Se o conjunto e o número de concepções teóricas sobre a administração indicavam uma certa maturidade desse campo do conhecimento científico, ao final do século XX, alguns paradoxos permaneciam sem bases conceituais disponíveis. O reconhecimento da capacidade competitiva de agrupamentos empresariais, particularmente quando esses agrupamentos baseiam-se na
Clusters e redes de negócios: realidade ou ficção?
anos 1990, ofereceu um novo domínio de interesse, de pesquisa e de inquieta-ção, não apenas científica, mas principalmente econômica, política e social.
Todavia, não deixa de ser surpreendente que um conjunto de empresas pudesse ser bem-sucedido sem possuir executivos, estrategistas, acionistas ou controladores ou, ao menos, um organograma... Ou seja, o paradigma ainda, de certa forma, vigente, a visão de mundo da administração não for-nece facilidades no acesso ao conceito; entretanto, já não é possível relevar as ideias de clusters e de redes de negócios: as evidências de sua existência e as manifestações de sua capacidade competitiva não podem ser contes-tadas ou desconsideradas. A não ser que se admita que as evidências não passam de completa ficção.
Não restavam dúvidas que esses sistemas supraempresariais têm uma ca-pacidade de competir maior do que as empresas congêneres isoladas. Em outros termos, as empresas componentes desses agrupamentos de negó-cios desfrutam de vantagens competitivas sobre empresas concorrentes iso-ladas, sendo que a fonte para essas potenciais vantagens não foi construída conscientemente por nenhum empreendedor ou estrategista. Clusters de Negócios e Redes de Negócios não são “invenções recentes”. Eles existem desde a Idade Média, pelo menos. O que foi percebido é que, sob certas con-dições, as empresas formavam um determinado tipo de sistema dotado de uma capacidade superior para competir e para crescer, quando comparado às empresas da mesma indústria fora desse tipo de sistema.
Governos, autoridades, investidores, políticos e pesquisadores interessa-ram-se natural e rapidamente por essa nova forma de compreensão sobre articulações entre organizações, ainda pouco ou insuficientemente explica-das até então. A despeito de não serem construções modernas, o reconhe-cimento e a possibilidade de compreensão de Clusters e Redes de Negócios estimulava e sustenta a expectativa de que estes tipos de sistema pudessem oferecer a chave para o desenvolvimento de economias ou, ao menos, alter-nativas mais eficazes para o enfrentamento de questões dessa natureza.
As redes de negócios, assim como os clusters de negócios, constituem-se em arranjos compostos por diferentes negócios que mantêm vínculos e relacionamento em alguma medida entre si. Enquanto o elemento-chave
Clusters e Redes de Negócios
de negócio apresentaram importante vantagem sobre os clusters: a sua exis-tência era reconhecida. Faltava a consciência da capacidade competitiva da rede de negócios possuir a condição de ser superior efetivamente à compo-sição da capacidade competitiva de empresas isoladas, assim como quanto mais evoluída for uma rede de negócios, maior será seu poder competitivo.
Desta forma, as redes de negócios não tiveram de ser “descobertas” e “bati-zadas”, como foram os clusters. As redes de negócios, não se constituindo num agrupamento de empresas em um dado local, não é confundida com a localização, facilitando a visualização de conjunto e das organizações, que a compõem, entretanto, por outro lado, torna-se mais difícil a percepção do efeito decorrente do arranjo integrado das empresas sobre a capacidade competitiva do conjunto.
Da mesma forma que os clusters, as redes de negócios existem há muito tempo. Elas estão presentes na história das nações. Na história do Brasil, um exemplo particularmente importante, datado do século XVI, é a rede formada pela Companhia das Índias Ocidentais que, entre outras coisas, trouxe o culti-vo e o processamento da cana-de-açúcar para o Brasil, articulada aos agentes responsáveis pela distribuição da produção na Europa. Quando os holandeses foram expulsos do Brasil, a Companhia das Índias Ocidentais deslocou delibe-radamente a componente agrícola de sua rede para as Antilhas.
É inviável a fixação ao certo de datas ou momentos para a “descoberta”
da capacidade competitiva das redes de negócios como entidades supraem-presariais. Quando surgem artigos argumentando que “[...] não é a empresa Toyota que está vencendo a empresa General Motors, é a rede de negócios da Toyota que está vencendo a rede da GM”, não existe dúvida: a capacidade competitiva das redes de negócios já é tacitamente reconhecida.
É importante notar que a resistência psicológica ao reconhecimento da existência de redes de negócios como um sistema é, aparentemente, ainda maior do que a resistência mencionada no caso dos clusters de negócios.
Cada empresário quer e procura acreditar que sua empresa “[...] é dele e nin-guém é capaz de qualquer interferência nas suas decisões; por isso, sua em-presa não é parte de um sistema de nível superior ao nível da emem-presa dele”.
Aceitando este argumento, seria natural não mais acreditar em clusters e redes de negócios. Insistir em acreditar nesses conceitos corresponde a
Clusters e redes de negócios: realidade ou ficção?
equivalente a dizer que uma pessoa convive intensamente com um grupo de amigos e não está consciente que faz parte do grupo. Porém, apenas admitir a existência, a presença ou a participação em clusters ou redes de negócios não resolve ou contribui para a eliminação da perplexidade potencial dos componentes desses sistemas. Portanto, há que se encontrar razões e justifi-cativas conceituais e empiricamente defensáveis da capacidade competitiva desses tipos de arranjo de empresas.