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«ENTREVISTA COM LOURDES CASTRO (realização e montagem de Manuel Zimbro)

M. Z.: Lourdes, parece-te uma boa ideia esta entrevista para, por um lado,

falar de ti e do KWY, e por outro lado ultrapassar este novo acontecimento que é o Wim Beeren não escrever o texto que lhe pediste?

L.C.: Sim! Acho que sim!

Então comecemos por ele. Tu encontraste-o na Bienal de Veneza de São Paulo e gostaste muito do que ele disse sobre o que tu e o Francisco (Tropa) fizeram para a Bienal. Foi apenas uma palavra…

«É decisivo!» disse ele, após ter dado várias voltas àquela mesa com aquele imenso pano branco iluminado por mil watts. Foi de facto um comentário muito agudo que apreciei imenso.

Porquê?

Gostei muito, talvez por ser tão curto. Não era nem «que bonito…!» nem «que poético…!» nem… foi apenas um comentário incisivo e, realmente, fizemos aquilo sem nunca termos voltado para trás. Era aquilo e mais nada, ao mesmo tempo também era curto (se bem que o pano tivesse oitenta metros de comprimento e a mesa desse para sessenta pessoas) tudo o que apresentávamos era o mínimo que podíamos fazer.

Foi essa palavra ou comentário que te levou a pensar nele para escrever um texto sobre o teu trabalho?

Já há muito tempo que não via o Wim Beeren. Tive imensa alegria em o encontrar em São Paulo e ele ter dito aquilo foi muito forte. Sim, em parte contou para ter pensado nele como apresentador. Senti que ele viu onde havia muito pouco para ver.

Já o conhecias há muito?

Desde os anos de 1960, desde a minha primeira exposição em Amesterdão que ele sempre acompanhou o meu trabalho. Em Paris viu o Teatro de Sombras na Gare d’Orsay.

Foi ele que te propôs a troca do KWY com os catálogos do Stedelijk?

Não, essa troca aconteceu antes de o conhecer. Para além dessa troca, e por iniciativa de Ad Petersen, o Museu organizou a primeira exposição com os números da revista. O Wim Beeren, conheci-o quando da minha primeira exposição em Amesterdão como já referi.

Como o Stedelijk teve conhecimento da vossa revista?

Já não me lembro muito bem…! De certo fomos nós que a enviamos?! Desde a nossa primeira passagem por Amesterdão que o Stedelijk era para nós – para mim e para o René – um Museu tão aberto, tão novo, tão excepcional que… talvez tivéssemos enviado algum número do KWY, e depois eles ter-nos-ão proposto uma troca com os seus excelentes catálogos.

Portanto o Wim Beeren aparece por causa do seu «decisivo» e também devido a esse primeiro contacto com o Stedelijk, no qual mais tarde seria conservador e depois director.

Apesar de tudo, é manifestamente importante para ti inserir aqui alguns extractos da última carta que ele nos enviou. Será que é por terem alguma relação com o que o KWY é essencial? A frescura, a espontaneidade…?

Não, não é só isso, é a carta em si que é especial. Durante a semana em que eles, ele a Dorine, estiveram cá, não foi só uma visita para ver o meu trabalho. Nessa semana estivemos realmente juntos: falámos, passeámos, olhámos, numa mesma dimensão. Ele ficou impressionado com o mar, com ter estado aqui connosco, como é que nós vivemos aqui e depois também falámos do trabalho e, por exemplo, ele viu que o jardim, quero dizer, o exterior é para mim tão importante como o atelier dentro de casa. Se não cuido das plantas, como posso continuar a Montanha de Flores?!

Enfim, acho que era uma pessoa muito sensível e que apanhava «os lados» das coisas.

Apanhava «os lados das coisas»?

Não é propriamente os quadros ou os objectos, mas mais o espaço em que nos movemos, o clima ou a atmosfera que as coisas têm.

Qual será então o clima do KWY?

O clima do KWY ainda é um clima que está à minha volta. Tu falaste há pouco em frescura e espontaneidade, ora isso continua a ter para mim a mesmíssima importância. «Querer estar perto do mar, o mais puro possível…»

Não terá essa espontaneidade a ver com o que se faz, ou não se faz – com o fazer em si? Ainda voltando à carta, e visto que ele já não está entre nós, não te terá ela tocado por ser um texto sem fim?

Sim, pode ter a ver com o fazer, mas também tem muito a ver com o «como se faz», porque não é só o fazer que interessa. Por exemplo, o KWY. Fizemos aqueles

doze números mas não são só esses doze números que contam ou que se poderão ver. É também como os fizemos, o que nos animava, o que nos levava a fazer isso.

Havia muito divertimento, no verdadeiro sentido, ou seja, coisas diversas, o que nos unia não eram as tendências estéticas, o estilo de cada um, mas sim o facto de sermos todos amigos e, tão amigos éramos que, mesmo depois de tantas coisas passadas, ainda hoje somos amigos. Nesta revista, que deu num grupo que depois começou a expor, não havia a doença da competição. Éramos um só, ajudávamo-nos, fazíamos tudo uns pelos outros sem pensar no que é que eu fiz e no que é que tu não fizeste. E depois quem colaborou na revista eram outros amigos que tínhamos encontrado ou de quem tínhamos visto trabalhos ou ainda que eram conhecidos de um ou de outro, o que nos levava a convidá-los para colaborar. Todos gostavam muito da revista porque era feita assim, com muito poucos meios, claro, mas sem pretensão, com naturalidade. Por outro lado, o resultado final é que saiu uma revista diferente de tudo o que havia nessa altura. Sendo feita à mão em serigrafia, podíamos empregar muitas cores quando tudo era reproduzido a preto e branco.

Divertíamo-nos! Por exemplo, o Filliou – que a primeira vez que publicou um trabalho foi no KWY – foi lá para casa, e estivemos todos a recortar de revistas aqueles livrinhos-cabeças que depois agrafávamos nas páginas do KWY. Não existem dois iguais. Isto transmite-se, porque se era uma revista que dava prazer ver é porque tivemos prazer em fazê-la.

É talvez difícil, mas era aí que gostava de chegar: o como é trabalhar juntos, o fazer qualquer coisa juntos, sem se ser mais que o outro. É claro que cada um tinha a sua tarefa, o René era quem imprimia, era o «chefe da serigrafia», eu misturava as cores, sabia as proporções, outros ajudavam a dependurar as provas para secarem ou escreviam cartas, etc. Fazíamos assim e falávamos sempre abertamente uns com os outros.

Queres dizer que: mais importante do que produzir uma coisa são as relações que conduzem a uma produção. De facto, isso na revista é claro. Por isso, tem um aspecto fresco e espontâneo, parece muito leve sem envolver grandes problemáticas, se bem que vá até à Lua!

Sim, no número oito398. E havia nisso muita liberdade entre nós, éramos livres de imprimir e de escolher o tema de cada número.

398

Número organizado em Outubro de 1961 por Lourdes Castro em torno do tema da conquista do Espaço, que faz alusão á nave que colocaria em orbita o primeiro ser humano.