unidade curricular do 1º ciclo
resuMo
abstraCt
A comunicação estrutura-se em duas partes. Na primeira parte, apresenta-se uma breve reflexão sobre os significados de virtual e de local. Na segunda parte, analisam-se as interações de um fórum de discussão de 1º ciclo (regime de e-learning, Universidade Aberta) em que estes conceitos emergem. Nas reflexões finais, salienta-se a necessidade de ultrapassar as lógicas da investigação produzida no âmbito de uma racionalidade técnica e de recentrar a investigação sobre Educação Online numa perspetiva hermenêutica e crítica.
Palavras-chave: virtual, local, e-learning, discussão, avaliação, hermenêutica.
The paper is organized in two parts. The part one presents a brief reflection on the mea- nings of virtual and local. The second part analyses the groupal interactions in a discussion forum of a 1st cycle course (e-learning, Universidade Aberta) where those constructs arise. The final remarks point out the need to overcome the framework of a technical rationality and to dis- place the Online Education research to a critical and hermeneutics perspective.
1. Introdução
2. as
MIl
faCes
do
vIrtual
A interculturalidade e o ensino online são dois âmbitos que, irremediavelmente, marcam o discurso pedagógico das primeiras décadas do século XXI. A procura de vias alternativas ao etnocentrismo das colonizações culturais, ao universalismo de valores, ao predomínio da “cultu- ra legítima” sugerem a urgência de aprender a valorizar identidades, a comunicar entre culturas, a reconhecer a diversidade como fundamento da democracia (Mattelart, 2005). Quando estes princípios se associam à explosão das tecnologias digitais e ao seu uso em contextos educati- vos, abre-se espaço para o questionamento de práticas efetivas de diferenciação pedagógica mediadas pelos artefactos digitais.
Se deslocarmos o nosso foco de análise para os desafios que hoje se apresentam ao en- sino superior a distância e eLearning1, somos convocados a ampliar o espetro de reflexão com os significados de virtual, de construção identitária no ciberespaço ou das interações mediadas online. Seguindo esta perspetiva, na presente comunicação, pretendo desenvolver uma breve aproximação às conceções de virtual e de local para, depois, a partir destes constructos, anali- sar uma atividade concreta integrada na avaliação formativa (1º ciclo), a partir das dinâmicas de interação observadas em fórum de discussão online.
Atualmente, associamos o virtual a tudo o que se encontra e experimenta no “ciberespa- ço”. No entanto, o espetro de significados da palavra não se reduz a esta conceção. Se anali- sarmos a raiz etimológica de “virtual”, observamos que esta deriva da palavra latina virtus que significa força, virtude, virilidade. No latim escolástico, o conceito de virtus significava força ou poder e virtualis significava potencial, o que “está no poder da natureza” (Ryan, 2004). Na idade média, o “atual” e o “virtual” constituíam um par dialético e não um par de opostos, pois entendia- -se que o virtual “não é o que não tem existência, mas o que possui potencial, força para se desenvolver até alcançar a existência” (Ryan, 2004:45). Mais tarde, nos séculos XVIII e XIX, a relação dialética entre virtual e real transforma-se numa relação binária, remetendo-se o virtual para o imaginário e fictício. Atualmente, a polissemia do virtual estende-se ao longo de um eixo delimitado por dois opostos: um dos extremos é representado pelo virtual no sentido ótico, com a conotação negativa de duplicado, de espelhismo, associa-se o virtual a falsificação; o outro
1 A distinção que propomos entre Ensino a Distância e eLearning baseia-se na perspetiva de Guri-Rosenblit
polo, influenciado pela perspetiva escolástica, sugere produtividade, abertura, diversidade, ou seja, o virtual é perspetivado enquanto potência (idem). Estes dois polos têm encontrado, na literatura atual, ilustres defensores como Baudrillard (adepto do virtual enquanto falsificação) e Pierre Lévy (do virtual enquanto potência).
Embora este não seja o contexto adequado para uma análise minuciosa das perspetivas de Baudrillard e de Lévy sobre a variação do significado de virtual, a conotação negativa fre- quentemente associada ao conceito merece uma breve reflexão.
Na chamada era da informação, o bem mais procurado não é o objeto manual, mas o conhecimento que, segundo Ryan, é um “recurso eminentemente virtual que não se esgota na sua utilização, pois o seu valor reside no seu potencial em criar riqueza” (Ryan: 2004:59). Esta linha argumentativa poderia conduzir-nos a interessantes interpretações sobre as relações entre o virtual e imagem e o corpo, o cinema, a pintura, a literatura, os artefactos reais inscritos em es- paços e tempos concretos ou os artefactos virtuais criadores de espaços e tempos específicos. Lévy defende que os textos, geradores de palavras potenciais, interpretações e experiências, são sempre objetos virtuais. Atualmente, quando se criam redes de hipertexto pelas quais se pode navegar livremente - consequência da união entre pós-modernidade e tecnologia eletróni- ca, eleva-se à máxima potência a virtualidade do próprio texto: “o pensamento atualiza-se num texto e um texto numa leitura (interpretação)” (Lévy, 1998, cit. Ryan, 2004: 66-67). O virtual, enquanto potência, legitima a interpretação de que os objetos concretos manufaturados am- pliam as nossas potencialidades físicas e psicológicas, contribuindo para a criação de um corpo virtual.
A hibridação a que alguns conceitos foram sujeitos na cultura digital obriga, também, à reflexão sobre o que significa, hoje, o local. Ultrapassada a conceção estática que reduz o con- ceito aos limites geográficos, as trocas simbólicas mediadas pelas tecnologias digitais e pela Internet ampliam a abrangência do local para o recentrar nas questões do quotidiano e nas relações de comunidade e de poder (Fisher, 2002; Costa, 2007). O local passa, então, a ser interpretado como construção social resultante do agrupamento de indivíduos em torno de inte- resses comuns; orienta-se por relações de diálogo, negociação, conflito, sentimentos de fami- liaridade e vizinhança; apresenta marcas de relações identitárias e história, hábitos e discursos comuns (Costa, 2007; Peruzzo & Volpato, 2009). Assim, mais do que salientar o contraste entre global e local (por reenviar para um pensamento dicotómico que não traduz as dinâmicas sociais
o local como espaço transversal orientado para o exercício da cidadania, de comunidade e iden- tidade e, também, enquanto recurso para o desenvolvimento2.
O impacto das relações entre o global e o local no Ensino a Distância e eLearning está longe de ser sustentado por um debate consensual. As perspetivas que vinculam o EaD e eLear- ning ao conceito de um global desterritorializado cristalizam a investigação e a educação numa relação desenraizada dos contextos, das intencionalidades e das culturas dos agentes que as promovem. Casos há em que, paradoxalmente, estas narrativas se associam, simultaneamente, a princípios de colaboração e partilha e a postulados que interpretam o afastamento físico entre o docente e a comunidade como um princípio ético a adotar. Outras perspetivas minoritárias, como a histórico-cultural, constroem-se a partir dos conceitos de desenvolvimento e de cultura e propõem uma relação entre o e-learning e o local como construção social fundada em princípios de comunidade e identidade, sensível aos elementos que caraterizam o pentaedro de Burke: agentes, contextos, cena, intencionalidades, instrumentos mediadores. Destas diferentes for- mas de ver o mundo resultam diferentes instituições. O jogo de forças em presença determinará a evolução destas dinâmicas e as instituições que delas resultam.
Nesta secção, abordarei de modo sucinto o dilema que cria uma proposta de trabalho de terreno, enquadrada na avaliação formativa de uma unidade curricular de 1º ciclo. Opto pela ex- pressão “avaliação formativa” para salientar o valor que a avaliação tem/deve ter no processo de aprendizagem, realçando uma perspetiva de avaliação dinâmica, parte integrante do processo de aprendizagem. Mais do que seriar, a avaliação formativa é proposta como uma outra forma de regular e de promover a aprendizagem.
2 O conceito de glocalização, um neologismo que se resulta da simbiose entre globalização e localização, respon-
de a uma abordagem superficial deste hibridismo.