Considero Darwin, Freud e Marx os três gênios mais profundos que a humanidade produziu, pois operaram verdadeiras revoluções no campo respectivo de suas atividades:
Darwin substituiu a crença bíblica da criação do mundo pela teoria da evolução genética;
Freud pôs em evidência o papel fundamental do Inconsciente e da sexualidade na formação da personalidade humana; Marx exaltou a força do trabalho para o progresso econômico e social. A eles devemos as melhores contribuições para a formação da sociedade moderna.
Por este motivo, aos três fundadores das novas doutrinas (Darwinismo, Freudismo e Marxismo) dedico um destaque peculiar, no limite de meu parco conhecimento.
A viagem de pesquisa
O cientista inglês Charles Darwin (1809-1882) realizou “A viagem de um naturalista ao redor do mundo” (nome de uma sua obra), a bordo do navio HMS Beagle (que deu nome a um canal perto da Terra do Fogo, no extremo sul do continente americano). Ao longo de cinco anos de viagem, pesquisando especialmente em ilhas e na costa da América do Sul, coletou mais de 230 toneladas de material orgânico (animais e vegetais exóticos). O estudo deste material o levou a formular a hipótese de que plantas, animais e seres humanos não haviam sido criados já plenamente formados, de uma única vez e por um ato divino, conforme a narração bíblica. Todas as entidades vivas desenvolveram-se aos poucos, durante um longo período de adaptação ao meio ambiente.
Os gêneros e as espécies vegetais e animais, pois, não são fixos, mas em constante mutação e melhoramento, lutando pela sobrevivência conforme a lei do mais forte. E o ser humano não foge a esta lei da evolução natural.
Estava dada a largada para a mais apaixonante discussão entre os defensores da antiga teoria criacionista ou fixista, fundamentada na exegese bíblica, e os adeptos da teoria evolucionista, incrementada pelas descobertas das ciências naturais, especialmente da Biologia e da Genética. No Gênesis está escrito que Deus criou o mundo com apenas duas palavras: fiat lux e a claridade surgiu de repente do meio das trevas, as águas se separaram da terra e nasceram os peixes do mar e os animais terrestres e, enfim, o homem e a mulher, no prazo de seis dias, sem possibilidade de mistura entre seres de gêneros e espécies diferentes.
Mas o avanço científico começou a demonstrar que as coisas não aconteceram bem assim, conforme o pensamento tradicional. Darwin substitui o fiat lux da crença na criação (o design divino) pela teoria da evolução natural, baseada no axioma natura non facit saltus (a natureza não dá pulos): a realidade física e biológica não é composta por compartimentos estanques, mas é um contínuo derivativo. As espécies distinguem-se pelas suas variedades em virtude de um longo processo de adaptação a ambientes diferentes e não
por uma origem autônoma ou independente. Os evolucionistas passaram a sustentar a tese de que o princípio racional, que separa o homem da besta, não passa de um desenvolvimento automático e progressivo do cérebro, já implícito no instinto animal, que aumenta pelo acúmulo de experiências. Enfim, o homem seria um animal intelectualmente mais desenvolvido.
É preciso salientar que Darwin chegou à formulação de sua teoria não de repente, por um estalo ou insight, como acontecera com a maioria dos profetas religiosos que tiveram “revelações” divinas (Moisés, São Paulo, Maomé etc.). Quando jovem, conforme a educação cristã recebida (estudara para clérigo), ele acreditava na existência de um Criador e no design inteligente. Antes de biólogo, já fora teólogo. Mesmo durante sua viagem de pesquisa, especialmente nas ilhas Galápagos, ainda buscava conciliar o estudo da ciência com a celebração da obra de Deus. Somente após o retorno a Inglaterra, na medida em que ia examinando o material coletado, deu-se gradativamente sua conversão à verdade científica, objeto de uma obra portentosa, A Origem das Espécies (1859), que revolucionou o mundo, considerada a nova Bíblia. Diferentemente da religião, que se nutre de fantasias transmitidas de pais para filhos, a ciência repousa sobre fatos, cuja interpretação é submetida a longos testes de comprovação, antes de anunciar uma nova teoria.
Após a publicação da Origem das Espécies, o público começou a duvidar da
“sacralidade” dos textos bíblicos: o Pentateuco fora escrito realmente por um único autor e sob inspiração divina? Os Salmos de Davi e os Cânticos de Salomão expressavam a voz de Deus ou eram apenas tropos literários? Os episódios bíblicos eram realmente históricos ou apenas fatos fantasiados? E os milagres? Como acreditar que Jonas passasse três dias na barriga de uma baleia, saindo de lá ileso? Face à extrema improbabilidade de um milagre, a coerência não exigiria que rejeitássemos todos os outros: a transformação da água em vinho, a ressurreição dos mortos etc.?
A tese da evolução
A teoria da evolução, assim como apresentada por Darwin, pode ser resumida em três pontos fundamentais, ainda hoje objetos de discussões entre apoiadores entusiastas e oponentes denegridores: 1) os relatos da Bíblia foram escritos por homens, sem nenhuma intervenção divina, contradizendo verdades históricas, leis naturais e raciocínio lógico; 2) o ser humano, como as outras criaturas, não foi uma produção individualizada, feita pelas mãos de Deus, mas teve parentesco com primatas, chimpanzés ou gorilas, deles se diferenciando por um longo processo de evolução no tempo e no espaço; 3) o princípio evolucionista rege o Universo todo, bem maior e mais antigo do que se pensava: sua origem não remonta há apenas 60 mil anos, como erroneamente achavam os teólogos daquela época.
A genialidade de Darwin reside no fato dele ter aproveitado a cultura anterior e ter lançado as bases doutrinais de cientistas, filósofos, sociólogos e ambientalistas que continuaram sua obra revolucionária, estabelecendo, assim, uma ponte entre o passado e o futuro da ciência. T.H. Huxley (não confundir com o famoso ficcionista Aldous Huxley, autor do Admirável mundo novo), biólogo amigo de Darwin, ao tomar contato com a teoria evolucionista, exclamou:
“Que imensa estupidez não ter pensado nisso antes!”
Mais estúpido é quem, ainda hoje, continua não acreditando na teoria darwiniana, dois séculos depois dos estudos de tantos ilustres cientistas que confirmaram, no todo ou em parte, a tese da evolução cósmica e humana. Negar o princípio universal da evolução é ficar parado no tempo: a fixidez é a morte! O problema é que o processo evolutivo, por ser muito lento, é quase imperceptível. O primata demorou milhões de anos para levantar as patas dianteiras, fazendo com que a cabeça olhasse mais alto, expandindo o horizonte de sua visão. Adquiriu a forma humana, mas ainda, até hoje, não alcançou um nível de inteligência capaz de separá-lo da animalidade. O homem ainda continua vivendo conforme os instintos mais baixos, seguindo a lei da selva, o mais forte comendo o mais fraco, como demonstram as guerras étnicas, a violência no campo e na cidade, o capitalismo
“selvagem”, a corrupção política, a injustiça social, o egoísmo característico dos seres primitivos e das crianças.
Assinalamos os mais importantes estudiosos que antecederam e sucederam o gênio britânico na pesquisa das ciências biológicas:
Antes de Darwin: Lineu, Lamarck, Mendel, Malthus
Carl Von Lineu (1707-1778) é considerado o pai da Botânica. A este médico e naturalista sueco devemos a primeira grande classificação de vegetais e animais em gêneros e espécies. Sem a sua sistemática e nomenclatura binominal dos seres vivos dificilmente Darwin poderia ter desenvolvido sua tese sobre a evolução das espécies. E isso porque não se pode trabalhar em profundidade sem antes explorar a superfície. Para estudar as origens das espécies precisava-se, primeiro, fazer o trabalho de classificação. O que Lineu fez. Sua obra mais importante foi publicada em 1735, com o título Sistema da natureza.
Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829) já apresentara, em 1809, a tese da transmissão hereditária de caracteres adquiridos pela necessidade de adaptação ao meio ambiente. O naturalista francês foi o primeiro biólogo a propor uma “teoria evolutiva” para explicar a diferenciação e o progresso das espécies. Conhecido se tornou o exemplo da girafa: de tanto espichar o pescoço para alcançar as folhas das árvores, o animal acabou, após centenas de gerações, transferindo esta característica a seus filhotes, que começaram a nascer com o pescoço cumprido.
A mesma teoria serviria para explicar a cor branca das palmas das mãos e dos pés dos descendentes da raça negra, por não receberem diretamente os raios do sol nessas partes do corpo, quando o primata humano ainda andava de quatro. Esta tese serve também para entender porque os povos europeus, originários da África, se tornaram brancos: após milhares de séculos sem receber raios solares escaldantes, a pele dos primitivos alemães e holandeses foi se embranquecendo, adaptando-se à neve do clima nórdico. E parece que a tese de Lamarck, após a contestação de vários biólogos, está agora sendo reabilitada por recentes pesquisas sobre o DNA que confirmam que características genéticas podem ser induzidas por mudanças ambientais e depois passadas de pai para filho.
Gregor Mendel (1822-1884), frade agostiniano da Áustria, contemporâneo do inglês Darwin, fez experiências genéticas semelhantes às do francês Lamarck, mas sobre cereais. Ele cruzou os caracteres de pés diferentes de ervilhas (sementes lisas de cor branca, sementes rugosas de cor verde etc.) e verificou que, após várias gerações, havia uma transmissão de características de uma espécie para outra. Ele é considerado o pai da
Genética, pois suas deduções passaram a ser aceitas por estudiosos posteriores que as denominaram “Leis de Mendel”.
Thomas Robert Malthus (1766-1834), padre e economista inglês, autor do Ensaio sobre o princípio da população, sustentou a tese da desproporção entre a produção de alimentos (que aumenta em progressão aritmética) e a população mundial (que se multiplica em progressão geométrica). Foi a leitura desta obra de Malthus, que Darwin ia fazendo ao longo de sua viagem, que lhe deu o insight para a descoberta da lei da seleção natural. Quando chegou às ilhas Galápagos e percebeu a grande abundância da fauna e da flora, refletiu que devia haver um limite para a multiplicação das espécies, sob pena de faltar alimentos para todos. Observando que os peixes maiores comiam os menores e as plantas mais robustas tinham uma maior sobrevivência, o cientista inglês deduziu que a pressão ao limite de crescimento demográfico era dada, de uma forma natural, pelo princípio de seleção: as espécies mais fortes e melhores adaptadas ao meio ambiente persistiam, enquanto as mais fracas estavam destinadas ao perecimento.
No campo humano, segundo a teoria de Malthus, a seleção se daria por guerras, catástrofes ou epidemias: quando a desproporção ultrapassasse o limite de tolerância, a própria natureza criaria organismos de defesa. E, como bom religioso, para reduzir a taxa de natalidade, Malthus aconselhou os homens, especialmente os mais pobres, a ajudar a natureza pela abstinência sexual. Mas, como não se pode ajudar a natureza indo contra a própria natureza, seu conselho não foi acatado. Homens e mulheres não pararam de transar e os habitantes da Terra chegaram, atualmente, a cerca de sete bilhões de habitantes, aumentando a pobreza mundial. Como o preceito da castidade continua não vingando, as igrejas apelaram para o assistencialismo, que melhora o nível da miséria sem, todavia, conseguir resolver o problema na sua raiz. Falarei sobre a necessidade do planejamento familiar e da paternidade responsável mais adiante, no contexto da construção de uma verdadeira cidadania.
Depois de Darwin: Evolucionismo vs Criacionismo (teoria do Big Bang)
Darwin, ao confirmar a teoria evolucionista sobre as origens do cosmo e do homem, dera o passo decisivo para a derrubada da teoria criacionista, conforme o relato bíblico, que dera origem à tese do “design inteligente”, formulada pelo teólogo seu patrício, William Paley (1743-1805), ao apresentar o “argumento do relógio”: o funcionamento perfeito de seu mecanismo pressupõe um engenheiro construtor, um designer. Portanto, a perfeição do microcosmo e do macrocosmo exigiria a existência de uma mente inteligente, a que
chamamos Deus.
Anteriormente, o arcebispo de Armagh (Irlândia), James Ussher (1581-1656), conforme sua exegese dos livros bíblicos, chegara a afirmar que a Terra tinha sido criada às 9 horas da manhã do domingo dia 23 de Outubro de 4004 e, no dia 10 de novembro, do mesmo ano, Adão e Eva foram expulsos do Paraíso. Precisou ainda que a Arca de Noé parara no Monte Ararat (Turquia) no dia 5 de maio de 2348. Pela exatidão das datas, seus fiéis enalteceram sua sabedoria, dando credibilidade a sua tese. Que absurdo! Bem que o filósofo francês Ernest Renan (1823-1892 afirmara:
“A unica coisa que nos dá a idéia do infinito é a imbecilidade humana!”
É inconcebível que ainda hoje, não obstante o enorme progresso intelectual e científico da humanidade, há gente que acredite em relatos fantásticos, sem nenhuma consistência histórica ou lógica mental! Mesmo pessoas inteligentes e cultas fecham os olhos à verdade factual, achando preferível (pois mais cômodo ou confortável!) acreditar em Moisés, um mítico pastor de três milênios atrás, do que num cientista genial, como Darwin. Este, como vimos, demonstrou cientificamente que o processo evolutivo do mundo prescinde de um projetista transcendental e que o homem não foi criado de súbito e num preciso momento, mas, simplesmente, é um parente de chimpanzé, bem mais evoluído (às vezes, nem tanto!).
Conforme as descobertas arqueológicas e genéticas, o Universo se formou há 13 bilhões de anos. Mas o início da vida foi bem mais tarde. Os primeiros animais talvez viessem do mar, ocupando todo tipo de nicho ecológico que encontravam entre as águas e a terra firme. Na longa corrida evolutiva, com início talvez 400 milhões de anos atrás, seres vivos, intermediários entre anfíbios e peixes, parecidos com lagartixas ou crocodilos, ao ocuparem a superfície terrestre se tornaram tetrápodes, andando apenas com quatro pés. Os mamíferos apareceram uns 200 milhões de anos depois.
Os primeiros hominídeos (mamíferos arquétipos do homem) nasceram na África há cinco milhões de anos, aproximadamente. Foi longa a caminhada que marcou a passagem do primata, quando ainda andava de quatro, até conseguir chegar à primeira forma humana, o homo erectus. Para termos apenas uma idéia, em 1983, foi descoberto um fóssil, de 47 milhões de anos (em exposição no museu da Universidade de Oslo, com o nome de Ida), considerado o mais antigo ancestral comum de macacos e homens, fêmea da espécie dos lemuróides, primatas que habitam no Madagáscar. Mas, conforme uma pesquisa mais recente, o título de “elo perdido” entre humanos e macacos pertenceria ao Ganlea megacanina, um fóssil com 38 milhões de anos, achado em Mianmar, no Sudeste Asiático.
Como se pode deduzir, levou muito tempo para que o protótipo humano começasse a levantar as patas dianteiras e a cabeça para olhar mais alto, descobrindo novos e mais amplos horizontes. Estima-se que o longo processo de formação do homo sapiens teve sua definição uns 200 mil anos atrás, numa região do sudoeste da África, nas proximidades de Angola. O local do berço da humanidade não foi, portanto, o luxuriante Jardim do Éden, mas um amontoado de areia e pedras, sendo a vida vegetal composta apenas de arbustos.
Os habitantes dos áridos sítios eram pastores ou caçadores.
Recentes pesquisas genéticas demonstram que a humanidade se originou de grupos tribais, da primitiva etnia san, que seriam os longínquos ancestrais de Barack Obama, o Presidente negro dos USA. Eles ganharam o mundo ao ultrapassar o Mar Vermelho, golfo que liga o Oceano Índico ao Canal de Suez, ao pé do Monte Sinai, separando a África da Ásia.
Esta Grande Viagem fez a diferença entre o homem e o animal: enquanto a besta se contenta em seguir apenas o instinto gregário, vivendo em grupos no mesmo lugar, o homem é movido pelo espírito da curiosidade, a vontade de conhecer o que está além da sua vista. De acordo com cálculos de paleontólogos, o Homo Sapiens da África, a partir de 100 mil anos atrás, depois de ter explorado boa parte do seu continente, começou a dirigir-se, sucessivamente, em direção à Ásia (60.000 anos atrás), à Oceania (50.000), à Europa (35.000) e às Américas (15.000).
No continente europeu, por mudanças biológicas, ambientais e culturais, um protótipo de ser duvidosamente humano, chamado de Homo de Neandertal, espécie já extinta, gradativamente teria sido substituído pelo Homo Sapiens, de origem africana. A
pele humana branca começou a surgir nas regiões glaciais, a partir de 12 mil anos atrás, devido ao fator climático (diminuição da exposição direta do corpo aos raios solares: isso explicaria a causa da brancura da palma dos pés e das mãos dos africanos que originariamente andavam de quatro). Portanto, o homem de cor branca que se achar superior ao negro está renegando suas origens. Qualquer ser humano é afrodescendente! O cantor pop star norte-americano Michael Jackson, de cor preta, recorrendo a um processo químico de embranquecimento, tentou conseguir, em poucos anos, o que a natureza levou milênios: os resultados foram pífios.
Na sua generalidade, a civilização humana teria uma história de 6.000 anos, aproximadamente. Mas a época pré-histórica da humanidade apresenta sinais de trabalhos artísticos, encontrados numa caverna da África do Sul, que remontam a 70 mil anos, aproximadamente. A primeira figura humana, documentada até agora e encontrada numa caverna do Sul da Alemanha, foi esculpida há uns 35 mil anos: é a estatueta de uma mulher sem cabeça, com enormes seios e nádegas volumosas, com genitália bem desenhada. A fenda entre as coxas põe em evidência a vulva no meio dos grandes lábios. O convite ao coito, à penetração, que pode ser considerado pornográfico pela nossa moral (os arqueólogos denominaram o achado como Venus Peituda), salienta a importância que o homem primitivo dava ao ato sexual. A configuração artística desta mulher representa os dois instintos fundamentais do ser humano: a conservação própria pelo alimento (os peitos generosos que fornecem o leite) e a perpetuação da espécie pelo acoplamento sexual (o rego onde a vida se reproduz). Para todos os povos indígenas, a arte é principalmente utilitária, estando a serviço da comunidade tribal. O animal pintado ou esculpido numa rocha está lá para precaver os transeuntes sobre o perigo que aquele sítio apresenta.
A descoberta da Venus Peituda na Alemanha reforça a tese da existência de um primitivo matriarcalismo, quando a mulher tinha mais poder do que o homem. Isso aconteceu (e ainda acontece) especialmente nas regiões do Norte da Europa, onde é valorizado o papel da mulher na sociedade, contrastando com os povos de origem judaica, latina ou islâmica, em que predomina o machismo. O achado arqueológico confirma o mito: o primitivo poema épico-religioso da Finlândia, Kalevala, narra que quem criou o mundo foi uma mulher, a virgem Ilmatar, após 700 anos de trabalho de parto. Narra a lenda que a jovem teria recebida a visita de um bichinho anfíbio (uma espécie de pato marinho ou boto), que se aninhara na sua vulva, confundindo os pelos pélvicos com uma moita de capim fresco ou uma turfa, matéria esponjosa que se forma no limite entre a terra e água.
A figura da deusa Ilmatar lembra a lenda brasileira do boto, golfinho do rio Amazonas, que de noite se transforma num lindo jovem que seduz as mocinhas, na praia ou ao sair de um baile. “Filho do boto” passou a denominar um filho natural, de paternidade desconhecida. Luís da Câmara Cascudo, no Dicionário do Folclore brasileiro, relata que uma mulher do Pará levara uma criancinha ao médico. Ao perguntar a paternidade do nenê, recebera a seguinte resposta: é “filho de boto”. Ela acreditava que apenas os outros três filhos seus eram do marido. Cascudo narra ainda que um caboclo amazonense ofereceu ao comandante de um barco um “Olho de Boto”, uma espécie de amuleto, dizendo que se olhasse pelo buraquinho qualquer moça se apaixonaria por ele. O Comandante quis experimentar e olhou pelo furinho na direção do caboclo. E este começou a desmunhecar, se remexendo todo, sorrindo, virando os olhos e dizendo “deixe disso, seu comandante”.
Diante dessa prova incontestável de sua eficácia, o Comandante comprou o amuleto.
Mas os estudiosos do folclore brasileiro acham que a lenda do boto não é de origem autóctone, pois foi levada para Amazônia pelos colonizadores portugueses. Há uma longa tradição clássica a respeito: o povo grego consagrara o delfim a Afrodite (Vênus, em Roma), a deusa do amor, que nascera da espuma formada sobre o mar pelo sêmen do deus Céu, quando este teve os testículos cortados pelo filho Saturno. Na Roma antiga, vários poetas exaltam a luxúria dos delfins. A iconografia, nas origens da religião cristã, representa um peixe, na forma de delfim, como símbolo da Eucaristia, para representar o amor de Jesus para com a humanidade. A verdade é que o erotismo está muito presente nas
Mas os estudiosos do folclore brasileiro acham que a lenda do boto não é de origem autóctone, pois foi levada para Amazônia pelos colonizadores portugueses. Há uma longa tradição clássica a respeito: o povo grego consagrara o delfim a Afrodite (Vênus, em Roma), a deusa do amor, que nascera da espuma formada sobre o mar pelo sêmen do deus Céu, quando este teve os testículos cortados pelo filho Saturno. Na Roma antiga, vários poetas exaltam a luxúria dos delfins. A iconografia, nas origens da religião cristã, representa um peixe, na forma de delfim, como símbolo da Eucaristia, para representar o amor de Jesus para com a humanidade. A verdade é que o erotismo está muito presente nas