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VINTE E DOIS

No documento OCaçadordePipas-KhaledHosseini (páginas 181-194)

FARID FOI ENTRANDO LENTAMENTE com o Land Cruiser pela alameda que levava a um casarão em Wazir Akbar Khan. Estacionou à sombra dos salgueiros que se derramavam por sobre os muros do condomínio situado à rua 15, a Sarak-e-Mehmana, a tal "rua das Visitas". Desligou o motor e ficamos ali sentados por um minuto, sem dizer absolutamente nada, só ouvindo o barulhinho daquela máquina que ia esfriando. Farid se remexeu no banco e ficou brincando com as chaves ainda penduradas na ignição. Percebi que estava se preparando para me dizer alguma coisa.

— Acho que vou ficar esperando no carro — disse ele afinal, com um tom de quem estava pedindo desculpas. Nem olhou para mim. — Agora é com você. Eu...

Dei um tapinha no seu braço.

— Você já fez muito mais do que foi pago para fazer. Não estou contando que vá comigo — afirmei. No entanto adoraria não ter que entrar lá sozinho. Apesar do que descobri a respeito de baba, queria que ele estivesse ao meu lado nesse instante. Ele irromperia pela porta da frente e pediria para ser levado à presença do responsável, "cagando para as barbas" de qualquer um que se metesse em seu caminho. Mas baba estava morto há um bom tempo; morto e enterrado no setor afegão de um pequeno cemitério em Hayward. Ainda no mês passado, Soraya e eu tínhamos posto um buquê de frésias e margaridas no seu túmulo. Agora, eu tinha que me virar sozinho.

Saí do carro e me encaminhei para o grande portão de madeira. Toquei a campainha, mas não ouvi ruído algum — a luz ainda não havia voltado. Tive que bater. Pouco depois, ouvi vozes abafadas vindo do lado de dentro, e dois homens empunhando Kalashnikovs vieram abrir.

Olhei para Farid, que estava sentado no carro.

— Daqui a pouco estou de volta — murmurei, sem ter a mínima certeza de que isso fosse realmente acontecer.

Os homens armados me revistaram da cabeça aos pés, apalpando as minhas pernas e as minhas virilhas. Um deles disse alguma coisa em pashtu e ambos deram risadinhas. Finalmente entramos. Os dois guardas foram me escoltando através de um gramado muito bem tratado, e passamos por gerânios e arbustos baixos plantados junto ao muro. No fundo do quintal, havia um velho poço. Lembrei que a casa de kaka

Homayoun, em Jalalabad, tinha um poço igualzinho a esse, e que as gêmeas, Fazila e Karima, e eu gostávamos de jogar pedras lá dentro para ouvir o barulhinho que faziam ao cair na água.

Subimos alguns degraus e penetramos em uma casa espaçosa, escassamente decorada. Atravessamos o saguão — que tinha uma das paredes recoberta por uma enorme bandeira do Afeganistão —, e os dois homens me levaram ao andar de cima, para uma sala com dois sofás idênticos, estofados de verde, e um grande aparelho de televisão em um canto. Um tapete de orações, mostrando um desenho ligeiramente oblongo de Meca, estava pendurado em uma parede. O mais velho dos dois guardas me indicou um dos sofás com o cano do fuzil. Sentei. Ambos saíram da sala.

Cruzei e descruzei as pernas. Fiquei sentado com as mãos suadas sobre os joelhos. Será que desse jeito ia parecer nervoso? Juntei as mãos, mas decidi que era ainda pior, e cruzei os braços. O sangue latejava nas minhas têmporas. Estava me sentindo extremamente só. Os pensamentos me passavam pela cabeça, mas, na verdade, não queria pensar em nada, porque uma parte de mim, que tinha juízo, sabia que isso em que eu havia me metido era uma insanidade. Estava a milhares de quilômetros de distância da minha mulher, sentado em um lugar que parecia até uma daquelas salas reservadas dos tribunais, esperando por um homem que eu tinha visto assassinar duas pessoas nesse mesmo dia. Era realmente uma insanidade. Pior ainda: era uma irresponsabilidade. Havia uma chance muito plausível de que, por minha culpa, Soraya se tornasse uma biwa, uma viúva, aos trinta e seis anos. "Esse não é você, Amir", dizia uma parte de mim. "Você é um covarde. É isso que você é de verdade. E nem é tão mau assim, já que o seu único mérito é o de nunca ter mentido a si mesmo a este respeito. Não quanto a isto. Não há nada de errado com a covardia, contanto que ela esteja aliada à prudência. Mas, quando um covarde se esquece de quem ele é... Que Deus o proteja..."

Perto do sofá, havia uma mesinha de centro. Os seus pés se cruzavam, formando um "X", e, no ponto em que se encontravam, tinha uma argola metálica com umas bolotas de latão do tamanho de uma noz. Já tinha visto uma mesa assim antes. Mas onde? Então, me lembrei. Foi naquela casa de chá lotada, lá em Peshawar, na noite em que fui dar uma volta. Em cima da mesa, havia uma tigela com uvas rosadas. Peguei uma delas e enfiei na boca. Tinha que me ocupar com alguma coisa, qualquer coisa, para calar aquela voz dentro da minha cabeça. A uva estava bem doce. Apanhei outra, sem saber que seria o último bocado de comida sólida que ia comer por muito tempo.

A porta se abriu e os dois homens armados voltaram. Entre eles, o talib alto e vestido de branco — que continuava usando os óculos escuros como os de John Lennon —, mais parecendo um guru místico, estilo new age, de ombros largos.

Ele se sentou defronte de mim e apoiou uma das mãos no braço do sofá. Durante um bom tempo, não disse nada. Só ficou sentado ali, me olhando, com uma das mãos tamborilando no estofado do móvel enquanto a outra desfiava as contas de um rosário azul-turquesa. Agora estava usando um paletó preto sobre a túnica branca, e um relógio de ouro. Vi uma mancha de sangue na sua manga esquerda. Achei morbidamente fascinante que ele não tivesse trocado de roupa depois das execuções daquela manhã.

De quando em quando, a mão desimpedida se erguia e os seus dedos grossos batiam em alguma coisa no ar. Faziam movimentos lentos, para cima e para baixo, para um lado e para o outro, como se o homem estivesse acariciando um animal de

estimação invisível. Uma das suas mangas se arregaçou e pude ver umas marcas no seu braço — já tinha visto aquelas mesmas marcas entre os moradores de rua que viviam nos becos sombrios de San Francisco.

A sua pele era muito mais clara que a dos dois outros homens, quase doentia, e um punhado de minúsculas gotas de suor reluzia em sua testa, logo abaixo da borda do turbante negro. A sua barba, que lhe batia no peito como a dos demais, também era mais clara.

— Salaam alaykum — disse ele. — Salaam — respondi.

— Podemos nos livrar de você agora mesmo, como sabe — prosseguiu ele. — O que foi que disse?

Ele ergueu a mão e fez um gesto para um dos homens armados. "Rriss." De repente, lá estava eu sentindo fisgadas no rosto, e o guarda sacudia a minha barba para cima e para baixo, dando risadinhas. O talib sorriu debochado.

— E uma das mais bem-feitas que vi nesses últimos tempos. Mas, na verdade, acho que fica muito melhor assim. Não concorda? — Mexeu os dedos, estalou-os, abrindo e fechando o punho. — Então, Inshallab, gostou do espetáculo de hoje?

— O que foi aquilo...? — indaguei, esfregando o rosto e torcendo para que a minha voz não traísse o terror que estava sentindo por dentro.

— O exercício público da justiça é o maior de todos os espetáculos, meu irmão. Tem drama. Suspense. E, o que é melhor ainda, educação em massa. — Estalou os dedos. O mais jovem dos guardas acendeu um cigarro para ele. O talib riu. Resmungou algo consigo mesmo. As suas mãos tremiam e ele quase deixou o cigarro cair. — Mas se está querendo um espetáculo de verdade, deveria ter estado comigo em Mazar. Foi em agosto de 1998.

— Como?

— Deixamos eles lá, jogados pelas ruas, feito lixo. Sabe como é... Percebi onde ele estava querendo chegar.

Ficou de pé, deu uma volta em torno do sofá, e, depois, mais outra. Sentou novamente. Começou a falar depressa.

— Fomos de porta em porta, convocando os homens e os meninos. E os fuzilamos bem ali, na frente de suas famílias. Para que todos vissem. Para que se lembrassem de quem eram, qual era o seu lugar. — Agora, estava quase ofegante. — Às vezes, arrombávamos as portas e entrávamos pelas casas adentro. E... eu... varria a sala com o cano da minha metralhadora e atirava, atirava até a fumaça me cegar. — Inclinou-se na minha direção, como alguém prestes a revelar um grande segredo. — Ninguém pode conhecer o verdadeiro sentido da palavra "LIBERAÇÃO" até ter feito

uma coisa como essa: ficar parado em uma sala repleta de alvos, deixar as balas voarem, sem qualquer culpa ou remorso. Tendo plena consciência de ser uma pessoa virtuosa, boa e decente. Sabendo que está realizando o trabalho de Deus. É de tirar o fôlego... — Beijou o rosário e inclinou a cabeça. — Lembra disso, Javid?

— Lembro, agha sahib — respondeu o mais jovem dos guardas. — Como poderia esquecer?

Eu tinha lido nos jornais sobre o massacre dos hazaras em Mazar-i-Sharif. Aconteceu logo depois que o Talibã tomou a cidade, que foi uma das últimas a cair. Lembro de Soraya, sem um pingo de sangue no rosto, me mostrando aquela matéria durante o café da manhã.

— De porta em porta... Só parávamos para comer e rezar — prosseguiu o talib. E disse isso de um jeito prazeroso, como quem fala de uma festa fantástica de que participou. — Deixamos os corpos pelas ruas, e, se as pessoas da família tentassem rastejar para arrastá-los de volta para dentro de casa, atirávamos nelas também. Ficaram ali na rua por vários dias. Entregues aos cachorros. Carne de cachorro para cachorros. — Apagou o cigarro. Esfregou os olhos com as mãos trêmulas. — Você veio da América?

— Vim.

— Como tem passado aquela prostituta ultimamente?

Senti uma súbita vontade de urinar. Rezei para que passasse. — Estou procurando um menino.

— Só você? — perguntou ele. Os homens com os Kalashnikovs riram. Tinham os dentes esverdeados de tanto mascar naswar.

— Pelo que soube, ele está aqui, com o senhor — disse eu. — O nome dele é Sohrab.

— Quero lhe fazer uma pergunta... O que você fica fazendo por lá, com aquela prostituta? Por que não está aqui, com os seus irmãos muçulmanos, servindo ao seu país?

— Estive fora por muito tempo. — Foi tudo o que me ocorreu dizer. Estava com a cabeça tão quente... Apertei os joelhos tentando segurar a bexiga.

O talib se virou para os dois homens parados junto à porta. — Isso é uma resposta? — perguntou.

— Não, agha sahib — disseram os dois em uníssono, com um sorriso. Voltou os olhos para mim. Deu de ombros.

— Eles estão dizendo que isso não é uma resposta. — Deu uma tragada no cigarro. — No meio que freqüento, há quem acredite que abandonar o próprio watan, quando ele mais precisa da gente, é o mesmo que traição. Poderia mandar prendê-lo por traição. Poderia até mesmo mandar fuzilá-lo. Essa idéia lhe dá medo?

— Só estou aqui por causa do menino. — Isso lhe dá medo?

— Dá

— É bom mesmo — disse ele. Recostou-se novamente no sofá. Apagou o cigarro.

Pensei em Soraya. Fiquei um pouco mais calmo. Lembrei do seu sinal de nascença em forma de foice, da curva elegante do seu pescoço, dos seus olhos luminosos. Lembrei da noite de nosso casamento, quando ficamos olhando para a imagem um do outro refletida no espelho, debaixo do véu verde, e como o seu rosto enrubesceu quando sussurrei que a amava. Lembrei de nós dois dançando uma velha canção afegã, girando e girando, e todos nos olhando e batendo palmas, o mundo inteiro parecendo um borrão de flores, vestidos, smokings e rostos sorridentes.

O talib estava dizendo alguma coisa. — Desculpe. Não ouvi.

— Perguntei por que você quer vê-lo? Gostaria de ver o meu menino, não é? — Seu lábio superior se contraiu em um ricto debochado quando ele pronunciou essas últimas palavras.

Um dos guardas saiu da sala. Ouvi o rangido de uma porta se abrindo. Ouvi o guarda dizer alguma coisa em pashtu, em tom severo. Depois, passos, e o tilintar de sinos acompanhando cada passo. Lembrei do homem do macaco que Hassan e eu sempre íamos procurar em Shar-e-Nau. Nós lhe dávamos uma rupia da nossa mesada para ver uma dança. O sininho no pescoço do seu macaco fazia o mesmo som tilintante.

Então, a porta se abriu e o guarda entrou. Vinha trazendo um aparelho de som portátil nos ombros. Atrás dele, entrou um menino usando um pirhan-tumban azul- escuro, solto.

A semelhança era desconcertante. De tirar o fôlego. Pela foto Polaroid tirada por Rahim Khan eles não pareciam tão idênticos assim.

O garoto tinha o rosto de lua cheia do pai, o mesmo queixo protuberante, as orelhas dobradas feito conchas e a mesma compleição franzina. Era aquela cara de boneca chinesa da minha infância; o rosto que espiava por cima das cartas de baralho desbotadas, em todos aqueles dias de inverno; o rosto por detrás do cortinado quando dormíamos no telhado da casa de meu pai no verão. Ele tinha a cabeça raspada, os olhos pintados com delineador e as bochechas brilhando com um vermelho artificial. Quando parou no meio da sala, os sininhos presos nos seus tornozelos também pararam de tilintar.

Deu com os olhos em mim. Fitou-me por um instante. Depois, desviou o olhar. Ficou olhando para os próprios pés descalços.

Um dos guardas apertou um botão e o aposento se encheu de música pashtu. A tabla, o harmônio, e os lamentos de uma dil-roba. Deduzi que a música não era um pecado tão grave assim, desde que tocada para ouvidos Talibã. Os três homens começaram a bater palmas.

— Wah wah! Mashallah! — gritavam eles.

Sohrab ergueu os braços e começou a rodar lentamente. Ficou na ponta dos pés, rodopiou graciosamente, caiu de joelhos, voltou a se erguer e rodopiou novamente. Girava as mãozinhas, estalava os dedos e inclinava a cabeça para um lado e para o outro, como um pêndulo. Batia com os pés no chão e os sininhos tilintavam em perfeita harmonia com o ritmo da tabla. Ficava o tempo todo de olhos fechados.

— Mashallah! — bradavam eles. — Shahbas! Bravo! — Os dois guardas assobiavam e riam. O talib vestido de branco balançava a cabeça para frente e para trás, ao som da música, com a boca entreaberta em uma expressão maliciosa.

Sohrab ficou dançando em círculos, de olhos fechados, até a música acabar. Os sininhos tilintaram pela última vez quando ele bateu com os pés no chão no momento em que se ouvia a última nota da canção. Estancou no meio de um rodopio.

— Bia, bia, meu garoto — disse o talib, mandando que ele se aproximasse. Sohrab foi até ele, de cabeça baixa, e parou entre as suas coxas. O talib o abraçou. — Como é talentoso esse meu menino hazara, não é mesmo? — perguntou ele. As suas mãos foram deslizando pelas costas de Sohrab, descendo, depois subindo, e se aninharam debaixo dos braços do garoto. Um dos guardas cutucou o outro e deu uma risadinha disfarçada. O talib ordenou que nos deixassem a sós.

— Pois não, agha sahib — disseram eles, e saíram da sala.

O talib virou o menino, fazendo-o ficar de frente para mim. Passou os braços pela cintura de Sohrab e apoiou o queixo no seu ombro. Ele continuava fitando os próprios pés, mas me lançava uns olhares furtivos, encabulado. A mão do homem começou a

deslizar pela barriga do menino, para cima e para baixo. Para cima e para baixo, bem devagar, suavemente.

— Fico imaginando... — disse o talib, com os olhos injetados me perscrutando por sobre os ombros de Sohrab. — O que terá acontecido com o velho Babalu?

Aquela pergunta me atingiu em cheio, como uma martelada entre os olhos. Senti que a cor do meu rosto desaparecia. As minhas pernas ficaram geladas. Entorpecidas.

Ele começou a rir.

— Estava pensando o quê? Que bastava pôr uma barba postiça para que eu não o reconhecesse? Eis aí uma coisa a meu respeito que aposto que você nunca soube: jamais esqueço um rosto. Jamais. — Roçou a orelha de Sohrab com os lábios, mantendo os olhos em mim. — Soube que seu pai morreu. Tsc, tsc, tsc... Sempre quis enfrentá-lo. Mas, pelo visto, vou ter que me contentar com o covarde do filho dele. — Tirou então os óculos escuros e cravou os olhos azuis injetados de sangue nos meus.

Tentei respirar, mas não consegui. Tentei piscar, mas não consegui. O momento parecia surreal — surreal, não, absurdo; tirou o meu fôlego, fez o mundo ao meu redor ficar imóvel. O meu rosto estava ardendo. Como é mesmo aquele velho ditado sobre o vaso ruim? Era exatamente isso que acontecia com o meu passado: não conseguia me livrar dele nunca. O nome daquele indivíduo surgiu lá das profundezas e não quis dizê-lo, como se o simples fato de pronunciar aquele nome significasse invocá-lo. Mas ele já estava ali, em carne e osso, sentado a pouco mais de três metros de mim, depois de todos esses anos. E o nome acabou me escapando da boca:

— Assef! — Amir jan.

— O que é que você está fazendo aqui? — perguntei, plenamente consciente da estupidez daquela pergunta, mas incapaz de pensar em qualquer outra coisa que pudesse dizer.

— Eu? — exclamou ele erguendo uma das sobrancelhas. — Mas, estou exatamente no meu elemento. Eu é que pergunto o que você está fazendo aqui...

— Já lhe disse — respondi. Minha voz estava tremendo. Adoraria que não estivesse; adoraria que a minha carne não estivesse se encolhendo e grudando nos ossos.

— O menino? — É.

— Por quê?

— Pago por ele — disse eu. — Posso telegrafar pedindo que me mandem dinheiro.

— Dinheiro? — exclamou Assef com um risinho abafado. — Já ouviu falar de Rockingham no oeste da Austrália? É um pedacinho do paraíso. Você precisava ver, são quilômetros e quilômetros de praia. Água verde, céu azul. Meus pais moram lá, em uma mansão de frente para o mar. Tem um campo de golfe nos fundos da casa, e um pequeno lago. Meu pai joga golfe todos os dias. Minha mãe prefere o tênis. Meu pai diz que o backhand dela é terrível. Eles são donos de um restaurante afegão e de duas joalherias; e ambos os negócios vão indo muitíssimo bem. — Pegou uma uva rosada e, com todo carinho, a pôs na boca de Sohrab. — Portanto, se eu precisar de dinheiro, é só pedir para eles me mandarem. — Deu um beijo no pescoço de Sohrab. O menino se encolheu ligeiramente e voltou a fechar os olhos. — Além disso, não

lutei contra os shorawi por dinheiro. Também não me uni ao Talibã por dinheiro. Quer saber por que me juntei a eles?

Meus lábios estavam secos. Passei a língua neles e percebi que ela também estava seca.

— Está com sede? — perguntou ele, dando um sorriso afetado. — Não.

— Olhe que acho que está com sede...

— Estou ótimo — respondi. Na verdade, a sala tinha ficado quente demais e o suor brotava de todos os meus poros, fazendo minha pele pinicar. Isso estava acontecendo mesmo? Eu estava realmente sentado diante de Assef?

— Você é quem sabe... — disse ele. — Em todo caso... Onde é que eu estava mesmo? Ah, sim, como me juntei ao Talibã. Bom, como deve se lembrar, nunca fui um cara lá muito religioso. Um dia, porém, tive uma revelação. Foi na prisão que isso aconteceu. Quer ouvir a história?

Fiquei calado.

— Ótimo. Vou lhe contar — exclamou ele. — Passei algum tempo na cadeia, em Poleh-Charkhi, logo depois que Babrak Karmal tomou o poder, em 1980. Acabei indo parar lá uma noite, quando um grupo de soldados parchami invadiu a nossa casa e mandou que meu pai e eu fôssemos com eles, sob a mira de um revólver. Os filhos-da- puta não alegaram nenhum motivo e nem responderam às perguntas de minha mãe. Não que isso fosse alguma coisa incompreensível, pois todo mundo sempre soube que os comunistas eram a escória mesmo. Eram todos gente de famílias humildes, sem

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