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VIII AMICUS CURIAE

No documento REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL (páginas 121-126)

311. O artigo 2.3 do Regulamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos deixa expresso que o amicus curiae deve ser “pessoa ou instituição alheia ao litígio e ao processo” (grifou-se).

312. Ledesma alerta que, segundo a Corte Interamericana, o papel do amicus curiae

“no puede ser otro que el de colaborar con la corte en el estudio y resolución de los asuntos sometidos a su jurisdicción, pero no hacer peticiones que puedan obligarla a decidir en uno u outro sentido”46

. Se o intento do escrito for litigar abertamente em determinado lado, não estará configurada a presença de amicus curiae.

313. Diante dessa constatação, tem-se como inadmissível a atuação do amicus curiae que assuma uma postura de aliado de uma das partes (o colaborador da parte), limitando-se a corroborar (às vezes até replicar), os argumentos apresentados por uma delas. Por isso, o interesse defendido pelos amici não deve ser aquele defendido por qualquer das partes, mas tratar de questões teóricas relevantes para o julgamento do caso concreto que merecerem análise técnica e imparcial. Dessa forma, a representatividade daquele que postula essa condição, bem como a relevância da matéria que será exposta, são pré-requisitos a serem considerados para fins de admissão dos amici.

314. O artigo 44 do Regulamento da Corte Interamericana estabelece que:

Artigo 44. Apresentação de amicus curiae

1. O escrito de quem deseje atuar como amicus curiae poderá ser apresentado ao Tribunal, junto com seus anexos, através de qualquer dos meios estabelecidos no artigo 28.1 do presente Regulamento, no idioma de

trabalho do caso, e com o nome do autor ou autores e assinatura de todos

eles.

46 LEDESMA, Héctor Faúndez. EL SISTEMA INTERAMERICANO DE PROTECCIÓN DE LOS DERECHOS HUMANOS: ASPECTOS INSTITUCIONALES Y PROCESALES. 3 ed. San José, C.R.: Instituto Interamericano de Derechos Humanos, 2004. p. 716.

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2. Em caso de apresentação do escrito de amicus curiae por meios eletrônicos que não contenham a assinatura de quem o subscreve, ou no caso de escritos cujos anexos não os acompanhem, os originais e a

documentação respectiva deverão ser recebidas no Tribunal num prazo de 7 dias contado a partir dessa apresentação. Se o escrito for apresentado fora desse prazo ou sem a documentação indicada, será arquivado sem mais tramitação.

3. Nos casos contenciosos, um escrito em caráter de amicus curiae poderá ser apresentado em qualquer momento do processo, porém no mais tardar

até os 15 dias posteriores à celebração da audiência pública. Nos casos em que não se realize audiência pública, deverá ser remetido dentro dos 15 dias posteriores à resolução correspondente na qual se outorga prazo para o envio de alegações finais. Após consulta à Presidência, o escrito de

amicus curiae, junto com seus anexos, será posto imediatamente em conhecimento das partes para sua informação.

4. Nos procedimentos de supervisão de cumprimento de sentenças e de medidas provisórias, poderão apresentar-se escritos de amicus curiae.

315. Partindo-se do estabelecido nas regras acima, é possível notar que o escrito de 3 março de 2016 (enviado por Shirley Llain Arenilla, Docente Investigadora do Departamento de Direito, Ciência Política e Relações Internacionais da Universidad del Norte, Barranquilla, Colombia), não observou o prazo de 7 dias estabelecido pelo Presidente da Corte IDH para a remessa da tradução para o idioma de trabalho do caso, consideradas as regras de contagem de prazo do Acordo de Corte 1/14.

316. Segundo se verifica, a tradução desse escrito em idioma português foi recebida pela Corte em 14 de março de 2016, o que demonstra que foi encaminhado fora do prazo regulamentar.

317. Por não ter respeitado o prazo estabelecido, o Estado brasileiro solicita a declaração de inadmissibilidade do documento com a sua consequente exclusão dos autos processo.

318. O Estado brasileiro também destaca que tanto o escrito de 4 de março de 2016 (enviado por Cristina Blanco Vizarreta, Coordenadora da Área Acadêmica e de Pesquisas do Instituto de Democracia e Direitos Humanos – DEHPUCP), como o escrito de 5 de março de 2016 (remetido por Helen Duffy, em representação da organização Human Rights in Practic) não foram apresentados no idioma de trabalho do caso, ou seja, em língua portuguesa, conforme exige o artigo 44.1 do Regulamento, dentro do prazo estabelecido pelo Presidente

123 em exercício do Tribunal. Esses escritos de amicus curiae foram recebidos pela Corte IDH em 17 de março de 2016, mais de 10 dias após o envio dos escritos originais.

319. Por esse motivo, o Estado brasileiro também solicita a declaração de inadmissibilidade dos referidos documentos, com a sua consequente exclusão dos autos processo.

320. Analisando-se o escrito de 5 de março de 2016 (enviado por Tara J. Melish, Associate Professor of Law, Director of the Buffalo Human Rights Center, SUNY Buffalo Law School, The State University of New York), o Estado brasileiro nota que a declarante teve acesso à contestação do Estado brasileiro no caso em análise, uma vez que esse documento é expressamente referido por ela em notas de rodapé do seu escrito e citado de forma direta no texto. Independentemente de a contestação do Estado brasileiro lhe ter sido fornecida pela parte contrária, pela Comissão Interamericana ou terceiro que tenha tido acesso à contestação do Estado por dever de ofício, houve clara violação ao Regulamento da Corte IDH, que estabelece o sigilo das comunicações entre as partes até a prolação da sentença. 321. Recorde-se que o amicus curiae pode apresentar documentos em consideração a fatos contidos no escrito de apresentação do caso; e que a contestação do Estado, antes da prolação de sentença pelo Tribunal, não é documento público (interpretação a contrário sensu do artigo 32.3 do Regulamento da Corte IDH). Além disso, depreende-se do escrito de Tara J. Melish que seu objetivo foi contestar a posição do Estado, sem contar que a referida professora de direito trabalhou como "staff attorney at the Center for Justice And International Law (CEJIL)"47, que conta com alguns de seus membros como representantes das supostas vítimas, elemento contextual que, aliado ao acesso indevido à contestação do Estado e à postura litigante da referida amiga da Corte, não permite sua admissão nessa condição.

322. Diante de todas essas circunstâncias, não há como não considerar os fortes indícios de que Tara J. Melish não possui a imparcialidade necessária para atuar na qualidade de amicus curiae neste caso. Por essas razões, o Estado brasileiro também solicita a declaração de inadmissibilidade do documento apresentado por ela, com a sua consequente exclusão dos autos processo.

47

cf. http://www.law.buffalo.edu/faculty/facultyDirectory/MelishTara.html

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IX CONCLUSÃO

323. O Estado brasileiro, em conclusão, entende que as diversas exceções preliminares apresentadas impedem que essa Honorável Corte exerça julgamento de mérito sobre o caso. 324. Se a Corte IDH vier a analisar o mérito do caso, o Estado brasileiro entende que essa análise deve se restringir aos fatos do ano 2000, em vista da competência em razão do tempo dessa Honorável Corte e, tendo em vista os limites da lide, da inadmissibilidade da análise de fatos novos não analisados pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. 325. O Estado brasileiro roga à Corte Interamericana que avalie a possiblidade de acatar a nova exceção preliminar em razão da matéria apresentada nesta oportunidade (exclusão da análise dos fatos concernentes às fiscalizações de 1999 e 2002 na Fazenda Brasil Verde), em vista das razões de fato e de direito expendidas.

326. Quanto aos acontecimentos do ano 2000, o Estado brasileiro entende que não violou qualquer dispositivo da Convenção Americana ou outro tratado interamericano, no que diz respeito ao seu dever geral de garantia e prevenção. Dessa forma, não é possível imputar ao Estado responsabilidade pelas condutas de particulares naquele estabelecimento rural, no ano 2000, haja vista a atuação diligente das autoridades públicas brasileiras para cessar os riscos à saúde e à integridade pessoal dos trabalhadores e a adoção de políticas públicas e legislação trabalhista e penal para o combate e a erradicação do trabalho escravo no Brasil, com evolução positiva dessas medidas específicas e de seus resultados.

327. Ademais, o Estado entende que não se comprovaram as práticas de escravidão, servidão, servidão por dívida ou trabalho forçado na Fazenda Brasil Verde no ano 2000 ou que, ao menos, há dúvida razoável sobre a efetiva realização dessas práticas, conforme os conceitos normativos internacionalmente vigentes.

328. Especificamente quanto ao seu dever de prover justiça aos seus jurisdicionados, conforme as disposições dos artigos 8º e 25 da Convenção Americana, o Estado brasileiro entende que eventuais falhas autônomas e específicas, referentes aos fatos do ano 2000 – os únicos sob a competência em razão do tempo desse Tribunal – devem ser apontadas e comprovadas pelos representantes e que, nesse contexto, a tipicidade penal da redução a condição análoga à de escravo e sua interpretação à época dos fatos são relevantes para a decisão do Tribunal. Ademais, o Estado compreende que a jurisprudência consolidada desse Tribunal é no sentido de que não se podem admitir violações aos artigos 8º e 25 da

125 Convenção Americana como se de caráter continuado fossem. Do contrário, os limites temporais para o exercício da competência contenciosa dessa Corte se tornariam, na prática, inexistentes.

329. Em relação às alegações de desaparecimentos forçados na Fazenda Brasil Verde, o Estado brasileiro considera que as provas apresentadas à Corte Interamericana e os argumentos de direito expostos não permitem concluir, de forma alguma, que houve desaparecimentos forçados naquela fazenda ou que esses eventos possam ser atribuídos ao Estado brasileiro. Ademais, eventuais falhas na apuração dos fatos alegados quanto a esse assunto estão fora do escopo da competência em razão do tempo desse Tribunal.

330. Quanto à alegação de tráfico de pessoas, o Estado brasileiro considera que a Corte Interamericana não tem competência em razão da matéria para analisar essa questão e, no mérito, a alegação não procede, em razão de não haver qualquer elemento transnacional na prática de arregimentação de trabalhadores no caso em análise.

331. Por fim, o Estado brasileiro, reiterando os demais termos de sua defesa apresentada em contestação, aproveita esta oportunidade para reafirmar seu compromisso com o Sistema Interamericano de Direitos Humanos e com essa Honorável Corte Interamericana de Direitos Humanos.

Brasília, 28 de junho de 2016.

Fernando Jacques de Magalhães Pimenta Embaixador do Brasil na Costa Rica

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126 LISTA DE ANEXOS

Anexo 1 – Ofício ao Ministério Público Federal sobre processo não localizado; Anexo 2 – Atestado de óbito de Iron Canuto da Silva;

Anexo 3 – Decisão monocrática do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a "lista suja"; Anexo 4 – Relatório de Fiscalização realizada na Fazenda Brasil Verde, em abril de 2016.

No documento REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL (páginas 121-126)