Até o momento, detemo-nos em apresentar a história física de A noite antes de compor o acervo do Museu. Neste subcapítulo, iremos nos dedicar a abordar a perceptibilidade da obra após compor o acervo da instituição. Após a obra de Oscar Pereira da Silva passar a compor o acervo do Museu Mariano Procópio, A noite teve sua imagem reproduzida em algumas obras de referência. No livro produzido pelo Banco Safra (2006), que aborda sobre o Museu Mariano Procópio, vemos uma reprodução da tela de Pereira da Silva na página de número 192, que compõe o título da seção “Pinturas Brasileiras”.
A imagem de A noite acompanha um pequeno texto que faz referência à biografia de Oscar, o qual contém a data de nascimento do artista, a concessão do prêmio de viagem, assim como os nomes de alguns de seus professores na antiga Academia Imperial de Belas Artes e na França, durante a estadia de Pereira da Silva na Europa. O texto aborda algumas das premiações e trabalhos que executou e também os painéis das Igrejas Santa Cecília e Nossa Senhora da Conceição. Nesse texto, não há nenhuma informação sobre A noite, apenas o título, a data, o suporte e a dimensão. Apesar de ocupar uma página inteira do livro, não há uma descrição sequer de seus traços formais.
Em 1995, o jornal Tribuna de Minas, de Juiz de Fora, lançou o livro intitulado Museu Mariano Procópio56, cujo objetivo era ressaltar a importância da instituição para a cidade, a fim de preservar a história do museu e divulgar seu acervo. A apresentação do acervo se deu através da divisão dos objetos por suporte57. Assim, na seção de pinturas, não são mencionadas todas as que o acervo possui, o que é um fato compreensivo, já que a instituição conta com uma quantidade numerosa de telas. Na página de número 60, vemos a reprodução da imagem de A noite dividindo a lauda com uma tela do artista Pedro Alexandrino (1856-1942) e com outra
56 O jornal Tribuna de Minas disponibilizou o livro para ser acessado online. Pode-se ter acesso a ele no
endereço eletrônico: <https://www.yumpu.com/xx/document/view/62114439/museu>. Acesso em 03/04/2019.
57 Ao folhear a obra, pode-se encontrar os objetos separados, respectivamente, em: móveis; esculturas; joias e numismática; porcelanas, louças e cristais; pinturas; armaria e indumentária; peças sacras e decorativas; história natural e documentos; acervo geral e, por fim, fotografias.
pintura, uma natureza morta. Na página seguinte, há a tela de Pedro Américo (1843-1905), Tiradentes.
As informações que acompanham a obra de Oscar no livro da Tribuna de Minas apenas mencionam o nome do artista, sua nacionalidade e sua data de nascimento e de morte. Junto às informações de Pereira da Silva, o livro apresenta as dimensões de A noite e seu suporte, apenas. Não é mencionado nenhum outro informe acerca da tela. A noite de Oscar Pereira da Silva também é reproduzida em um artigo cientifico58. Na ocasião, o texto aborda os direitos autorais acerca dos objetos que compõem o acervo dos museus. O artigo trata especificamente sobre o uso da pintura de Pedro Américo, A noite acompanhada dos gênios do estudo e do amor, por uma empresa mineira de laticínios. Os autores abordam a temática da obra de Pedro Américo, e fazem referência à deusa grega Nyx, abordando a simbologia e os traços formais que a deusa apresenta. Nesse trecho, os autores fazem uma comparação da obra de Pedro Américo com a de Oscar, A noite, juntamente com a La nuit59, do artista francês, William-Adolphe Bouguereau. A tela de Oscar aparece na página 115 do artigo, em que são realizadas aproximações entre as duas pinturas, por exprimirem traços formais semelhantes e por serem uma personificação da deusa grega na concepção dos autores.
Nos subcapítulos anteriores, ao abordarmos a exposição organizada pela Muse Italiche, levantamos a hipótese de que seria a única em que A noite tenha figurado enquanto o artista estava vivo. Por outro lado, a participação da tela em outras exposições após seu falecimento fora mínima. Ao adentrar o Museu Mariano Procópio, por volta do ano de 1937, a tela de Pereira da Silva participou apenas de uma exposição, organizada pela Pinacoteca do Estado de São Paulo. A exposição, intitulada Coleções em diálogo: Museu Mariano Procópio e Pinacoteca do Estado de São Paulo, foi uma iniciativa da Pinacoteca, que tinha o objetivo de apresentar obras do século XIX e dos primórdios da modernidade, ocupando as galerias do segundo andar da instituição.
Essa mostra, fruto do projeto de exposição de longa duração Arte no Brasil: uma história na Pinacoteca de São Paulo, promoveu parcerias entre essa instituição e outros museus. A parceria com o Museu Mariano Procópio rendeu uma exposição que permaneceu
58BOTELHO, André Amud; QUEIROZ, Eneida Quadros; SANTOS, Robson dos; et all. Os direitos
autorais e os Museus: o caso brasileiro. IN: Cadernos de Sociomuseologia, 41, 2011, p. 85-132. Disponível no endereço eletrônico:
<http://revistas.ulusofona.pt/index.php/cadernosociomuseologia/article/view/2726>. Acesso em 28/03/2019.
59 A obra pode ser visualizada na página online do banco de imagens Warburg, disponível através do endereço eletrônico: <http://warburg.chaa-unicamp.com.br/obras/view/1850>. Acesso em: 28/03/2019.
aberta de 08 de novembro do ano de 2014 a 22 de março de 2015. Na ocasião, A noite de Pereira da Silva figurou na temática de representação do feminino e rendeu um artigo dedicado somente a ela, o qual foi citado neste texto, de autoria do pesquisador Carlos Lima Júnior. O artigo ocupou as páginas 241 a 251. Pode-se ver uma reprodução de A noite na página 207, ao lado de Folhas de outono, do artista Horácio Hora.
Além de a obra de Pereira da Silva ter figurado em uma exposição em um local distinto – outro estado –, ela foi apreciada por um público. Atualmente, devido ao fato de o Museu Mariano Procópio não estar em condições físicas de expor pinturas devido à realização de reformas necessárias no prédio, a tela permanece na reserva técnica. Assim, com essas informações, podemos perceber que a tela de Pereira da Silva teve uma visibilidade relativamente pequena, mas importante para sua percepção e apreciação. A tela circulou apenas uma vez, após adentrar o Museu Mariano Procópio e, por estar na reserva técnica atualmente, não pode ser apreciada pelo público juiz-forano e demais regiões. Sua visibilidade, para a pesquisa, também foi mínima. Somente encontramos um artigo que a aborda em destaque, o outro apenas a reporta e as poucas reproduções que se comprometeram a apresentá-la não exprimiram dados de fôlego.
Evidencia-se, assim, a importância deste trabalho. Uma obra tão importante de um artista laureado do Brasil não poderia deixar de ser analisada em um estudo profundo. Além disso, essa obra, pelo menos em se tratando dos outros objetos que compõem o acervo do Museu Mariano Procópio, é a única tela que a instituição e a cidade de Juiz de Fora, possivelmente, possam ter desse artista tão importante.
3 A NOITE E ALGUNS APONTAMENTOS SOBRE A PINTURA ALEGÓRICA: O