• Nenhum resultado encontrado

Villa Smeraldi – Museo della Civiltà Contadina

2. Da casa ao museu-casa

2.3. Museus-casas na Itália

2.3.3. Villa Smeraldi – Museo della Civiltà Contadina

Localizado na região metropolitana de Bolonha, o Museo della Civiltá Contadina se articula a um complexo de edifícios e ao parque onde está localizado. Além de preservar um acervo que testemunha a vida doméstica e o trabalho de agricultores e artesãos da zona rural de Bolonha, o museu promove o conhecimento pedagógico de técnicas agrícolas – de antigas

a modernas – e estudos científicos, destacando-se também pela consultoria em museografia relacionada a comunidades agrárias e de montanha.

Figura 202 – Cozinha do Museo della Civiltá Contadina, na região metropolitana de Bolonha.

Fonte: Museo dela Civiltá Contadina/Pinterest. Disponível em:

<https://br.pinterest.com/pin/570338740280779153/?lp=true>. Acesso em: 25 Jun. 2018.

O tema “cozinha” é de grande relevância no estudo dos museus-casas, visto que em seu interior espaços e objetos ligados à vida cotidiana registram pontualmente as transformações sociais e culturais ao longo do tempo.

Em 2015, o comitê de museus-casas do ICOM Itália debateu o assunto na conferência Le cucine nelle case museo59, realizada em 2015, em Milão, no âmbito dos estudos históricos em parceria com a Fondazione Adolfo Pini e a Università degli Studi di Milano. A conferência foi aberta com uma apresentação sobre as transformações históricas das cozinhas italianas do século XIX até os dias de hoje, distinguindo especialmente a cozinha na casa rural camponesa da cozinha na casa urbana aristocrática.

As cozinhas camponesas dos museus-casas na Itália apresentam estrutura similar entre as regiões: trata-se de ambiente amplo, com uma espécie de lareira denominada

59 As cozinhas nas casas museu. Tradução livre da pesquisadora. Programa da conferência disponível em:

<www.studistorici.unimi.it/extfiles/unimidire/410001/attachment/programma-icom.pdf>. Acesso em: 13 Mai. 2018.

focolare; um canto reservado para hastes de cânhamo; e o forno de pão, quando este último não fica fora da cozinha, em construção separada ou anexa, próximo à pocilga e ao galinheiro. O camino – uma espécie de braseiro – consiste em um elemento de grande importância, a principal fonte de calor para o cozimento de alimentos e o aquecimento da casa durante o inverno. Ao lado destes, pode haver um ou mais fogões, de alvenaria ou em modelos móveis de ferro.

Pendurado por uma corrente acima do camino, um caldeirão – recipiente de cobre de feitura artesanal – faz referência ao cozimento de grandes quantidades de alimento, como sopas de verdura, massas e polenta, algo comum para a nutrição de uma família numerosa.

No centro da cozinha, uma grande mesa representa o encontro dos familiares no momento das refeições, além de pontuar funções adjacentes, como servir de apoio na preparação de alimentos, para passar roupa, entre outras atividades. Dispostos nas paredes e sobre os poucos móveis, costuma-se ver uma profusão de instrumentos destinados ao preparo do pão, da massa, da polenta, da carne de porco e, ainda, para o consumo de água, para o aquecimento e a iluminação. Objetos curiosos podem ser encontrados, como a fole- formigueiro vista no Museu Casa Zinani, no Brasil; e armadilhas para moscas em um recipiente de vidro, com vinho ou azeite em seu interior.

A pia ficava geralmente fora da cozinha, na despensa, salvo raros casos. Trata-se de um tipo de banheira retangular de pedra, inserida em um nicho fechado por cortina, com orifício para a área externa, munido ou não de tubo, pelo qual fluía as águas residuais da lavagem dos pratos e das hortaliças. Junto à pia ficava o escorredor de pratos. Nas casas que não dispunham de tal estrutura, a lavagem era feita em uma grande bacia, apoiada sobre uma mesinha.

Antes da conexão das casas às redes de saneamento, a água era retirada do poço e conservada em baldes de cobre e tinas de madeira. O primeiro, pendurado a um gancho, continha água de beber, retirada por concha; o segundo, geralmente próximo à pia, sobre uma mesinha, conservava a água para outros usos.

Analisando as cozinhas camponesas nos museus-casas italianos, percebe-se claramente que se tratavam de espaços multifuncionais, onde se realizavam as etapas de convivência – pontuadas pelas refeições do dia – e atividades de trabalho, sobretudo por parte das mulheres. É característica dessa cozinha a presença da lareira com a chama sempre acesa, lugar importante de socialização camponesa.

A cozinha, aliás, era o local onde se desenrolava a maior parte da vida doméstica: de domínio feminino, no âmbito da tarefa de alimentar a família, e que também agregava os entes nos momentos das refeições; e durante o inverno, onde todos buscavam aquecimento. Lugar de socialização, de encontro entre as gerações e de transmissão de saberes.

Os museus-casas localizados no meio urbano apresentam cozinhas modernizadas que refletem como esses espaços testemunharam as transformações sociais e culturais ao longo do tempo, com a divisão entre espaço de representação (sala de comer), com móveis finos, decoração, referências constantes aos brasões da nobreza, e o espaço propriamente da cozinha, lugar de trabalho utilizado apenas por serviçais. Desse modo, assiste-se a uma diferenciação espacial ligada à hierarquia e ao status social: de um lado os aristocratas donos da casa, de outro os serviçais, principalmente do sexo feminino.

Figura 203 – Cozinha da Casa Carbone em Gênova.

Fonte: Tripadvisor/Casa Carbone. Disponível em: <www.tripadvisor.it/LocationPhotoDirectLink-g194788- d2479389-i126791787-Casa_Carbone-Lavagna_Italian_Riviera_Liguria.html>. Acesso em: 28 Jun. 2018.

Figura 204 – Sala de jantar. Casa Carbone.

Fonte: Case Museo In Italia. Disponível em: <www.casemuseoitalia.it/en/Museum.asp?POIID=16>. Acesso em: 28 Jun. 2018.

Nos espaços urbanos, as cozinhas começam a acomodar cada vez mais novos eletrodomésticos, de modo particular após a Segunda Guerra Mundial, quando geladeira, fogão, lavadora e outros utensílios tornam-se elementos característicos desse espaço. As casas modernas, contudo, sofreram mudanças contrastantes: por um lado, uma redução do espaço destinado à preparação da comida, em parte já restrito a uma cozinha compacta; por outro, mais recentemente, a abertura da cozinha para outras partes da casa, sua transformação em espaço social aberto a toda a família e, ainda, aos amigos, rompendo com a tradicional subdivisão entre espaços privados e públicos.

O layout das estruturas conservadas varia a depender da ocasião e da intenção, resgatando de modos diversos a memória do ambiente: com suportes didáticos que contextualizam a cozinha e seu tempo, com estratégias cenográficas evocativas, além de receitas, proporcionando uma vivência social. Atualmente percebe-se a intenção de evidenciar a articulação entre a cozinha, a sala de jantar aparelhada com os serviços de mesa, sobretudo a louçaria, oferecendo um percurso do alimento em uma residência aristocrática, e ilustrando os costumes sociais relacionados.