Capítulo 4 – A visão de um Corredor Verde para Rio Tinto
1.3. A visão dos agentes locais
Através das entrevistas foi possível recolher a opinião dos principais agentes interessados na questão da “problemática rio Tinto”, tentando obter assim qual a sua visão enquanto agentes responsáveis para as margens do rio, além de confrontar os mesmos com as opiniões da população recolhidas no questionário (Tabela 10 e 11).
Tabela 10 - Dados relativos ao agente entrevistado (função e entidade) Código do
entrevistado Entrevistado
Função que
desempenha Entidade/organização
E1 Paulo Silva Membro do
“Movimento Rio Tinto” Movimento Rio Tinto
E2 Nuno Fonseca Presidente da Junta de
Freguesia de Rio Tinto
Junta de Freguesia de Rio Tinto E3 Marco Martins Presidente da Câmara Municipal de Gondomar Câmara Municipal de Gondomar
E4 José Fernando Moreira
Vereador do Ambiente da Câmara Municipal de Gondomar Câmara Municipal de Gondomar E5 Diana Nicolau Técnica do departamento de comunicação, educação e relações institucionais LIPOR
Tabela 11 - Temática da questão aplicada ao/aos agente(s) Entrevistado / Temática E1 E2 E3 E4 E5 Pretensões e preocupações do organismo/instituição X X X Preocupação em relação à quantidade de espaço verde público X X X X Questão identitária entre o rio Tinto e os
riotintenses
Análise à questão sobre a satisfação com o espaço verde público
da cidade
X X X X
Análise à questão sobre as funções no espaço
num cenário de requalificação
X X X X
Análise à questão sobre o equipamento a dotar no espaço, num cenário
de requalificação
X X X X
A sua visão estratégica X X X X X
Temática “Pretensões e preocupações do organismo/instituição”
A matéria relacionada com o espaço verde público da cidade de Rio Tinto e com o rio que lhe dá nome já é algo que tem sido alvo de profunda preocupação, quer pelo organismo que tem a tutela de o planear e conceber, neste caso e por hierarquia de governança local, a Câmara Municipal de Gondomar, quer por agentes privados com interesses ambientais como o caso da LIPOR, quer ainda pelos cidadãos locais, aqui representados pelo Movimento Rio Tinto.
Começando por este último, o E1 esclarece que o movimento tem o objetivo de promover
iniciativas de recuperação do rio, quer em termos ambientais, margens e de património, de modo a tornar o rio Tinto um elemento polarizador da cidade, facto ao qual não se alheia o E5,
dado que a mesma esclarece que a biodiversidade é uma preocupação inerente à LIPOR, e que em termos do rio e das suas margens têm sido parceiros com a APA, Águas do Porto, Águas de
Gondomar e Universidade Fernando Pessoa, no desenvolvimento de uma investigação, o “Projeto Rio Tinto”, que numa primeira fase visa monitorizar a qualidade da água e sedimentos, tendo também reuniões periódicas com os municípios e freguesias por onde o rio passa, de modo a que hajam acções de melhoramento do próprio rio, frisando também que se
pretende fazer o que é possível dentro dos 150m que ladeiam o rio das suas instalações. Já no que diz respeito ao E3, o espaço verde público no seu todo é uma das prioridades, com interesse
também na requalificação do espaço verde já existente que assim necessitar.
A preocupação com a existência de espaço verde público, assim como com a qualidade do mesmo num contexto de uma cidade fortemente urbanizada como é o caso de Rio Tinto, ganha uma importância fulcral, sendo uma preocupação transversal aos diversos agentes de governança local, sendo também um dos motes das reivindicações do Movimento Rio Tinto.
Enquanto vereador do ambiente do município onde se insere Rio Tinto, o E4 revelou que
os espaços verdes não acompanharam o fenómeno da urbanização (apontando erros à anterior
gestão autárquica), salientando que tem que haver reabilitação do espaço verde público e a
criação de condições para que a população possa usufruir deles. A mesma visão de
insuficiência tendo em conta a cidade de Rio Tinto foi constatada pelo E3, frisando que a oferta
de espaço verde público em Rio Tinto tem de ser aumentada, sendo essa a visão do E2, que
assume também a importância de diversificar o espaço verde público tendo em conta a
realidade da cidade de Rio Tinto. Já o E1 possui uma visão muito mais crítica pois para ele, o espaço verde público não existe, nem vale a pena especular sobre isso, apresentando como
solução elaborar um parque no centro cívico de Rio Tinto e conetá-lo ao Parque Oriental e à
nascente do rio e não dotar essa zona de mais construção. O E1 neste contexto olha para as
margens do rio Tinto com a visão de que é necessário recuperar e permitir que em áreas muito
significativas sejam usadas por parte da população, o que no entanto, só pode ser possível com uma melhor qualidade do rio.
Temática “Questão identitária entre o rio Tinto e os riotintenses”
Uma cidade com nome do seu rio, traduz a questão da identidade inerente ao rio e a história que o mesmo tem nesta freguesia. Além disso, os símbolos da freguesia como a bandeira e o logotipo da junta de freguesia possuem como elemento importante, o rio. Tratando- se de um elemento que a governança local tenta ao máximo defender, foi questionado ao E2 até que ponto a questão da identidade da população local com o seu rio seria algo a defender. Nesse sentido, o mesmo assume como fundamental, e não só por uma questão de identidade, mas
também por uma questão de mais valia(…) O curso de água está virado para a cidade logo tem de haver uma sinergia entre a cidade e o rio.
Temática “Análise à questão sobre grau de satisfação com o espaço verde público da cidade”
Pretendeu-se com esta questão, confrontar os agentes de governança local e o Movimento Rio Tinto com os resultados obtidos à questão “Satisfação em relação à quantidade de espaços verdes p blicos em Rio Tinto”, relativo ao inquérito efetuado à população no âmbito deste estudo (Figura 26), tentando aqui validar ou não a visão negativa que a população assinalou.
Assim, E4 assume que concorda, e se me fizesse essa questão eu concordava, assumindo que essa insatisfação se deve a 20 anos em que não houve qualquer preocupação com o espaço
verde no município. Houve um completo desleixo da autarquia em Rio Tinto. Esta opinião é
partilhada pelo E2, que refere que durante os longos anos que antecederam os elementos de governança atual, as políticas urbanas que não se preocuparam com a criação destes espaços, indicando também que a insatisfação se deve à má qualidade do que existe e à falta de espaços
verdes, algo que o E4 assume também, pois segundo o mesmo em Rio Tinto só existe a Quinta das Freiras e está em más condições. O E3, antigo presidente da junta local, além de partilhar a
opinião dos restantes, indica que esta insatisfação deve-se à falta de estratégia de planeamento,
ausência de regras de construção e respectiva qualidade de espaço público. O E1 reflete
também um pouco do sentimento aferido nesta questão, pois a cidade tem 60.000 pessoas e
essas não têm um parque verde, acabando as pessoas por fluir para outras zonas do Porto e não potenciam a cidade, fazendo dela um dormitório (… ) a cidade exige mais que aquilo que há. O E4 assume no entanto que a missão é requalificar esses espaços e facultar mais espaços à população, num conceito familiar, para que a população possa usufruir das mesmas.
Temática “Análise à questão sobre as funções no espaço num cenário de requalificação”
No mesmo sentido da temática anterior, visa-se aqui tentar obter a opinião dos anteriores intervenientes sobre a visão da população daquilo que seriam os usos ideais para as margens do rio Tinto num cenário de requalificação (Figura 28).
No que diz respeito ao E2, o mesmo não concorda totalmente com os resultados pois um
espaço público relvado já existe, no entanto uma grande parte da freguesia está longe dele,
assumindo no entanto serem necessários mais espaços idênticos àqueles existentes na Quinta
das Freiras. Já o E1 concorda perfeitamente com a opinião, indicando que no centro de Rio Tinto não faz sentido haver um espaço agrícola, mas sim um espaço de lazer, no entanto fora do centro poderiam existir pequenas hortas comunitárias por exemplo. Relativamente à
autarquia local, o E3 subscreve as funções que a população vislumbra para as margens do rio Tinto, assumindo que está projetado por parte da Câmara Municipal um plano pedonal entre o
Metro da Levada e a zona do Meiral e a possibilidade de um parque para o centro cívico de Rio Tinto. Da mesma maneira o E4 subscreve a opinião da população, assumindo que Rio Tinto tem a especificidade de nesse espaço já existir árvores, existir um rio, o parque da Quinta das Freiras, ou seja, é exequível tentar criar um parque urbano através do que já existe.
Temática “Análise à questão sobre os equipamentos a dotar, num cenário de requalificação”
No mesmo sentido das duas questões anteriores, os mesmos intervenientes foram confrontados com a opinião da população relativo àquilo que seriam os equipamentos ideais a dotar, num cenário de requalificação das margens do rio Tinto (Figura 29).
Por parte do E3, o mesmo corrobora a opinião dos inquiridos, assumindo que a visão
corresponde ao que é a vertente desportiva e lazer que está no projeto da Câmara Municipal de Gondomar para o seu município, sendo que o E4 acrescenta a este ponto a necessidade de se diversificar o espaço e equipamentos, para que toda a população possa usufruir. Quem
corrobora completamente com esta visão da população é o E2, pois o próprio indica que a
avaliação é pertinente, que a Junta de Freguesia tem um levantamento de necessidades deste tipo para a freguesia, estando em processo de implementação destes equipamentos noutras zonas da freguesia. Por seu turno, o E1 afirma que a opinião vai ao encontro das expetativas que já tinha (…) a população não tem uma visão de picnics e churrascos para este tipo de espaços.
Temática “A visão estratégica”
Terminando o ciclo de entrevistas, foi solicitado que dessem a sua visão estratégica para o que pretendem para as margens do rio Tinto, fazendo assim, cada um dos entrevistados, um sumário daquilo que é a sua visão para a área em estudo.
Assim, o E1 declara que a estratégia ideal seria a recuperação troço a troço e ir
disponibilizando à população, de modo a que sentissem que o espaço pode ser usado e que elas próprias ajudassem a preservar, de modo a serem aproveitadas, sem nunca se artificializar demasiado as margens do rio, frisando no entanto que isto apenas será possível se houver previamente a recuperação da qualidade da água do rio Tinto. Mais pragmático, o E2 assume
que a visão é aproximar o rio da cidade e fazer com que as pessoas possam interagir com o rio.
Margens que afastam o rio das pessoas são contraproducentes com esta ordem.
O E3 tem como pretensão devolver à população as margens do rio, como era no
passado, para que possam ser percorridas em todo os seu leio, tentando ligar o POLIS da Ribeira de Abade até ao Parque Aventura em Ermesinde, olhando para os fundos do Portugal 2020 como hipótese de financiamento para esta estratégia, existindo já contactos por exemplo com a Câmara Municipal do Porto. Esta visão de aproveitamento de candidaturas a fundos foi
apontada pelo E4, indicando a hipótese de aproveitar e estar atentos ao POSEUR (através de 3
os restantes eixos o aproveitamento de fundos para recuperar e requalificar as margens do rio,
assumindo a existência de um problema relacionado com a problemática da Etar do Meiral. Por fim, tentar aproveitar o envolvimento do setor privado nesta questão do rio Tinto
(apontando como exemplo a LIPOR).
Por fim, a E5 assume que a visão passa aproximar Rio Tinto cada vez mais do paradigma da cidade sustentável, através de um curso de água e de margens despoluídas, pois falar de um
curso de água é falar de um agente com diversas funções, desde a promoção da biodiversidade, lazer, entre outras, ou seja, sem dúvida nenhuma, que águas com boa qualidade são também sinonimo de cidades inteligentes, salientando que o projeto do qual a LIPOR é promotora só terá fim quando a água do rio estiver com uma qualidade boa, para que haja a preservação do ecossistema e os valores ambientais estejam assegurados, no entanto, cada entidade terá que assegurar a sua parte, sendo que até ao momento os parceiros estão motivados e empenhados a dar uma nova vida ao Rio Tinto.