CAPÍTULO III APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DE DADOS CLÍNICOS
Eixo 3: VIOLÊNCIA da ESCOLA (atos de incivilidades ou microviolência)
Vinheta 8 [...] A aluna me disse: “ eu estudar prá que???, para ser professora como você??? e ficar se matando em trabalhar!!!. Professora morena como você, se daria melhor sendo mulher do chefe da boca... porque você iria ficar cheia de ouro e ter vida boa. O bandido já tem duas mulheres a senhora poderia ser a terceira. [...]. Me senti ofendida, desqualificada como professora ... [...] que o professor pode fazer nesta situação ????? O chefe da boca de fumo é mais valorizado que o professor […] “a aluna não pensa mulher de bandido serve de mula e tem que fazer coisas que não gostaria... só percebem o glamour. [RD1]
O coletivo entrou numa discussão sobre os valores das “facções do crime organizado”- visto como irmandades - e os valores da escola. É violência extramuros, que invade de forma simbólica repercutindo na relação professor aluno. Entre os alunos, há uma descrença que o estudo e o mundo do trabalho contemporâneo pode trazer uma autonomia. Situações relatadas como a da fala acima indicam uma desvalorização do professor, bem como a impotência vivenciada pelo professor, em tais momentos, para argumentar com o aluno. As situações exigem que os professores desempenhem, em várias situações, diversos papéis, além de ensinar o conteúdo da disciplina.
Vinheta 8.1[...] “nós temos que ter múltiplas funções: ser psicólogo, orientador familiar, conselheiro, educador”. (Rd2)
Repercussões nos professores
Os coletivos de professores relatam se encontrar desorientados diante da banalização da violência. Estão tendo dificuldades em lidar com os alunos, devido ao contexto em que estão inseridos.
O mal-estar docente é entendido por Cordié (1998) como fenômeno que envolve aspectos inerentes aos sujeitos e às condições didáticas e demandas do cotidiano, as condições profissionais e, também, as incertezas do professor, uma vez que ensinar não é uma atividade isenta. Então, ensinar é um processo interativo - professor/aluno - que desenvolve habilidades e capacidades para enfrentar o real de seu trabalho, para se relacionar com a realidade produzindo resultados relevantes.
Vinheta 9 [...] o meu medo não é a violência, é a banalização dela, pois virou normal. Se você chegar com carinho no aluno, você está sendo pedófilo; se chegar perto de uma menina você é um professor homossexual; se você chegar, - senta aí animal -, aí ele senta. É a banalização da violência”. [Rd2]
O coletivo de professores durante as rodas de conversa falou da dificuldade em relação ao acúmulo de funções desempenhadas pela categoria, principalmente no que tange à confusão de papéis profissionais com papéis familiares. O sentimento de acúmulo de papéis é bastante presente na fala dos docentes.
Vinheta 9.1 [...]“nós temos que ter múltiplas funções: ser psicólogo, orientador familiar, conselheiro, educador”. [Rd2]
Conforme relato dos participantes, percebe-se que são atribuídos ao professor papéis além daqueles que deveriam desempenhar, sendo-lhe esperado saberes de diferentes campos como os da medicina, da psicologia ou mesmo saberes maternais. Essa expectativa de que o professor conheça tudo e saiba como lidar com todas as situações acaba por ser geradora de sofrimento. Podemos observar no relato dos professores que lhes são atribuídas uma grande carga de responsabilidades e expectativas. Por vezes incompatíveis com as ferramentas técnicas ou emocionais do professor (ESTEVE, 1999). Percebe-se que atualmente a instituição familiar renunciou ao seu papel referente à educação, passando a exigir das instituições escolares o preenchimento dessa lacuna.
A paixão que motiva o prazer está vinculada ao desejo do professor de modificar e de melhorar a sociedade da qual tanto ele quanto o aluno fazem parte.
Vinheta 9.2 [...] “mesmo com toda violência, somos apaixonados pelo que fazemos, apesar de todos os problemas, eu tenho alegria em dar aula e tento driblar os problemas”. [Rd2]
Esse resultado coaduna com a pesquisa realizada por Codo e Batista (2006), segundo a qual o professor é o autor de sua obra, que o aluno irá carregar consigo por toda a vida, influenciando e definindo os destinos da sociedade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao fazermos a revisão de literatura, um leque se abriu sobre as várias formas de violência, que ainda não eram conhecidas, embora percebidas; portanto, pouco ou nada sabíamos sobre as várias faces das violências. Desta forma, conhecemos, talvez, novos elementos e classificações. Na literatura especializada em educação, encontramos algumas explicações sobre violência e indisciplina no cotidiano das escolas, apresentando algumas indicações que permitem caracterizar a problemática escolar, aproximando-se dessa problemática tão vivenciada, mas tão pouco falada.
Nas pesquisas de teses e dissertações são apontadas uma série de pontos de vista que abordam de maneira diversificada e, às vezes, contraditórias sobre o que é o fenômeno da violência em meio escolar. Dessa forma é um tema em constante construção e reconstrução social. Os diversos pontos de vista formam um rico campo científico que pode dar respostas e criticar as diferentes abordagens.
Os pesquisadores em educação estão direcionando seus olhares para o interior das instituições escolares, avaliando as relações e práticas presentes no cotidiano escolar como possíveis geradoras ou potencializadoras dos episódios de violência. Esses estudos vão além do exame da violência extramuros, a violência social que invade a escola, e enfocam os episódios que surgem nos intramuros escolares, isto é, violência e indisciplina dirigida à escola e da escola.
O objetivo geral desta pesquisa foi alcançar alguma compreensão sobre o tema da violência no ambiente escolar, bem como tornar visível a vivência dos professores quanto a esse fenômeno. Procuramos identificar as dificuldades encontradas pelos professores frente ao contexto de violência no ambiente escolar e suas repercussões na saúde desses profissionais.
Ao analisarmos o fenômeno da violência e indisciplina no interior das escolas, podemos observar que os alunos reproduzem parte do ambiente externo aos seus muros e as diferenças sociais e culturais existentes nas relações de sociabilidade.
A violência nas escolas é uma das causas do desinteresse, da falta de concentração nos estudos, da perda de dias letivos e da vontade de assistir às aulas. Surge a revolta, o medo, a insegurança, trazendo prejuízo para o processo de ensino-aprendizagem, para o desenvolvimento acadêmico e pessoal.
Para os professores, as consequências da violência no ambiente escolar interferem diretamente no seu trabalho. O trabalho efetivamente realizado para dar conta do processo de ensino e aprendizagem, em grande parte é invisível, repercutindo no reconhecimento de seu fazer. A falta de reconhecimento, aliada à precarização das condições de trabalho e a imposição do real do mundo social tem resultado em perda de estímulo para o trabalho. O sentimento de revolta e impotência frente às dificuldades toma conta de muitos, senão de todos eles.
Cabe observar que, apesar do cotidiano de violência – que tem de ser enfrentado – provocar-lhes tal sofrimento, eles ainda conseguem ressignificar e sentir prazer no trabalho, pois, em alguns momentos, ainda são reconhecidos pelo trabalho que realizam em sala de aula. Durante as oficinas e as rodas de conversa, puderam falar não apenas do sofrimento, mas também do prazer em lecionar, pois muitos não se imaginam fora de uma sala de aula em hipótese alguma.
Nessa pesquisa, ao defrontar-me com a violência no contexto escolar, houve a necessidade de nominá-la, de identificá-la. No entanto, no decorrer da pesquisa foi possível conhecer as diversas faces da violência e percebendo que os diferentes fenômenos das violências se confundem ou se misturam.
As repercussões na vida do professor são várias, mas existe uma que sempre emerge: a impotência diante das diversas formas de violência em sala de aula e a violência institucional à qual também estão submetidos.
Por fim, destaca-se a importância do espaço de escuta e fala, para delimitação, nominação e enfrentamento de um fenômeno tão complexo do mundo atual.
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Documentos:
Relatório do Curso de Desenvolvimento “Oficinas de escuta clínica e gestão do estresse” em Clinica do trabalho junto às professoras do primeiro segmento - da Escola Municipal em Rio das Ostras (Escola K).