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Violência contra a mulher e a Lei Maria da Penha: igualdade substancial e ações afirmativas

2 DIGNIDADE HUMANA, DIREITO À IGUALDADE E AS QUESTÕES DE GÊNERO NO ÂMBITO DO SISTEMA PENAL BRASILEIRO

2.3 Mulheres vítimas:

2.3.1 Violência contra a mulher e a Lei Maria da Penha: igualdade substancial e ações afirmativas

Devido reiteradas vezes a mulher ser inferiorizada pelo homem, sofrer agressões provenientes de seus conviventes, estar a margem do senso masculino, o Estado viu-se na obrigação de criar uma lei para controlar as atitudes ilegais contra a mulher, para minimizar o sofrimento do gênero feminino, em detrimento do machismo patriarcal que está impregnado na sociedade.

Segundo Campos (2008, p. 247),

a iniciativa de inscrever no quadro normativo nacional uma legislação específica para tratar do tema da violência doméstica é decorrente das inúmeras recomendações feitas Nações Unidas para combater a violência de gênero, considerada uma violação de direitos humanos.

Segundo pesquisas efetuadas pelo Mapa da Violência, no Brasil, entre os anos de 1980 e 2010, foram assassinadas 92 mil mulheres em razão do gênero. De 2001 à 2011, o índice de homicídio de mulheres aumentou 17,2%, sendo a maioria delas jovens de 15 a 24 anos. O que demonstra o crescimento anual desenfreado de violência praticada contra a mulher em decorrência do gênero. Em consequência desse aumento o Brasil passou a ocupar a 7ª posição de maior número de mortes de mulheres no mundo (WAILSELFISZ, 2011).

Ainda, o Mapa da Violência apresentou dados de que em 68,8% dos casos de violência praticada contra a mulher ocorrem nas suas residências, deste modo, os agressores são os seus familiares.

Foi nesse impasse que o legislador criou a Lei Maria da Penha, visando proporcionar segurança para a mulher, prestar-lhe assistência quando não tem recursos para defender-se, assegurar à mulher as condições de uma vida digna, de direitos fundamentais que lhe assegurem respeito e tratamento igualitário, conforme explícito no artigo 3º:

Serão asseguradas às mulheres as condições para o exercício efetivo dos direitos à vida, à segurança, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, à moradia, ao acesso à justiça, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária.

A referida lei surgiu com o intuito de criar políticas voltadas à mulher, em especial destinadas a prevenção, ao atendimento e ao enfrentamento das situações de violência, que estão inseridas no mencionado texto legal, a saber: O artigo 3º em seu parágrafo 1o dispõe que:

O poder público desenvolverá políticas que visem garantir os direitos humanos das mulheres no âmbito das relações domésticas e familiares no sentido de resguardá-las de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

Assim, há a tentativa do Estado de coibir os atos de violência de gênero, no âmbito doméstico, familiar ou inserido num contexto de afetividade. Deste modo, a lei prevê vários meios para a proteção à mulher, trazendo inclusive, como prevenção de futuros delitos e punição do já praticado: a prisão preventiva, a medida de afastamento, a proibição de porte e posse de armas, o afastamento do lar, medidas cautelares, restrição de proximidade, entre outros.

A partir da vigência da Lei Maria da Penha, muitas críticas surgiram, questionando a constitucionalidade da referida norma, ao argumento de que a mesma violaria o princípio da igualdade ao oferecer tratamento específico à mulher. Afirmava-se que, se a lei deve ser igual para todos os indivíduos sem quaisquer distinções, deve aplicar-se o texto normativo de maneira igual para todas as pessoas. Em que pese tais posicionamento, o Supremo Tribunal Federal declarou, em 2012, a lei constitucional, afirmando a necessidade de construção de

políticas afirmativas que se constituem em um conjunto de instrumentos que objetivam corrigir a desigualdade, que visam abolir a discriminação, ainda que, para isso necessitem estabelecer níveis diferentes de proteção.

As ações afirmativas tendem a amenizar a desigualdade social, de modo que propendem reduzir a supremacia do gênero masculino, para, com isso, sustar a desigualdade relativa aos gêneros.

O legislador, ao elaborar a mencionada lei, que tende proteger o gênero feminino utiliza um tratamento diverso às mulheres, mas para com isso igualá-las aos homens. A criação da lei traz uma novidade ao sistema penal, a proteção exclusiva da mulher, deixando a figura masculina fora da tutela penal (CAMPOS, 2008).

Para Cabral (2004, p. 167), “o que falta para uma diminuição da desigualdade de gênero e da violência contra a mulher é uma maior efetividade para essas previsões legais, ou seja, que sejam cumpridas a despeito da cultura patriarcal ainda dominante em nosso país."

Pela lei, violência doméstica e familiar contra a mulher é qualquer ação ou omissão baseada no fato de a vítima ser do sexo feminino, que cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial. A lei se refere aos casos em que a vítima e o agressor fazem parte de uma família ou unidade doméstica (CAMPOS, 2008).

A mulher sofre há anos com a violência doméstica, uma vez que é a violência praticada contra a mulher no âmbito familiar ou afetivo em que está inserida, mas, além disso, as mulheres sofrem pela violência institucional, esta proveniente do Estado, que reproduz a violência estrutural das relações sociais patriarcais/machistas e de opressão sexista, que levam em conta a conduta sexual para pré-julgamentos, de modo que assim, as mulheres são submetidas a julgamentos preconceituosos, inclusive relativamente a ver se a mulher é honesta, se provocou o delito, etc.

Há, portanto, inúmeras particularidades e especificidades da mulher que justificam que estas recebam o protecionismo do Estado, de modo que são tratadas de modo diferenciado, inclusive porque inseridas no contexto familiar, sofrem violência doméstica advindas de seus companheiros. A lei Maria da Penha representa, neste aspecto, um avanço significativo que

procura compensar séculos de indiferença estatal para com a violência sofrida por mulheres no ambiente doméstico, sendo perfeitamente compatível com a exigência de igualdade prevista no texto da Constituição Federal Brasileira de 1988.

Foi diante desse contexto de covardia criada uma lei que pudesse proteger a mulher ou ampará-la, pois, a mulher que sofre violência em sua própria casa fica sem refúgio, sem ter onde buscar ajuda, tendo em vista que são seus próprios familiares que praticam a violência. A Lei 11.340 de 2006 foi redigida para beneficiar a mulher, utilizando-se de uma discriminação positiva (que distingue a mulher dos demais e a protege), mas, contudo, visa igualar a mulher ferida em seus direitos.

A Lei Maria da Penha tem o intuito de proteger de maneira mais eficaz e célere a mulher vítima de violência familiar e doméstica, tendo como objetivo coibir e prevenir a violência doméstica contra a mulher. Como já mencionado, na mesma linha de pensamento, Campos acredita que é a vulnerabilidade do grupo (mulheres), que autoriza haver uma discriminação positiva, assim, neutralizando o desequilíbrio fático que torna as pessoas diferentes (CAMPOS, 2008).

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