• Nenhum resultado encontrado

5.2 Corpos inteligíveis: a produção de saberes sobre os sujeitos homossexuais

5.2.7 Visibilizar e normalizar: tecendo algumas considerações

A rede de enunciações produzida nos artigos analisados compõe um dos

enunciados acerca da homossexualidade, na tentativa de pautar o discurso biológico

sobre esses sujeitos. Nesse processo de produção/documentação/publicação de saberes

sobre as identidades sexuais, observamos uma “correlação desses elementos, à

acumulação dos documentos, sua seriação, à organização de campos comparativos que

permitam classificar, formar categorias, estabelecer médias, fixar normas”.

(FOUCAULT, 2009, p. 182)

Esses estudos visam conhecer, comparar e apropriar-se do corpo do/a

homossexual com o intuito de trazê-lo/a para a norma. Os saberes produzidos sobre a

homossexualidade não a caracterizam mais como estranha à sociedade, mas a institui

como desvio, oposta ao normal (heterossexualidade) e por isso passa a ser entendida

como anormal. Para Foucault,

[...] o elemento que vai circular entre o disciplinar e o regulamentador, que vai se aplicar, da mesma forma, ao corpo e à população, que permite a um só tempo controlar a ordem disciplinar do corpo e os acontecimentos aleatórios de uma multiplicidade biológica, esse elemento que circula entre um e outro, é a “norma”. (1999, p. 302)

A norma, nesse sistema comparativo, possibilita abordar os desvios, determinar

o que é normal (heterossexualidade) e o que é anormal (homossexualidade). Os estudos

analisados, ao pautar a construção de saberes no exame do corpo em sua minúcia, ao

compará-lo a outros corpos e ao buscar “descobrir” nele uma origem biológica da

homossexualidade, acabam por instituir e determinar o sujeito homossexual como

aquele que desvia, que foge ao desenvolvimento considerado normal na população.

Nesses mecanismos científico-disciplinares, o normal toma o lugar do ancestral

– observado nas explicações de cunho evolutivo da homossexualidade – e os sujeitos

passam a ter seus corpos como inteligíveis, calculáveis e mensuráveis. Individualizando

características anatômicas e fisiológicas internas e externas dos sujeitos, tornando os

corpos objetos de poder-saber, criam-se medidas comparativas dentro de uma

população, tendo sempre como referência a norma. (FOUCAULT, 2009)

As tecnologias engajadas na observação do corpo colocam as identidades

sexuais atreladas a uma origem/destinação biológica, como parte dos organismos,

sistemas, órgãos e moléculas. Ao medir, comparar, classificar e visibilizar os corpos

dos/as homossexuais, os artigos analisados produzem uma rede de enunciações que,

assim como a norma, individualizam e possibilitam comparações entre os sujeitos –

classificando-os, nomeando-os e explicando-os, tomando como referência o corpo

heterossexual – e os remetem ao conjunto, à população em geral. Essa normativa

denomina de anormal aquele “cuja diferença em relação à maioria se convencionou ser

excessivo, insuportável” (VEIGA-NETO, 2007, p. 75). Essa diferença passa a ser

considerada um desvio, o qual foge da curva da normalidade em uma população e, por

isso, deve ter sua origem investigada, descoberta, revelada, para que possam ser

justificadas essas outras formas de viver e perceber os corpos e seus prazeres.

5.2.8 Referências

BENTO, Berenice. A Reinvenção do corpo: sexualidade e gênero na experiência

transexual. Rio de Janeiro: Garamond, 2006.

BLANCHARD, Ray; et al. Interaction of fraternal birth order and handedness in the

development of male homosexuality. Hormones and Behavior, v. 49, p. 405-414, mar.

2006. Disponível em:

<http://www.sciencedirect.com/science?_ob=MImg&_cid=272297&_user=10&_pii=S0

018506X05002138&_origin=search&_coverDate=03%2F31%2F2006&view=c&wchp

=dGLzVlS-zSkzV&_valck=1&md5=3e91511a5e3e4a366dabc982b065e9df&ie=/sdarticle.pdf>.

Acesso em: 18 dez. 2010.

BOGAERT, Anthony F. Extreme Right-Handedness, Older Brothers, and Sexual

Orientation in Men. Neuropsychology, v. 21, p. 141-148, jan. 2007. Disponível em:

<http://www.sciencedirect.com/science?_ob=PublicationURL&_hubEid=1-s2.0-S0894410507X60017&_cid=272759&_pubType=JL&view=c&_auth=y&_acct=C0000

36998&_version=1&_urlVersion=0&_userid=685743&md5=4abc2da0324e63fc4f3ca7

ec307e2e5e>. Acesso em: 18 dez. 2010.

_____. Birth Order and Sexual Orientation in Women. Behavioral Neuroscience, v.

111, p. 1395-1397, dez. 1997. Disponível em:

<http://www.sciencedirect.com/science?_ob=PublicationURL&_hubEid=1-s2.0-S0735704400X00328&_cid=272764&_pubType=JL&view=c&_auth=y&_acct=C0000

36998&_version=1&_urlVersion=0&_userid=685743&md5=f57f1dd996d384ef42d7c5

beff0a9381>. Acesso em: 18 dez. 2010a.

______. The Interaction of Fraternal Birth Order and Body Size in Male Sexual

Orientation. Behavioral Neuroscience, v. 117, p. 381-384, abr. 2003. Disponível em:

<http://www.sciencedirect.com/science?_ob=PublicationURL&_hubEid=1-s2.0-S0735704400X00924&_cid=272764&_pubType=JL&view=c&_auth=y&_acct=C0000

36998&_version=1&_urlVersion=0&_userid=685743&md5=2794e73fd1cfb08aabd18c

12d0ea1eaf>. Acesso em: 18 dez. 2010b.

BOGAERT, Anthony F.; BLANCHARD, Ray; CROSTHWAIT, Lesley E. Interaction

of Birth Order, Handedness, and Sexual Orientation in the Kinsey Interview Data.

Behavioral Neuroscience, v. 121, p. 845-853, out. 2007. Disponível em:

<http://www.sciencedirect.com/science?_ob=PublicationURL&_hubEid=1-s2.0-S0735704407X60312&_cid=272764&_pubType=JL&view=c&_auth=y&_acct=C0000

36998&_version=1&_urlVersion=0&_userid=685743&md5=fd92bbcf85ee74712eb965

cf5e8830c1>. Acesso em: 18 dez. 2010.

BOGAERT, Anthony F.; FRIESEN, Chris. Sexual orientation and height, weight, and

age of puberty: new tests from a British national probability sample. Biological

Psychology, v. 59, p. 135-145, mar. 2002. Disponível em:

<http://www.sciencedirect.com/science?_ob=MImg&_cid=271293&_user=10&_pii=S0

301051101001314&_origin=search&_coverDate=03%2F31%2F2002&view=c&wchp=

dGLzVlt-zSkWz&md5=4354d1d4530dcca322b60997e306cf3d/1-s2.0-S0301051101001314-main.pdf>. Acesso em: 18 dez. 2010.

CANGUILHEM, Georges. O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense

Universitária, 2010.

ELLIS, Lee; HELLBERG, Jill. Fetal exposure to prescription drugs and adult sexual

orientation. Personality and Individual Differences, v. 38, p. 225-236, jan. 2005.

Disponível em:

<http://www.sciencedirect.com/science?_ob=MImg&_cid=271782&_user=10&_pii=S0

191886904001047&_origin=search&_coverDate=01%2F31%2F2005&view=c&wchp=

dGLbVlV-zSkWb&md5=d62495f7103f3bba2e89d6ac0a6e39a6/1-s2.0-S0191886904001047-main.pdf>. Acesso em: 20 dez. 2010.

EWALD, François. Foucault: A norma e o direito. Lisboa: Vega, 1993.

FISCHER, Rosa Maria Bueno. Foucault e a análise do discurso em educação. Caderno

Pesquisa, n. 114, p. 197-223, nov. 2001.

FONSECA, M. A. da. Michel Foucault e a constituição do sujeito.São Paulo: EDUC,

2003.

FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975 –

1976). São Paulo: Martins Fontes, 1999.

______. A ordem do discurso.Aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2

de dezembro de 1970. São Paulo: Loyola, 2006.

______.História da sexualidade I:a vontade de saber. 18. ed. Rio de Janeiro: Graal,

2007.

______. Vigiar e Punir:nascimento da prisão. 36. ed. Petrópolis: Vozes, 2009.

______. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009a.

______. Resposta a uma questão. In: ______. Ditos e Escritos VI: Repensar a política.

Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. p. 01-24.

_____. Sexo, poder e a política da identidade. Disponível em:

www.filoesco.unb.br/foucault. Acesso em: 31 jan. 2011.

GREEN, James Naylor. Além do carnaval. A homossexualidade masculina no Brasil do

século XX. São Paulo: Editora UNESP, 2000.

GRIMBOS, Teresa et al. Sexual Orientation and the Second to Fourth Finger Length

Ratio: A Meta-Analysis in Men and Women. Behavioral Neuroscience, v. 124, p.

278-287, abr. 2010. Disponível em:

<http://www.sciencedirect.com/science?_ob=PublicationURL&_hubEid=1-s2.0-S0735704410X60025&_cid=272764&_pubType=JL&view=c&_auth=y&_acct=C0000

36998&_version=1&_urlVersion=0&_userid=685743&md5=cf50ea1ef0420db583c4c2

4d33c7145f>. Acesso em: 21 dez. 2010.

RAHMAN, Qazi. The neurodevelopment of human sexual orientation. Neuroscience &

Biobehavioral Reviews, v. 29, p. 1057-1066, 2005. Disponível em:

<http://www.sciencedirect.com/science?_ob=MImg&_cid=271127&_user=10&_pii=S0

149763405000321&_origin=search&_coverDate=12%2F31%2F2005&view=c&wchp=

______. Fluctuating asymmetry, second to fourth finger length ratios and human sexual

orientation. Psychoneuroendocrinology, v. 30, p. 382-391, maio, 2005. Disponível em:

<http://www.sciencedirect.com/science?_ob=MImg&_cid=271135&_user=10&_pii=S0

306453004001763&_origin=search&_coverDate=05%2F01%2F2005&view=c&wchp=

dGLzVBA-zSkWb&md5=7cca08b859c4eb11189f5acdae705777/1-s2.0-S0306453004001763-main.pdf>. Acesso em: 20 dez. 2010a.

RAHMAN, Qazi; WILSON, Glenn D. Born gay? The psychobiology of human sexual

orientation. Personality and Individual Differences, v. 34, p. 1337-1382, jun. 2003.

Disponível em:

<http://www.sciencedirect.com/science?_ob=MImg&_cid=271782&_user=10&_pii=S0

19188690200140X&_origin=search&_coverDate=06%2F30%2F2003&view=c&wchp

=dGLzVlt-zSkWA&md5=f0dfc222ace546551c1454761e07e19e/1-s2.0-S019188690200140X-main.pdf>. Acesso em: 20 dez. 2010.

______. Sexual orientation and the 2nd to 4th finger length ratio: evidence for

organising effects of sex hormones or developmental instability?

Psychoneuroendocrinology, v. 28, p. 288-303, abr. 2003. Disponível em:

<http://www.sciencedirect.com/science?_ob=MImg&_cid=271135&_user=10&_pii=S0

306453002000227&_origin=search&_coverDate=04%2F30%2F2003&view=c&wchp=

dGLzVlk-zSkzk&md5=62fef29296caa373844168b92a70a848/1-s2.0-S0306453002000227-main.pdf>. Acesso em: 20 dez. 2010a.

ROBINSON, S. J.; MANNING, John. T. The ratio of 2nd to 4th digit length and male

homosexuality. Evolution and Human Behavior, v. 21, p. 333-345, set. 2000.

Disponível em:

<http://www.sciencedirect.com/science?_ob=MiamiImageURL&_cid=271894&_user=

685743&_pii=S1090513800000520&_check=y&_origin=&_coverDate=30-Sep-

2000&view=c&wchp=dGLzVlB-

zSkzk&md5=5135e89fc0ac651beeb548aa6870e766/1-s2.0-S1090513800000520-main.pdf>. Acesso em: 19 dez. 2010.

RULE, Nicholas; AMBADY, O. Nalini. Brief exposures: Male sexual orientation is

accurately perceived at 50 ms. Journal of Experimental Social Psychology, v. 44, p.

1100-1105, jul. 2008. Disponível em:

<http://www.sciencedirect.com/science?_ob=MiamiImageURL&_cid=272387&_user=

685743&_pii=S0022103107001783&_check=y&_origin=&_coverDate=31-Jul-

2008&view=c&wchp=dGLzVlB-

zSkzk&md5=07e381c8bd04d503637289695b9c7027/1-s2.0-S0022103107001783-main.pdf>. Acesso em: 19 dez. 2010.

SOUSA FILHO, A. de. Teorias sobre a gênese da homossexualidade: ideologia,

preconceito e fraude. In: JUNQUEIRA, Rogério. D. Diversidade Sexual na Educação:

problematizações sobre a homofobia nas escolas. Brasília: Ministério da Educação,

Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, UNESCO, 2009. p.

95-124.

SWAAB, Dick F. Sexual differentiation of the brain and behavior. Best Practice &

Disponível em:

<http://www.sciencedirect.com/science?_ob=MiamiImageURL&_cid=272303&_user=

685743&_pii=S1521690X07000334&_check=y&_origin=search&_zone=rslt_list_item

&_coverDate=2007-09-30&wchp=dGLzVlt-

zSkWA&md5=0355650a9d4b3fa8a6a8bf7039f969ac/1-s2.0-S1521690X07000334-main.pdf>. Acesso em: 21 dez. 2010.

VEIGA-NETO, Alfredo. Foucault e a educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2007.

WEEKS, Jeffrey. O corpo e a sexualidade. In: LOURO, Guacira L. O corpo educado:

5.3 Pedagogias da sexualidade nas páginas de revistas: homossexualidade