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Visão geral dos problemas e da política ambiental em 2019

No documento Gabriel Rodrigues da Silva (páginas 83-86)

Para abarcar a temática dos problemas ambientais e da política ambiental adotada pelo Governo Federal em 2019, partimos, inicialmente, da premissa de uma imprensa livre e atuante, especialmente no que se refere à registrar e evidenciar os fatos relativos à área ambiental, de modo a elucidar a situação da Floresta Amazônica, as ações do Governo Federal e suas relações com os demais países, como Eliane Brum contextualiza no trecho do texto A2 a seguir:

A Amazônia é assunto do planeta porque, sempre que o Brasil destrói a floresta, reduz as possibilidade de controlar o aquecimento global. Tanto é assunto do mundo que o Brasil recebe bilhões de reais da Noruega e da Alemanha para manter a floresta em pé. Não fosse esse dinheiro, nem mesmo atividades básicas de fiscalização do Ibama teriam sido executadas no ano passado. SD19

Na SD19 a autora utiliza termos como destruição e redução [no tempo verbal]

para tratar sobre o controle do aquecimento global e a sua relação com a floresta, conforme tratamos no capítulo anterior. Adiante, procura discutir a forma de inserção da questão amazônica – e consequentemente a política ambiental – no debate sobre a política externa brasileira para a Amazônia. Ao pontuar a dificuldade com atividades básicas de fiscalização do Ibama, cita a importância das doações de países como a Noruega e a Alemanha para o Fundo Amazônia, principal financiador da proteção da floresta, uma ferramenta essencial para impedir, ainda que minimamente, a destruição acelerada do bioma, e que segundo a autora, estão sob ataque do Governo de Bolsonaro. Por outro lado, a autora aponta a complexidade e a contradição da relação de outros países com a floresta como epicentro dos conflitos, nos trechos do texto A2:

A Noruega tem ainda participação em frentes de destruição da Amazônia, como a empresa Hydro Alunorte, que contaminou os rios de Barcarena, no Pará. Só podemos seguir adiante enfrentando todas essas contradições — e não fugindo delas. E exigindo melhores práticas e mais coerência da Noruega. SD20

[...] para fiscalizar o Estado e defender os direitos dos mais desamparados, as instituições mandam os sem nenhuma experiência. Alguns deles — não todos — interpretam que estão sendo enviados a uma região amazônica como um teste ou mesmo um castigo, um calvário que precisam passar antes de ter um posto “decente”. Parte deles — não todos — não vê a hora de ter o que é chamado de “remoção” e deixar essa bad trip para trás. SD21

Ao tratar do Fundo Amazônia e, mais especificamente, da Noruega, que é a maior produtora de petróleo da Europa Ocidental e financia majoritariamente o projeto, junto à Alemanha e à Petrobrás (maior empresa de exploração e produção de petróleo do Brasil e uma das maiores do mundo), na SD20, Eliane frisa a importância do país neste projeto – que no seu entendimento, é alvo de ataque do Governo de Bolsonaro – para impedir, ainda que minimamente, a destruição acelerada do bioma. Contudo, a jornalista ressalta que a Noruega também promove a destruição da floresta, mencionando o vazamento de rejeitos industriais da mineradora norueguesa Hydro Alunorte, que contaminou os rios de Barcarena, no interior Pará, em fevereiro de 2018.

Além do impacto ambiental, social e econômico trazido, o vazamento de metais pesados acomete a saúde da população, que sofre com doenças e a pobreza.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 46,4% da população de Barcarena vive com até meio salário mínimo e a maioria tinha no rio Murucupi sua principal fonte de alimentação e de renda. O caso transcorre na Justiça do Pará.

Nesse sentido, Eliane expõe a necessidade de refletir sobre o Rainforest Journalism Fund – RJF (fundo de jornalismo sobre florestas tropicais lançado em 2018), que apesar de contribuir para o aumento do nível de relatórios sobre questões globais de florestas tropicais, como desmatamento e mudanças climáticas, é financiado, em grande parte, por recursos proveniente do petróleo. O gás e petróleo da Amazônia é considerado um dos mais puros do Brasil, possuindo uma reserva de extração no município de Coaris, em uma área de 350 quilômetros quadrados, situada no meio do coração da floresta, que abastece a zona franca de Manaus e parte da região Norte. A questão preocupa ONGs, indígenas e especialistas. Segundo o Greenpeace, áreas estão sendo vendidas para que empresas explorem petróleo e gás natural via leilão, pela Agência Nacional do Petróleo (ANP), uma espécie de

“saldão” da Amazônia, que poderia causar ainda mais desmatamento. Um derramamento seria constante para ameaçar o bioma e os povos que habitam a região, onde há territórios indígenas ainda em processo de demarcação e unidades de conservação. Considerando toda a complexidade do assunto, Eliane sugere que lidemos com as contradições e exijamos soluções mais coerentes também da Noruega.

Na SD21, a autora se refere à floresta como epicentro dos conflitos, que torna toda a situação ainda mais complexa, difícil e perigosa. Neste excerto, a jornalista denuncia a lógica das instituições, isto é, o olhar para a Amazônia, que contribui para esse cenário, como por exemplo, a falta de experiência de parte dos servidores públicos ambientais escalados pelo Estado para fiscalizar e defender os direitos dos mais vulneráveis e, que, além disso, muitos destes consideram a função um castigo ou um calvário, isto é, um exercício tido como uma punição, ou ainda uma “bad trip”

(viagem ruim, no inglês), a fim de atingir postos mais elevados, por parte dos agentes públicos. Esse é um pensamento que excede uma razão de culpa, porque é a lógica das instituições, o olhar que se tem sobre a Amazônia. Entretanto, Eliane destaca os servidores públicos que entendem a importância do papel que desempenham na região, sendo essenciais para a luta pelos direitos em uma região onde eles são banalizados.

As políticas de contenção de despesas do governo federal ao longo da última década têm reduzido progressivamente a verba para o IBAMA, o que resultou no sucateamento desse órgão e fragilizou sua capacidade para manter uma presença efetiva no campo e nos principais centros urbanos. Atualmente, a falta de pessoal qualificado, de equipamentos básicos e de verba para

atividades de campo tem limitado a capacidade dessas instituições de desenvolver um trabalho minimamente adequado (ALENCAR, 2004, p.57).

Dito isso, a autora procura debater os destinos da Amazônia, ameaçada pelas sombras do passado refletidas no presente e pelo desconhecimento básico da temática na educação – não somente nas escolas públicas –, para que seja possível fazer as conexões necessárias e compreender que, ao lutar pela Floresta Amazônica, se está lutando pela redução da desigualdade e pelo maior acesso aos recursos e às políticas públicas. Para entender que o que prejudica a economia da floresta não é a proteção da floresta, mas a invasão dos grileiros para explorar a madeira, plantar soja e abrir pastagem para gado, e a anistia destes, que violam terras públicas e assumem o posto de “representante do ‘agronegócio’” e de membro do “setor produtivo nacional”. Bem como a demora na demarcação dos territórios indígenas, hoje paralisada por Bolsonaro, e a sua ideia de revisar unidades de conservação, áreas de floresta cobiçadas por setores do agronegócio com visão atrasada. Em suma, a instabilidade e a total falta de apoio governamental, a ignorância dos governos e de seus economistas.

Deste modo, podemos concluir que a importância do Brasil no cenário internacional é atrelada, sobretudo, à Floresta Amazônica. Nas palavras de Clóvis Cavalcanti (2015, p. 171), não existe sociedade (e economia) sem sistema ecológico, mas pode haver meio ambiente sem sociedade (e economia). A natureza é vital por si só e, portanto, é a economia que necessita da natureza – para produzir bens de capital –, e não o contrário. Dessa forma, a economia não cresce sem natureza, pois ela faz parte de um sistema interconectado.

No documento Gabriel Rodrigues da Silva (páginas 83-86)