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“A questão da violência começa com uma exclusão. É muito fácil cometer um ato de

violência contra uma não-pessoa.”

(Fabiano Samy)

O território brasileiro apresenta taxa trinta vezes maior de homicídios que a Europa, a taxa é de 30,3 mortes por 100 mil habitantes. Tais dados são comparáveis a países em guerra e no ano de 2016 atingiu a marca histórica de 62.517 mortos. Na ultima década 553 mil pessoas perderam a vida em crimes intencionais no Brasil. (IPEA, 2018)

Ao se debruçar nos números de mortes entre jovens, os dados do Ipea (2018) revelam que o homicídio corresponde a 56% da causa de óbito entre 15 e 19 anos. Se analisar a taxa entre 15 e 29 anos são 142,7 mortos à cada 100 mil habitantes. É necessário considerar outro agravante nas taxas de homicídio, afinal, 71% das mortes são de pretos ou pardos. Ao observar os crimes de estupro, o Ipea (2018) aponta que 68% são de menores de 18 anos, um terço cometido por amigos ou conhecidos da vítima, 30% por pai, irmão, mãe ou padrasto e 78% ocorrem no lar da vítima.

Alguns equívocos são encontrados na discursividade popular que envolve o tema violência, um deles é que “a violência é um atributo de pobres ou de origem biológica” (NJAINE et al., 2014, p.16). Isto é, pessoas desprovidas de acessos financeiros teriam tendência à criminalidade, ao desrespeito às leis, ordens e instituições sociais.

Outro costume popular corrente na disursividade é o uso de castigos físicos e psicológicos na promoção de educação infantil. Agressão física, psicológica e castigos de isolamento fazem parte da memória educacional do brasileiro. Em 2014, após comoção social envolvendo a violência acometida ao “Menino Bernardo”, o Brasil institui a chamada “Lei da Palmada”, inscrita pela Lei nº 13.010/2014, proibindo no texto da lei o uso de violência física na educação de crianças e adolescentes, como o artigo recortado abaixo:

37 “Art. 18-A. A criança e o adolescente têm o direito de ser educados e cuidados sem o uso de castigo físico ou de tratamento cruel ou degradante, como formas de correção, disciplina, educação ou qualquer outro pretexto, pelos pais, pelos integrantes da família ampliada, pelos responsáveis, pelos agentes públicos executores de medidas socioeducativas ou por qualquer pessoa encarregada de cuidar deles, tratá-los, educá-los ou protegê-los.

Parágrafo único. Para os fins desta Lei, considera-se:

I - castigo físico: ação de natureza disciplinar ou punitiva aplicada com o uso da força física sobre a criança ou o adolescente que resulte em:

a) sofrimento físico; ou b) lesão;

II - tratamento cruel ou degradante: conduta ou forma cruel de tratamento em relação à criança ou ao adolescente que:

a) humilhe; ou

b) ameace gravemente; ou

c) ridicularize.” (BRASIL, 2014, p.1)

A publicação da referida lei foi recebida com muita polêmica e discussão, mesmo com os dados de pesquisas encomendadas que apontavam para os prejuízos de uma educação contornada por agressões como resultado crianças (e posteriormente adultos) com baixa autoconfiaça, autoestima, sensibilidade ao sofrimento do outro e reprodução da violência nos espaços sociais utilizados pela vitima, já que ela fica naturalizada na relação, é comum na relação. (NJAINE et al., 2014)

A violência é um problema de saúde pública, mesmo porque se estima que seja uma das principais causas de morte que acometem as pessoas entre 15 e 44 anos, além do que:

Embora seja difícil ter estimativas precisas, o custo da violência para o mundo se traduz em bilhões de dólares de despesas anuais com cuidados de saúde, acrescidos de outros bilhões relativos às economias dos países, em termos de dias não trabalhados, imposição e cumprimento da lei e investimentos perdidos. (DAHLBERG; KRUG, 2006, p.1164)

Sem dúvida o impacto econômico é considerável, entretanto, não se equivale ao custo humano produzido em dor, sofrimento e sequelas sociais. A compreensão da violência perpassa localizar a discussão em fatores multifacetados, problemas como saúde, saneamento, aspectos culturais, educação, lazer, segurança pública, emprego e renda, isto é, as condições de vida de uma população inferem nos dados de violências.(NJAINE et al., 2014)

Entretanto, para balizar o conceito de ‘violência’, faz-se necessário retomar como a Organização de Saúde se remete a problemática. Assim, no que tange a conceituação da Organização Mundial de Saúde (BRASIL, 2002), violência é o uso da força, privilégios, influência ao submeter outros ou grupos, isto é, indivíduos ou coletivos. Sendo assim, um problema que acompanha toda história da humanidade (ARENDT, 2008), afetando a saúde, reduzindo qualidade de vida e causando a morte. Com isso, infere acerca de múltiplos atores sociais em seu trato, combate e controle.

No último Mapa da Violência produzido em 2016 aborda a questão de o que é violência e como localizá-la da seguinte forma:

A violência torna-se uma linguagem cujo uso é validado pela sociedade, quando esta se omite na adoção de normas e políticas sabidamente capazes de oferecer alternativas de mediação para os conflitos que tencionam a vida cotidiana, aprofundam as desigualdades e promovem injustiças visíveis. A tradição de impunidade, a lentidão dos processos judiciais e o despreparo do aparato de investigação policial são

39 fatores que se somam para sinalizar à sociedade que a violência é tolerável em determinadas condições, de acordo com quem a pratica, contra quem, de que forma e em que lugar. (WAISELFISZ, 2015, p.9)

No entanto, fica evidenciado que o certo e errado, o violento e o tolerado como estratégia de disciplina advém do ordenamento jurídico. Tanto que até 2014, ano da assinatura da Lei da Palmada (que criminaliza a educação violenta de crianças), não se legislava sobre a educação intrafamiliar e diversos casos de violências extremas foram registrados sem interferência do Estado.

Para caracterizar um ato como “violento”, devem ser preenchidas ao menos as seguintes condições: causar dano, usar a força (física ou psíquica), ser intencional ou ir contra a livre e espontânea vontade de quem é objeto do dano. (BRASIL, 2008)

Com isso, fatores culturais inferem na percepção da cultura da violência. Minayo (2003) problematiza como os fatores culturais são atuantes nas violências encontradas nas sociedades, uma vez que a cultura atravessa gosto, pensamento, visão de mundo e ações coletivas, legitimando o entendimento do comum, da tradição. Como exemplo, pode-se pensar no processo escravocrata e toda estigmatização racista produzida até os dias atuais dessa condução histórica, ou mesmo na chamada ‘cultura do estupro’ que objetifica o feminino na submissão ao homem, condição alicerçada no patriarcado instituído desde o Brasil colônia e que encontra legitimidade inclusive nos textos bíblicos.

Ainda em Minayo (2003) pode-se entender como as violências se apresentam de forma ‘naturalizadas’ nas relações, banalizadas e tidas como normais, se reproduzindo ciclicamente por gerações, exemplo disso, é a relutância em discutir alternativas pedagógicas familiares excludentes da agressão física, já trabalhadas aqui. Outro exemplo das naturalizações das violências pode ser constatada pelo fato

de somente em 2006 o Brasil ter aprovado a Lei Maria da Penha que garante proteção à mulher e revoga condições de homicídio femininos em ‘nome da honra’. Ainda hoje, é possível encontrar mulheres que não entender a não compulsoriedade sexual atrelada ao casamento, encontrar mulheres que entendem o regime de casamento como acesso irrestrito ao seu corpo, condição que só caí no âmbito jurídico com a Lei Maria da Penha de 2006.

As políticas públicas em vigência no território nacional tipificam a violência por alguns pontos e argumentações. Tal tipificação decorre de psicólogos, assistentes sociais, historiadores, sociólogos, a chamada ‘rede socioassistencial’ que produziu tipologias de violência para orientação e tratamento que ajudem a educação na detecção de violências no contexto escolar (PARANÁ, 2010), como vê-se adiante:

• Violência Estrutural: resultante das desigualdades econômicas, educacionais, políticas, culturais, muitas vezes desencadeadas por desemprego, miséria, falta de acesso a serviços;

• Violência Institucional: apresentada em espaços sociais que submetem pessoas a uma vivencia ou mesmo disciplinarização que gere sofrimento, como: exército, escola, prisão, comunidades terapêuticas, postos de saúde, espaços urbanos;

• Violência Simbólica: identificada pela socialização que promove no indivíduo uma percepção de inferioridade, onde é destinado um espaço social de ocupação determinado por padrões e critérios estigmatizantes e oriundos de um discurso dominante. Nesse tipo de violência percebe-se a reprodução marcas sociais atreladas àpessoas em vulnerabilidade social ou/e econômica e aos quais há uma violação de direitos ou iminência de ocorrência.;

• Violência Física: seria o uso da agressão física impondo à criança e adolescente submissão ou apenas humilhação. Em 2014, o Governo brasileiro, por meio da Lei nº 13.010, oficializoua proibição de castigos físicos na educação de crianças e adolescentes;

41 • Violência Psicológica: agressões verbais e não verbais que promovam sentimento de medo, humilhação, apreensão em criança e adolescentes, apesar de comum, de difícil confirmação;

• Violência Sexual: a violência sexual é o ato de exposição, tato, penetração, tendo ou não contato físico, por meio de chantagem, conversas inadequadas para a disparidade de maturidade, com objetivo financeiro ou não. Isto é, é o contato ou não com finalidade de satisfação sexual própria ou de terceiros de crianças e adolescentes. Nesse sentido, a pornografia, voyeurismo;

• Abandono de Incapaz: é quando adultos permitem que crianças fiquem sozinhas em casa, carro, espaços públicos. Normativa previstapelo artigo 5, artigo 133, artigo 136 do Estatuto da Criança e Adolescente; • Negligência: caracterizado omissão ou ausência de

cuidados necessários a manutenção e preservação da vida;

• Bullying: violência interpessoal recorrentemente assimilada como vivida no ambiente escolar, mas não se prende a esse espaço,entendida como violência física e/ou psicológica ocorrida entre jovens, e considerada marcadapor repetição de ato, podendo ocorrer por longos períodos na formação dos jovens e gerando sofrimento continuo;

• Trabalho Infantil: por meio do caderno de orientações do Programa de Erradicação de Trabalho Infantil - PETI (2010) entende-se por atividades podendo possuir finalidade econômica ou não, praticadas por crianças e adolescentes abaixo dos 16 anos (salvo aprendiz para maiores de 14 anos) que substituam a atividade que seria destinada a um adulto. Uma das práticas mais comuns e de difícil detecção é vista pelo trabalho doméstico quando exercido de forma contínua e que se apresenta muitas vezes naturalizado na cultura. No entanto, tal prática compromete o desenvolvimento físico, psicológico das crianças e

jovens, exemplos são: cozinhar alimentos, cuidados com irmãos, limpeza da casa, da roupa;

• Alienação Parental: os conflitos conjugais ou os processos de separação conjugal eventualmente acarretam um processo identificado por Richard Gardner na década de 80 que expõe à influência dos pais na percepção equivocada do adversário na disputa da guarda da criança. Esta violência foi legitimada pela Lei 12.318/10, que identifica e penaliza o genitor que aliena a prole;

A infância no Brasil só deixou de ser negligenciada em 1927 quando foi promulgado o primeiro código de menores, chamado de Mello Matos. A agenda da infância na política pública foi tensionada pela história do menino Bernardino que aos doze anos, trabalhava de engraxate e teve seus serviços não pagos por um cliente, não considerando o calote viável, jogou graxa no cliente e foi conduzido a autoridade policial. Como pena, Bernardino, foi colocado em uma cela com homens adultos e submetido a toda sorte de violências. Sua internação na Casa de Misericórdia foi noticiada pelos meios de comunicação e trouxe mobilização da opinião pública. (BRASIL, 2015)

As criticas ao exercício higienista e tutelativos desse conjunto de artigos só foi superado na redemocratização do Brasil com a Constituição Federal de 1988 e promulgação do Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) de 1990. Somente com o ECA a infância se rompe a ideia da infância como objeto de intervenção e se consolida a perspectiva de sujeitos com direitos em desenvolvimento.

O ECA apresenta como a sociedade civil é responsável pela proteção à infância e corrobora com a construção de rede socioassistencial de proteção à infância, a qual, a escola é parte. Com isso, torna-se necessário refletir como a escola atua na proteção e como ela expõe seus estudantes a processos violentos, ou como naturaliza a violência em seu corredores e é nesse objetivo que esse trabalho de focou.

A reflexão sobre escola, legislação, violências captura várias possibilidades de analise. No eixo escolar Ângela Soligo (2017) caracteriza três tipos de violências: a exercida

43 contra a escola, a cuja autoria é a própria escola e a vivenciada na escola.

Segundo Soligo (2017), a violência contra escola fica evidenciada com os baixos salários dos professores, depredação do patrimônio, desvios de verbas ou recursos materiais que subsidiariam a comunidade escolar. Já a violência da escola estaria associada a organização escolar que promove exclusão de recortes populacionais do processo educativo, como negros, indígenas, deficientes ou excludentes da heteronormatividade, ou mesmo materiais didáticos e conteúdos que reforcem as condições de exclusão. Finalizando a leitura desta autora, a violência na escola seria a praticada entre estudantes e que não se limita ao bullying, vai além, com expressões de agressão física, psicológica, sexual, simbólica, material, algumas inclusive indicativas de problemas extramuros, presentes na comunidade escolar.

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