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Violência da escola (VDE)

No documento 2017GabrieleSilva (páginas 55-58)

3 CONFLITIVIDADE ESCOLAR E POLÍTICAS EDUCACIONAIS

3.1 Conflitividade Violenta

3.1.2 Violência da escola (VDE)

Nesta categoria podemos localizar ações de violência que partem da instituição, por meio de seus agentes (professores e demais funcionários). É um modo de violência muito mais sutil, subjetiva e por vezes quase imperceptível, considerando as relações de poder que se estabelecem no meio escolar. Fazendo um paralelo com as violências descritas por Galtung (1969), seria uma forma de violência estrutural. Os exemplos são múltiplos: abuso de poder, decisões autoritárias, métodos de avaliação incoerentes, ações preconceituosas e excludentes, práticas pedagógicas que não cultivam as potencialidades dos alunos, violência simbólica, entre outros. É possível considerar a existência de uma violência institucional que gera também

sofrimento não apenas nos alunos, mas também nos próprios funcionários, como assédio entre colegas, decisões não democráticas na gestão, entre outros.

Precisamos também relevar que a escola e seus agentes também podem estar no papel de reprodutores e perpetuadores da violência. A instituição escolar não é neutra: há de se considerar que existe uma série de ideias e perspectivas teóricas e epistemológicas que embasam o fazer pedagógico. Talvez, dentre todas as formas de violência escolar, a VDE seja esta a mais difícil de detectar, por se tratar de um fenômeno que se delineia na esfera institucional. Conforme apontam Abramovay, Castro & Waiselfisz (2015), existe uma violência que perpassa a cultura das instituições escolares:

A cultura escolar modela o clima nessas instituições. Muitas vezes, se baseia em uma violência de cunho institucional, a qual se fundamenta na inadequação de diversos aspectos que constituem o cotidiano da escola – como o sistema de normas e regras que pode ser autoritário; as formas de convivência; o projeto político-pedagógico; os recursos didáticos disponíveis e a qualidade da educação – em relação às características, expectativas e demandas dos alunos. (p. 33)

Autores como Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron (2014) tecem críticas contundentes ao papel que a instituição escolar desempenha na manutenção do processo de dominação da classe burguesa. A escola atuaria como um meio de reproduzir valores, hábitos e ideais das camadas sociais dominantes; crianças e adolescentes criadas em grupos politicamente minoritários e economicamente desfavorecidos estariam em uma constante desvantagem por não se enquadrarem no sistema ideológico valorizado pela escola, em um processo de violência. A violência simbólica, conforme os trabalhos desses autores, passa a se instaurar na medida em que a escola valida apenas o que as classes dominantes entendem como dignos de serem validados, de acordo com seus próprios interesses. A diversidade cultural e social é constantemente desvalorizada para dar espaço a um modelo único de pensar, agir, aprender, produzir e sentir.

Um clássico exemplo é o de alguns métodos de avaliação aplicados na escola que efetivamente não contemplam o processo de aprendizagem de cada estudante e seu respectivo

background sócio-cultural, sendo que acabam por apenas reforçar a suposta “incapacidade” e

“inadequação” de crianças e jovens que já se encontram à margem da sociedade.

Os alunos ou estudantes provenientes das famílias mais desprovidas culturalmente têm todas as chances de obter, ao fim de uma longa escolaridade, muitas vezes paga com pesados sacrifícios, um diploma desvalorizado; e, se fracassam, o que segue sendo seu destino mais provável, são votados a uma exclusão, sem dúvida, mais estigmatizante, na medida em que, aparentemente, tiveram “sua chance” e na medida em que a definição de identidade social tende a ser feita, de forma cada vez maior de

postos no mercado do trabalho está reservada, por direito, e ocupada, de fato, pelos detentores, cada vez mais numerosos, de um diploma (o que explica que o fracasso escolar seja vivido, cada vez mais acentuadamente, como uma catástrofe, até nos meios populares). Assim, a instituição escolar tende a ser considerada cada vez mais, tanto pelas famílias quanto pelos próprios alunos, como um engodo, fonte de uma imensa decepção coletiva: essa espécie de terra prometida, semelhante ao horizonte, que recua na medida em que se avança na sua direção (BOURDIEU & CHAMPAGNE, 2015, p. 248).

A escola acaba sendo um agente de exclusão social, o que está relacionado com problemas como a alta evasão escolar de estudantes advindos das classes populares. O potencial destes alunos é massivamente desperdiçado ou mesmo descartado para fora das salas de aula.

Figura 4 - Ilustração a respeito da violência nos métodos de avaliação. Tradução: “O mundo está cheio

de gênios.../que acreditam ser idiotas.../porque sempre foram mal/… no que se supõe que deveriam ser bons”. (SALLES, 2016)

Jessé Souza (2010), seguindo as ideias de Bourdieu, critica duramente o discurso meritocrático que constantemente é usado para legitimar uma suposta justiça do mundo moderno, que menospreza as condições socioculturais e econômicas e que deposita toda a responsabilidade pelo “sucesso” ou “fracasso” de uma pessoa em seu esforço individual. O autor afirma que o conflito central da sociedade brasileira reside na “oposição entre uma classe excluída de todas as oportunidades materiais e simbólicas de reconhecimento social e as demais classes sociais que são, ainda que diferencialmente, incluídas” (p. 31). O que ocorre é um processo constante de violência simbólica, que também está enraizado na educação brasileira, onde se encontra uma má-fé institucional.

O modelo escolar brasileiro tragicamente ajuda na reprodução das desigualdades sociais, no momento em que rotula estudantes que não se adequam à suas normativas e seu

sistema valorativo sem compreender o contexto por trás deles. Na obra organizada por Jessé Souza, “A ralé brasileira”, a colaboradora Lorena Freitas (2010, p. 337) ilustra como os educadores muitas vezes contribuem para a manutenção de um ciclo de marginalização de crianças e adolescentes advindos de backgrounds desfavorecidos:

Graças à má-fé institucional [...], antes de enxergarem as causas que determinam as dificuldades dos alunos, os profissionais da instituição escolar só veem os efeitos dessas dificuldades, tais como desatenção, desobediência, ausências, indisciplina, desinteresse e agressividade. Quando chegam a perceber que esses comportamentos são fruto de desorganização familiar, a escola, historicamente precária em sua maioria, muito pouco pode fazer a respeito, o que leva o problema a se arrastar indefinidamente até ser naturalizado, ou seja, visto como se fosse parte da própria “natureza” dos alunos. A prática comum é então punir e castigar aqueles que apresentam esse tipo de comportamento, encarado como consequência de uma escolha racional de cada um, e não como efeito de uma condição de vida que não oferece as condições sociais objetivas para o sucesso escolar.

Neste cenário, o resultado muitas vezes acaba sendo o fracasso e a evasão escolar. De forma geral, a instituição escolar não gera transformação social significativa, e sim proporciona a reprodução da exclusão de classe: as classes desfavorecidas que Jessé Souza refere como “ralé brasileira” estão inseridas em um contexto familiar bastante disruptivo, adverso e que favorece a manutenção da própria exclusão, enquanto “o que a classe média aprende na escola é uma mera extensão das virtudes que já estavam sendo aprendidas desde o berço” (SOUZA, 2010, p. 468). A escola é pensada para a realidade e os valores da classe média, enquanto a “ralé” permanece marginalizada. Esta é uma das principais violências simbólicas que podemos perceber na educação brasileira - no entanto, não é uma violência amplamente visível e perceptível.

É importante salientar que nem sempre essa reprodução se dá de maneira consciente; também é importante a ressalva de que existem profissionais da educação que possuem uma leitura da realidade social, como é demonstrado no trabalho de Soares & Machado (2014), no qual professores das escolas públicas relataram entender que a família e a desigualdade social são elementos geradores do comportamento violento dos alunos. Tais representações sociais podem influenciar em ações pedagógicas mais inclusivas; entretanto, é difícil dimensionar até que ponto tal entendimento é suficiente para evitar práticas de violência institucionais tão arraigadas na sociedade brasileira. Faz-se necessária a constante reflexão acerca de tais elementos para a construção de escolas que se escapem de uma lógica excludente.

No documento 2017GabrieleSilva (páginas 55-58)