A pesquisa avaliativa, postulada por Silva (2008, p.44), considera os sujeitos envolvidos nas políticas, bem como os seus interesses, tendo como fundamento os seus valores e concepções em relação à realidade social. Por essa razão, com o intuito de aprofundar-se na temática do planejamento participativo estadual, em específico o processo do PPA, realizaram-se entrevistas semiestruturadas com quatro técnicos do governo estadual, que trabalham na condução dos processos de planejamento. Para as análises das entrevistas, foi utilizado o software Iramuteq.
Como foram realizadas quatro entrevistas, o corpus total foi constituído por quatro textos. Esses foram divididos em 247 segmentos de textos (ST), que se referem a pequenos recortes realizados pelo software para consecução das análises. O material processado contou com o aproveitamento de 78,14% (193 STs). Surgiram 8.761 ocorrências, ou seja, palavras, formas ou vocábulos. Dessas ocorrências, 1.049 são palavras diferentes e 458 aparecem uma única vez.
Conforme Camargo e Justo (2013, p. 516), a Classificação Hierárquica Descendente (CHD), através do Método de Reinert, “classifica os segmentos de texto em função dos seus respectivos vocabulários, e o conjunto deles é repartido com base na frequência das formas reduzidas (palavras já lematizadas)”.
Figura 6 - Dendograma da Classificação Hierárquica Descendente (CHD).
Fonte: Elaborada pelo autor - software Iramuteq.
Depois de realizar a CHD no software Iramuteq, o conteúdo do corpus textual foi categorizado em três classes, conforme se pode perceber no dendograma que também apresenta a relação entre as classes (Figura 6). A classe 1 (vermelho) conta com 35,2% dos segmentos de textos. A classe 2 (verde), com 26,9%. A classe 3 (azul), com 37,8%. É possível perceber no dendograma que há duas ramificações.
A primeira ramificação apresenta a classe 1, que se encontra isolada. A segunda ramificação é composta pelas classes 2 e 3, de forma associada.
A Figura 07 apresenta a CHD com o filograma de palavras relacionadas a cada classe. Quanto mais a palavra estiver próxima ao topo, maior é a sua representatividade e importância para a respectiva classe lexical. Analisando as palavras que representam cada uma das classes, é possível compreender a percepção dos sujeitos entrevistados sobre a temática em estudo, bem como relacionar com o referencial teórico.
Figura 7 - Classificação Hierárquica Descendente (CHD) - Filograma de Palavras
Fonte: Elaborada pelo autor - software Iramuteq.
A classe 1 (vermelho) está relacionada ao planejamento público do governo estadual, tendo se destacado palavras como planejamento, instrumento, competência, órgão, metodologia, coordenar, entre outras. Destacam-se, a seguir, alguns trechos de textos típicos dessa classe:
Compreender que nos níveis estratégico, temático e programático, a gente tem os indicadores que são elementos, parâmetros para avaliar os objetivos
de cada programa. Programa é o elemento maior de planejamento, orçamento e gestão que vem para responder e resolver os problemas. É muito importante compreender isso. E ele faz essa correlação com a lei orçamentária anual, que é a viabilidade econômica para ver até que ponto isso acontece.
[...]
No processo de articulação tem a função da Seplag de coordenação estadual do processo. Essa coordenação estadual tem uma relação com que cada setorial vai trabalhar dentro de cada tema por eixo da estrutura do planejamento. As áreas de planejamento de todos os órgãos são articuladas ao processo de construção do planejamento, na competência de coordenar a elaboração, monitoramento, avaliação e revisão dos instrumentos de planejamento e gestão está o instrumento de PPA, Plano Plurianual, com todas suas etapas, metodologias e processos (ENTREVISTADO D, 2019).
O Entrevistado D (2019) destaca ainda o modelo de gestão para resultados, que é uma das premissas do PPA:
O PPA ele tem algumas orientações maiores e dentre as cinco premissas do PPA, que são orientações, diretrizes orientadoras, a primeira delas é a gestão pública para resultados que é a gente sai de um planejamento por competência e por órgão, mas por tema e por razão diante da identificação. Isso significa que é um planejamento levado na dimensão por impacto e por resultado (ENTREVISTADO D, 2019).
É possível perceber que a classe 1 alinha-se com a ideia de que o planejamento público é um instrumento de gestão que perpassa as diversas áreas dos órgãos do governo, utilizando-se de estruturas metodológicas que orientam as ações para o alcance dos resultados.
Na segunda ramificação há a classe 2 (verde), que foi categorizada como participação social. Sobressaem, nessa classe, palavras como pessoa, participar, discussão, base, político, além de outras. Apresentam-se, a seguir, alguns trechos típicos da segunda classe:
Costumo dizer que é o exercício da cidadania na formulação de políticas. É você proporcionar que todo e qualquer cidadão nesse território cearense tenha a oportunidade de ser ouvido na formulação, na implementação, na execução, na avaliação, no monitoramento, em todas as fases da política pública. Porque a gente trabalha, o governo trabalha para a sociedade. Então você tem que proporcionar essa participação, de modo que saiba se a política está sendo de forma efetiva, está tendo a resposta adequada por parte do principal cliente que a população, beneficiária das políticas.
[...]
Eu não consigo ver uma política pública, um planejamento, um governo que não ouviu o seu beneficiário. Não consigo observar uma gestão pública que não seja baseada na escuta, baseado no diálogo, baseada no ouvir o cliente. (ENTREVISTADO C, 2019).
Para quê que o governo serve? Ele funciona para atender a sociedade. Se a sociedade não está ali participando, não está dizendo o que é que realmente é uma política pública importante para ela, não faz sentido.
[...]
E na metodologia a gente sempre fica buscando inovações para fazer com que tanto a gente tenha uma participação maior e que também a participação seja efetiva, tenha um significado bom e tenha um resultado muito bom tanto para o governo como para a sociedade (ENTREVISTADO A, 2019).
Em relação aos meios disponíveis para o exercício da participação, o Entrevistado C (2019) destaca mudanças e ampliação dos canais participativos, com o intuito de obter um maior número de cidadãos participantes:
Eu acho que nos próximos anos a gente vai intensificar mais o processo de participação virtual. Continuar com o momento presente que é importante, só que não exclusivo como vinha sendo feito há 10 anos. E a diversificação dos mecanismos de mobilização, chamada pelo WhatsApp que isso é mais efetivo que às vezes passar um e-mail. Passar e-mail é importante, mandar mensagens no WhatsApp e colocar nas mídias sociais, que hoje todo mundo tem acesso à internet, a Facebook, Instagram, rádio, enfim, multicanais. Governos mais modernos são mais transparentes, são mais abertos, as pessoas se sentem mais livres para interagir (ENTREVISTADO C, 2019).
Fechando a segunda ramificação do dendograma, há a classe 3 (azul), que se encontra associada à classe 2. Essa categoria está relacionada às necessidades dos cidadãos e aos desafios da participação. Entre as palavras que apresentam maior relevância para essa classe, estão: precisar, necessidade, querer, mobilização, ouvir, cidadão, além de outras. Algumas partes dos textos destacam-se pela relação com essa classe:
A participação social é quando a população tem a oportunidade de se manifestar, de avaliar o trabalho que é feito pelo governo e também dizer as necessidades que ela tem, que ela precisa, que a região precisa, dentro da situação em que ela se encontra, como a gente recebe as políticas do governo, ter a possibilidade de tanto demandar, como avaliar se a demanda dela foi atendida (ENTREVISTADO A, 2019).
A gente quer o governo para ouvir, a gente quer o governo para assimilar junto com o cidadão qual é a real necessidade dele. Para gente o foco mesmo é o cidadão, é aonde chega o serviço, é lá na ponta. É lá onde o cidadão vai dizer se está sendo bem atendido na educação, se o filho tá na escola, se tem menos fila para ele ser atendido no posto médico ou no hospital regional (ENTREVISTADO B, 2019).
O Entrevistado B (2019) comenta que o governo estadual espelhou-se na política participativa do governo federal e que houve recurso do Banco Mundial para financiar o PPA Participativo e Regionalizado:
Aí foi que no governo seguinte assumiu uma secretária que tinha essa visão da participação, já tinha trabalhado nessa questão da participação, inclusive fora do país. O governo federal começou também e a gente copiou muita coisa do governo federal. Nós fomos em temos de Ceará o pioneiro. Era uma equipe reduzida, a gente contou com a ajuda do recurso do Banco Mundial, onde a gente começou a viajar pelos municípios com uma equipe reduzida. Mas, assim, o resultado foi tão bom, no final o produto ficou tão afiado, era a linguagem comum do cidadão (ENTREVISTADO B, 2019).
Nessa classe 3, há um elemento que foi muito utilizado pelos entrevistados, como uma questão desafiante para a efetividade do processo de planejamento participativo: mobilização. É a articulação para fazer a sociedade despertar e interessar-se pela participação no planejamento governamental. Vejamos algumas falas ligadas a esse desafio:
Eu não diria retrocesso, mas uma coisa que a gente tem que focar, a gente vem sentindo isso, é a mobilização. A gente contratou uma consultoria na época e de antemão, nos primeiros trabalhos, a gente já notou que existia uma fragilidade na mobilização (ENTREVISTADO B, 2019).
Agora a mobilização é o nosso principal ponto nevrálgico, o nosso principal calcanhar de Aquiles. É fazer com que as pessoas certas estejam no momento certo para discussão. Mas então esse é o desafio, porque quem a gente quer ouvir, às vezes ele não pode estar presente, porque está trabalhando, porque está em casa arrumando as coisas, porque tá fora da cidade (ENTREVISTADO C, 2019).
A gente até trabalha muito mobilização. Trabalha mobilização com as lideranças locais, com as prefeituras e tudo. Mas a gente entende que tem algumas dificuldades, questão de deslocamento para o município, às vezes não tem essa facilidade (ENTREVISTADO A, 2019).
O Entrevistado C (2019) relata que até 2014 a articulação e mobilização dos Encontros Regionais do PPA eram de responsabilidade da Vice-Governadoria do Estado e que sempre havia a presença de autoridades políticas, que participavam somente do momento de abertura e, quando saiam do encontro, metade do público saía junto. E complementa:
Perdemos um pouco a questão da mobilização política, mas em compensação a gente tentou intensificar a questão da mobilização da sociedade, o que se mostrou um pouco difícil. Porque às vezes tá casada, às vezes parte da sociedade vem quando o político vem, principalmente. Isso acontece muito no interior do Estado. Quando o político está presente, pode ter certeza, tem um bocado de gente lá. Quando não está político, vem pouquíssimas pessoas. Mas vem aqueles que têm mais vontade de discutir, porque ele vem pela discussão, não vem pela parte política (ENTREVISTADO C, 2019).
Tomando por base a CHD, o software Iramuteq disponibiliza outra opção de visualização dos resultados, que ocorre através Análise Fatorial de Correspondência (AFC). Na AFC é possível analisar as relações entre as classes que estão dispostas em um plano cartesiano, bem como as palavras e termos que possuem maior associação com cada uma das classes, conforme Figura 8.
O fator 1, que corresponde à linha horizontal, ilustra 62,26% da variância total de respostas. Já o fator 2, que corresponde à linha vertical, explica 37,74% da variância total de respostas. Percebe-se na Figura 8, que há uma proximidade entre as classes 2 (verde) e 3 (azul), bem como um distanciamento da classe 1 (vermelho) em relação às classes 2 (verde) e 3 (azul). Cada uma das três classes está em quadrantes diferentes, demonstrando que cada classe apresenta contextos semânticos distintos.
Figura 8 - Análise Fatorial de Correspondência.
Depois de apresentar toda a contextualização das experiências de planejamento e participação nos governos do Estado do Ceará nesse capítulo 4, é possível perceber que o governo vem tentando aprimorar e modernizar as suas práticas de gestão, para promoção de um planejamento participativo que leve a um desenvolvimento socioeconômico.
No capítulo 6, a seguir, será apresentada e discutida uma análise sobre a percepção da sociedade em relação a participação social nas etapas de elaboração, monitoramento e avaliação do PPA 2016-2019 na Região Vale do Jaguaribe, bem como uma avaliação da participação da sociedade na referida política de planejamento participativo.
6 AVALIAÇÃO DA PARTICIPAÇÃO DA SOCIEDADE NO PPA DA REGIÃO VALE