5 FRAGMENTOS DA MODERNIDADE
5.1 Visões da modernidade
Muito se escreveu sobre modernidade e sobre a dificuldade de definir seu sentido. Segundo Haesbaert (2006), é preciso estar atento à grande complexidade que acompanha o conceito. Para o autor, o termo ―modernidade‖ tornou-se uma dessas expressões de múltiplos sentidos. Enquanto alguns definem modernidade como um período histórico, outros associam o termo a transformações sociais provocadas por movimentos específicos, como, por exemplo, o movimento cultural modernista. Há ainda quem use o termo no plural — ―modernidades‖ —, na tentativa de abarcar sua tamanha complexidade (HAESBAERT, 2006).
Dentro do caráter múltiplo que a modernidade pode assumir, seria imprudente negar, ou mesmo subestimar, a profunda mudança que o advento da modernidade produziu na condição humana (BAUMAN, 2001). Para os autores que a identificam como um período histórico, a modernidade aparece associada ao crescente domínio da burguesia e à expansão do sistema capitalista (GAI, 1991). Acompanhando o desenvolvimento e o progresso tecnológico, base do domínio burguês, a sociedade assume novas características. Dentre as transformações sociais, surgem um individualismo baseado na necessidade de autorrealização alimentada pelo sistema e uma pressa cotidiana que induz a uma vivência espacial diferenciada.
Atualmente, a opinião de pesquisadores está dividida entre aqueles que defendem o fim da modernidade e o início da pós-modernidade e aqueles que acreditam que a modernidade ainda está presente, esperando por uma definição mais concreta do seu sentido (HAESBAERT, 2006). Independente do nome que esse período possa levar, alguns dos seus aspectos sempre estarão refletidos na relação homem-mundo, na vivência espacial das pessoas. Essa relação, traduzida em forma de arte literária, pode ser lida e interpretada pela geografia, num casamento promissor e, por que não dizer, moderno.
O ambiente urbano, a relativização das distâncias, a circulação acelerada da informação e o número crescente de opções, entre outras coisas, alteram a relação espaço- tempo e colocam o sujeito moderno num turbilhão permanente de mudanças que imprimem marcas no espaço e interferem na percepção da paisagem. E todos esses aspectos vêm se intensificando ao longo do tempo.
Sendo assim, é importante destacar a dimensão espacial dos efeitos da modernidade e a relação de interdependência existente entre sujeito e ambiente moderno (BERMAN, 2007). O espaço criado e percebido pelo homem surge como materialização do moderno. Mais precisamente, a cidade surge como expressão maior e abrigo dos mais nítidos sintomas da modernidade. A questão fundamental colocada aqui não é, portanto, o sentido de modernidade, mas sim, a vivência da condição moderna pelos sujeitos urbanos.
Para Berman (2007), a percepção dessa interdependência enriqueceu imensamente a obra literária de alguns autores. Berman (2007) e Walter Benjamin (1989), por exemplo, encontraram os sintomas da modernidade na atmosfera criada pelo poeta francês Baudelaire (1821-1867), na busca pelo sentido e na tentativa de caracterização da modernidade e do homem moderno.
Poetas como Baudelaire transmitem os sintomas da modernidade não apenas por terem vivido momentos de transição intensos e descreverem situações urbanas, mas por conseguirem o afastamento necessário para voltar o olhar para seu próprio tempo e pensar sobre ele. Há quem afirme que a principal característica do homem moderno, ou contemporâneo, é essa capacidade de afastamento que permite uma maior consciência do tempo vivido (AGAMBEN, 2009).
Nesta pesquisa defendemos que Fernando Pessoa tinha essa capacidade e ilustrou sua obra com as características e angústias da modernidade. Nesse caso, a poesia parece não se render à desumanizadora proposta de vida do sistema capitalista, denunciando a inquietação do homem moderno. Segundo Osakabe (2005), o Livro do desassossego possui um caráter simbolista-decadentista. Na literatura, o decadentismo surge como uma reação diante da moral e dos costumes burgueses, incentivando uma fuga da realidade cotidiana e explorando as regiões mais extremas da sensibilidade e do inconsciente (MORETTO, 1989).
Assim como Pessoa, diversos artistas envoltos pela atmosfera moderna manifestam o desassossego provocado pela modernidade em suas expressões artísticas. A literatura alterna-se como enfrentamento ou fuga dessa condição desassossegada. A maior parte desses escritores elege a cidade como pano de fundo para suas obras, e com os demais modernistas portugueses não foi diferente.
Em consonância com o que se passa na Europa na sequência da transformação urbana originada pela industrialização, também os modernistas portugueses, Pessoa, Almada e Sá-Carneiro, instituem a cidade como tema de muitas das suas obras. Pessoa dissertou largamente sobre o assunto e deixou que Álvaro de Campos e Bernardo Soares gravassem no papel as reflexões e os sentimentos que as cidades, reais ou imaginárias, lhe inspiravam. (LOUREIRO, 1996, n.p.).
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A obra de Fernando Pessoa, inspirada no cotidiano da cidade de Lisboa no início do século XX, não deixa dúvidas sobre a consciência do momento vivido e sobre os sintomas da modernidade como fonte do desassossego. Na época a capital portuguesa respirava a turbulência moderna em diversos aspectos. Segundo Loureiro (1996), Fernando Pessoa foi um poeta do chamado ―primeiro modernismo‖, período que corresponde a um desenvolvimento técnico sem precedentes, acompanhado de um enorme crescimento das cidades e de uma paralela agitação social e cultural.
Segundo Gil (1987), Pessoa fez dele próprio um laboratório de sensações, estando sempre a mergulhar no infinito de si mesmo, buscando a consciência primária de cada sensação que levava a outra, e a outra, incessantemente. Exercendo esse ofício e descrevendo detalhadamente o que sentia, o poeta constrói o espaço ao seu redor, fornecendo ao leitor elementos que compõem uma paisagem moderna formada por cheiros, cores e sons (SANTOS, 1991).
―A minha sensibilidade do novo é angustiante: tenho calma só onde já tenho estado‖ (PESSOA, 1986, p.52). E, como traz o novo incessantemente, o moderno expulsa a calma que, em verdade, nunca habitou a alma de um poeta. Como já mencionado, Pessoa acordava os sentidos de poeta e transitava pelas ruas de Lisboa entre compromissos de trabalho em escritórios e tertúlias literárias regadas a álcool e tabaco nos cafés. E assim foi capaz de revelar algumas das múltiplas faces poéticas da cidade moderna.