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VIOLÊNCIAS E O CONFLITO FAMILIAR-CONJUGAL

No documento Serviço social e mediação familiar (páginas 191-200)

FAMILIAR 173 4.1 AFETO E FUNÇÃO SOCIALIZADORA DA FAMÍLIA:

2. POLÍTICA PÚBLICA E POLÍTICA SOCIAL – A RESOLUÇÃO 125 DO CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA COMO

4.3. VIOLÊNCIAS E O CONFLITO FAMILIAR-CONJUGAL

O conflito é um processo bastante complexo e, portanto, não lhe cabe uma única definição. De um modo geral, é entendido como qualquer tipo de oposição ou de interação de forças antagônicas ou controversas envolvendo duas ou mais pessoas quando divergem sobre pontos de interesse em comum. “O conflito [...] é um desentendimento entre as pessoas, podendo ser mais ou menos grave em função do nível de ambiguidades e de suas raízes” (BREITMAN; PORTO, 2001, p. 97).

A desvinculação de padrões religiosos, morais, legais e culturais e a menor pressão social sobre alguns aspectos da vida em família – como a estabilidade do casamento e a obediência dos filhos para com os pais – têm gerado novos conflitos familiares, agravando os tradicionais e trazendo consigo uma grave incerteza sobre a melhor forma de serem resolvidos (BREITMAN; PORTO, 2001).

Podem ser diversas as situações desencadeadoras de conflitos, compreendendo aspectos subjetivos (pessoais e psíquicos) e objetivos. O conflito representa diferenças de valores, escassez de poder, recursos ou posições, bem como, divergências de percepção ou ideias, expressando tensão e uma certa luta de contrários. Ele é inevitável na vida de qualquer pessoa, e por si só, não é mau ou ruim, nem bom. O que tende a gerar problema é a forma como as pessoas reagem ao conflito: com raiva, vergonha, pena ou medo, entre outros sentimentos. Se bem conduzido, um conflito tem um potencial de transformação, caso contrário, tem um potencial destrutivo (BREITMAN; PORTO, 2001).

Não há como viver em família sem se envolver com conflitos, pois ela é uma realidade dinâmica composta por teias complexas de relações entre seus membros. Para Prudente (2008), nessas teias estão presentes

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constantes desavenças, já que as brigas familiares fazem parte da realidade; a história da família é marcada por momentos que compreendem crescimento, estagnação, encontro, desencontro e reconciliação.

Conforme Breitman e Porto (2001), uma particularidade do conflito familiar é que ele se caracteriza, geralmente, pela intensidade e pela complexidade, não envolvendo apenas expectativas e interesses pessoais, mas também, a convergência de fortes emoções e de sentimentos ocultos.

Quando se refere aos conflitos que envolvem a violência de gênero nas relações familiares, Muszkat et al. (2008a) assinala que, ao contrário da visão normalmente romantizada, a família é um lugar sobrecarregado de conflitos, com sentimentos ambíguos de amor e ódio, cooperação e competição, proteção e domínio entre todos os membros da família.

Pais e mães não são apenas amorosos e protetores, podendo também ser cruéis com seus filhos, assim como entre si; irmãos podem ser cruéis uns com os outros ou com seus pais, e assim por diante. Essa dinâmica gera uma espécie de paradoxo, em que a prática da disputa parece ser incompatível com o desejo da união e manutenção da família. Entretanto, os dois polos coexistem lado a lado (MUSZKAT et al., 2008a, p. 34).

A visão romantizada que foi construída sobre a família tende a surpreender quando, num ambiente familiar, crianças, homens e mulheres podem ser prejudicados por aqueles que foi-lhes ensinado a pensar que deveriam amá-los e protegê-los. Porém, como a família é uma unidade social contraditória, conflitos decorrentes de ideias e opiniões divergentes, de crenças e poder, convivem com conflitos voltados à disputa de afetos. Considerando que a dinâmica e organização da família se baseia na distribuição de afetos, se identifica um complexo dinamismo de disputas e competições internas, motivados pelo desejo de conquistas de espaço que possam garantir o amor, o reconhecimento e a proteção de uns para com os outros enquanto necessidades básicas de convivência. “Trata-se de disputas naturais que estimulam, entretanto, sentimentos ambivalentes de amor/ódio, aliança/competição, proteção/domínio entre todos os seus membros” (MUSZKAT, 2003, p. 24).

Para Thomé (2010), o mito da família feliz deve ser sempre questionado para que o Direito possa se ajustar aos fatos e garantir a proteção daqueles que a compõem, para que possa ser um núcleo de

afetividade, respeito, solidariedade e liberdade. O relacionamento familiar é uma moeda de duas faces que pode desenvolver o ser humano ou aprisioná-lo; que pode produzir laços de amizade e solidariedade, ou pode produzir disputas, sofrimentos e doenças que se estendem por toda uma vida. Se a família pode ser um instrumento de realização, nela também existe opressão, submissão e violências. Ou seja, a família se constitui num fenômeno socioafetivo e jurídico que se modifica conforme o contexto. Pode tanto promover a dignidade humana como feri-la.

Tanto Muszkat et al. (2008a) como Pereira102 (1999 apud THOMÉ, 2010) afirmam que os conflitos derivam de um alto índice de intimidade e de disputas internas. As relações mais íntimas são justamente as que estão mais sujeitas ao surgimento dos conflitos e, portanto, são complexas e intricadas.

Estudos comprovam que o ciclo de violência começa cedo na vida das pessoas, ou seja, quando crianças, filhos de famílias ‘disfuncionais’103, se sentem desamparados e não encontram no ambiente em que vivem razões para se sentirem importantes. Para Muszkat (2003, p. 24) a violência

Começa quando crianças são abusadas pelos adultos, moral ou fisicamente, seja como observadoras ou vítimas diretas, e vão atuar essa violências (como vítimas ou agressores) expressando um padrão aprendido, um espécie de “herança” familiar, para o qual foi cunhado o termo “violência intergeracional”, já que tende a se reproduzir de geração em geração.

Muszkat (2003) demonstra que os conflitos não são apenas uma exceção na vida das famílias, como também podem se manifestar de forma violenta. Para ela, a violência é todo e qualquer ato capaz de ferir a dignidade e os direitos fundamentais da pessoa humana, seja moralmente, sexualmente ou corporalmente. Ela não é a consequência

102 PEREIRA, Rodrigo da Cunha. A desigualdade dos gêneros, o declínio do patriarcado e as discriminações positivas. In: I Congresso Brasileiro de Direito de Família. Repensando o Direito de Família, 1999, Belo Horizonte. Anais. Belo Horizonte: Del Rey, 1999. p. 161-73.

103 A autora esclarece que a expressão “disfuncional” é cunhada em oposição ao termo ‘desorganizadas’, que pressupõe uma forma de organização ideal. “‘Disfuncional’ refere-se às famílias nas quais as figuras parentais não conseguem exercer suas funções” (MUSZKAT, 2003, p. 25).

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necessária de um conflito, mas apenas o testemunho da dificuldade de conviver com a diversidade e de encontrar soluções satisfatórias para administrá-la. Uma família ‘disfuncional’ pode estar despreparada para compreender, administrar e tolerar os próprios conflitos, recorrendo à violência para resolvê-lo.

A violência é uma das formas mais primárias de resolução de conflitos, pois todo o indivíduo que não tem a suficiente autoconfiança, com algum nível de tolerância para enfrentar as próprias frustrações e necessidades adultas recorre ao ato violento como forma de resgatar a sua dignidade. Para alguns indivíduos, o baixo nível de tolerância e o acúmulo de frustrações pode tornar insuportável o enfrentamento do estresse, pois tendem a se sentir diminuídos e ameaçados na sua integridade psíquica e não conseguem controlar a raiva. Para outros indivíduos, dependendo das experiências traumáticas vivenciadas, algumas situações aparentemente banais podem provocar reações insuportáveis.

Ao agredir o outro, mesmo que por um momento fugaz, o agressor experimenta uma sensação de grandiosidade por meio da humilhação da sua vítima e sua subsequente submissão. Trata-se de uma forma de exercício de poder que não encontra, entretanto, nenhuma correspondência de alívio interior tendendo, ao contrário, a gerar níveis de irritabilidade cada vez maiores, já que o resgate da autoestima não se concretiza (MUSZKAT, 2003, p. 26).

Para Breitman e Porto (2001), paixão e sofrimento, independente do grau e magnitude, são provocadores de conflitos e podem derivar de sentimentos como arrogância, inveja e vingança. Quanto maior a sensação de fracasso, de culpa ou de ódio, maior é a tendência dos indivíduos projetarem esses sentimentos nos outros para proteger a própria fragilidade e recuperar a sensação de força e de importância.

Nos relacionamentos que envolvem intimidade, são várias as situações que levam à violência. Dentre as suas inúmeras expressões, a violência física não é nem a maior e nem a pior forma de violência, apesar de ser a que deixa marcas mais evidentes e que geralmente é punida. O assédio moral, por exemplo, deixa marcas perversas pela desqualificação sistemática de uma pessoa, principalmente nas relações de trabalho e familiares (MUSZKAT, 2003).

A violência doméstica ou intrafamiliar104 não é uma particularidade das famílias que detêm menores recursos econômicos, sociais, psicológicos ou culturais. São as diversas vulnerabilidades a que estão submetidas essas famílias que aumentam a probabilidade da violência e maiores se tornam as dificuldades para enfrentá-la. Muszkat (2003) esclarece que a população de baixa renda – que geralmente caracteriza o público-alvo dos serviços de mediação familiar por meio do acesso à justiça – convive corriqueiramente com várias formas de violência individual e coletiva graças às inúmeras privações a que estão submetidas. Assim, a convivência e a banalização do exercício da violência são recorrentes, inclusive, para enfrentar a própria violência sofrida. Por serem discriminados e desrespeitados, muitos indivíduos tendem a criar para si soluções correspondentes aos precários recursos que dispõem, condicionados pelas instabilidades dos vínculos empregatícios e inseguranças por eles geradas.

As aglomerações nas moradias com a falta de espaço e de intimidade, e a ausência de equipamentos de lazer e cultura, fazem com que crianças e adolescentes vivam ociosamente, sendo também aspectos que agravam os conflitos familiares. Relacionando a população de baixa renda com a e maior incidência da violência intrafamiliar, assim se manifesta a autora:

Trata-se de uma população que vive em estado de marginalidade social, em que o desejo de respeitabilidade é constantemente contrariado, e as experiências de afeto e frustração se confundem com frequência. São sujeitos de famílias discriminadas e desrespeitadas pela sociedade que criam para si um repertório de soluções compatíveis com seus parcos recursos. Devido à falta de recursos na área da educação e no preparo profissional, o trabalho masculino, assim como o feminino, para a maioria dessas famílias, é informal, descontínuo e sem vínculo empregatício,

104 A autora caracteriza a violência doméstica como violência intrafamiliar porque considera tratar-se de um problema que atinge todos os membros da família que acabam participando dessa dinâmica, sendo que, normalmente, os prejuízos só se tornam visíveis para a sociedade quando assumem a forma de violência urbana. “Eis uma questão que, se considerada em toda sua extensão, acaba por comprometer toda a sociedade com fenômenos como o aumento da marginalidade e da violência entre os jovens, cuja ocorrência tem sido observada de maneira crescente e descontrolada” (MUSZKAT, 2003, p. 33).

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resultando em ganhos insatisfatórios e evidente instabilidade. Trabalho fixo, residência e vínculos afetivos são raramente mantidos, dificultando qualquer tipo de planejamento e organização. Famílias vivem em condições físicas precárias, em que a aglomeração dos corpos, decorrente da constante falta de espaço de intimidade, representa uma fonte constante de atritos. A ausência de equipamentos de lazer e cultura para essa população permite a ociosidade das crianças e adolescentes, ou ainda dos desempregados, contribuindo negativamente para uma organização pacífica de seus membros. Devido a essa situação de penúria, tendem a desenvolver atitude fatalista – “... é sempre assim....”, “não adianta reclamar...” – e imprudente, e utilizar-se de soluções impulsivas, muitas vezes autodestrutivas, para seus problemas (MUSZKAT, 2003, p. 27).

Entre os gêneros, na população de baixa renda, os códigos sobre a divisão sexual do trabalho e a hegemonia masculina tendem a se sustentar sob o predomínio das ideias tradicionais, algumas já superadas em outras classes sociais, contrastando com uma prática muito comum que é a das mulheres mantendo a família. Dessa forma, é reforçado o ideal de família no qual cabe ao homem garantir a mediação entre a família e o mundo externo, e à mulher cabe garantir a posição de poder do homem sobre os demais membros do grupo familiar, além de ter que preencher as necessidades afetivas. O homem é visto como o chefe da família, ainda que seja um desempregado crônico e pouco contribua com o orçamento familiar. Assim, no âmbito doméstico, se mantém uma pseudoposição do homem quanto ao uso da autoridade, inexistente no espaço público. Caso a mulher considere essa parceria insustentável, tendo em vista a frágil estabilidade familiar, em caso de ruptura, os homens costumam se sentir descompromissados em relação ao grupo familiar. O afastamento tende a aumentar uma exacerbação nas condições de privação, principalmente quanto aos jovens, que sem a presença mediadora do pai com a sociedade, se sentem desprovidos de respeitabilidade moral e ‘garantia’ de inserção social. Ainda, para Muszkat (2003, p. 28, grifos da autora), este descompromisso, por parte dos pais, tem tido respaldo “[...] no imaginário feminino e feminista que, onipotentemente, tem dispensado a presença da figura paterna para além de suas responsabilidades de provedor” (por meio de pensão).

Em síntese, os fatores que permitem afirmar que a população de baixa renda – menos favorecida do ponto de vista social e individual – está mais exposta ao conflito graças às parcas condições intelectuais e psíquicas para elaborá-lo e tolerá-lo, podem ser complementados com a sobrecarga das funções femininas, e com a precária noção de direitos e de responsabilidade por parte dos sujeitos (MUSZKAT, 2003).

Fuga (2003, p. 37) também considera as fragilidades socioeconômicas potencias geradoras de conflitos familiares, pois “[...] não se pode ignorar que a vida a dois acaba não só quando aquelas almas românticas deixam de poetizar”. Para a autora, quando a renda familiar não é suficiente para cobrir despesas decorrentes de aluguel, escola, mercado (dentre outras), e quando a família não tem um teto para se abrigar ou não tem onde buscar recursos para a saúde e outras necessidades, há de se convir que os casais se separam também porque as dificuldades intransponíveis do dia a dia as afastam e as tornam menos amorosas, mais propensas à violência e à ruptura conjugal. “Aqui o afeto perde espaço porque precisa ser construído, e não presumido. Nesses casos, não é o afeto que fracassa, mas o Estado, por não ter sido suficientemente protetor de aspirações afetivas e de crescimento do ser humano” (FUGA, 2003, p. 38).

Por sua vez, Fiorelli e Malhadas Júnior (2008) apresentam uma tipologia de conflitos assim explicitada:

 Os conflitos estruturais, que acontecem porque a estrutura dos relacionamentos é inadequada: os poderes na família são mal distribuídos, um dos cônjuges concentra excesso de poder que se torna disfuncional; a estrutura da família se apoia em bases econômicas faltando uma clareza entre direitos e deveres, e como consequência, há a ausência de controle sobre a destinação dos recursos dos quais a família dispõe; os contatos entre o casal são esporádicos por causa dos horários de trabalho ou de outras atividades; ou ainda, os conflitos podem derivar da não aceitação por um dos cônjuges quanto às atividades assumidas pelo outro.

 Os conflitos de relacionamento, que derivam das trocas afetivas e comunicacionais, e acontecem quando alguns casais (ou os demais membros da família) desenvolvem: manifestações afetivas pautadas pelo excesso, com exigências, às vezes, impossíveis de serem cumpridas; uma comunicação truncada, superficial ou paradoxal, com muitas falhas ou omissões, ou ainda, quando inexistente a comunicação, tornando o processo de separação ainda mais difícil; um relacionamento que evoluiu para uma escalada de violência verbal e física, construída pouco a pouco, reduzindo cada vez mais o nível de tolerância recíproca e levando a agressões mútuas; o fosso comunicacional, pois ainda que o casal resida

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no mesmo local, simplesmente não conversam porque lhes falta uma saída clara para os impasses; expectativas de relacionamento inadequadas às exigências de cada cônjuge, com cada qual requerendo atenção relacionados a aspectos diferentes; os níveis de pensamento dissonantes, com um se concentrando em perspectivas futuras e outro se centrando no presente ou no passado, ou ainda, o desencontro deriva de questões abstratas valorizadas por um, e expectativas bastante concretas valorizadas pelo outro.

 Os conflitos de expectativa são aqueles que geram diferenças entre o comportamento esperado e o comportamento manifesto pelos seguintes motivos: ocorre uma inadaptação a hábitos simples do cotidiano entre os cônjuges; surge a decepção pelo não cumprimento de acordos ou promessas idealizados antes da união; pelo desapontamento com os comportamentos do cônjuge em ambientes externos ao lar, tal como a decepção quanto ao desempenho no trabalho e o comportamento nas horas de lazer, tornado o relacionamento difícil.

 Os conflitos de percepção decorrem de divergências na interpretação de fatos: informações erradas, inadequadas ou incompletas sobre acontecimentos que afetam a vida familiar; interpretações divergentes a respeito das mesmas informações; interpretações divergentes em função de valores, ideologias e princípios, por vezes somente identificados quando do início da vida em comum.

 Os conflitos de posições e interesses são aqueles em que os desejos, as motivações e as necessidades de cada um se mostram incompatíveis, incluindo: expectativas frustradas quanto ao patrimônio material; desencontros de perspectivas de autorrealização; necessidades afetivas dissonantes, e satisfação de prazeres imediatos ou de longo prazo, com tempos diferentes para cada cônjuge ou membro da família.

Como podemos perceber, são realmente diversos os motivos que podem desencadear conflitos familiares. A Escola Nacional de Mediação e Conciliação (ENAM)105 demonstra que o conflito pode ser representado

105 “A Escola Nacional de Mediação e Conciliação (ENAM) foi criada no âmbito da Secretaria de Reforma do Judiciário, ao final de 2012, por ato do Ministro da Justiça, com a finalidade de oferecer capacitações e cursos presenciais e à distância em técnicas de mediação, conciliação, negociação e outras formas consensuais de solução de conflitos. Por meio dos cursos, a ENAM espera difundir a cultura do diálogo e incentivar os cidadãos a participarem ativamente, quando possível, do debate e da construção de soluções para os problemas cotidianos que enfrentam. Para tanto, a ENAM trabalha em parceria com os principais atores do sistema de justiça: Poder Judiciário, Ministério Público,

por uma escalada, conforme a ilustração:

Figura 1 - A escala do conflito. Fonte: adaptação do modelo de Friedrich Glasi (1999).

Defensoria Pública, Advocacia Pública, Advocacia Privada, Faculdades de Direito etc. participam da formulação dos cursos e dos materiais pedagógicos da escola, de tal forma que o processo judicial seja preterido em favor de uma boa conversa e de um bom acordo”. O material didático do ENAM é produzido em parceria com a Universidade de Brasília (UnB). Referência em: BRASIL. Ministério da Justiça – Secretaria da Reforma do Judiciário. In: BASTOS, Simone de Almeida Ribeiro; CORRÊA, Marcelo Girade. Resolvendo conflitos de

forma construtiva: a contribuição de cada um para uma cultura da paz. Módulo 2

– Analisando e administrando o conflito. Brasília,. Disponível em: <http://moodle.cead.unb.br/enam/course/>. Acesso em: 4 jan. 2017.

Os degraus da escalada do conflito são assim interpretados:  O primeiro estágio é considerado o início do conflito, quando ocorre um desacordo entre as partes em relação a alguma questão; acontece quando se manifestam necessidades e interesses não atendidos, surgindo um problema a ser resolvido. Nesse momento, ainda há comunicação e cooperação e é possível que os impasses sejam resolvidos consensualmente e com maior facilidade.

 O segundo degrau representa que o problema não foi resolvido consensualmente, e as pessoas entram num debate sobre as suas posições, quando uma parte tenta convencer a outra quanto à resolução do problema da forma que acha mais adequada.

 Se uma solução não é encontrada com base num diálogo inicial, as pessoas percebem que o outro lado não quer colaborar e começam a adotar outras atitudes. No caso de uma separação, por exemplo, o casal ou uma das partes pode recorrer a um advogado, pelo fato de não terem chegado a um consenso em relação a algum aspecto. Nesse estágio, os envolvidos podem resolver não mais conversarem entre si, interrompendo a comunicação. Porém, ainda é possível um resultado no qual ambos possam sair satisfeitos, apesar de já ter reduzido muito a cooperação e a comunicação.

 No estágio seguinte, os envolvidos no conflito visam a convencer colegas, amigos, parentes, especialistas ou autoridades quanto à sua versão do conflito para que lhes deem razão na disputa ou para que possam defender a sua imagem, intervindo ao seu favor. Formam-se coalizões, a objetividade vai se perdendo e os conflitantes tratam o conflito cada vez mais como uma coisa pessoal predominando a competição: um quer vencer o outro. A partir desse momento, há grande chance do resultado final se concretizar com uma das partes mais satisfeita e a outra insatisfeita.

 No quinto degrau da escalada do conflito, a disputa se encontra ainda mais acirrada e provavelmente as emoções ficam mais intensas. As pessoas podem querer não somente mostrar que estão certas, mas desejar

No documento Serviço social e mediação familiar (páginas 191-200)