Capítulo I. A questão do protagonista
1.4 Visões de mundo (em conflito)
―O favor é, portanto, o mecanismo através do qual se reproduz uma das grandes classes da sociedade, envolvendo também outra, a dos que têm. Note-se ainda que entre estas duas classes é que irá acontecer a vida ideológica, regida, em conseqüência, por este mesmo mecanismo.‖ Roberto Schwarz, As ideias fora do lugar.
Na cena seguinte à da sala de jogos na casa de campo, vemos Chris e Chloe saírem da Saatchi Gallery98. A música extra-diegética acompanha a cena. Allen utiliza a ária ―Mia
97 Eisenstein, op.cit., p.105.
98 Em A privatização da cultura, Chin-tao Wu explica, entre outros aspectos que serão retomados ao longo deste
trabalho, a transformação do capital cultural em capital econômico pelas elites norte-americanas e inglesas. Os irmãos Saatchi, donos da empresa de publicidade Saatchi & Saatchi responsável por vender a imagem de Margaret Tatcher, ganham importante destaque na análise de Wu: ―Os irmãos Saatchi oferecem uma excelente ilustração do intercâmbio das várias formas de capital e dos problemas resultantes da concentração de poder facilitada, quando não incentivada, pelo governo conservador. [...] Usando suas diferentes bases de poder, pessoas como os irmãos Saatchi estão em posição privilegiada para transformar parte de seu capital econômico em capital cultural, o que eles fazem, por exemplo, quando suas fortunas e influência pessoais lhes permitem acesso aos conselhos curadores de galerias de arte e museus. Eles então transformam esse capital cultural novamente em capital econômico, pelo uso da arte como mercadoria. O que torna vicioso esse círculo é que ele funciona alheio à atenção pública, mesmo quando opera por meio de instituições públicas. Fortunas pessoais são criadas, sustentadas e ampliadas por um pequeno número de indivíduos auto-eleitos, que alegam agir por motivos desprendidos, de interesse público, e são agraciados com o dom invejável de serem capazes de fazer vista grossa para qualquer sinal de conflito de interesses que surja no horizonte‖. Ver: Wu, Chin-tao.
Privatização da cultura: a intervenção corporativa nas artes desde os anos 1980 / Chin-Tao Wu; tradução Paulo
54 Piccirella‖99, cantada por Caruso. Assim como um casal de turistas, a inglesa Chloe apresenta
ao irlandês Chris os cartões-postais da cidade: o rio Tâmisa, o palácio de Buckingham, a troca da guarda. Eles terminam o trajeto no cinema, onde assistem ao clássico do cinema noir Rififi100 (1955), de Jules Dassin. Na cena, ouvimos apenas a voz dos personagens do filme de Dassin. Enquanto assistem ao filme, o professor de tênis conta a jovem rica que precisa de ―mais alguns alunos‖. Chloe oferece dinheiro a Chris, o irlandês recusa educadamente: ―É muita gentileza sua perguntar, mas eu não preciso‖. Os dois se beijam e Chloe, interessada na aptidão sexual do tenista, pergunta: ―Vamos para a minha casa ou para a sua?‖ A cena seguinte mostra os dois no sofá do apartamento de Chris, ao som de ―Mia Piccirella‖. Ao colocar em paralelo o filme de Dassin sobre ladrões que realizam um crime perfeito – mas acabam rivalizando entre si –, as dificuldades financeiras do protagonista e o início do romance entre o jogador e a ―piccirella‖, o filme antevê o ―golpe‖ que Chris planeja.
A maneira refinada e precisa com que Allen estrutura a narrativa em Match Point pode ser observada também por meio da montagem dos planos. Para mostrar o início do romance entre o professor de tênis e a jovem herdeira, Allen apresenta o encontro na ópera, o jogo de tênis na casa de campo, o passeio por pontos turísticos da cidade, a ida ao museu, ao cinema, ao apartamento de Chris e, em seguida, o diretor corta e focaliza a fachada de uma residência das classes abastadas britânicas. A fachada da casa dos Hewett estabelece o contraste, aos olhos do espectador, entre este local e o apartamento pequeno do protagonista.
Após apresentar a fachada, Allen mostra o interior do local, onde vemos a matriarca Eleanor descendo a escadaria. As escadarias das residências apresentadas em Match Point serão reiteradamente expostas no filme, contribuindo à ideia do arrivismo. Nesse ponto, a residência dos Hewett pode ser comparada à de Samuel Griffiths em Uma tragédia americana. A casa do tio de Clyde conta com uma escada estonteante que chama a atenção do protagonista. Ele admira sua tia descendo a escadaria e aproximando-se dele, a senhora
99Escrita pelo compositor brasileiro Carlos Gomes, ―a canzonetta ―Mia Piccirella‖ se transformou numa das
melodias mais populares da época‖. Ela abre o ato I, cena 1, da ópera Salvator Rosa: ―No atelier do pintor Salvator Rosa em Nápoles, em 1647. Salvator, sentado e ocupado em pintar um retrato, pergunta a Gennariello o que acha da pintura, ouvindo como resposta que o céu está muito carregado, o mar tétrico e as damas com mau semblante. Concorda o pintor, para quem só uma mulher interessa, o que, diz Gennariello, também acontece com ele, tanto que escreveu uma serenata à sua bela. Acompanhando-se do bandolim, canta ―Mia Piccirella‖‖. Ver: Kobbé, op.cit., p.540-541.
55 Griffiths apresenta-se ao sobrinho com ―certa serenidade que os anos de contato com a alta sociedade local lhe deram‖ 101.
Assim como a tia de Clyde, a matriarca Eleanor Hewett prefere manter certa distância em relação ao jovem professor de tênis irlandês. Ao entrar na sala de estar, repleta de objetos de arte, a mãe de Chloe afirma querer ―entender o que Chris procura‖; a filha responde que ―ele com certeza não quer ser professor de tênis pelo resto da vida‖. Por sua vez, o patriarca, Alec, considera o jovem irlandês ―(...) muito simpático. Ele subiu na vida da única forma que podia e não é trivial. Tive uma conversa muito interessante com ele outro dia sobre Dostoievski.‖ Neste ponto, pode-se observar que a predileção do protagonista aos clássicos, e a coletânea do Cambridge Companion, é reconhecida pela família e capitalizada102 pelo patriarca. Ao perceber o apreço de Alec por Chris, Chloe pede um favor103 ao pai: ―Não podemos fazer algo por ele? Um emprego em uma de suas empresas?‖. A matriarca pede para que a filha ―tome cuidado‖ e ―vá devagar‖, pois Tom já está envolvido com uma garota que Eleanor tem ―restrições‖. Na opinião da mãe de Chloe e Tom, Nola é mimada e temperamental: ―Ela se ilude e é instável. Não serve para o Tom‖. Na cena, o espectador tem acesso à opinião dos Hewett sobre os dois estrangeiros, a norte-americana Nola e o irlandês Chris. O indício, suscitado pelas cenas anteriores de que Nola seria uma competidora inferior a Chris, é confirmado: a matriarca está insatisfeita com o noivado do filho. E o interesse do protagonista pela alta cultura favorece sua entrada para a família. Portanto, o protagonista é beneficiado pela predileção da família Hewett a ele em detrimento de Nola.
Um novo corte rápido revela que Chris será acolhido pelos Hewett. Na cena seguinte, Chloe entra no restaurante Brasserie Max104, localizado no hotel Convent Garden, onde o
101 Dreiser, op.cit., p.219.
102 Segundo López-Ruiz, a ―capitalização‖ de aptidões, habilidades e destrezas pessoais é um sintoma do espírito
do capitalismo contemporâneo: ―As pessoas capitalizam-se consumindo e podem fazê-lo de inúmeras formas: capitalizam em qualidade de vida, por isso é legítimo investir em viagens; capitalizam na própria carreira, por isso é legítimo investir tempo e dinheiro em treinamentos; capitalizam em relacionamentos, por isso é legítimo investir em sofisticados e caros objetos de design na decoração de suas casas; capitalizam em cultura, por isso é legítimo investir em cursos acelerados que dêem códigos sistematizados para que a fast culture possa ser digerida-comentada-capitalizada.‖ Ver: López-Ruiz, op.cit., p.225-226.
103 Neste trabalho, a prática do favor é entendida conforme exposta por Roberto Schwarz: ―No processo de sua
afirmação histórica, a civilização burguesa postulara a autonomia da pessoa, a universalidade da lei, a cultura desinteressada, a remuneração objetiva, a ética do trabalho etc. – contra as prerrogativas do Ancien Régime. O favor, ponto por ponto, pratica a dependência dá da pessoa, a exceção à regra, a cultura interessada, remuneração, e serviços pessoais‖. Ver: Schwarz, Roberto. ―As ideias fora do lugar‖. In: Ao vencedor as batatas. São Paulo: Duas Cidades, 1992, p.16.
104 Allen usou o elegante restaurante do hotel, o Max Brasserie, para reunir o quarteto. ―O restaurante é bastante
56 protagonista a aguarda. Logo na primeira fala, Chris explicita o assunto: ―Um dos sócios do seu pai falou comigo hoje sobre a possibilidade de um emprego. Você disse alguma coisa?‖ Chloe tenta convencer o namorado a aceitar a oferta: ―Papai disse que é uma chance de aprender o negócio. E, se tudo der certo, ele cuidará para que você seja promovido rapidamente‖. Apesar da proposta tentadora, Chris reluta: ―Eu nunca gostei muito da ideia de trabalhar no escritório‖. Chloe argumenta que o trabalho será como uma escada, ela enuncia a questão do arrivismo: ―Não é bem um trabalho no escritório. Pense nele como uma escada para um cargo melhor, maiores responsabilidades, um salário melhor, sei lá. Você sempre disse que admirava as conquistas do meu pai.‖ O protagonista aceita a oferta: ―Claro. É estranho, mas vindo de onde eu vim, sempre admirei homens como o seu pai: rico sem ser arrogante, desfrutando a sua fortuna, aproveitando a vida, patrocinando as artes.‖ Observa-se aqui movimento semelhante ao descrito por Roberto Schwarz: ―Ao legitimar o arbítrio por meio de alguma razão ‗racional‘, o favorecido conscientemente engrandece a si e ao seu benfeitor, que por sua vez não vê, nessa era de hegemonia das razões, motivo para desmenti- lo. Nestas condições, quem acreditava na justificação? A que aparência correspondia? Mas justamente, não era este o problema, pois todos reconheciam – e isto sim era importante – a intenção louvável, seja do agradecimento, seja do favor.‖105 A jovem herdeira, novamente,
expõe o favor, a oportunidade, aberta por seu pai, ao protagonista: ―Ele realmente quer abrir algumas portas para você, só isso. Ele o respeita pelo modo como você superou as dificuldades.‖. Chris promete a Chloe que dará a ―sua contribuição‖.
O casal é interrompido pela chegada de Nola e Tom, os dois casais dirigem-se à mesa e conversam. Sentados à mesa do restaurante, Tom conta sobre uma exposição de carros em que ele e Nola estiveram. Ele pergunta ao professor de tênis se Chris gosta ―de seus carros‖. O protagonista, que não é proprietário de nenhum veículo, compartilha com Nola a preferência por carros antigos. A aproximação entre os dois estrangeiros dá--se desde o início da cena no restaurante. Nola explica a Chris que o noivo gosta de carros novos, ―cheios de acessórios‖. E acrescenta que gostaria de ter um Aston Martin. O protagonista explica aos presentes, olhando para Nola, que ele já dirigiu um Aston Martin: ―Eu trabalhava para um senhor e tinha que lavar os carros dele. Ele era muito meticuloso sobre como eu deveria cuidar dos carros. Então, eu tinha que lavá-los diariamente com uma escova de dente‖. Chloe ri do trabalho feito pelo
excelente cozinha britânica moderna‖. Disponível em: <http://www.visitbritain.us/press/news/news- releases/2005/nr051209match-point.aspx>.Acesso em: 13 jan. 2010.
57 namorado. Nola justifica sua escolha pelo veículo, o que revela também seu fascínio pelo mundo dos ricos: ―Eu quero um Aston Martin, ou um daqueles Mercedes conversíveis clássicos‖. Enquanto observa o cardápio, Tom expõe à noiva a condição para que ela obtenha os veículos que deseja: ―Quando nos casarmos, colecionaremos carros clássicos. Conquanto que eu possa ter um DB9 com todos os acessórios, ok? Por falar nisso, Hedley é perfeita para guardar todos esses carros. E por falar em Hedley...‖ Chloe interrompe o irmão para que façam o pedido, ―o garçom está esperando‖.
Tom pede ―batata com trufas‖ e Nola copia o pedido do noivo, o que indica que a atriz já abdicou de seu direito de escolha. Por sua vez, o casal Chloe e Chris ―discute‖ o pedido. Enquanto Chloe quer ―caviar blinis‖, Chris prefere ―frango assado‖. A preferência do protagonista pela refeição comum pode tanto tratar-se de uma escolha autêntica de Chris quanto revelar que o protagonista decide-se pelo prato por conta do preço. A conversa trivial revela o que está em jogo: depois da resistência de Chris, que prefere continuar com o pedido que havia feito anteriormente, Chloe pergunta se o professor de tênis gosta de caviar, ao que Chris responde gostar ―mais ou menos‖. Chloe justifica ao garçom a escolha do namorado, considerada por ela vulgar: ―Ele foi educado para ser modesto, desculpe-me.‖ Tom faz o pedido por Chris: ―Ele comerá blinis‖. Após ouvir o pedido de Chris feito pelo jovem rico, o garçom retira-se da mesa.
Assim, na cena evidencia-se que, na presença de Chloe e Tom, Chris perde o poder de escolha. Após a saída do garçom, a herdeira Hewett volta a questionar a atitude do namorado: ―Meu Deus, o seu pai era um petroleiro especialista em etiqueta?‖. Chris responde à provocação: ―Sim. Ele era um pouco austero.‖ Chloe volta a complementar as palavras de Chris: ―O pai de Chris era um fanático religioso.‖ O protagonista confirma: ―Após perder as duas pernas, [meu pai] encontrou Jesus.‖ Os irmãos Hewett riem da informação sobre o pai do professor de tênis e Tom satiriza: ―Meu Deus. Sinto muito. Mas, não me parece uma troca justa.‖ Neste ponto, a câmera mais uma vez seleciona o foco da atenção do espectador. Se antes Chloe e Chris estavam em primeiro plano, agora Nola e o protagonista passam ao centro da narrativa. Apesar de ouvirmos a voz dos irmãos Hewett, o olhar da câmera focaliza a troca de olhares entre os forasteiros.
[Chris Wilton]: ―Você já participou de muitos filmes?‖ [Nola Rice]: ―Era um comercial, não um filme.‖
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[Tom Hewett]: ―Mas os seus olhos iam diretamente para ela, se é que me entende.‖
[Nola Rice]: ―Não acho que a minha carreira evoluiu como eu planejei.‖
[Tom Hewett]: ―Ah, você só precisa de um tempo.‖
[Chris Wilton]: ―Acredito que a sorte é importante em tudo.‖
A troca de casais na cena é nítida: o foco da atenção do espectador, o qual no começo da cena estava centrado na discussão entre Chloe e Chris, agora atesta a aproximação entre os arrivistas. Na cena expõe-se também o embate entre visões de mundo díspares (a dos Hewett e a dos estrangeiros):
[Chloe Hewett]: ―Eu não acredito na sorte, só no esforço.‖
[Chris Wilton]: ―Claro, esforço é essencial, mas eu acho que todo mundo teme admitir a importância da sorte. Parece que os cientistas estão confirmando que toda a existência está aqui por acaso, sem propósito, sem projeto.‖
[Chloe Hewett]: ―Bem, eu não ligo. Eu amo cada minuto dela.‖ [Chris Wilton]: ―E eu a invejo por isso.‖
[Tom Hewett]: ―O que o vigário costumava dizer? ‗Desespero é o caminho da menor resistência‘. Algo estranho, não?‖
[Chris Wilton]: ―Acredito que a fé é o caminho da menor resistência.‖ [Tom Hewett]: ―Nossa! Meu Deus!‖
[Chloe Hewett]: ―Podemos mudar de assunto, por favor? Nola falava de atuação, que é muito mais interessante.‖
[Nola Rice]: ―Não, eu só disse que estou pensando em deixar a carreira de atriz em segundo plano. Não aguento que as pessoas na minha cidade pensem que eu fracassei. Não que eu vá voltar para o Colorado. Nunca.‖
Enquanto os Hewett acreditam na ideologia burguesa do esforço, Chris defende a sorte e Nola relata sua trajetória de vida. A maneira como Allen compõe a cena do restaurante desarmoniza as visões de mundo apresentadas. Antes da entrada de Tom e Nola, Chloe acerta o futuro do protagonista. Dessa forma, o espectador sabe que um bom emprego é ofertado ao protagonista por relações de favor, e não pelo esforço. Conforme o próprio protagonista revela, ele não possui experiência como executivo, nem se interessa em trabalhar no escritório. Todavia, ele aceita o emprego, pois sabe que será importante para entrar para a família. Outra informação crucial, apresentada na mesma cena, revela a instabilidade de Nola na carreira de atriz. A noiva de Tom considera abandonar a profissão, o que Chloe contesta, deslumbrada com a possibilidade de atuação de sua futura cunhada na indústria do entretenimento: ―Nola falava de atuação, o que é muito mais interessante‖. Na conversa com a
59 mãe, Chloe defendera a noiva do irmão justamente por seu trabalho: ―Ela é atriz, eles são sensíveis‖. A cena do restaurante mostra também o exíguo poder de decisão dos jovens forasteiros em relação aos Hewett. A decisão de Nola pelo veículo clássico está condicionada ao casamento com o jovem herdeiro. Nola pede o mesmo prato que o noivo assim como Chris não pode escolher o seu pedido. A jovem atriz norte-americana é interrompida pelo garçom que solicita se os clientes já escolheram o vinho. Novamente, a decisão cabe a Tom que pede ―duas garrafas de Puligny-Montrachet.‖
Afastando-se dos irmãos Hewett, a câmera focaliza a troca de olhares e a crescente aproximação entre Nola e Chris. A identificação entre os dois não se dá apenas na chave da sedução: há uma correspondência de classe. A cena seguinte confirma a trajetória ascendente do professor de tênis que, diferentemente de Nola, muda de profissão com o auxílio dos Hewett, transformando-se em executivo. O novo trabalho do protagonista é essencial para que o espectador prossiga na identificação de quem é este personagem e como ele se apresenta na configuração social.