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Vila de Paranapiacaba, Santo André SP

CAPÍTULO II – Intervenções Urbanas

2.3 Experiências Nacionais

2.3.5 Vila de Paranapiacaba, Santo André SP

A Vila de Paranapiacaba constitui um conjunto ferroviário ú- nico, tombado pelos órgãos de preservação cultural das três esfe- ras de poder, COMDEPHAAPASA (Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arquitetônico-Urbanístico e Pai- sagístico de Santo André), CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Es- tado de São Paulo) e IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), devido ao seu valor cultural excepcional e pa- pel fundamental para a viabilização original da rede ferroviária pau- lista.

Nas últimas décadas, entretanto, em virtude do indiscrimina- do sucateamento do sistema ferroviário brasileiro, a sua função original foi drasticamente reduzida e, desde 2001, nem mesmo trens de passageiros chegam mais à Vila, partindo da Estação da Luz em São Paulo com destino a Rio Grande da Serra, parando, portanto, a apenas alguns quilômetros antes de Paranapiacaba, sendo que o percurso final só pode ser vencido por meio do trans- porte rodoviário intermunicipal, restringindo seriamente a acessibili- dade da população ao local. Algumas poucas instalações localiza- das no pátio ferroviário da Vila ainda são utilizadas para fins de manutenção e controle do fluxo de trens de carga que trafegam pela cremalheira, o que, entretanto, em nada afeta a dinâmica da

vida urbana, e o restante das antigas construções, com exceção daquelas abertas a visitação pública, permanece abandonado, em grave estado de deterioração.

Após um longo período de abandono institucional e deca- dência econômica, atualmente, o núcleo urbano passa por um gradual processo de recuperação, tendo sido realizada a restaura- ção de edifícios de uso público, com maior destaque na paisagem, acompanhada do desenvolvimento de projetos de melhorias urba- nas e do incentivo à melhoria da qualidade de vida da população local e de atividades turísticas.

Inaugurado em 1867, o conjunto foi construído pela São Pau- lo Railway, companhia criada por iniciativa do Barão de Mauá, que exerceu papel fundamental para o desenvolvimento da economia paulista por estabelecer a ligação ferroviária entre o planalto e o litoral, superando a barreira histórica exercida pela Serra do Mar através da criação de um sistema funicular de proporções sem precedentes no mundo e, possibilitando, assim, o escoamento da produção agrícola e a alimentação do mercado interno de forma mais rápida, segura e econômica. Paranapiacaba tornou-se pólo estratégico dentro deste quadro, por ser, durante anos, o único ponto de ligação entre a estrada de ferro vinda do interior e o Porto de Santos.

O primeiro sistema construído, conhecido como Serra Velha, era composto por quatro planos inclinados, operados por cabos de aço tracionados, com instalações fixas e obras de arte da enge-

nharia inglesa. Desativado com a inauguração do sistema crema- lheira em 1974, permaneceu abandonado e, atualmente, poucos vestígios restam de suas estruturas. Apenas a 4ª Máquina-Fixa,

localizada no Alto da Serra, e uma serra-breque foram preserva- dos.

O segundo sistema, a Serra Nova, foi construído para suprir a crescente demanda de transporte de carga que rapidamente esgotou a capacidade do original. Inaugurado em 1901, é formado por cinco planos inclinados e obras de arte como casas de máqui- nas, caldeiras, túneis, pontes e muros de arrimo. Em 1946, com o fim do prazo de concessão da São Paulo Railway, a estrada de ferro foi encampada pela União, que manteve o funicular em ativi- dade até 1982. Sob responsabilidade da Rede Ferroviária Federal, em 1986, o trecho compreendido entre o 4º e o 5º patamares foi

restaurado e colocado em funcionamento para fins turísticos. No entanto, devido ao alto custo de manutenção, este serviço de transporte de passageiros logo foi desativado e, desde então, a Serra Nova permanece abandonada e em alto grau de deteriora- ção.

Em 1987, o conjunto da Vila de Paranapiacaba foi tombado pelo CONDEPHAAT, como resultado de um estudo iniciado em 1982 e cuja proteção abrange as partes alta e baixa da Vila, o pá- tio ferroviário, o trecho entre o 4º e o 5º patamares do funicular e a

área de Mata Atlântica envolvente. Foi justamente a questão da dificuldade de acesso e de manutenção integral do sistema, um

dos fatores responsáveis pela decisão de tombamento de apenas um plano inclinado, como exemplar da tecnologia daquele meio de transporte pioneiro.

Nos últimos anos, apenas as instalações do 5º patamar, loca-

lizadas no pátio ferroviário de Paranapiacaba, vêm sendo preser- vadas, ainda que em condições bastante precárias. O restante do leito, suas estruturas e instalações encontram-se tomados pelo mato e vêm sofrendo não apenas com as causas naturais da dete- rioração, mas em especial com vandalismo e depredação. Algu- mas das antigas estruturas metálicas, em avançado estado de corrosão, entraram em colapso e desabaram. Dormentes, trilhos e polias ao longo da estrutura encontram-se também bastante dete- riorados. Apenas as encostas e estruturas em alvenaria de pedra permanecem em bom estado de conservação, devido à excelente qualidade da construção e às características físicas dos materiais.

Com a compra da área da Parte Baixa, antes pertencente à RFFSA, pela Prefeitura Municipal de Santo André em 2001, deli- neia-se uma nova perspectiva de preservação, uma vez que a Vila se torna patrimônio público municipal e foco de um programa de incentivo ao turismo cultural e ambiental. A mudança de mãos de sua administração não implicou em uma mudança brusca na vida local, mas sim na paulatina adoção de ações e medidas que visa- vam à reorganização socioeconômica local, de forma a minimizar o caótico quadro de anarquia em que se transformou, com a ocupa- ção ilegal de casas por inúmeras famílias de desabrigados e a sua

indiscriminada depredação, com a retirada de elementos originais das construções ferroviárias para venda em ferro-velho, ao lado de antigas famílias de ferroviários que lutavam para não ver suas his- tórias serem destruídas. Assim, atos de vandalismo foram combati- dos e, apesar de habitada principalmente por famílias de baixa ren- da, foi feito um grande esforço para que aqueles que quisessem permanecer em suas casas o fizessem, mediante o estabelecimen- to de um termo de compromisso com a administração municipal, que passou a subsidiar o processo, de forma a manter os valores de aluguéis baixos, simbólicos mesmo, em troca da conservação dos imóveis, investimentos em novos empreendimentos e integra- ção nas atividades econômicas desenvolvidas.

Com a aprovação do Estatuto da Cidade em 2003 pelo go- verno federal, um novo Plano Diretor Estratégico para o município de Santo André é elaborado e aprovado em 2004, definindo a área como Zona Especial de Interesse do Patrimônio de Paranapiacaba - ZEIPP, lei específica a ser regulamentada, de forma a definir dire- trizes e procedimentos para a recuperação, preservação e uso das áreas tombadas como patrimônio cultural.

Assim, em 2005, por iniciativa da administração municipal, por meio da Subprefeitura de Paranapiacaba e Parque Andreense, dá-se início ao processo democrático de desenvolvimento do proje- to de lei da ZEIPP, com participação e discussão pública por repre- sentantes da prefeitura, de moradores e comerciantes, universida- des e os três órgãos de preservação, tendo como objetivo o estabe-

lecimento de um planejamento urbano que aborda a questão da preservação como fator de desenvolvimento socioeconômico e cul- tural, através da institucionalização de procedimentos de atuação e da discussão, do consenso e fixação de conceitos, normas e dire- trizes acordados entre todos os participantes, além da preocupação com a formação da população por meio do oferecimento de Cursos de Educação Patrimonial, destinados a monitores turísticos, em- preendedores e os próprios moradores da Vila.

Tal oportunidade se mostrou uma experiência bastante rica quanto à possibilidade de melhor conhecimento dos conflitos, an- seios e necessidades dos moradores e comerciantes, bem como do esclarecimento de dúvidas sobre critérios norteadores da ação pre- servacionista, gerando maior aproximação e entendimento entre a população local, as instituições envolvidas e o poder público, pro- porcionando, ainda, o estabelecimento de maior compromisso e responsabilidade entre as diversas partes envolvidas.

Dessa forma, por convenção, foram estabelecidos os seguin- tes conceitos e formas de intervenção para a realização de obras na Vila de Paranapiacaba, visando à salvaguarda de seu patrimô- nio cultural, exaustivamente estudados e debatidos entre os partici- pantes, sob a luz do debate, das recomendações e cartas patrimo- niais internacionais vigentes:

Paisagem cultural – são as partes específicas de uma

nos. Expressa fisicamente a relação que através do tempo vem se estabelecendo entre um indivíduo ou sociedade e um território. Na paisagem cultural estão contidos os rema- nescentes materiais das atividades que vem se desenvol- vendo na terra, experiências e tradições particulares;

Patrimônio cultural – é a expressão material e imateri-

al das ações humanas acumuladas no decorrer do tempo, que atende a constituição de identidades e a construção da memória dos diferentes grupos formadores da sociedade;

Patrimônio material – são os objetos, edificações, do-

cumentos, conjuntos e espaços urbanos que constituem bens culturais, com reconhecido valor histórico, paisagístico, artístico, arquitetônico, urbanístico, arqueológico, ecológico, científico e tecnológico;

Patrimônio imaterial – são as manifestações, conhe-

cimentos e modos de fazer identificados como elementos pertencentes à cultura comunitária, os rituais, as festas, a culinária e folclores que marcam a vivência coletiva do tra- balho, a religiosidade, o entretenimento e outras práticas da vida social, bem como as manifestações literárias, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas;

Sítio histórico – é um espaço delimitado da paisagem

cultural que constitui-se num conjunto de elementos de re- conhecido valor como testemunho do fazer cultural de uma comunidade seja por seus aspectos materiais ou imateriais;

Salvaguarda do patrimônio cultural – é o conjunto de

medidas que visam a identificação, proteção, conservação, restauração, recuperação do patrimônio cultural e seu en- torno;

Preservação – é o conjunto de iniciativas que buscam

proteger e recuperar os bens que compõem a paisagem cul- tural. Busca uma série de ações ou intervenções para ga- rantir a integridade, a conservação ou a permanência das características e expressões culturais dos bens, como tam- bém possíveis adaptações às necessidades de uso atuais e atualizações tecnológicas;

Conservação – caracteriza-se por um conjunto de cui-

dados a serem dispensados aos bens culturais com o intuito de preservar-lhes as características que apresentem signifi- cação cultural. Consiste em pequenas ações de conserva- ção do imóvel tais como, reparos na rede elétrica e hidráuli- ca, nos cercamentos do lotes, reboco ou pintura interna e externa de pisos, vedações, esquadrias, coberturas, etc;

Recuperação – consiste em um conjunto de pequenas

intervenções ou obras localizadas de recuperação de ele- mentos arquitetônicos que constituem os imóveis, tais co- mo, reparos ou reconstituição de elementos construtivos, vedações, esquadrias, problemas estruturais, etc;

Adaptação – trata-se da adequação de uso do imóvel,

Atualização tecnológica – é a adequação da constru-

ção às novas tecnologias existentes, às normas legais e as técnicas de segurança, que vão desde soluções nas facha- das, instalações hidráulicas e elétricas, elevadores, rampas para acesso para pessoas com mobilidade reduzida, prote- ção contra incêndio, descarga elétrica e demais itens;

Restauração – é uma intervenção de caráter excep-

cional que envolve toda a edificação e tem em vista a valori- zação do significado cultural de um bem através do restabe- lecimento, em um estado anterior conhecido, do conjunto de materiais que fisicamente o compõe e por isso pressupõe a elaboração de projeto arquitetônico;

Uso compatível – designa a utilização que não implica

alterações substanciais na significação e no valor cultural do bem;

Requalificação urbana – é um conjunto de medidas

que visam à valorização de espaços urbanos considerados degradados, obsoletos ou abandonados, a partir da qualifi- cação ou incentivo a novas atividades econômicas, funcio- nais, sociais, culturais e ambientais;

Turismo – é o conjunto de atividades econômicas as-

sociadas à visitação e circulação de pessoas gerado a partir de interesses diversos, tais como pelo patrimônio natural e cultural, entretenimento, esportes, negócios ou pesquisa.

Cada ponto do projeto de lei, incluindo índices urbanísticos, diretrizes de uso e ocupação e regularização fundiária, foi discutido em reuniões públicas. Em virtude da natureza polêmica do assunto tratado, bem como dos conflitos, disputas internas e interesses pessoais existentes na Vila, nem sempre foi possível satisfazer a todos e atingir comum acordo em relação a todos os tópicos abor- dados, mas, ao menos, foi dada a oportunidade de discussão de- mocrática, objetivando a busca pelas melhores e mais viáveis solu- ções. O projeto de lei da ZEIPP foi então enviado para análise e aprovação da Câmara Municipal de Santo André.

Entre outras medidas, foram demarcados os limites dos lotes existentes, algo que nunca havia sido feito, definidas as áreas onde devem ser incentivas atividades de suporte ao turismo, com maior concentração e circulação de pessoas, bem como outras de pre- dominância residencial e oferecimento de serviços locais e, reco- mendado respeito à configuração original dos lotes, permitindo e- ventuais acréscimos e adaptações necessárias, mas buscando evitar a ocupação abusiva dos terrenos por meio dos 'puxadinhos' comumente encontrados, que provocam a 'favelização' da área, visando também à recuperação das antigas vielas sanitárias exis- tentes aos fundos dos lotes, que em geral foram aos poucos sendo obstruídas por construções espúrias. Para tanto, foi regulamentada a construção ou adaptação dos anexos das edificações para sua adequação e modernização de instalações básicas visando suprir as necessidades atuais dos moradores.

Um dos esforços empreendidos nesta etapa foi a tentativa de institucionalização de procedimentos padronizados entre os órgãos responsáveis pela preservação da Vila, de forma a agilizar a trami- tação burocrática de processos sobre intervenções nos imóveis protegidos, procurando solucionar o problema crônico da morosi- dade para aprovação mesmo das solicitações mais simples. Tal ação se mostra de grande importância na medida em que essa demora acaba incentivando a prática ilegal de obras diversas, acar- retando sérios riscos para a integridade do conjunto tombado, uma vez que há a inevitável usual necessidade dos moradores de solu- cionar problemas cotidianos em suas residências e a urgência por parte de empreendedores para a qualificação dos serviços presta- dos ou a concretização de novos projetos, além do fato de que a permanência por tempo prolongado de casas vazias e inativas po- de resultar no agravamento de seu já elevado grau de deterioração e, até mesmo, na perda de bens culturais significativos.

Uma vez que grande parte das casas é composta por tipolo- gias padronizadas, resultado do sistema construtivo originalmente empregado, é possível estabelecer soluções também padronizadas para problemas de conservação recorrentes e de adaptação dos imóveis, visando seu bom funcionamento e melhoria da qualidade de vida da população local. Para tanto, conforme previsto pela lei da ZEIPP, serão desenvolvidos manuais de conservação e adapta- ção das casas de madeira que, quando prontos, serão apresenta- dos para apreciação e aprovação dos órgãos responsáveis.

Com base nas formas de intervenção definidas, foram estabe- lecidos os casos que devem ou não passar por apreciação prévia dos órgãos de preservação, de maneira a agilizar as ações neces- sárias. Assim, foi previsto que para obras de conservação, recupe-

ração, adaptação e atualização tecnológica dos imóveis, não há

necessidade de aprovação prévia, uma vez que as soluções a se- rem empregadas constarão dos manuais, os quais serão previa- mente analisados e aprovados pelos três órgãos de preservação e, ainda, a realização das obras será acompanhada não apenas por técnicos da Subprefeitura de Paranapiacaba, mas também por re- presentantes técnicos dos próprios órgãos, com a documentação e registro neste processo dos trabalhos efetuados. Propostas de re-

qualificação urbana, restauro, reforma ou adaptações de edifica-

ções não previstas nos manuais, serão apreciadas normalmente, obedecendo aos procedimentos comuns para análise e aprovação de projetos. Em todos os casos, foi estabelecido o comprometimen- to da Subprefeitura de envio de documentação para registro das intervenções em processo, com fotografias e croquis de situação, a fim de garantir a formação de um acervo a respeito de tais obras, bem como, a credibilidade das medidas adotadas.

E, ainda, a Subprefeitura de Paranapiacaba iniciou um levan- tamento detalhado dos imóveis da parte baixa da Vila, incluindo seus interiores, com fotografias e croquis, para conhecimento e registro do atual estado de conservação e de eventuais modifica- ções efetuadas, a fim de identificar aspectos originais das constru-

ções e adições realizadas ao longo do tempo, o qual servirá de instrumento de trabalho para a melhor compreensão do conjunto e de suas particularidades, auxiliando na definição de critérios de intervenção, bem como na fiscalização e controle sobre as mes- mas.

O caso da Vila de Paranapiacaba é sem dúvida bastante pe- culiar, devido não apenas a suas características histórico-culturais, mas também ao fato de uma boa parte do conjunto ser de proprie- dade pública municipal, o que oferece à prefeitura um maior contro- le sobre a gestão do patrimônio cultural. Entretanto, apesar de habi- tada principalmente por famílias de baixa renda, foi tomado o cui- dado de se estabelecer um processo democrático no qual a popu- lação local, além de não ter sido expulsa de seus lares, pode parti- cipar da tomada de decisões e se beneficiar dos frutos colhidos.

2.4 Considerações

As experiências de intervenções urbanas analisadas repre- sentam, em sua multiplicidade de características, o processo de evolução dos conceitos e práticas relacionados à ação do homem sobre a cidade no mundo ocidental, em especial, desde o surgi- mento da Arquitetura e Urbanismo Modernos aos dias atuais, cul- minando com a conformação de princípios e formas de atuação baseados em processos democráticos, que buscam a integração de forças e consensualidade, aplicados sob diversas formas, de acordo com as realidades distintas de cada localidade.

Partindo das propostas generalizadoras do início a meados do século XX, ao planejamento integrado da intervenção cautelosa desenvolvida a partir de fins da década de 1960, é possível vislum- brar um espectro de condicionantes e variáveis que, invariavelmen- te, moldam a cidade contemporânea, impondo novos desafios fren- te à dinâmica de sua permanente transformação.

Ainda que de origem anterior, a Carta de Atenas instituciona- liza e legitima a tabula rasa como solução para os males urbanos e, sua leitura simplista e imediatista, proporcionando rápida e eficaz transformação do tecido da cidade, leva ao surgimento de inúmeras propostas de renovação urbana para áreas distintas, segundo dife- rentes ideologias e servindo a diversos objetivos e propósitos. Em um momento em que nem o conjunto edificado comum ou manifes-

tações culturais tinham seu valor reconhecido, nem necessidades e demandas sociais eram consideradas relevantes para a formatação de políticas públicas de desenvolvimento, a adoção de medidas unilaterais avassaladoras era vista como algo inevitável e, até mesmo, imprescindível, com resignação e conformismo frente a imposições de pressões econômicas.

Como visto, as diferentes propostas de demolições em massa para Utrecht, Bruxelas, Amsterdam, Paris e Berlim, como em mui- tas outras cidades, surtiram diferentes efeitos e conseqüências, mostrando-se, entretanto, desastrosas em todos os casos em que foram concretizadas, por destruir partes importantes da vida urba- na, com sua inerente riqueza e diversidade, destituindo populações inteiras de suas comunidades, interrompendo atividades tradicio- nais, corrompendo sentimentos de identidade e pertença e seg- mentando cidades em zonas desconectadas.

É especialmente a partir da década de 1960, momento da Contracultura, dos movimentos estudantis e sociais e de uma pro- funda revisão histórica, que dogmas urbanísticos passam a ser questionados e são desenvolvidas novas possibilidades de atuação profissional e participação democrática, com o debate sobre ideolo- gias adotadas, os caminhos até então traçados e resultados obti- dos.

Em Utrecht, apesar de contar com um plano amplo para a á-

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