No ensaio Sobre a visão de espíritos Schopenhauer pretende, em primeiro lugar, retomar uma discussão que, segundo ele, já é de certa forma retomada na Alemanha de seu tempo, a despeito da sua recusa pelo presunçoso século XVIII, a saber, sobre a existência de espíritos. Segundo o filósofo, os argumentos contra a existência de espíritos são em grande parte inseguros – por apelarem a uma metafísica ingênua –, e em parte estritamente empíricos – tornando-os igualmente inócuos. A rigor, o que as provas empíricas contra esse tipo de existência podem nos oferecer é a negação da existência de corpos espirituais, o que não parece ser o caso. Para Schopenhauer, o fato de haver em nosso intelecto a presença de imagens tais como nos provocam os corpos pela mediação da luz nos olhos, ou os sons nos ouvidos, através da vibração sonora dos corpos, por exemplo, não garante por si a existência de tais corpos. Por isso é possível, sim, que haja um tipo de experiência puramente intelectual que, justamente por isto, não é sensorial, e parece ser o caso aqui para tratar dos fenômenos espirituais; a saber, uma possibilidade garantida pela intelectualidade da intuição.51
Em uma instância preliminar já identificamos em Schopenhauer duas noções de intuição distintas: em primeiro lugar a intuição empírica, alvo do livro I de O mundo como vontade e como representação, que é a intuição do mundo enquanto efetividade, representação submetida ao princípio de razão; é a partir dessa intuição que explicamos o mundo, fundamento para toda a ciência que, todavia, oferece apenas uma explicação parcial da realidade. Já no livro III, o autor desenvolve a noção de intuição pura, que por este motivo é livre
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É preciso remeter ao primeiro capítulo do livro de Jair Barboza Infinitude
subjetiva e estética intitulado “Intuição intelectual e absoluto”, onde é feita
uma interessante abordagem desse conceito por Jair Barboza a partir da sua formulação no idealismo alemão de Fichte e Schelling, como o “ponto firme” da filosofia.
do Princípio de Razão, das formas fenomênicas da realidade: é a intuição do mundo em si mesmo, uma intuição especial, geral, de arquétipos da efetividade, daquilo que serve como modelo da realidade, cuja multiplicidade é sua manifestação; é a intuição de Ideias. Ocorre que para sermos precisos, precisamos agora enfatizar que independente de ser empírica ou pura, toda intuição é intelectual.
Para Schopenhauer, espaço, tempo e causalidade, as formas que integram o Princípio de Razão, são formas do intelecto e não existem fora dele, e por isso toda intuição do mundo somente pode ser dada no intelecto. Este é o grande ensinamento de Kant, ter alertado da impossibilidade de se deduzir a partir de uma categoria do próprio intelecto, a causalidade, aquilo que está fora dele, a coisa em si; aliás, estar fora de já é de antemão uma determinação intelectual espacial52.
Além disso, há uma diferença marcante entre a escassez do que nos fornecem as impressões dos sentidos frente ao conhecimento intuitivo, onde se aplicam as formas puras do entendimento, e mais ainda frente ao conhecimento abstrato, quando do uso destas intuições para a formulação dos conceitos, os quais, aliás, sobretudo nos complementos, caracterizam esta intuição intelectual como numa intuição cerebral:
Quão diminuta é a participação dos sentidos na intuição, se comparada com a do intelecto, atesta- o também a comparação entre o aparato nervoso para o recebimento das impressões e aquele para elaboração delas; na medida em que a massa dos nervos sensoriais, de todos os órgãos dos sentidos, é bem reduzida se comparada com a do cérebro, inclusive nos animais, cujo cérebro não pensa propriamente dizendo, isto é, de maneira abstrata, e serve apenas para a produção de intuição e entretanto lá onde está é perfeita, portanto nos mamíferos, tem uma massa SIGNIFICATIVA; inclusive após desconto do cerebelo, cuja função é conduzir de maneira regulada os movimentos (SCHOPENHAUER: 1942, Bd. 2, p. 24).
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Remeto-me às sessões 2, 3 e 4 de O mundo como vontade e como
representação, assim como ao segundo complemento, cujo título é Doutrina do conhecimento intuitivo ou conhecimento-do-entendimento, onde o tema é
A visão é, para Schopenhauer, o sentido intuitivo por excelência. Isto se explica, diz o autor, porque nesse caso não temos a consciência da atividade do entendimento de se dirigir do efeito para a causa, que é a aplicação da lei de causalidade que conhecemos a priori na intuição dos objetos. Por isso, com a visão percebemos com total imediatidade todas as coisas, como se fossem as coisas mesmas exteriores a nós que conhecêssemos, o que de fato não ocorre. Fora de nós já é uma determinação espacial da intuição que é cerebral, portanto, já é paradoxalmente interior a ele:
Ademais, na percepção empírica, a ausência de consciência com que se dá a passagem da sensação para a causa desta tem lugar propriamente dizendo apenas na intuição em sentido estrito, ou seja, na VISÃO (SCHOPENHAUER, 1942, Bd. 2, p. 27).
A visão é o sentido da intuição stricto sensu na medida em que nela a causa da percepção e a própria intuição se confundem, e por isso é como se a sensação mesma fornecesse imediatamente os objetos do entendimento. Além disso, em sentido estrito também toda intuição é espacial (SCHOPENHAUER, 1942, Bd. 2, p. 219), o que explica a primazia da visão na intuição dos objetos. É somente em sentido amplo, todavia, que a intuição pode ser livre, como vimos no caso da contemplação estética, que apesar de ser livre do aparato cognitivo empírico, ainda assim é cerebral, onde as imagens eternas, as Ideias, são apreendidas para que possa haver o conhecimento puro. Schopenhauer complementa:
Nisso baseia-se a grande diversidade na capacidade para a fruição da bela natureza e, conseguintemente, também para a reprodução da mesma, isto é, para a prodição do mesmo fenômeno cerebral mediante uma outra causa completamente diferente, a saber, manchas de cor numa tela (SCHOPENHAUER: 1942, Bd. 2, p. 27).
Desse modo, o caminho pelo qual segue o autor para explicar a visão de espíritos é este: falar de espírito é mais uma forma de falar das imagens que são provocadas no interior de nossa consciência, ou de nosso cérebro, sem que necessariamente haja um estímulo externo para
isso, neste caso o estímulo é puramente intelectual:
Em primeiro lugar, assim, a questão é se em nosso intelecto intuitivo, ou cérebro, podem realmente surgir imagens intuitivas perfeita e indiscernivelmente iguais às que provocam nele a presença dos corpos atuando sobre nossos sentidos, porém sem este influxo. Felizmente um fenômeno muito familiar nos tira as dúvidas a esse respeito: o sonho (SCHOPENHAUER: 1942, Bd. 4, p. 253).