• Nenhum resultado encontrado

O REORDENAMENTO DO TERRITÓRIO E A INCORPORAÇÃO DOS ÍNDIOS À POLÍTICA COLONIZADORA

FIGURA 18 Planta da vila do Prado

4.2.3 Vila Nova de Belmonte: um “modo de conservar ali aqueles índios”

No dia 23 dezembro de 1765, o ouvidor Tomé Couceiro de Abreu proclamou a fundação da Vila Nova de Belmonte, terceira povoação criada na antiga Capitania de Porto Seguro após a instalação da Nova Ouvidoria36. Localizada na margem direita do rio Grande (atual Jequitinhonha), a nova povoação surgiu para demarcar fronteiras: de um lado, delimitava o alcance jurisdicional da Comarca de Porto Seguro, formalizando a fronteira político-administrativa com a Comarca de Ilhéus; do outro, formava um importante ponto de apoio para a expansão portuguesa naquela rica região, impondo uma fronteira político-militar entre a sociedade colonial e os bravos índios dos sertões do rio Grande. Mas, antes de tudo, a Vila Nova de Belmonte foi criada como uma estratégia para “conservar” a utilidade de mais de cem índios Meniãs que habitavam aquelas paragens desde o século anterior.

A história dos índios Meniãs, subgrupo Kamakã, revela, ainda que de forma fragmentada, a trama de conflitos, negociações e acomodações vivida pelos grupos indígenas na América portuguesa. Habitantes originários do território entre os rios Pardo e de Contas, os Meniãs foram violentamente atacados por expedições escravistas dos paulistas durante a primeira metade do século XVII, sendo parte da sua população dizimada nesses conflitos. Os sobreviventes resolveram avançar sobre outros territórios, deslocando-se para o sul, em direção ao leito do atual rio Jequitinhonha, fugindo dos perigos dos sertões de cima e procurando algum abrigo que lhes garantisse, ao menos, a vida. Nesse deslocamento, acabaram por fazer contato com os colonos Francisco Burjon, José de Oliveira Correia, André Brito de Almeida, Francisco de Oliveira Rego e o capitão Simão da Silva, todos moradores da

35

Atualmente esta povoação possui mesmo nome, sendo um município localizado a 723 quilômetros de Salvador.

36

TRANSLADO dos autos de criação da Vila Nova de Belmonte, que mandou fazer sobre a barra do rio Grande o desembargador Tomé Couceiro de Abreu, ouvidor geral desta Comarca e Capitania de Porto Seguro. Povoação do Rio Grande, 23 de dezembro de 1765. BNRJ – Manuscritos, doc. I – 5, 2, 29 nº. 12.

freguesia de Santa Cruz, distante cinco léguas da Vila de Porto Seguro, com os quais desceram para o lugar de Triquitiba, na margem direita do rio Grande37.

Depois que desceram dos sertões, os índios Meniãs foram aldeados em algumas fazendas na margem do rio Grande. Em 1681, o governador do Estado do Brasil, Roque da Costa Barreto, autorizou a criação de um único aldeamento com os índios Meniãs, concedendo a Francisco Burjon o direito de administrá-lo. Para orientar a administração desses índios, o governador despachou um regimento datado de 1678, que estabelecia as regras para a administração dos aldeamentos particulares no Brasil. Esse regimento instituía a necessidade da assistência espiritual aos administrados, legitimava o governo temporal dos administradores e regulamentava a repartição da mão-de-obra, determinando que os índios trabalhassem “no serviço dos moradores e na conquista do gentio bárbaro”38.

Por mais de 50 anos, Francisco Barjon administrou os Meniãs, aproveitando-os como mão-de-obra compulsória nas atividades de pesca, corte de madeira e plantação de mandioca. Com sua morte em 1734, seus netos, os padres José de Araújo Ferraz e Sebastião de Araújo Barjon, recorreram à justiça para conquistar o direito de administrar o aldeamento, conforme o “uso e costume da terra”. Pouco tempo depois, em 1739, a câmara de Porto Seguro emitiu um documento favorável ao padre José de Araújo Ferraz, assegurando-lhe o cargo de administrador e enaltecendo a “competência e zelo” com estava “ensinando a doutrina e ministrando os santos sacramentos” aos índios Meniãs39. O controle da família Ferraz sobre esses índios demonstra o recurso a um direito tradicional que sustentava a prática dos aldeamentos particulares, o qual

se fundamentava ideologicamente na justificativa de que os colonos prestavam um inestimável serviço a Deus, ao rei e aos próprios índios ao transferir estes últimos do

37

Em 1816, quando o príncipe Maximiliano passou pela Vila de Belmonte, registrou a memória ainda viva da história deste grupo, narrando que “outrora viveram rio acima, até que os paulistas (habitantes da capitania de São Paulo) os rechaçaram dessa região, matando muitos. Os que escaparam, fugiram para o local da atual vila, onde se estabeleceram. Aos poucos, abandonaram de todo o antigo modo de vida, sendo agora completamente mansos e em parte cruzados com a raça negra”. In: WIED MAXIMILIAN, Prinz Von. Viagem ao Brasil. Tradução de Edgar S. de Mendonça e Flávio P. de Figueiredo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da USP, 1989, p. 215.

38

PROVISÃO, op. cit., AHU_ACL_CU_005-01, Cx. 35, D. 6523; REQUERIMENTO de D. Francisco Barjon solicitando certidão do Regimento da Administração dos Índios. (1681). AHU_ACL_CU_005-01, Cx. 35, D. 6524; REGIMENTO para uso dos administradores das aldeias dos índios do Estado do Brasil. Bahia, 29 de julho de 1678. AHU_ACL_CU_005-01, Cx. 35, D. 6525.

39

AUTOS DE JUSTIFICAÇÃO dos padres Sebastião de Araújo Barjon e José de Araújo Ferraz para provar que eram netos de D. Francisco Barjon, e que esse foi administrador da aldeia de gentio Menhãa, que sucederam. Porto Seguro, 24 de outubro de 1738. AHU_ACL_CU_005-01, Cx. 35, D. 6538; INFORMAÇÃO dos oficiais da Câmara de Porto Seguro sobre um requerimento e a competência do padre José de Araújo Ferraz para administrar a aldeia dos gentios Menhans. Porto Seguro, 26 de dezembro de 1739. AHU_ACL_CU_005-01, Cx. 35, D. 6532

sertão para o povoado – ou, na linguagem de séculos subsequentes, da barbárie para a civilização – e se firmava juridicamente no apelo ao “uso e costume”40.

Em fins de 1759, a notícia da decretação da liberdade dos índios chegou ao aldeamento do padre Ferraz por intermédio do capitão-mor Antônio da Costa Souza e do ouvidor interino Manuel da Cruz Freire. A recepção dessa informação por parte dos índios se traduziu numa expectativa política de ruptura com os grilhões que os amarravam ao modelo da administração particular, que, em pouco tempo, resultou na total desestruturação da povoação criada no século anterior. Alguns índios resolveram retornar para os sertões, fugindo do contato permanente com a sociedade colonial. Outros optaram pela vida itinerante, dispersando-se em pequenos grupos pelas longas margens do rio. E ainda tiveram uns, liderados pelo índio Baltazar Ramos, que decidiram negociar melhores condições de vida, deslocando-se para uma grande palhoça e roçado de mandioca que lhes ofereceu o colono Manuel de Araújo, morador da freguesia de Poxim, na margem esquerda do rio, no território da Capitania de Ilhéus.

Quando Tomé Couceiro de Abreu chegou a Porto Seguro para criar a Nova Ouvidoria, em dezembro de 1763, o aldeamento particular do padre Ferraz estava esvaziado. Por meio das informações passadas pelo vigário da freguesia de Santa Cruz, o ouvidor soube que os “moradores índios mansos e domesticados” que viviam junto ao rio Grande haviam se “ausentado há alguns anos para o mato e outros se achavam espalhados e ausentes da primeira aldeia que estabeleceram”. Diante dessas informações, Couceiro de Abreu escreveu uma carta ao padre José de Araújo Ferraz na qual solicitou que reagrupasse os índios fugitivos no sítio da antiga povoação, na jurisdição da Capitania de Porto Seguro, de modo que pudesse beneficiá-la com a sua elevação à condição de vila41.

Em resposta à carta que recebeu do ouvidor, o padre José de Araújo Ferraz resolveu ir pessoalmente ao seu encontro na Vila de Porto Seguro, levando consigo alguns documentos e um pequeno grupo de índios Meniãs que conseguiu reunir naquele curto espaço de tempo. Ao que tudo indica, a intenção imediata do padre Ferraz era provar que possuía o direito legal de administrar os índios Meniãs, conforme comprovavam as portarias, provisões e outras ordens dos governadores da Bahia emitidas aos seus antepassados. Talvez o padre ainda tivesse a esperança em reabilitar a administração do seu aldeamento ou, pelo menos, pretendia se incorporar na governança da nova vila que poderia ser ali estabelecida. O ouvidor, no entanto, aproveitou aquele encontro para expor as novas ordens da coroa portuguesa para a

40

MONTEIRO, John. Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. – São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 139.

41

colonização da Capitania de Porto Seguro, informando que possuía uma instrução que determinava a transformação das povoações indígenas em vilas, sendo os índios contemplados com todas as honras, favores e privilégios comuns aos vassalos portugueses. Por isso mesmo, propôs aos índios presentes que convencessem o capitão Baltazar Ramos e os demais que estavam na Capitania de Ilhéus a retornarem à freguesia de Santa Cruz, para que pudesse “honrá-los, favorecê-los e ampará-los” de acordo com a “Real Clemência de Sua Majestade” 42.

Alguns dias depois, Baltazar Ramos e muitos dos índios fugitivos apareceram na Vila de Porto Seguro à procura do ouvidor. Ao recebê-los, Tomé Couceiro de Abreu procurou persuadi-los de que pertenciam à jurisdição da Capitania de Porto Seguro, fazendo que reconhecessem “que seus pais ou avós quando desceram do sertão o fizeram em direitura a esta vila no ano de 1681, sendo administrados até a tempo de 4 anos por administradores da freguesia de Santa Cruz, nomeados pelos governadores da Bahia”. Em seguida, o ouvidor informou que se retornassem à antiga aldeia poderia transformá-la em vila assim que atingisse o número de casais necessários, sendo “eles eleitos para os cargos honrosos de juízes e vereadores”. Prometeu, também, enviar um clérigo “que lhes dissesse missa, confessasse e sacramentasse”. Por fim, encerrou o encontro

lendo-lhes e explicando-lhes vários parágrafos do Diretório do Maranhão e Pará, que Sua Majestade lhe mandara observar nesta capitania, o que vendo e ouvindo eles ficaram muito satisfeitos, dizendo-lhe que logo se vinham a ajuntar com os mais da parte de lá do rio43.

Embora reproduza apenas a versão do colonizador, essa descrição do acordo realizado entre Tomé Couceiro de Abreu e o líder indígena Baltazar Ramos revela, naquilo em que não está dito, algumas dimensões da estratégia política estabelecida pelos Meniãs para aceitarem retornar ao sítio do antigo aldeamento. O reconhecimento da freguesia de Santa Cruz como o primeiro local de abrigo dos seus antepassados pode ter representado a defesa de uma “herança” territorial que lhes era fundamental não apenas para a afirmação da sua identidade étnica como também para a apropriação dos recursos naturais locais que lhes garantia a sobrevivência econômica e social. Além disso, a apropriação dos direitos difundidos pela legislação pombalina pode ter sido realizada a partir de um contraponto à antiga condição de subordinação direta ao administrador, surgindo uma interpretação de novas possibilidades de mediação entre os interesses indígenas e a demanda colonial por meio do uso desses “cargos

42

RELAÇÃO, op. cit., AHU_ACL_CU_005-01, Cx. 34, D. 6430.

43

AUTO do desembargador, ouvidor geral da Comarca de Porto Seguro, cavaleiro professo da Ordem de Cristo, Tomé Couceiro de Abreu, para inquirir testemunhas a respeito dos índios Menhans e fatos referidos a seu respeito. Porto Seguro, 02 de abril de 1764. AHU_ACL_CU_005-01, Cx. 35, D. 6521

honrosos de juízes e vereadores” que o Diretório assegurava aos próprios índios. Desta forma, ao aceitar a recomposição da antiga povoação na margem direita do rio Grande, os Meniãs apostavam na construção de um cenário de maior barganha dentro da própria situação colonial.

Dois meses após o fechamento do acordo, chegou ao ouvidor uma denúncia sobre a “ruim situação” da reconstrução da povoação. Os relatos não eram nada animadores: a construção não avançava, possuindo pouquíssimas casas levantadas. A causa desse atraso, obviamente, foi delegada aos índios, que não permaneciam no local definido pelo ouvidor, ausentando-se por boa parte do dia. E, o que era mais preocupante, o morador da Capitania de Ilhéus Manuel de Araújo continuava “inquietando” os índios, reafirmando ao líder Baltazar Ramos suas propostas para a criação de uma aldeia no outro lado do rio. Diante dessa situação, Tomé Couceiro de Abreu resolveu ir pessoalmente ao rio Grande para tomar as providências necessárias a fim resolver a questão, convocando para acompanhá-lo o capitão de Santa Cruz João Borges de Figueiredo e o padre José de Araújo Ferraz44.

No início de março de 1764, o ouvidor chegou ao rio Grande com uma comitiva que passou três dias em negociação com os índios. Ao entardecer do primeiro dia, Couceiro de Abreu ordenou que se servisse um grande banquete para reunir todos os índios Meniãs da localidade. Na ocasião, convidou o capitão Baltazar Ramos para sentar à mesa ao seu lado, presenteando-o com “uma pataca de fumo e tratando-o com muito mimo e agasalho”. Em seguida, distribuiu o jantar regado de confeites, carnes e pães para todos os presentes. Tal procedimento representava uma estratégia para demonstrar o reconhecimento do poder que Baltazar possuía frente ao grupo indígena, mas também um mecanismo para conter os ânimos de uma liderança indígena classificado como “mal intencionado”, “raivoso”, “astucioso”, “malévolo” e “inconstante” 45.

Além do mais, ao reproduzir este procedimento de etiqueta política, típica do Antigo Regime, o ouvidor demonstrou como a transposição e a apropriação dos elementos característicos da “sociedade de cortes” foram fundamentais para o exercício do poder nos domínios coloniais americanos. Para além do poder simbólico, conceder o privilégio de sentar à mesa e ainda presentear com mimos e regalos representava uma forma de distinguir a liderança indígena perante os demais indivíduos, inserindo-o definitivamente na lógica de poder da própria sociedade colonial. No entanto, antes de servir apenas para cooptar, tais mecanismos também foram apropriados pelas lideranças indígenas que, astutas como

44

AUTO, op. cit., AHU_ACL_CU_005-01, Cx. 35, D. 6521.

45

Baltazar, utilizaram essas experiências para legitimar seu papel de líder e negociar melhores condições de vida para o grupo, conquistando também mais prestígio e poder perante seus liderados46.

No segundo dia de negociação, o ouvidor se ocupou em demonstrar aos índios o quanto seriam contemplados com o estabelecimento de uma povoação naquele sítio. Destacou a grande quantidade de terras férteis existentes no local e assegurou a cada índio o direito a um lote de terra para sua própria lavoura, incentivando-os a produzir mandioca e algodão tanto para o abastecimento da povoação quanto para o desenvolvimento do comércio. Também incentivou o agrupamento de todos os Meniã em um único local, argumentando que se a povoação chegasse ao número suficiente de casais rapidamente a elevaria à condição de vila. Por fim, comprometeu-se em cumprir com todas as honras e privilégios com que a coroa portuguesa atendia aos índios, elegendo-os para os cargos da governança, trazendo um branco para ensinar seus filhos a ler e escrever e enviando um clérigo para o governo espiritual da povoação.

A valorização dos benefícios institucionais e materiais concedidos aos índios pela política indigenista pombalina consistiu numa das estratégias mais utilizadas para convencer os grupos “domesticados” a aceitarem a transformação de suas povoações em vilas. Como visto em capítulo antecedente, ao serem elevados pelo Diretório à “razão genérica de vassalos”, os índios conquistaram o direito de ocupar ofícios na governança das novas povoações por intermédio das câmaras e das ordenanças, além de terem acesso às honras, privilégios e mercês conforme os serviços prestados a favor dos interesses monárquicos. Mais que uma simples política de cooptação, essa medida representava a reprodução de uma prática comum do sistema político português no Antigo Regime, baseada na “economia política dos privilégios”, que consistia na construção de pactos entre o rei e seus súditos, estimulada por uma relação de troca de serviços, favores e benefícios, resultando em mecanismos de afirmação da fidelidade vassálica, de reforço do sentimento de pertença, de ampliação das possibilidades de ascensão social, de legitimação do exercício do poder monárquico e de garantia da coesão política e governativa do próprio império47.

46

Para a discussão sobre a sociedade de corte, cf. ELIAS, Nobert. A sociedade de Corte: investigação sobre a sociologia da realeza e da aristocracia da corte. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

47

Sobre o conceito de economia política dos privilégios, cf. BICALHO, Maria Fernanda Baptista. As Câmaras ultramarinas e o Governo do Império. In: FRAGOSO, João; et all. (Orgs.) O Antigo Regime nos Trópicos: a dinâmica imperial portuguesa, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2001, pp. 203. Para uma discussão mais ampla, cf. HESPANHA, Antônio M; XAVIER, Ângela B. As redes clientelares. In: MATTOSO, José (Dir.)

No terceiro e último dia da negociação, o ouvidor não conseguiu evitar a emergência de um conjunto de reivindicações indígenas que surgiram à medida que os pontos nevrálgicos do acordo começaram a ser delimitados. Na definição do terreno para fundação da nova vila, os índios exigiram que este fosse fora das terras do padre José de Araújo Ferraz, apresentando como alternativa um sítio plano, extenso e fértil que ficava a menos de uma légua do antigo aldeamento, onde já possuíam um roçado de mandioca. Também exigiram a distribuição de ferramentas para o trabalho agrícola e extrativista, como foices, machados e enxadas, propondo um sistema de pagamento por meio da prestação de serviços públicos na própria construção da povoação. Reivindicaram ainda que um homem conhecido deles e morador do Imbuca, localizado na Capitania de Ilhéus, fosse indicado como mestre de obras da povoação, responsável, portanto, por todo processo de edificação das casas e prédios públicos. Por fim, denunciaram que alguns moradores de Santa Cruz lhes deviam alguns dias de serviço, exigindo que a dívida fosse quitada para que pudessem ter condições de iniciar a construção de suas casas. Dessas reivindicações, em verdade, surgiram as condições impostas pelos Meniãs para aceitar o acordo proposto pelo ouvidor Tomé Couceiro de Abreu, sendo evidente que todos os pontos questionados pelos índios foram resultado de uma leitura das experiências vividas anteriormente na condição de índios administrados48.

Ao fim, as exigências dos Meniãs foram, pelo menos em parte, atendidas. O esforço do ouvidor em assegurar a permanência daqueles índios estava certamente ligado ao fato de comporem um total de quase 40 casais, formando um contingente populacional nada desprezível naquelas paragens tão distantes. Além disso, havia o reconhecimento da importância dos Meniãs frente à nova política de colonização proposta pela coroa portuguesa para Porto Seguro, pois representavam um grupo de índios “mansos e domesticados” que possuíam longa experiência na exploração das riquezas naturais da região e na conquista dos sertões de rio acima, cuja contribuição para a dilatação da empresa colonial era, de fato, evidente. Por isso, Couceiro de Abreu, em correspondência enviada ao secretário Francisco Xavier de Mendonça Furtado, justificou a necessidade do acordo firmado, informando que, além de “convenientíssimos” nos cortes das madeiras, os Meniãs eram

utilíssimos naquele rio, não só porque defendem por aquela parte esta capitania do gentio bárbaro, mas também porque como dizem que este rio vem das minas do Serro Frio, que é o próprio Jequitinhonha, ficam defendendo qualquer subida de quaisquer mineiros que pretendam fazer por ele para estas minas49.

48

AUTO, op. cit., AHU_ACL_CU_005-01, Cx. 35, D. 6521.

49

Em pouco tempo, uma povoação começou a surgir na margem direita do rio Grande. Com menos de dez dias de trabalho, algumas casas, prédios públicos e ruas começaram a ganhar forma por meio do trabalho diário dos índios Meniãs. Tudo parecia caminhar conforme o esperado pelo ouvidor, não fosse, mais uma vez, a ousadia do índio Baltazar e a insistência de Manuel de Araújo, que protagonizaram mais um episódio de fuga e desestruturação da nascente povoação do rio Grande.

Na noite de 19 de março de 1764, quando a maior parte dos colonos luso-brasileiros se encontrava na Povoação de Santa Cruz para festejar o dia do “glorioso São José”, os índios

Documentos relacionados