Pound atribuiu à melopéia, Leminski nos mostra, em La vie en close, estar sempre atento para o som de sua poesia. Afinal, conforme nos diz o próprio Pound, ―o ritmo é uma forma recortada no tempo‖106. Leminski exalta a melopéia neste primeiro frag- mento, deixando evidente as pancadas de suas sílabas, as demarcações do curso com a pre- sença marcante de consoantes repetidas, terminações semelhantes de palavras, dentre muitas outras características que têm feito, de sua poesia, uma das mais pesquisadas e estudadas, na medida em que vão se passando os anos.

Já o segundo fragmento da obra que ora está sendo estudada, tem o seu início com o poema ―Haja‖107

e o seu final, poucas páginas depois, com o poema ―Cai‖108. Embora seja a menor parte, o menor fragmento dentre os três do livro, não quer dizer que seja o menos im- portante. O que está em questão é algo muito mais profundo, algo muito mais conceitual co- mo, por exemplo, a conceituação de poesia de Jean-Paul Sartre quando ele diz que poesia é a ―palavra-coisa‖109

. Em termos poundianos, esta é a parte mais fanopaica de todo o livro. A aproximação do significante com o significado é tamanha que o que se encontra em discussão neste fragmento de La vie en close é, justamente, a forma com que o poema se apresenta ao leitor, a forma imagética como o poema está disposto e evidenciado. O fato é que tanto signi- ficante, quanto significado são projetados de uma forma mais tênue para a retina mental da mente interpretante, no caso, o leitor.

O terceiro e último fragmento de La vie en close, é exatamente aquilo que Pound denominaria de ―dança do intelecto entre as palavras‖110. Em ―Kawásu‖111

, primeiro poema 104 LEMINSKI, 2000, p.5. 105 LEMINSKI, 2000, p.98. 106 POUND, 2003, p. 156. 107 LEMINSKI, 2000, p. 99. 108 LEMINSKI, 2000, p. 105. 109 SARTRE in LEMINSKI, 2000, p. 10. 110 POUND, 2003, p. 11. 111 LEMINSKI, 2000, p.107.

deste terceiro fragmento, Leminski inicia toda a sua face de poeta-samurai112, toda a sua agili- dade de judoca, exercendo, com o leitor, uma relação onde, em primeiro lugar, está a instância enunciativa [o próprio poeta], em seguida vem o golpe, ou melhor, o momento do golpe [o poema] e, por fim, a finalidade, a vítima [o leitor]; é como se o leitor fosse pego pelo rodapé, através dos haicais, que são a verdadeira alma deste terceiro fragmento. O poema que encerra esta terceira parte e que, por conseqüência, encerra todo o livro é ―ESSA IDÉIA‖113

que se encontra na página 178 de La vie en close.

E, assim, Leminski conclui uma de suas mais completas obras. La vie en close, subdivida em três segmentos consegue refletir toda a consciência semiótica incutida na forma, no fazer poético do ―samurai‖ curitibano. Ao percebermos, marcantes, as presenças das fano- péias, melopéias e logopéias, ao longo de todas as três partes do objeto de estudo, observamos também em Leminski um poeta que, em um universo de signos verbais e não-verbais, tem como principal proposta ultrapassar todas as capacidades sígnicas contidas no interior da lin- guagem. Se, como mestre, Ezra Pound dispara que literatura é linguagem carregada de signi- ficado, como discípulo, Leminski não poderia deixar de seguir a lição ao pé da letra e fazer, da sua literatura, um complexo e completo atol de significados e, desta forma, transformar a linguagem fazendo-a evoluir em re-significação.

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