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VIOLÊNCIA

No documento CUIABÁ-MT DEZEMBRO/2014 (páginas 11-16)

Violência é um comportamento que causa intencionalmente dano ou intimidação moral a outra pessoa ou ser vivo. Tal comportamento pode invadir a autonomia, integridade física ou psicológica e até mesmo a vida de outro. É o uso excessivo de força, além do necessário ou esperado. O termo deriva do latim violencia (que por sua vez o amplo, é qualquer comportamento ou conjunto que deriva de vis, força, vigor); aplicação de força, vigor, contra qualquer coisa1.

Na publicação da apostila do Curso Nacional de Multiplicador de Polícia Comunitária, p. 53, 5ª edição, a Secretária Nacional de Segurança Pública – SENASP cita o autor Wilson Luiz Sanvito, diz:

A forma mais hedionda de violência é contra vida. Tudo começa pelo núcleo familiar, que quando é bem constituído, é fundamental para formar cidadãos íntegros e responsáveis. Quando desestruturados, desfeitos, construídos através de paternidade irresponsável, constituem-se em um caldo de cultura paralela que forjam potenciais delinquentes e criminosos; verdadeiras pessoas excluídas, que não conseguem identificar na sociedade onde vivem valores morais e sociais pertinentes a sua realidade2.

A base da educação é oriunda da família, a escola é apenas um complemento do conjunto, sendo que a parte maior é dos pais e responsáveis. O que vimos, atualmente, é o inverso disso, os pais transferindo responsabilidade para qualquer um menos para eles, aliado a total ausência do Poder Público, temos uma geração completamente perdida, crianças e adolescentes sendo preparado para o crime, violências que gerarão violências, o ciclo da violência.

1 Disponivel em http://pt.wikipedia.org/wiki/Viol%C3%AAncia. Acesso em 26 de novembro de 2014.

2 SANVITO, Wilson Luiz. O Culto a Violência no Mundo Moderno. Jornal da Tarde, SP, 31 jan. 1998. Caderno de Sábado, p.09).

A violência acompanha a humanidade, até mesmo, antes de cristo, há escritos que Heródoto (484 a.C – 420 a.C), considerado o primeiro historiador, o Pai da História, foi o primeiro a narrar, em um conto, o nascimento da violência, ou melhor, sua transformação na deusa Hybris.

Como explica Mauricio Murad, a deusa Hybris é descrita como onipresente (está em todos os lugares) e representa insulto, agressão, desrespeito, tortura, mutilação e morte, que está registrado no VIII Livro das Histórias3.

No esporte a violência foi registrada pela História, já no ano de 532, onde o resultado polêmico de uma corrida de bigas no hipódromo de Constantinopla gerou atos de revolta e vandalismo4.

Motivo de lazer, alegria e união, o futebol, a décadas, vem sendo um motivo de preocupação para a sociedade e governantes, representa insegurança, as famílias não frequentam mais estádios. Com os atos de violência e vandalismo cada dia mais frequente, nos estádios brasileiros, obriga a segurança pública estudar meios para prevenir e minimizar essas práticas.

Há registro, assinala Murad, que no Brasil, início dos anos 1970, havia alguns conflitos, sim, entre as torcidas, mas eram localizados, pontuais. O que predominava era um cenário de sociabilidade quase familiar5.

Atualmente, no Brasil, há uma intolerância entre torcedores, individualmente ou em grupos, fazem o espetáculo do esporte transformar em campo de guerra.

Assinala Murad, na sua obra “Para Entender a Violência no Futebol”, o início da violência da torcida brasileira, a seguir:

“Os grupos de torcedores extremados, radicais, e suas práticas de violência só começaram a surgir nas arquibancadas brasileiras em princípio da década de 1970. Era o auge da ditadura militar, que tomara o poder em 1964 e se consolidou com o Ato Institucional nº 5, o AI 5, de 13 de dezembro de 1968. Passo a passo, esses setores exaltados das claques, compostos de vândalos e delinquentes, foram se institucionalizando e lentamente chegaram às páginas policiais6".

Na verdade não há, nem entre os autores e pesquisadores, um consenso, uma receita de bolo, para onda de violência que esta aterrorizando o

3 MURAD, Maurício. Para Entender a Violência no Futebol. 1ª edição, São Paulo, Editora Benvirá, 2012, p.52

4 HOLLANDA, Bernardo Borges; REIS, Heloisa Helena Baldy. Hooliganismo e Copa de 2014. 1ª edição, Rio de Janeiro, Editora 7 Letras, 2014, p.11

5 MURAD, Maurício. op. cit. p.45

6 Ibidem . p.89

Brasil e o mundo, é tantas barbáries, ninguém sabe o motivo, como começou e onde vai parar.

Esse fenômeno crescente de violência no esporte não atinge somente o Brasil, mas, o mundo, como exemplo, os hooligans e ultras, torcedores, grupos organizados de clubes de futebol europeus, onde foram tomadas diversas medidas de segurança para coibir as violências e vandalismos realizados por essas pessoas.

Para falar do significado de hooligans e ultras, teremos que buscar o significado da palavra Hooliganismo, para uma melhor compreensão. Apesar de não haver consenso entre os pesquisadores, do real sentido dessas palavras, pois esses entendem que há uma variação, determinada pela peculiaridade dos torcedores, de cada país.

Hooliganismo, na visão de Dunning apud Reis e Holanda, é toda violência relacionada ao futebol. Já para Murad seria um tipo de violência de caráter competitivo realizada por espectadores de futebol do sexo masculino.7.

Para Reis e Holanda:

O hooliganismo no Brasil está presente em torno de jogos de futebol, seja no dia de sua realização ou em dias anteriores e subsequentes, quer dizer, o jogo em si pode ser visto como um fator motivador dos confrontos, no entanto, estes vão além do resultado da partida ou mesmo do seu início8.

As brigas generalizadas são agendadas, os infratores, com o auxílio das redes sociais, marcam dia e horas para o confronto, demonstrando força e acirando ainda mais as rivalidades, fora e dentro de campo.

Hooligans significa bandidos de comportamento antissocial, independente de qualquer contexto esportivo, focado na violência, como assinala Reis e Holanda9.

Ultras são torcedores que apoiam seu time de forma ostensiva, cantando regularmente, agitando bandeiras e colorindo sua arquibancada na entrada dos jogadores. Centrados no apoio ao time, mas utilizam da violência para se defender.10.

Os torcedores brasileiros, depois de todos esses conceitos, podemos aproximá-los dos perfis dos Ultras, alegre, participativo, barulhento, pois o que move

7MURAD, Maurício. op. cit. p.115

8HOLLANDA, Bernardo Borges; REIS, Heloisa Helena Baldy. op. cit. p. 116

9 Ibidem, p. 127

10 Ibidem, p. 132

a torcida brasileira é a paixão pelo futebol, mas que à décadas, este sentimento, vem transformando em violência, dentro e fora dos estádios.

Comportamentos violentos praticados por pessoas, em grandes eventos ou lugares com grande concentração de públicos, atos muitas vezes que nem o próprio autor consegue explicar, vai de agressões verbais (na maioria das vezes ligados a atos de racismo) a lançamento de vaso sanitário, episódio este que aconteceu em Recife-PE, estádio do Arruda, noite do dia 02/05/2014, no jogo Santa Cruz e Paraná.

Buscamos entender tudo isso com diferentes pesquisadores na área das ciências humanas e sociais e notamos que quando o assunto é comportamento humano até mesmo entre os próprios especialistas não há um consenso geral.

Para Norbert Elias, o comportamento humano, é um problema do processo civilizatório, como explica:

“Um dos problemas cruciais com que se confrontavam as sociedades, no decurso do processo de civilização, era, e continua a ser, o de encontrar um novo equilíbrio entre o prazer e a restrição. A progressiva limitação de controles reguladores sobre o comportamento das pessoas e a formação da correspondente consciência, a interiorização das regras que regulam de forma mais elaborada todas as esferas da vida, garantem as pessoas, nas suas relações entre si, maior segurança e estabilidade, mas implicaram também uma perda das satisfações agradáveis que se associavam a formas de comportamento mais simples e espontâneos11”.

O homem esta em constante evolução, isso é um ponto positivo para seu crescimento, seja moral ou profissional, então, há sempre fatos novos e que devem ser criadas regras de boa convivência.

O Pai da Psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939), analisa o comportamento do indivíduo, quando em meio à multidão:

“Nada há que pareça impossível ao indivíduo, quando este está inserido na multidão [...]. Quando uma pessoa está misturada à multidão, o seu comportamento é, via de regra, irracional.

Especialmente quando se trata de jovens. A multidão é uma coisa estranha, porque imprevisível, já que é movida a paixão. E, mesmo quando juntos ficam elétricos, barulhentos, arruaceiros, e podem, até mesmo, cometer atos de infração. Para que isso aconteça, basta liberar uma faísca de paixão, que corre pela massa como rastilho de pólvora, algo explosivo, descontrolado12”.

11 ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A Busca da Excitação. Tração Maria Manuela Almeida e Silva. Lisboa:

Editora DIFEL, 1992, p.244

12MURAD, Maurício. op. cit. p.53

O autor, acima citado, entende que a energia que envolve o indivíduo, paixão, é tão contagiante que quando em grande multidão, grupo de pessoas e com a mesma paixão, faz com que suas atitudes tornam-se irracionais.

Diante da insegurança instalada nos estádios brasileiros e para melhor compreensão do fenômeno da violência, dentro e no entorno destes, buscamos explicações de diversos estudiosos, Maurício Murad, diz que:

“A violência que se manifesta no futebol tem sua origem em questões mais profundas, de ordem social, como o desemprego, o subemprego, a falta de consciência social, de educação e cidadania, o tráfico de drogas e o crime organizado, o descaso das autoridades, a desagregação dos valores familiares e escolares, a falta de policiamento ostensivo e preventivo, a impunidade, a corrupção. São as chamadas macroviolências, que aparecem no microcosmo do futebol, assim como em outros, por exemplo, no trânsito, na escola, na família13”.

Na pesquisa de Maurício Murad, foi usado, como fundamento, a contextualização da violência no futebol e as violências macrossociais no e do Brasil, em especial a corrupção e a impunidade. Para o autor, deve se estudar, a cultura, a sociedade e a história do país, pois só assim entenderemos o real motivo da violência.14.

Com esse pensamento, chegamos à violência em diversos setores da sociedade, onde a corrupção e a impunidade aparecem nas mais variadas formas, saúde, educação e segurança, sem falar na corrupção de prioridades, quando há mais de uma, a escolha é feita pela que trará algum retorno, todas dando origem à violência no esporte.

Sob esta mesma visão, passado recente, podemos citar o movimento dos Black Blocs, pessoas que protestavam contra a desorganização social e falência do poder público, e somado com a ideia dos gastos excessivos da Copa do Mundo, que tomou conta das ruas, meados do ano de dois mil e treze. Infelizmente, foi um movimento que tinha tudo para dar certo, mas vândalos se misturaram com os manifestantes, transformou em depredações e conflitos com policiais, as ruas das principais cidades brasileiras pareciam campo de guerra, gerando pânico na sociedade.

13MURAD, Maurício. op. cit. p.78

14 Ibidem. p. 13

No documento CUIABÁ-MT DEZEMBRO/2014 (páginas 11-16)

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