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3 CONTEXTUALIZAÇÕES HISTÓRICA E SOCIOCULTURAL DA ÁREA DE PESQUISA

5 TURISMO NO ENTORNO DO PARNA DO CABO ORANGE: A COMPLEXIDADE DAS TENDÊNCIAS ATUAIS

5.2 VILA VELHA DO CASSIPORÉ: TURISMO E DESAFIOS

O turismo como atividade sócioambiental tem despertado a atenção para a formulação de políticas públicas que possam redirecionar o núcleo receptor ao combate à pobreza e ao uso racional dos recursos naturais. Em face de isto, percebeu-se na vila Velha do Cassiporé certa potencialidade turística. Os atrativos naturais da vila velha estão distribuídos entre o rio e a vegetação sem muita mudança na paisagem. Gomes e Simonian (2006) destacam que: “1) o rio cassiporé com suas corredeiras e pororoca, 2) o lago do tralhoto que a separa da vila Cunani e 3) a vegetação de mangue e siriúba”.

Os atrativos culturais são incipientes. Nestes termos, não se percebe na vila nenhuma manifestação cultural. Isso pode ser reforçado pelo número elevado de evangélicos na

comunidade. Segundo a entrevistada, existiam as festas de santo, mas que foram esquecidas pela maioria, pois quem organizava eram os mais velhos e, esses já morreram e os mais jovens não têm vontade de prosseguir. Na comunidade, existia algumas lendas, mas que poucos lembram. Assim, percebe-se que a memória social do coletivo do Cassiporé foi em parte esquecida e caiu no descaso.

Conseqüentemente, a infra-estrutura de apoio e os serviços públicos são precários. Inexiste uma regularidade no transporte fluvial, bem como há uma precariedade em termos de segurança e qualidade. Também, não existe acomodação para quem vem de fora, assim como nenhum espaço destinado a isso. E, note-se que o turismo para ser produzido nessa comunidade necessita ser bem consolidado e partindo da sensibilidade da comunidade local em aceitar esse desafio de sustentabilidade.

Verificou-se, no período de 18 a 19 de janeiro de 2006, a presença de uma missão da Guiana Francesa, apoiada financeiramente pelo IBAMA / Cabo Orange, interessada em conhecer a realidade do cassiporé com a finalidade de elaborar um produto turístico para ser comercializado no país. As atividades dessa missão foram: 1) conhecer a comunidade do cassiporé desde a vila velha até a foz do rio; 2) ver a potencialidade natural; 3) ver a potencialidade cultural, 4) verificar as condições estruturais; 5) verificar o acesso e 6) os serviços de apoio. Foi possível perceber, durante essa missão, que a comunidade ficou motivada a querer trabalhar com o turismo. Pode-se ressaltar que houve a criação de um ambiente propício para a chegada dessa missão. O IBAMA preparou a comunidade, tanto em termos de limpeza da vila, quanto em divisão de tarefas para apresentarem aos franceses o artesanato, a gastronomia e a hospitalidade local.

De conformidade com a entrevistada, o turismo nunca foi trabalhado na comunidade por nenhum governo que passou no estado. Analisando esse fato, verifica-se que existe uma SETUR-AP, existe uma Estratégia Estadual de Ecoturismo e um Programa de Ecoturismo do Governo Federal no Amapá. Percebe-se, também, que o PDSA valorizou as comunidades tradicionais do estado e que o turismo seria produzido a partir da participação e envolvimento comunitário. No entanto, observa-se uma realidade diferente, de um lado a comunidade e, de outro as políticas públicas sempre descontinuas. No Cassiporé, isso não seria diferente do resto do estado, pois apesar da intervenção federal em função da criação de um assentamento rural, a comunidade vive e sobrevive da sua agricultura de subsistência.

Na entrevista realizada, percebeu-se que através da percepção da entrevistada, que o turismo é uma atividade econômica que gera trabalho e renda para a comunidade. Nisso, ela percebe que o turismo comunitário seria uma boa para sua comunidade, já que a mesma está

no entorno do PARNA e ainda não sabe nada de turismo. O máximo que se tem por aqui é algum francês que vem conhecer o Cabo Orange. Assim, nas perguntas seguintes as respostas foram dadas de maneira simples onde se percebeu que há uma falta de conhecimento mais consolidado acerca do papel da comunidade no turismo.

Dessa maneira, Almeida (2001, p. 186) assinala que “[...] a comunidade não participa dessas discussões porque não interessa para o Estado incentivá-las para tal”. Existe o discurso oficial de que o turismo é uma alternativa de desenvolvimento, mas se percebe outra realidade. Nesse contexto, ao se perguntar: a comunidade tem se organizado para discutir o turismo? Como é essa organização? Quem está organizando o turismo na comunidade? A entrevistada respondeu que nunca teve nada disso por aqui e que não sabe de nenhuma iniciativa. Ela acredita que o IBAMA esteja mais interessado que a comunidade do cassiporé no turismo, porque sempre os analistas ambientais são vistos com pessoas de fora da região.

Entretanto, a entrevistada ressalta que se o turismo fosse implementado na vila; ele deveria ser de comum acordo com todos porque tem que beneficiar o coletivo e não somente a um ou dois residentes. Todavia, se houvesse reuniões para discutir o turismo, a comunidade participaria, mas nem todos aceitariam a responsabilidade de fazê-lo acontecer. Esse fato pode ser reforçado através da percepção dos projetos que foram abandonados na comunidade. A entrevistada destaca que já existiram vários projetos na vila, mas não houve a participação para dar prosseguimento. Atualmente, se verifica que eles estão paralisados, a exemplo da fábrica de beneficiamento do cacau. Verificou-se, na observação realizada, que o capital social é muito baixo na vila Velha do Cassiporé. Existem relações sociais estremecidas internamente, bem como um grau acentuado de desconfiança em relação ao IBAMA.

Pediu-se que a entrevistada pudesse descrever um ou alguns atrativos da vila que acreditavas que o turista vai gostar de conhecer. Então, elencou-se: 1) o rio cassiporé, 2) o igarapé do tralhoto, 3) a produção caseira do chocolate e 4) a visita às roças da comunidade localizadas no assentamento rural. Os atrativos descritos pela entrevistada são interessantes e apresentam-se como uma boa mercadoria turística. Nesse sentido, a natureza e a cultura local se misturam para gerar uma imagem turística do lugar por conta de uma reestruturação produtiva do capitalismo. Ressalta-se, assim, que o turismo para ser uma realidade de base comunitária necessita de investimentos em capital social e formação de redes de trocas de experiências. No país, já há uma rede de experiências comunitárias de turismo, a exemplo do estado do Ceará. No Amapá, percebem-se boas oportunidades para essas comunidades tradicionais ingressarem nessa rede, entretanto, um trabalho árduo e de longo prazo de sensibilização urge para ser feito.

Nas entrevistas realizadas nas secretarias municipais de turismo e meio ambiente,37 foi possível verificar que o município está tendo um novo olhar para essa vila. Destaca-se que o município do Oiapoque, através dessas duas secretarias, tem o interesse de investir em projetos socioambientais direcionados à vila Velha, porém ainda não sabem quais os projetos que podem ser implementados. De fato, isso é verdade, pois foi observado na aplicação do protocolo/roteiro de perguntas norteadoras, que as mesmas secretarias municipais não têm ou não querem ter uma visão ampliada da realidade das políticas públicas direcionadas ao município em termos de turismo e meio ambiente. Isso se traduz no que esses responsáveis dessas pastas entendem que seja atividade turística, a exemplo da realização do evento “Feira Turística do Município do Oiapoque”, no mês de julho. Percebeu-se uma feira de exposição de bebidas alcoólicas, comidas diversas e músicas dançantes. Ademais, verificou-se que não se explorou as belezas cênicas do município, o artesanato e a cultura da fronteira em nenhum momento do evento.

Verificou-se, durante a pesquisa de campo, que a vila Velha do Cassiporé reúne elementos capazes de trabalhar um tipo de turismo mais apropriado e de comum acordo com as especificidades de residir no entorno de um PARNA. Ressalta-se que, por parte do IBAMA, existe a possibilidade de implementar o plano de manejo dessas UC e com isso a vila Velha estará dentro das políticas futuras de sustentabilidade do entorno. Nesse sentido, esse entorno terá uma nova concepção em termos de desenvolvimento e meio ambiente, onde as atividades econômicas sustentáveis serão incentivadas, a exemplo, do turismo. No Cassiporé, a natureza e a recente formação de assentamentos rurais, talvez sejam os elementos importantes para a formatação de um produto turístico comunitário capaz de competir num mercado solidário e sustentável. Assim sendo, o desafio para o turismo no cassiporé será o próprio plano de manejo a ser implementado pelo IBAMA. Note-se que esse plano está sendo construído sob os olhares de vários atores sociais preocupados com a conservação da UC.

No entanto, observa-se que o componente turismo está com as atividades, momentaneamente, paralisado devido à consultoria contratada não ter entregado os registros oficiais que subsidiariam os outros grupos do referido plano. Adicionalmente a isso, percebe- se que o turismo para ser implementado nesse entorno precisa ser entendido pela comunidade local como uma atividade complementar. Ainda, identificou-se que a vila Velha do Cassiporé tem uma potencialidade a ser explorada. Cabe ao poder público, comunidade local e empresas

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Embora tenha sido aplicado o referido roteiro de perguntas as duas secretarias, observou-se que as respostas foram dadas de uma maneira geral e sem propriedade aprofundada do tema abordado. Por essa razão, achou-se conveniente não transcrevê-las para o corpo do trabalho escrito dessa dissertação de Mestrado (GOMES, 2006, n. c.).

discutirem e demandarem ações que possam ser concretizadas para que o turismo possa acontecer de comum acordo com a comunidade local.

Diante do modelo de turismo em curso no Amapá, verifica-se que as UC ainda não estão preparadas para o turismo, pois não há o plano de manejo e nem tampouco estrutura para tal fim. Pode-se destacar que a natureza torna-se uma mercadoria interessante na privatização dos seus espaços para o turismo. O certo seria tentar investir num modelo mais humano e sustentável de turismo. Sobre esse modelo, muitas reflexões e críticas têm sido feitas por pesquisadores que acreditam que o caminho seria a conservação mediante a participação da comunidade local, no entanto, percebe-se que as próprias comunidades estão desacreditas das políticas e por isso, não fazem nada para iniciar uma construção de diálogos.

Ao analisar-se a realidade da vila Velha do Cassiporé, bem como a percepção dos que estão coordenando as pastas de turismo e meio ambiente no estado do Amapá, pode-se entender que para o turismo acontecer como uma atividade econômica complementar nesse entorno serão vários os desafios a serem enfrentados. De fato, será tanto para os membros da própria comunidade, no que se refere à gestão do processo de construção da proposta do turismo, como para o nível externo, no que tange à intervenção nas políticas públicas. Nesta direção, a lógica de desenvolvimento do turismo nesse entorno sinalizará para um modelo que tenha a inclusão social como balizadora da intervenção na construção de projetos socioambientais.