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Por fim, importa destacar que, mesmo esses casos não representando a totalidade dos processos criminalizadores perpetrados, a sistematização auxilia na identificação de uma estratégia de criminalização que parece ser comum a esses empreendimentos: o uso das instituições e poderes constituídos para efetivar suas violências.
Criminalização e racismo institucional:
as CPIs FUNAI e INCRA
Povos indígenas, povos e comunidades tradicionais são historicamente marcados pela exclusão, tendo suas terras e territórios usurpados por grileiros, fazendeiros, empresas transnacionais e pelo próprio Estado.
Desde a constituição de 1988, reconheceu-se formalmente uma série de direitos dos povos indígenas e povos e comunidades tradicionais. Contudo, passados mais de 25 anos, ainda há muito o que se avançar na perspectiva da promoção de uma verdadeira efetivação desses direitos, especialmente no tocante ao acesso à terra e retomada dos territórios por parte dessas populações.
Nesse período de muitos retrocessos político-sociais em nosso país, e de tentativas de retirada dos direitos a duras penas conquistados, os processos de criminalização crescem com intuito de imobilizar e fragilizar ainda mais essas populações. É nesse contexto que se instalou a Comissão Parlamentar de Inquérito − CPI FUNAI-INCRA 2, iniciada no final de 2015 e encabeçada pela Bancada Ruralista do Congresso Nacional.
Em suma, o relatório final da CPI, apresentado, em maio de 2017, pelo deputado Nilson Leitão (PSDB-MT), presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), propõe o indiciamento de pelo menos 67 pessoas, dentre elas: servidoras e servidores públicos,
Manifestação de Mulheres, 08 de março de 2016.
Foto: Marcelo Cruz | Arquivo MAM
o Desembargador e ex-ouvidor Agrário Gercino José da Silva Filho, ex-ouvidor agrário nacional do Incra e ex-presidente da Comissão Nacional de Combate à Violência no Campo, e até o ex-Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.
O relatório da CPI insinua que a FUNAI e o INCRA foram tomados por esquemas de corrupção e ações truculentas, mas omite, por exemplo, o aumento de conflitos no campo nos últimos anos, envolvendo, inclusive assassinatos de lideranças indígenas, quilombolas e sem terra. Já na sua introdução, trata a garantia do direito dos povos e comunidades tradicionais e indígenas como “discurso protetivo de minorias” que
“segrega, mais divide do que protege e nos aproxima do jus sanguinis, que tem feito em pedaços países por todos os recantos do mundo.”50
Para o Ministério Público Federal, a “CPI não quer demarcar as terras indígenas ainda não demarcadas; quer revogar as demarcações reconhecidas recentes; quer que os ruralistas possam explorar as terras indígenas já demarcadas.”51
Mas, para além de todos os absurdos perpetrados, dos interesses em jogo e das evidentes tentativas de criminalizar órgãos essenciais à efetivação dos direitos dos povos indígenas, povos e comunidades tradicionais, é preciso adicionar um elemento central de análise nesta CPI: o racismo.
Já em sua introdução, o relatório cita Gilberto Freyre, em seu livro “Casa Grande e Senzala”, remontando ao famijerado mito da democracia racial:
“Se é certo que “Casa Grande e Senzala” aponta para uma visão romântica pacificadora das relações entre senhores e escravos, é também correto que o extremismo divisório não é nada salutar,
50 Disponível em <http://www.camara.leg.br/internet/comissoes/comissoes-especiais/CPI/RELATÓRIO%20CPI%20FUNAI-INCRA%202.pdf> Acesso em 18/06/2017.
Votação do relatório da CPI da Funai e Incra. Brasilia, DF, 17 de maio de 2017.
Foto: Lula Marques | Agência Pública
bem como desrespeita a brasilidade miscigenada. Respeitadas as diferenças e semelhanças, há de serem sepultados preconceitos derivados de tanta diversidade, vez que a fragmentação social, se por alguns intentada, a todos prejudica.
Nesta Terra Brasilis, construída à sombra da cruz, ao som dos atabaques e no embalo das redes, vale o jus solis. Nascidos aqui, todos são brasileiros – negros, indígenas, brancos, amarelos, mulatos, cafuzos, caboclos, mamelucos – tenham vindo seus pais e avós de onde for.”52
Por trás do discurso de que todos são iguais, que todos são brasileiros mora o preconceito racial que se nega a admitir que indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais, negras e negros deste país possam ter o direito de acesso à terra e território. O mito da democracia racial sempre serviu para escamotear e falsear a realidade de um país que se estruturou em cima do regime de escravidão e extermínio de povos originários.
Segundo Ana Flauzina
“(...) a democracia racial apareceu como uma alternativa de dominação que evitava o confronto direto, mantendo intactas as assimetrias raciais. A partir dessa perspectiva o trato da questão racial se dá pelo avesso, numa dinâmica de silenciamento que impede a enunciação do racismo. Num paradoxo aparentemente insustentável esse sofisticado mecanismo ideológico fez uma realidade-abismo corresponder a um conto idílico, em que negros e brancos vivem em perfeita harmonia. Daí a necessidade do exclusivismo histórico.
Para assegurar uma imagem tão radicalmente diferente da realidade que lhe dá sustentação, é preciso a qualquer preço apagar os vestígios dos processos de subordinação, das forças externas que atuam na perpetuação das desigualdades raciais. O objetivo é, portanto, inviabilizar a construção de uma história que dê conta das defasagens e dos privilégios, convertendo as desigualdades em sina e, finalmente, apropriando-se das vantagens como direitos.”53 Sustentando-se no mito da democracia racial e invertendo a lógica dos privilégios no Brasil, o relatório da CPI tentar dizer, em verdade, que não existem indígenas no Brasil. As pessoas que se dizem ser indígenas estariam mentindo e aquelas que apoiam ou mesmo exercem um serviço público previsto constitucionalmente para defender os direitos desses povos seriam também criminosas. Ou seja, a resistência à demarcação de terras indígenas e titulação de territórios quilombolas no Brasil se sustenta, de fato, numa lógica escravocrata, de extermínio de povos originários e invasão de terras e territórios tradicionais por parte das oligarquias que há séculos exercem o poder no Brasil.
Assim, se por um lado é preciso enxergar a CPI como mais um instrumento de criminalização das lutas por terra e território no Brasil, é preciso que sejamos capazes de enxergar que a ofensiva por parte do Congresso Nacional vem a demonstrar cada
52 Disponível em <http://www.camara.leg.br/internet/comissoes/comissoes-especiais/CPI/RELATÓRIO%20CPI%20FUNAI-INCRA%202.pdf> Acesso em 18/06/2017.
ódio às mulheres, à população LGBT e destila racismo contra os povos indígenas e comunidades tradicionais e quilombolas.
A 5s mulheres defensoras de direitos humanos enfrentam violências específicas em decorrência do gênero, fato que não é muito visibilizado nos debates sobre defensoras e defensores de direitos humanos no Brasil. Abaixo, trazemos dois artigos que trazem o debate da luta das defensoras de direitos humanos enquanto uma tentativa do Comitê, mesmo que preliminar, em aprofundar as discussões neste tema.54
A VIOLÊNCIA DE GÊNERO NAS LUTAS DAS MULHERES
O mês de março reafirma a luta das mulheres por direitos. Apropriado pelo capitalismo e patriarcado como uma data comemorativa, o que se tenta esconder, na verdade, é que o dia 08 de março teve origem a partir da luta das mulheres em todo o mundo, que desencadearam revoluções e processos históricos de grande ruptura com ordens sociais vigentes. É o caso das operárias russas do setor da tecelagem que organizaram uma greve, no dia 8 de março de 1917, e contribuíram para dar início ao processo que resultou na Revolução Russa.
54 Os artigos deste capitulo foram produzidos por Layza Queiroz e Rafaela Lima para a série especial "Delas, com Elas", organizada