usados em cada etapa para cumprir uma função. A função, por sua vez, deve ser definida de maneira a mostrar como aquela etapa contribui para atingir o propósito geral do gênero.
Nesta visão de linguagem, o gênero ocorre em um contexto cultural, que confere um propósito e um significado ao que se fala à outra pessoa. No presente trabalho, levamos em conta que o contexto cultural são todos os aspectos que circundam os enunciados e que dão significado a eles. Isto é, entendemos que quem escreve um artigo acadêmico tem determinadas intenções que devem ser compreendidas pelos seus leitores, que artigos são escritos em situações específicas, isto é, são produzidos por acadêmicos, que estão ligados a grupos de pesquisa que competem entre si mas que também se alimentam uns dos outros e que cada revista tem a sua característica, o seu foco e o seu público específicos. Além disso, entendemos que cada enunciado ocorre também em um contexto textual e se relaciona com ele.
Ainda na visão sistêmico- funcional, vale lembrar que o contexto da situação é definido pelas variáveis de registro, isto é, o que se fala, a relação entre os participantes da interação e o papel da linguagem naquele contexto. O registro é definido por três níveis de produção de significado no texto: o ideacional (field), o interpessoal (tenor), e o textual (mode). O nível ideacional define o conteúdo propriamente dito do texto - trata-se daquilo sobre o que se fala ou escreve; o nível interpessoal define como o conteúdo é apresentado dependendo da relação de poder, do contato e do envolvimento afetivo dos participantes da interação; já o nível textual define como as idéias estão relacionadas para compor o texto como um todo (Thompson, 1996).
Com estes conceitos em mente, Halliday (1988:162), define o inglês científico conforme apresentamos a seguir, com as definições menos relevantes para o artigo acadêmico da área de biomédicas entre colchetes, segundo o trabalho de Gosden (1996):
FIELD: ‘extending, transmitting of exploring knowledge in the physical, biological [or social]
sciences’; TENOR: ‘adressed to specialists, to learners [or to laymen], fro m within the same group (e. g. specialist to specialist) [or across groups (e. g. lecturer to students)’]; MODE: ‘[phonic or]
graphic channel, most congruent (e. g. formal “written language”with graphic channel) [or less so (e.g. formal with phonic channel)] and with variation in rhetorical function – expository, [hortatory], polemic, [imaginative] and so on’. Gosden (1996: 54)
Baseamo-nos nestes três níveis de produção de sentidos para decidir que aspectos típicos da linguagem de artigos acadêmicos deveríamos apresentar aos alunos, ou levá- los a investigar.
Para ajudar os alunos a desenvolver a habilidade de produzir artigos acadêmicos em inglês, levamo- los a observar estes três níveis de significado: seja produzindo ou analisando um texto, os alunos deveriam perceber o que está sendo dito, como o autor se relaciona com o seu público e quais são as relações de sentido entre as diferentes partes do texto.
Uma das principais caraterísticas do gênero é que ele tem uma forma relativamente regular, seja em termos de objetivo (contexto cultural), estrutura textual (passos e movimentos do texto) e realização desta estrutura em termos ideacionais, interpessoais e textuais. Ao escrever o texto de um determinado gênero, o autor tenta produzir textos semelhantes a outros do mesmo gênero, que já conhece. Segundo Hoey (2001),
The writer knows that readers will expect certain things on the basis of previous texts of the same kind that they have read and so takes the trouble to conform to those expectations (Hoey, 200 1:43)
Esta relação entre diferentes textos de deteminado gênero é denominada intertextualidade.
Aparentemente, o conceito de intertextualidade foi definido por Julia Kristeva (ver Moi, 1986) e tem sido usado para designar uma ampla gama de relações que podem existir entre discursos.
Neste trabalho, entendemos a intertextualidade como as semelhanças entre diferentes textos do gênero artigo acadêmico da área de biomédicas que os alunos devem observar para produzir seus próprios textos.
Ainda conforme Hoey (2001), é somente nos gêneros literários que a intertextualidade é usada criativamente. Em textos acadêmicos, ao contrário, ela é usada para dar ao autor e ao leitor de um texto os parâmetros sobre como produzi- lo de modo a evitar quebras de expectativa e como lê- lo para compreendê- lo com mais facilidade. Sendo assim, é de se esperar que autores de textos acadêmicos escrevam textos muito semelhantes entre si exatamente para facilitar a difusão das idéias que estão inseridas em seus textos.
Uma implicação, portanto, de se trabalhar com uma visão funcional da linguagem, que inclui os conceitos de gênero e de intertextualidade, é a necessidade de se trabalhar com textos autênticos. Quando se estuda a linguagem em seu contexto social, exercendo múltiplas funções
ideacionais, interpessoais e textuais simultaneamente, só faz sentido trabalhar com textos autênticos e não com prescrição. Quando se vai ajudar um aluno a compreender como está estruturado o gênero artigo acadêmico e como os enunciados são realizados em seu contexto, não faz sentido se trabalhar com prescrição de como se deve escrever. O importante é fazer com que o aluno perceba como, de fato, os textos são estruturados e como os seus enunciados são realizados em contextos específicos. Se não trabalharmos com material autêntico, os alunos sempre estarão imitando modelos que não correspondem exatamente à realidade do contexto social em que pretendem produzir seus artigos e certamente teriam mais dificuldade de produzir o texto de fato aceito naquele meio específico.
No presente trabalho, seguimos uma visão de linguagem primordialmente funcional, no sentido que sempre buscamos compreender, descrever e estudar as diferentes partes de um artigo acadêmico em termos da sua função no texto e no contexto da escrita acadêmica. Estávamos interessados em fazer os alunos perceberem a função de cada uma das partes do artigo acadêmico e em como elas poderiam ser realizadas em uma língua estrangeira, isto é, o inglês, com base na observação de textos do gênero que deveriam produzir.
Como afirma o próprio Halliday (1993), para se produzir textos científicos, “the difficulty lies more with the grammar than with the vocabulary” (Halliday, 1993, pp. 71). Portanto, o enfoque do curso é principalmente sobre a gramática do artigo acadêmico. Consideramos que a terminologia específica de cada área de pesquisa já seria conhecida pelos participantes do curso.
Para observar a realização do artigo acadêmico enquanto gênero, baseamo- nos principalmente nos trabalhos de Swales (1990) e de outros pesquisadores que descrevem o gênero artigo acadêmico em termos das funções sociais de cada uma de suas partes.
Segundo Swales (1990), que também observa as funções de cada etapa em um gênero textual, artigos acadêmicos seguem a ordem Introdução-Método-Resultado-Discussão (IMRD), principalmente nas áreas de ciências exatas, incluindo-se aí as biológicas e médicas.
Outros autores também desenvolveram pesquisas na área de descrição de artigos acadêmicos. Nwogu (1997) estudou meticulosamente um corpus de artigos acadêmicos da área de medicina e confirmou a existência da macro-estrutura IMRD nesta área. Além disso, descreveu detalhadamente a forma de diferentes etapas em cada uma destas partes (Introdução,
Salager-Meyer (1992) também confirmou a estrutura IMRD em abstracts da área de medicina. Como o abstract é um resumo do artigo, consideramos este resultado relevante para o conhecimento do artigo acadêmico da área de biomédicas: se os abstracts tendem a ter esta estrutura, consideramos que provavelmente os artigos também a têm.
Posteguillo (1999) e Brett (1994) fizeram estudos comparativos entre artigos da informática e das ciências sociais, respectivamente, e artigos da área de biomédicas. Constataram que tanto na informática quanto nas ciências sociais a estrutura dos artigos tende a apresentar uma certa variação, mas que nas biomédicas a estrutura IMRD tende a ser seguida.
Além de termos nos fundamentado na literatura a respeito de artigos acadêmicos em inglês, também observamos textos autênticos na área e confirmamos que a estrutura IMRD é seguida com rigor nos artigos desta área. Sendo assim, concluímos que seria eficaz construir o curso baseado nesta estrutura. Apresentamos aos alunos cada uma destas partes e os movimentos (etapas) esperados nelas para, a partir daí, mostrar como realizar cada movimento em termos ideacionais, interpessoais e textuais, sempre levando o aluno a observar fragmentos de artigos acadêmicos autênticos ou artigos na íntegra.
3. A abordagem instrumental de ensino de línguas que fundamenta o curso Publish