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Os Viewpoints concentram características atemporais e princípios inerentes ao movimento, como tempo, espaço e interação (Bogart & Landau, 2005). A sistematização entre essas relações e a cena resultou em "pontos de consciência que um performer ou criador faz uso enquanto trabalha”19 (Bogart & Landau 2005: 8).

As características minimalistas, democráticas e não hierárquicas da prática de Bogart e Landau são compatíveis com as experimentações em improvisação que eu estava buscando. Tais atributos permitem ajustes de objetivos por parte dos

19 Points of awareness that a performer or creator makes use of while working. (Bogart & Landau 2005: 8)

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performers em tempo real, com ferramentas objetivas que, em coordenação, reforçam a característica investigativa de PerFormAção.

Além disso, os Viewpoints “recusam categorização em um único estilo teatral e podem ser trabalhados em releituras radicais de peças clássicas do século XX, musicais, performance site-specific, dança-teatro e teatro físico”20 (Murray & Keefe

2007: 142-143). Essa versatilidade foi fundamental nessa pesquisa, pois permitiu que se pudesse observar como as informações somáticas podem aparecer em elementos comuns a vários estilos cênicos. Outra conexão fundamental foi o fato de que no sistema dos Viewpoints,

Consciência não é essencialmente uma construção mental ou cognitiva, mas corporal, que se aplica a todos os sentidos do performer em uma relação somática e visceral com o mundo. Evidentemente, como outros diretores pedagogos do século XX que trabalharam com tarefa, ação, movimento e fisicalidade, Bogart não dispensa psicologia, intenção e emoção, mas procura por uma forma mais produtiva de engajamento para o ator-criador.21 (Murray & Keefe 2007: 143)

Os Viewpoints são considerados um processo aberto, um sistema muito mais do que uma metodologia. Bogart e Landau (2005, 2017), em seu livro-guia da prática, descrevem e explicam os passos para a sua compreensão e prática. Os elementos estão voltados para exercício e ensaio.

A ação de seus precursores, no processo de sistematização dos Viewpoints surgiu com a premissa de desprender a coreografia da psicologia e do drama convencional. A improvisação tornou-se um recurso para colocar os elementos em prática e a base das relações se fortaleceu através do companheirismo e da democracia que reafirmavam essa forma de trabalhar.

Os Viewpoints primários eram os seguintes: espaço, forma, tempo, emoção, movimento e história. Esses preliminares foram ampliados para nove: relação espacial, resposta cinestésica, forma, gesto, repetição, arquitetura, ritmo, duração e

20 Refuses categorisation within any single theatre genre and has ranged over radical reworkings of (largely) twentieth-century classic play texts, musicals, site-specific work and physical/dance theatre. (Murray & Keefe, 2007, p.142, 143)

21Awareness is not primarily a mental or cognitive construction but a corporeal one that employs all the

performer’s senses in a visceral and somatic relationship with the world. Of course, like other twentieth- century teacher directors working from task, action, movement and physicality, Bogart does not dismiss psychology, intention and emotion, but is searching for a more productive route into these for the creative actor. (Murray & Keefe, 2007, p. 143)

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topografia. Imprescindível aos Viewpoints é o fato de serem “uma filosofia traduzida em uma técnica para (1) treinar performers; (2) construir conjunto; e (3) criar movimento para o palco”22 (Bogart & Landau 2005: 7).

Estão agrupados em físicos e vocais. No presente trabalho, os Viewpoints explorados foram:

1) Viewpoints de Tempo: a velocidade em que um movimento ocorre em cena; a duração em que um movimento ou sequência continua, inclusive quanto tempo se explora uma ação até o momento em que ela evolui ou simplesmente se transforma; e a resposta cinestésica, ou seja, uma reação espontânea ao movimento e o tempo de para responder a estímulos externos.

2) Viewpoints de espaço: o contorno desenhado no espaço em relação à arquitetura e em relação aos participantes; os gestos ̶ noções de gesto público e gesto privado, distinção entre ações realizadas com a atenção voltada para si mesmo e as ações realizadas com a consciência ou proximidade dos outros ̶ ; a arquitetura, ou seja, o “diálogo” com a sala e o entorno ̶ paredes, teto, janelas e portas, luz e sombras ̶ ; a relação espacial ̶ distâncias entre os participantes e em relação à arquitetura.

3) Foco aberto ou soft focus: relaxamento no olhar que permite a informação visual vir ao encontro do praticante.

A composição cênica se concentra na relação entre os Viewpoints e os demais elementos de cena ou de criação. As autoras a consideram uma

Prática de selecionar e arranjar os componentes soltos de linguagem teatral em um trabalho coeso de arte no palco. [...] No teatro, trata-se de escrever

em pé, com outros, no espaço e no tempo, usando a linguagem do teatro. [...]

Devido ao fato de que normalmente fazemos composições em ensaio em um curto período de tempo, não temos tempo de pensar. A composição oferece uma estrutura para trabalhar com impulsos e intuição.23 (Bogart & Landau 2005: 12)

Segundo as autoras, “a composição é para o criador (seja o diretor, escritor, performer ou designer, etc.) o que os Viewpoints são para o ator: um método para

22 Viewpoints is a philosophy translated into technique for (1) training performers; (2) building ensemble; and (3) creating movement for the stage. (Bogart & Landau 2005:7)

23 Practice of selecting and arranging the separate components of theatrical language into a cohesive work of art for the stage. […] In theatre, it is writing on your feet, with others, in space and time, using the language of theatre. […] Because we usually make Compositions in rehearsal in a compressed period of time, we have no time to think. Composition provides a structure for working from our impulses and intuition. (Bogart & Landau 2005: 12)

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praticar a arte”24 (Bogart & Landau 2005: 13). Nessa afirmação, as autoras discutem

a prática e tratam o ofício do performer como processual e contínuo. Nesse contexto, se oferece ferramentas de tempo e espaço para a prática dos elementos das artes do palco em um crescimento coletivo, que favorece a coesão do grupo e a fluência do trabalho.

Assim destacam-se os presentes, descritos por Bogart e Landau (2005), que se recebe ao trabalhar com essa abordagem. São eles:

1) render-se: aliviar a pressão de criar, pois os “Viewpoints ajudam a confiar em deixar algo acontecer no palco, ao invés de fazer acontecer. A fonte de ação e invenção vem dos outros e do mundo físico ao nosso redor”25 (Bogart & Landau

2005:19);

2) reconhecer possibilidades: ampliar as condições de escolha leva os praticantes a agirem com liberdade e consciência, além do seu olhar habitual;

3) crescer: com a consciência aumentada, estabelecer outros critérios sobre forças, fraquezas ou inibições pessoais.

Portanto, os “Viewpoints são uma ferramenta para descobrir ação, não a partir da psicologia ou história pregressa, mas de estímulos físicos imediatos”26 (Bogart &

Landau 2005: 125). Esse sistema ofereceu interação entre as ênfases dadas pelo Lessac Work e o seu encaminhamento para a cena em uma transição que oferece possibilidade de (re)acesso contínuo da informação somática. O sistema dos Viewpoints se coloca como mantenedor e potencializador da informação somática enquanto a expressão artística se configura com elementos teatrais. Como forma de completar a tríade de PerFormAção, a seguir, detalho o trabalho com as traduções dos textos da autora norte-americana Emily Dickinson como norteadora da construção de dramaturgia nessa configuração.

24 Composition is to the creator (whether director, writer, performer, designer, etc.) what Viewpoints is to the actor: a method for practicing the art. (Bogart & Landau 2005: 13)

25 Viewpoints helps us trust in letting something occur onstage, rather than making it occur. The source for acting and invention comes to us from others and from the physical world around us. (Bogart & Landau 2005: 19)

26 Viewpoints is a tool for discovering action, not from psychology or backstory, but from immediate physical stimuli. (Bogart & Landau 2005: 125)

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