António Ramos dos Santos*
Escrever sobre Johan Galtung e a sua obra é uma tarefa árdua porquanto a magnitude de conceitos e o modo como eles se interligam e interagem é bastante complexa. O pensamento Galtunguiano é prolíxo e encontra-se em constante evolu ção pois o desejo de procura de respostas quanto às interrogações que atormentavam o autor é insaciável. Compreender as suas ideias implica estar-se munido de um amplo campo conceptual e de um conhecimento temático ainda mais vasto. Explicar o ideário de Galtung é, à partida, para um leigo uma tarefa destinada ao fracasso. Todavia, tentaremos senão passar a mensagem de Galtung a terceiros, pelos menos explicarmos a nós próprios a sua riqueza e complexidade.
O corpo teórico
O sistema internacional Vestefaliano representa o compromisso entre posições diversas como as do realismo e do idealismo e é o indicador do quadro da paz nega - tiva e positiva de Galtung que é a conceptualização da paz mais amplamente utilizada (Richmond, 2008:11). Qualquer paz necessita ser uma paz trabalhada e não uma paz protegida, o que significa que a paz deve ser auto-sustentada e possuir ainda uma natureza universal.
A partir dos sectores da investigação para a paz e dos estudos de conflito influenciados pelo estruturalismo, Galtung proveu os pensadores liberais com uma afirmação explícita acerca da paz negativa e positiva. Tal foi adoptado pelos pensa - dores liberais para representar as divididas versões entre realistas e liberais. De facto, o argumento de Galtung de que uma paz positiva existia quando a violência estru - tural era removida foi desenvolvida para legitimar as abordagens liberais da paz (Richmond, 2008:35). Galtung, tal como Wallestein, adoptou alguns aspectos da teoria da dependência para desenvolver uma linha Marxista da economia política inter nacional e a marginalização de certas regiões e populações. O pensamento depen dentista sublinhava como a distribuição desigual de recursos e a modernização favoreciam as élites económicas, ou em termos internacionais, como o controlo impe rial e colonial das colónias talvez tivesse determinado a nível político que a estrutura da economia internacional significava que existia uma relação con tínua de dependência entre os mundos desenvolvido e em vias de desenvolvi mento (Richmond, 2008:64). Quando e onde os Estados e os grupos scociais tentavam
resistir às inequidades e injustiças presentes no mundo económico eram, por vezes, estes eram sancionados ao estabelecerem sistemas alternativos. O que levanta o problema de como Estados, instituições e organizações respondiam ao que Galtung — que na década de 60 do século XX desenvolvia um quadro estruturalista de compreensão e resposta às causas do conflito — definiria como «violência estru tu - ral». O autor tinha presente um conjunto de políticas conducentes à paz para o século XXI cuja explicação desenvolveu ao longo da sua obra (Galtung, 1998: 3-8).
A Paz
Galtung distinguia entre a paz positiva e a paz negativa, devendo a última ser construída pela ONU, actores políticos e sociais assim como agências económicas (Richmond, 2008:34). O seu conceito de estudos da paz era holístico e explicita - mente normativo. O trabalho do autor pode ser visto como uma ampla tentativa de fusão dos métodos das ciências sociais numa ética emancipadora da ordem mundial (Griffiths, 2006:129). Galtung concebia a auto-realização humana em termos de satisfacção das necessidades humanas fundamentais, que podiam ser psicológicas, ecológicas, económicas e mesmo espirituais; preocupando-se também com os efeitos da violência estrutural nas suas vítimas (Griffiths, 2006:129).
Para Galtung os estudos para a paz assemelham-se aos estudos de saúde onde se pode aplicar o triângulo diognosis-prognosis-terapia. Existe a ideia comum de siste - ma de Estados saudáveis e Estados doentes. Os pares de palavras como “paz/violência” nos estudos para a paz são especificações de etiquetas mais gerais (Galtung, 1998:1). Criar a paz tem a ver com a redução da violência, isto é, a cura, e evitar a violência, ou seja, a prevenção. A cura e a prevenção eram as terapias indicadas para se almejar, respectivamente, a paz negativa e a paz positiva (Galtung,1998: 2).
A paz tem várias definições é considerada a ausência/reducção de qualquer tipo de violência ou é uma transformação criativa e não-violenta do conflito, sejam eles micro, meso, macro ou mega conflitos (Galtung, 2004: 6-145). A primeira destas definições é orientada pela violência, a paz é a sua negação. Para sabermos sobre a paz temos de saber acerca da violência. A segunda definição é orientada pelo confli - to. Neste caso para sabermos da paz temos de saber dos conflitos e como estes podem ser transformados, simultaneamente, de forma não violenta e criativa. Se o oposto da violência é a paz, a matéria dos estudos para a paz como oposto da vio lência cultural deveria ser uma paz cultural, isto é uma cultura que servisse para justificar e legitimizar a paz directa e a paz estrutural (Galtung, 1990: 291).
A investigação para a paz deve-se relacionar, primeiramente, com a identificação da dissonância entre o valor da paz e a acção social como base para criar outras alternativas que possam alcançar uma maior consonância entre valores e a acção social numa escala global. A inedequação conceptual do termo paz advém da tendência histórica para pensar sobre o assunto preservando o discurso de uma forma intelectal clássica. A visão de Galtung sobre a paz tradicional faz eco às críticas das formas pré-científicas de conhecimento da sociologia positivista. Os estudos sobre a paz, tal como os restantes, deveriam ser universais na sua metodologia, isto
é, de forma ideal serem independentes do espaço e do tempo, estes deveriam ser também globais na focagem (Lawer, 1995:49-50). Os estudos para a paz necessi - tavam de uma definição substantiva da paz que evitasse o tradicional apelo apenas à razão e adoptasse uma visão partidária. Galtung publicou, na revista que ajudou a estabelecer e onde foi editor durante dez anos, o Journal of Peace Research, que a paz era definida por ter dois aspectos: a paz negativa, sendo a ausência de guerra e violência física e a paz positiva, inicialmente, descrita como a «integração da socie - dade humana» que ao projectar uma imagem de harmonia de interesses o termo paz poderia também ajudar a trazer essa harmonia (Galtung, 1969: 167).
Ao longo da sua escrita o autor serviu-se, como veremos oportunamente, de termos que expressavam conceitos operatórios bem precisos, como por exemplo: Estado, Imperialismo, Sociedade, ou Cosmologia. O termo Estado com as suas conotações de rigidez e fixação não era utilizado pelo autor, mas eram-no as categorias mais flexíveis de grupo ou esfera de amizade. O valor da paz ligava um sistema global integrado e funcional. Em vários pontos a paz positiva era equacionada com os valo - res da cooperação, liberdade face ao medo, desenvolvimento económico, ausência de exploração, igualdade, justiça, liberdade de acção, pluralismo e dina mismo, ou seja, a compreensão de uma boa vida global com alusões às necessidades humanas ou aos direitos fundamentais. Claramente, Galtung acreditava que esses valores eram essenciais para uma visão de um sistema global (Lawer, 1995:54). Os estudos para a paz eram definidos como uma disciplina focada e orientada com as ciências do homem onde as relações internacionais, a sociologia, a economia e a his tó ria eram disciplinas «puras» com as quais os estudos para a paz estavam relacio nados como o estava a medicina com as ciências biológicas. O autor convidou novas disciplinas a juntarem-se na procura da paz e a colocarem investigadores no terreno para se reequiparem um pouco (Galtung, 1990:303). Galtung pensava que os estu dos para a paz tinham muito a aprender e a receber e talvez com o tempo também a contri - buir dentro de um espírito de diversidade, simbiose e equidade (Galtung, 1990:303). Para o autor, os estudos para a paz eram os estudos acerca da sobre vivência humana. A especificidade dos primeiros estudos para a paz foi construída sobre o valor ideal da paz positiva e o conceito de ciência orientada; contudo a consubstancialização das premissas normativas dos estudos para a paz era pelo menos ambígua. O jovem Galtung escreveu pouco acerca da paz positiva mesmo considerando a sua realização o leitmotiv dos estudos para a paz. Os estudos para a paz Galtunguianos continham a promessa de seguirem para além da discussão filosófica em torno dos princípios no domínio da investigação empírica para as condições e possibilidades reais. A visão original dos estudos para a paz não tinha muito interesse pela história. Apenas anos mais tarde após estabelecer os aspectos fundamentais para a nova ciência da paz, o autor reexaminou de forma crítica as premissas fundamentais dos estudos para a paz e estabeleceu um novo caminho (Lawer, 1995:64).
Galtung definia os estudos para a paz por contraste com os campos das relações internacionais e análise de conflito. Os estudos para a paz originais de Galtung pro - mo viam estratégias «associadas» de paz ou de «interdependência mútua». O padrão
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de uma interacção global foi construído na própria estrutura social global. O termo imperialismo que significava um meio mais geral de relações entre Estados e classes é, agora, sinónimo de um capitalismo globalizado (Lawer, 1995:93). A ideia — valor de uma ordem social pluralista, equitativa e global foi reiterada na crítica estrutural do imperialismo. Galtung rejeitava os sonhos utópicos como formas demasiado fáceis e proveu um meio para assentar a amalgama do valor da paz positiva (Lawer, 1995:136).
O termo sociedade aludia à ligação das relações sociais entre actores que ia para além da mera interacção padronizada, e estava ligada a um consciente esforço humano. O mundo era visto como um sistema de colectividades do qual os Estados territoriais eram possivelmente o mais importante. Outro conceito utilizado era o de necessidade humana e servia como padrão perante o qual ordens sociais específicas poderiam ser julgadas. Por seu turno, o desenvolvimento pessoal era identificado como o valor fundamental no sentido de que todos os outros lhe estavam subordinados e eram vistos como as condições necessárias para a sua realização.
No esquema de Galtung as necessidades subdividiam-se em categorias de necessidades psicológicas, climáticas, somáticas, comunitárias, culturais e colectivas como as «necessidades ecológicas» (Lawer, 1995:143).
A Violência
Para o autor, existem quatro tipos de violência na política global, a saber: — o modo clássico de violência, a miséria, a repressão, e a alienação como forma de vio - lên cia estrutural contra contra a nossa identidade e necessidades não-materiais da comunidade e das relações com os outros (Griffiths, 2006:130). A violência directa é um acontecimento; a violência estrutural é um processo com altos e baixos e a violência cultural é uma permanência, na linha dos Annales (événementielle, conjoncturelle, la longue durée) (Galtung, 1990:294).
Galtung tentou ao comparar a violência directa e estrutural em termos de mor - tes evitáveis por meios quantitativos, e afirmava que ao avaliar-se a quantidade de violência directa ou estrutural se comparava o mundo real não com um mundo ideal no sentido abstrato, mas com um mundo potencial (Galtung e Höivik, 1971:73).
Os aspectos da cultura, ou seja, a esfera simbólica da nossa existência que podem ser usados para justificar ou legitimar a violência directa ou a estrutural, são constituientes da violência cultural. Esta última torna a violência estrutural e a violência directa parecerem menos erradas.
Toda a cultura possuí um tremendo potencial para a violência que pode ser expresso ao nível cultural mais manifesto e depois pode ser utilizado para justificar o injustificável. A violência pode começar em qualquer ponto do triângulo da violência (directa— estrutural-cultural). A agressão e o domínio possuem variações tremendas, dependendo do contexto, incluindo as condições estruturais e culturais (Galtung, 1990:296). A agressão é a violência directa e a dominação é a violência estrutural. Para Galtung a guerra é apenas uma forma particular de violência orquestrada (Galtung, 1990:293).
A alternativa
O discurso sobre as necessidades e o desenvolvimento pessoal, aliás não desen - vol vidos pelo autor, conduziu-o a quadros de referência não ocidentais. Galtung foi, claramente, inspirado pela equação de paz de Gandhi não só pela ausência de violência física mas também com a realização da justiça universal. A partir de meados da década de 70 do século passado, Galtung focalizou-se em fenómenos como a civilização, cosmologias sociais e violência cultural, onde a influência do Budismo é notória. A sua crítica ao Ocidente tem por base os conceitos Galtunguianos de civilização e cosmologia. O Ocidente deveria ser observado à luz da «cosmologia social», isto é, dos processos vastos, efémeros e profundos de uma civilização específica. O que Galtung também chamava de «ideologia profunda», programa civilizacional ou gramática social.
A cosmologia de uma civilização pode não aparecer à superfície caracterizada pelos factos e artefactos e onde as diferenças nas e entre as sociedades pode mascarar os elementos invariáveis. A cosmologia social são as estruturas profundas da organi - zação material, humana e não humana das sociedades na civilização e, par cialmente, na ideologia profunda, os mapas-mundo, weltanschauungen, cosmovisiones dessas civili - zações. A cosmologia social é para uma civilização como «a construção psicológica da personalidade» é para um Ser humano. Cosmologia social é para Galtung um neologismo para ideologia dominante (Lawer 1995:193).
O conceito de cosmologia é desenhado para conter o substracto de assumpções mais profundas sobre a realidade, definindo o que é normal e natural (Galtung, 1990:301).
O pensamento oriental da paz distingue-se pela ausência de uma aspiração ao domínio global e pelo seu universalismo. O Ocidente gerava planos de paz e o Oriente produzia conceitos de paz. Galtung incluía no Ocidente, o Judaísmo, o Islão, as tradições clássicas Greco-Latinas e o período moderno. Os escritos de Galtung quanto às civilizações e às suas cosmologias evoluíu em três estadios: a crítica ao Ocidente; as alternativas não ocidentais (o Outro oriental) e mais recen - temente uma exploração de uma contraposição Budista ao Cristianismo ocidental. Galtung intentou capturar o «código genético» do Ocidente como um meio de repensar a problemática com que se confrontam os estudos para a paz. A cosmologia social ocidental é a violência (Lawer, 1995:217).
O denominado Eco-equilíbrio corresponde ao somatório da sobrevivência, do bem-estar, da liberdade e da identidade para a manuutenção humana básica. A sua soma definirá a paz (Galtung, 1990: 292). Ao projectar-se uma imagem de harmonia de interesses o termo paz pode também trazer tal harmonia (Galtung, 1969:167).
Alguém que de uma forma ou de outra se opõe ao establishment Ocidental da guerra e à abordagem militar quanto à paz e segurança deve ter em conta de que se trata de um combate ao nível mais alto da ideologia e da cultura profundas, ao nível da cosmologia (Galtung,1998:228).
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Conclusão
Em Johan Galtung manifestam-se, paradoxalmente, algumas das grandes tradi - ções do pensamento Ocidental com as grandes tradições Orientais.
Assim, coexistem o Marxismo, o Estruturalismo e as chamadas Teorias da Depen dência com o pensamento de Mahatma Gandhi e do Budismo.
As primeiras levaram-no a ter em conta na análise as contradições inter e intra- -Estados e inter grupos societais, assim como a relação mundial entre Centro e periferias, articulando dentro das periferias os seus próprios centros; os segundos a crer que a alternativa à cosmologia social ocidental, isto é, à violênica era o universalismo.
A grande arquitectura do «código genético» ocidental tem como denominador comum a interligação entre todas as formas de violência (directa, estrutural, cultural), o imperialismo gerador de relações de domínio e consequentemente de conflitos e guerras, o Estado e a Sociedade e os próprios grupos sociais.
Para o autor, a paz necessita não só da cooperação das ciências humanas e sociais para a sua compreensão mas acima de tudo de adquirir uma segunda nova linguagem com base no «Outro oriental» e em tudo em que ele representa uma alternativa à estrutura de conflitualidade própria do Ocidente por via das estratégias de domi - nação, tanto classista como o actual imperialismo globalizado.
Os humanos devem desistir da violência tanto entre indivíduos como entre grupos e Estados. Para Galtung o corte epistemológico e ético faz-se com a tradição da violência cultural imposta pelo Ocidente. A paz é a procura constante da auto- sustentação com base na natureza universal dessa própria paz.
Bibliografia
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Richmond, Oliver P. (2008) Peace in International Relations. Routledge: Oxon.
* CEAUL
1 Paper delivered at the 30thConference of the Associação Portuguesa de Estudos Anglo-
-Americanos (APEAA), which took place at the Faculty of Letters of the University of Porto between 19thand 21stFebruary 2009.